Introdução aos Salmos

Como seus vizinhos do Egito, da Mesopotâmia e de Canaã, Israel cultivou, desde as origens, a poesia lírica sob todas as formas. Algumas peças estão inseridas nos livros históricos, desde o Cântico de Moisés (Ex 15), o Cântico do Poço (Nm 21,17-18), o hino de vitória de Débora (Jz 5), a elegia de Davi sobre Saul e Jônatas (2Sm 1) etc., até os elogios de Judas e de Simão Macabeu (1Mc 3,3-9 e 14,4-15) e, mais tarde, os cânticos do Novo Testamento: o Magnificat, o Benedictus e o Nunc dimittis. Numerosas passagens dos livros proféticos pertencem aos mesmos gêneros literários. Existiam antigas coleções, das quais só restaram o nome e alguns vestígios: o livro das Guerras de Iahweh (Nm 21,14) e o livro do Justo (Js 10,13; 2Sm 1,18). Mas o tesouro da lírica religiosa de Israel nos foi conservado pelo Saltério.

Os nomes

O Saltério (do grego Psaltérion, propriamente nome do instrumento de cordas que acompanhava os cânticos, os salmos) é a coleção dos cento e cinquenta salmos. Do Sl 10 ao Sl 148, a numeração da Bíblia hebraica (a que aqui seguimos) está uma unidade na frente da numeração da Bíblia grega e da Vulgata, que reúnem os Sl 9 e 10 e os Sl 114 e 115, mas dividem em dois os Sl 116 e o Sl 147.

Em hebraico, o Saltério chama-se Tehillim, “Hinos”, mas o nome só se aplica adequadamente a certo número de salmos. De fato, nos títulos que encabeçam a maioria dos salmos, o nome de hino é dado apenas ao Sl 145. O título mais frequente é mizmor, que supõe um acompanhamento musical e que se traduz muito bem com nossa palavra “salmo”. Alguns destes “salmos” são chamados também “cânticos”, e o mesmo termo, usado sozinho, introduz cada peça da coleção “Cânticos das subidas ” (Sl 120-134). Outras designações são mais raras e às vezes difíceis de interpretar.

Gêneros literários

Uma classificação melhor se obtém pelo estudo das formas literárias e, deste ponto de vista estilístico, distinguem-se três grandes gêneros: os hinos, as súplicas e as ações de graças. Esta divisão não é exaustiva, porque existem formas secundárias, aberrantes ou mistas e ela nem sempre corresponde a uma classificação dos salmos que se faria segundo seus temas ou suas intenções.

1. Os hinos. São os Sl 8; 19; 29; 33; 46-48; 76; 84; 87; 93; 96-100; 103-106; 113; 114; 117; 122; 135; 136; 145-150. Sua composição é bastante uniforme. Todos começam por uma exortação a louvar a Deus. O corpo do hino descreve os motivos deste louvor, os prodígios realizados por Deus na natureza, especialmente sua obra criadora, e na história, particularmente a salvação concedida a seu povo. A conclusão repete a fórmula de introdução ou exprime uma prece.

Neste conjunto podemos distinguir, conforme seu tema, dois grupos de salmos. Os Cânticos de Sião (Sl 46; 48; 76; 87) exaltam, com uma nota marcante de escatologia, a cidade santa, morada do Altíssimo e meta das peregrinações (cf. Sl 84 e 122). Os Salmos do Reino de Deus, especialmente Sl 47; 93; 96-98 celebram, num estilo que relembra os profetas, o reino universal de Iahweh. Posto que utilizam o vocabulário e as imagens da subida dos reis humanos ao trono, pretendeu-se relacioná-los com uma festa de entronização de Iahweh, que, como se supõe, era celebrada todo ano em Israel, como se fazia em Babilônia em honra de Marduc. Mas a existência de tal festa em Israel é uma hipótese pouco segura.

2. As súplicas, salmos de sofrimento, ou lamentações. Não cantam as glórias de Deus, mas dirigem-se a ele, e nisto diferem dos hinos. Geralmente as súplicas começam com uma invocação, acompanhada de pedido de socorro, de prece ou de expressão de confiança. No corpo do salmo procura-se comover a Deus descrevendo-lhe a triste situação dos suplicantes, com metáforas que são clichês e raramente permitem determinar as circunstâncias históricas ou concretas da oração: fala-se das águas do abismo, dos laços da morte ou do Xeol, de inimigos ou de feras (cães, leões, touros) que ameaçam ou dilaceram, de ossos que secam ou quebram, do coração que palpita e se apavora. Há protestos de inocência (Sl 7; 17; 26) e confissões de pecados como o Miserere (Sl 51) e outros salmos de penitência. Recorda-se a Deus seus benefícios antigos ou se lhe faz a censura de parecer esquecido ou ausente (Sl 9-10; 22; 44). Mas afirma-se também a confiança que se mantém nele (Sl 3; 5; 42-43; 55-57; 63; 130 etc.), e às vezes o salmo de petição não é senão longo apelo confiante (Sl 4; 11; 16; 23; 62; 91; 121; 125; 131). Muitas vezes a súplica termina, e de modo às vezes repentino, pela certeza de que a prece é atendida e por ação de graças, como os Sl 6; 22; 69; 140.

Estas súplicas podem ser coletivas ou individuais.

a) Súplicas coletivas são, p. ex., Sl 12; 44; 60; 74; 79; 80; 83; 85; 106; 123; 129; 137. Sua ocasião é desastre nacional, derrota ou destruição, ou necessidade comum; pede-se então a salvação e a restauração do povo. Os Sl 74 e 137, pelo menos, como também a coleção das Lamentações atribuídas a Jeremias, refletem as consequências da ruína de Jerusalém em 587; o Sl 85 exprime os sentimentos dos repatriados. O Sl 106 é confissão geral dos pecados da nação.

b) Súplicas individuais são, p. ex., Sl 3; 5-7; 13; 17; 22; 25; 26; 28; 31; 35; 38; 42-43; 51; 54-57; 59; 63; 64; 69-71; 77; 86; 102; 120; 130; 140-143. Estas preces são particularmente numerosas e seu conteúdo é muito variado: além dos perigos de morte, das perseguições, do exílio e da velhice, os males de que pedem a libertação são especialmente a doença, a calúnia e o pecado. Os inimigos, “os que fazem o mal”, dos quais se queixam ou contra os quais se irritam, são pouco definidos. Em todo caso, não são, como alguns pensaram, feiticeiros cujos malefícios estes salmos combateriam. Estes poemas não são, como se afirmava outrora, a expressão no singular do “eu” coletivo. Tampouco podem, como recentemente se opinou, ser todos postos na boca do rei que falaria em nome do seu povo. Estas orações são, por um lado, demasiado individuais e, por outro, por demais desprovidas de alusões à pessoa e à condição régia, para que estas teorias sejam verossímeis. É verdade, sem dúvida, que várias foram adaptadas e utilizadas como lamentações nacionais, p. ex., Sl 22; 28; 59; 69; 71; 102; é verdade também que há salmos régios, dos quais falaremos adiante; é verdade enfim que todas estas preces entraram finalmente no uso comum (o que significa sua inserção no Saltério), mas é fato que elas foram compostas para tal pessoa, ou por tal pessoa, numa necessidade particular. Elas são gritos da alma e expressões de fé pessoal. Pois jamais são puras lamentações; são apelos confiantes a Deus na tribulação.

3. As ações de graças. Já vimos que as súplicas podiam terminar com um agradecimento a Deus que escuta a oração. Este agradecimento pode tornar-se o essencial do poema nos salmos de ação de graças, que são bem pouco numerosos, p. ex., Sl 18; 21; 30; 33; 34; 40; 65-68; 92; 116; 118; 124; 129; 138; 144. Raramente são coletivos: neste caso o povo dá graças pela libertação de um perigo, pela abundância das colheitas, pelos benefícios concedidos ao rei. Com maior frequência são individuais: pessoas particulares, depois de recordar os males sofridos e a oração atendida, exprimem seu reconhecimento e exortam os fiéis a louvar a Deus com elas. Esta última parte serve frequentemente para introduzir temas didáticos. A estrutura literária dos salmos de ação de graças é semelhante à dos hinos.

4. Gêneros aberrantes e mistos. A fronteira entre os gêneros até aqui descritos é imprecisa e acontece amiúde que eles se misturem. Há por exemplo, lamentações que seguem a uma prece confiante (Sl 27; 31) ou que são seguidas de um cântico de ação de graças (Sl 28; 57). O Sl 89 começa como um hino, prossegue com um oráculo e termina com uma lamentação. O longo Sl 119 é um hino à Lei, mas é também lamentação individual e expõe doutrina de Sabedoria. Na verdade, muitos elementos, em si mesmos estranhos à lírica, introduziram-se no Saltério. Acabamos de aludir aos temas de Sabedoria e já disséramos que eles se encontram em certos salmos de ação de graças. Podem às vezes ocupar extensão tal que se fala, bastante impropriamente, em Salmos didáticos. De fato, os Sl 1; 112 e 127 são puras composições sapienciais. Mas alguns outros conservam certas características dos gêneros líricos: o Sl 25 assemelha-se às lamentações, os Sl 32; 37; 73 às ações de graças etc.

Outros salmos há que incorporaram oráculos, ou não são senão oráculos ampliados, p. ex., Sl 2; 50; 75; 81; 82; 85; 95; 110. Eles foram explicados recentemente como verdadeiros oráculos emitidos por sacerdotes ou profetas durante as cerimônias do Templo. Outra opinião insiste em não ver neles mais que uma expressão do estilo profético, sem conexão real com o culto. A questão é debatida, mas é preciso reconhecer, de um lado, que as relações entre o Saltério e a literatura profética não se limitam aos oráculos, mas se estendem a numerosos temas, como as teofanias, as imagens da taça, do fogo, do crisol etc., e, de outro lado, que há vínculos inegáveis que ligam o Saltério ao culto do Templo; voltaremos a falar desse assunto.

Salmos régios

Há certo número de cânticos “régios” espalhados no Saltério e que pertencem a diversos gêneros literários. Há oráculos em favor do rei (Sl 2 e 110), orações pelo rei (Sl 20; 61; 72), uma ação de graças pelo rei (Sl 21), orações do rei (Sl 18; 28; 63; 101), um canto real de procissão (Sl 132), um hino régio (Sl 144) e até mesmo um epitalâmio para casamento principesco (Sl 45). Seriam poemas antigos, datando da época monárquica e refletindo a linguagem e o cerimonial da corte. Teriam em vista um rei da época, e os Sl 2; 72; 110 podem ter sido salmos de entronização. O rei é chamado filho adotivo de Deus, seu reino será sem fim, seu poder se estenderá até os confins da terra; fará triunfar a paz e a justiça, será o salvador do povo. Tais expressões podem parecer extravagantes, mas não vão além do que os povos vizinhos diziam de seu soberano e do que Israel esperava do seu.

Mas em Israel o rei recebe a unção, que faz dele o vassalo de Iahweh e seu representante na terra. Ele é o Ungido de Iahweh, em hebraico o “Messias”, e esta relação religiosa estabelecida com Deus especifica a concepção israelita e a diferencia das do Egito ou da Mesopotâmia, não obstante o uso de fraseologia comum. O “messianismo régio”, que começa com a profecia de Natã (2Sm 7), exprime-se nos comentários que dão sobre ela os Sl 89 e 132 e especialmente nos Sl 2; 72 e 110. Eles mantinham o povo na esperança das promessas feitas à dinastia de Davi. Se se define o messianismo como a espera de um rei futuro, de um último rei que haveria de trazer a salvação definitiva e que instauraria o reino de Deus sobre a terra, nenhum desses salmos seria propriamente “messiânico”. Mas alguns destes antigos cânticos régios, continuando a ser utilizados depois da queda da monarquia e sendo incorporados no Saltério, talvez com retoques e adições, alimentaram a ideia de um Messias individual, descendente de Davi. Esta esperança estava viva entre os judeus às vésperas do começo da nossa era e os cristãos viram sua realização em Cristo (título que significa Ungido em grego, como Messias em hebraico]. O Sl 110 será o texto do Saltério mais frequentemente citado no Novo Testamento. O canto nupcial do Sl 45 passou a exprimir a união do Messias com o novo Israel, na linha das alegorias matrimoniais dos profetas, e é aplicado a Cristo por Hb 1,8. Na mesma perspectiva, o Novo Testamento e a tradição cristã aplicam a Cristo outros salmos que não eram salmos régios, mas exprimiram de antemão a condição e os sentimentos do Messias, o Justo por excelência, p. ex., os Sl 16 e 22, e certas passagens de numerosos salmos, em particular dos Sl 8; 35; 40; 41; 68; 69; 97; 102; 118; 119. Da mesma forma, os salmos do reino de Iahweh foram relacionados com o reino de Cristo. Também se estas aplicações ultrapassam o sentido literal, continuam legítimas porque todas as esperanças que animam o Saltério só se realizam plenamente com a vinda do Filho de Deus ao mundo.

Os Salmos e o culto

O Saltério é a coleção dos cânticos religiosos de Israel. Ora, sabemos que entre o pessoal do Templo figuravam cantores e, embora estes não sejam mencionados explicitamente senão depois do Exílio, é certo que existiram desde o começo. As festas de lahweh eram celebradas com danças e coros (Jz 21,19-21; 2Sm 6,5.16). Conforme Am 5,23, os sacrifícios eram acompanhados de cânticos e, já que o palácio real tinha seus cantores no tempo de Davi, segundo 2Sm 19;36, e no tempo de Ezequias, conforme os Anais de Senaquerib, o Templo de Salomão deve ter tido os seus, como todos os grandes santuários orientais. Com efeito, há salmos atribuídos a Asaf, aos filhos de Coré, a Emã e a Etã (ou Iditun), todos eles cantores do Templo pré-exílico, de acordo com as Crônicas. A tradição, que atribui a Davi muitos salmos, faz também remontar a ele a organização do culto, inclusive os cantores (1Cr 25), e concorda com os textos antigos que o mostram dançando e cantando diante de Iahweh (2Sm 6,5.16).

Muitos dos salmos trazem indicações musicais ou litúrgicas. Alguns se referem, em seu texto, a algum rito que se efetua conjuntamente (Sl 20; 26; 27; 66; 81; 107; 116; 134; 135). É evidente que estes e outros salmos (Sl 48; 65; 95; 96; 118) eram recitados no recinto do Templo. Os “Cânticos das subidas” (Sl 120-134), como também o Sl 84, eram cânticos de peregrinação ao santuário. Estes exemplos, escolhidos entre os mais claros, bastam para mostrar que numerosos salmos, inclusive certos salmos individuais, foram compostos para o serviço do Templo. Outros, se não tinham inicialmente este destino, foram pelo menos adaptados ao mesmo, por exemplo, pela adição de bênçãos (Sl 125; 128; 129).

A relação dos Salmos com o culto e o caráter litúrgico do Saltério tomado em seu conjunto são, portanto .fatos inegáveis. Mas geralmente nos faltam informações para identificar a cerimônia ou a festa no decurso das quais determinado salmo era utilizado. O título hebraico do Sl 92 destina-o para o dia de sábado; os títulos gregos dos Sl 24; 48; 93 e 94 os repartem por outros dias da semana. O Sl 30 era utilizado na festa da Dedicação, conforme o hebraico, e o Sl 29 se cantava na festa das Tendas, segundo o grego. Talvez estas indicações não sejam primitivas, mas elas testemunham, como as rubricas detalhadas que foram feitas na época judaica, que o Saltério foi o livro de canto do Templo e da Sinagoga, antes de se tornar o da Igreja cristã.

Autores e datas

Os títulos atribuem 73 salmos a Davi, doze a Asaf, onze aos filhos de Coré, e salmos Isolados a Emã, Etã (ou Iditun), Moisés e Salomão. Os títulos da versão grega nem sempre coincidem com o hebraico e atribuem 82 salmos a Davi. A versão siríaca é ainda mais diferente.

Esses títulos não pretendiam talvez, originalmente, designar os autores destes salmos. A fórmula hebraica empregada estabelece apenas certa relação do salmo com a personagem mencionada, seja por causa da concordância do tema, seja porque este salmo pertencia a uma coleção atribuída a ele. Os salmos “dos filhos de Coré” pertenciam ao repertório desta família de cantores, como os numerosos salmos “do mestre de canto” (Sl 4; 5; 6; 8 etc.) eram peças que o coro do Templo executava. Havia também uma coleção de Asaf e uma davídica. Mas bem depressa passou-se a ver indicações de autor nestas etiquetas de procedência, e certos salmos “de Davi” receberam subtítulo especificando a circunstância da vida do rei em que o poema foi composto (Sl 3; 7; 18; 34; 51; 52; 54 etc.). Finalmente a tradição viu em Davi o autor não só de todos os salmos que trazem seu nome, mas do Saltério inteiro.

Estas interpretações exageradas não nos devem levar a negligenciar o testemunho importante e antigo que os títulos dos salmos oferecem. É razoável admitir que as coleções de Asaf e dos filhos de Coré foram compostas por cantores do Templo. De modo semelhante a coleção davídica deve vincular-se de algum modo ao grande rei. Tendo em vista o que os livros históricos atestam sobre seu talento musical (1Sm 16,16-18; cf. Am 6,5) e de poeta (2Sm 1,19-27; 3,33-34), sobre seu gosto pelo culto (2Sm 6,5.15-16), temos de reconhecer que deve haver no Saltério peças que têm Davi por autor. De fato, o Sl 18 reproduz, numa recensão distinta, um poema atribuído a Davi por 2Sm 22. Sem dúvida, nem todos os salmos da coleção davídica são obra dele, mas esta coleção não se pôde formar senão a partir de um núcleo autêntico. Infelizmente é difícil precisar mais. Já vimos que os títulos dados pelo hebraico não são argumento decisivo, e os escritos do Novo Testamento, quando citam este ou aquele salmo sob o nome de Davi, se conformam à opinião de seu tempo. Contudo, estes testemunhos não devem ser rejeitados inteiramente e sempre se deverá reservar a Davi, “cantor dos cânticos de Israel” (2Sm 23,1), papel essencial nas origens da lírica religiosa do povo eleito.

O impulso dado por ele persistiu e o Saltério resume vários séculos de atividade poética. Depois de ter situado a quase totalidade dos salmos na época do retorno do Exílio e às vezes numa época bem posterior, a crítica volta, atualmente, a posições mais prudentes. Número bastante grande de salmos procederia da época monárquica, em particular os salmos “régios”, mas seu conteúdo é por demais vago para poder fazer mais que hipótese sobre sua data precisa. Por outro lado, os salmos do Reino de Iahweh, carregados de reminiscências de outros salmos e da segunda parte de Isaías, foram compostos durante o Exílio; o mesmo se diga, evidentemente, dos salmos que, como o Sl 137, falam da ruína de Jerusalém e da deportação. O Retorno é cantado no Sl 126. O período seguinte parece ter sido fecundo em composições sálmicas: é o momento em que o culto se expandiu no Templo restaurado, em que os cantores são promovidos em dignidade e são assimilados aos levitas, em que também os sábios adotam o gênero sálmico para difundir seus ensinamentos, como o fará Ben Sirac. Será preciso chegar até depois da época persa e reconhecer salmos macabeus? A questão surge sobretudo com respeito aos Sl 44; 74; 79; 83; mas os argumentos propostos não são suficientes para tornar verossímil data tão tardia.

Formação do Saltério

O Saltério que possuímos é o termo desta longa atividade. Existiram a princípio coleções parciais. O Sl 72 (cujo título o atribui, aliás, a Salomão) conclui-se com a nota: “Fim das orações de Davi”, embora haja salmos não davídicos antes dele e outros salmos davídicos depois. Com efeito, há primeiramente dois grupos davídicos (Sl 3-41 e 51-72) atribuídos individualmente a Davi, exceto o último (Salomão) e três salmos anônimos. Outras coleções análogas devem ter existido a princípio isoladas: o saltério de Asaf (Sl 50 e 73-83 (Sl 42-49 e 84; 85; 87; 88), o das Subidas (Sl 120-134), do Hallel (Sl 105-107; 111-118; 135; 136; 146-150). A coexistência de várias coleções é comprovada pelos salmos que se repetem com poucas variantes, p. ex., Sl 14 e 53; 40,14-18 e 70; 57,8-12 junto com 60,7-14 e 108.

O trabalho dos colecionadores transparece também no uso dos nomes divinos: “Iahweh” é usado de modo quase exclusivo nos Sl 1-41 (primeiro grupo davídico); “Elohim” o substitui nos Sl 42-89 (que abrange o segundo grupo davídico, parte dos salmos dos filhos de Coré e o saltério de Asaf); e todo o resto (Sl 90-150) é “javista”, com exceção do Sl 108, que combina os dois salmos “eloístas” 57 e 60. Este segundo conjunto “javista”, no qual muitos salmos são anônimos e são frequentes as repetições e citações, deve ser o mais recente do Saltério, o que não concerne à data de cada salmo em particular.

Finalmente, o saltério foi dividido, sem dúvida à imitação do Pentateuco, em cinco livros que foram separados por curtas doxologias: 41,14; 72,18-20; 89,52; 106,48. O Sl 150 serve de longa doxologia final, ao passo que o Sl 1 é como que um prefácio para dar início ao conjunto.

Esta forma canônica do Saltério não se impôs definitivamente senão bem tarde e teve concorrentes. O Saltério grego conta 151 salmos e a antiga versão siríaca, 155. As descobertas do mar Morto restituíram o original hebraico do Sl 151 grego — que de fato é a combinação de dois salmos — e os dois últimos salmos siríacos; deram também a conhecer três novas composições poéticas, inseridas em manuscritos do Saltério, onde, além disso, os Salmos nem sempre se seguem na ordem canônica. Por conseguinte, o Saltério permaneceu uma coleção aberta até o começo de nossa era, pelo menos em certos ambientes.

Valor espiritual

Não é preciso alongar-nos, tão evidente é a riqueza religiosa dos salmos. Eles foram as preces do Antigo Testamento, quando o próprio Deus inspirou os sentimentos que seus filhos devem ter a seu respeito e as palavras de que devem servir-se ao se dirigirem a ele. Foram recitados por Jesus e por Maria, pelos Apóstolos e pelos primeiros mártires. A igreja cristã fez deles, sem alteração, sua prece oficial. Sem alteração: aqueles gritos de louvor, de súplica ou de ação de graças, arrancados aos salmistas nas circunstâncias de sua época e de sua experiência pessoal, têm caráter universal, pois exprimem a atitude que todo homem deve ter diante de Deus. Sem alteração nas palavras, mas com enriquecimento considerável do sentido: na Nova Aliança, o fiel louva e agradece a Deus que lhe revelou o segredo de sua vida íntima, que o resgatou pelo sangue de seu Filho, que lhe infundiu seu Espírito e, na recitação litúrgica, cada salmo termina com a doxologia trinitária do Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. As súplicas antigas se tornam mais ardentes depois que a Última Ceia, a Cruz e a Ressurreição ensinaram ao homem o amor infinito de Deus, a universalidade e a gravidade do pecado, a glória prometida aos justos. As esperanças cantadas pelos salmistas se realizam: o Messias veio, ele reina e todas as nações são chamadas a louvá-lo.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

As duas semanas entre o sumiço e o reencontro da Bardot

Bardot

Terça-feira, 16 de dezembro de 2014, 23h00. Caía um dilúvio em Brasília. Eu estava de plantão no trabalho, e mal sabia as agonias que as duas semanas seguintes me trariam.

Ligo para casa, avisando para darem comida para as duas cachorras (Bardot, 12 anos e Sunny, 5). Meu filho abre a porta de casa e percebe que o portão da garagem tinha sido aberto por algum fenômeno natural: curto, raio, não sabemos. Há quanto tempo? Também não sabemos. Depois de fechado, foi a hora de separar as duas cachorras, que costumam comer separadas. Mas onde está a Bardot? A família se mobilizou para procurá-la, mas nada. Bardot fugiu.

Recebo o telefone no trabalho, sem poder sair para fazer nada. O que aconteceu daí pra frente nós só ficamos sabendo mais tarde. As horas seguintes foram de buscas pelas ruas mais próximas de casa. Nada. E eu ainda no trabalho, sem saber o que fazer. Sou liberado 1h30, já sabendo que as buscas não tiveram sucesso. Vou pra casa devagar, procurando. Estaciono e resolvo dar uma volta a pé, verificando cada cantinho entre as casas. De terno. Na chuva. Mas nada de Bardot. Outra volta de carro, mas nada. A chuva continua, não dá pra ver quase nada. O jeito é dormir e voltar à busca no dia seguinte.

Na manhã seguinte não vou ao trabalho. Saio pelas ruas mais próximas, perguntado para jardineiros, piscineiros, qualquer um na rua pra ver se alguém a viu. Uma notícia: ela foi vista num conjunto próximo. Verifico tudo ao redor, mas nada. Era alarme falso, como saberíamos mais tarde.

Ao fim da manhã, depois de rodar todas as ruas mais próximas, coloco em prática o plano B: o Facebook. Ao longo das duas semanas seguintes, esse post seria compartilhado mais de 1125 pessoas. Sou muito grato a cada uma delas, apesar de não ter sido essa o caminho que nos levaria a encontrá-la.

À tarde, já no trabalho, recebo uma notícia: uma pessoa (Manuela) postou fotos dela no Facebook. A foto era dela, não havia dúvida. Consegui seu telefone, e ligo para ela aliviado. Mas o alívio durou pouco, pois ela me conta que tentou levá-la a um hospital veterinário relativamente próximo, onde foram tiradas as fotos. O problema é que o hospital não a aceitou, por não estar com o dono e por ela não estar machucada. No caminho de volta para o carro ela fugiu, pois estava sem coleira. Ainda chovia, e ela – assustada – correu e sumiu na escuridão. A Manuela não pôde fazer nada.

Ao receber a notícia, já no trabalho, pedi permissão para procurá-la no matagal próximo ao ocorrido. Eu e meu filho nos enfiamos no matagal, mas sem sucesso. Coloco uma atualização no Facebook, que foi compartilhada por 686 pessoas. Minha gratidão a esses também.

No dia seguinte entra o plano C: distribuir panfletos pelas ruas mais próximas do último lugar onde ela foi vista, o hospital que não a aceitou. Novamente, conversamos com jardineiros, piscineiros, transeuntes, etc., mas nada.

Os próximos dois dias são assim: recebemos algumas informações desencontradas nesse tempo: ela foi vista perto daqui, ela foi vista perto dali. Fazemos buscas em horários diferentes, para tentar encontrá-la andando. Encontrá-la dormindo é tarefa quase impossível, pois ela já não ouve tão bem por causa da idade. Muitas pessoas comentam no Facebook, mandam mensagens, ligam. Mas nada de concreto.

Na sexta decidimos pôr em prática o plano D: colocar faixas em locais estratégicos, com nossos telefones. Infelizmente não conseguimos ninguém para confeccioná-los. Em todos os lugares para que ligávamos, o prazo mínimo era segunda-feira. Entra em prática, então, o plano E (uma variação do plano C, na verdade): distribuir mais panfletos, nas portarias de condomínios, em comércios mais movimentados, etc. Assim é o sábado. O domingo é pra andar de carro por todo lado, procurando. Nada.

Na segunda-feira colocamos as faixas. A partir daí começam a aparecer ligações: 3 pastores encontrados aqui, outro visto ali. Corremos aos locais para verificar, mas nada de encontrar a Bardot.

Uma viagem já está marcada para a terça-feira à noite. O coração aperta, sabendo que qualquer notícia não poderia ser verificada imediatamente por estarmos longe. Já não vemos a Bardot há uma semana.

Na quarta-feira recebo muitas ligações, mas todos de cachorros que já tínhamos visto antes de sair, ou que sabíamos não ser a Bardot.

Na manhã da quinta-feira, já cansado de dar respostas negativas, uma pessoa (Cláudia) liga dizendo que encontrou o panfleto em uma pet-shop que frequentava e que estava com a Bardot. Ela não quer dar o endereço para que o jardineiro vá buscar; ela não quer tirar uma fotografia pra termos certeza de que é a Bardot; ela deixa um telefone que quase sempre cai na caixa posta. Ficamos agoniados, sem saber se ela está sendo bem tratada (o que, agora sabemos, foi o que aconteceu) ou mesmo se a informação é verdadeira.

Nessa agonia, resolvo recorrer a uma colega de trabalho, que tenta conseguir mais informações, e nos ajudou muito nessa história toda. Uma pausa para um agradecimento necessário: muito obrigado por tudo, Kátia! Nos tranquilizou muito saber que tinha alguém por perto tentando resolver. Somos muitíssimos gratos pela sua ajuda. Ela tenta de todas as maneiras, mas não consegue muita coisa: a Cláudia só quer entregar a Bardot para o dono.

Temos que esperar até o domingo, quando voltamos a Brasília e combinamos de encontrar com a Cláudia. Por motivos desconhecidos a nós, o encontro só acontece na segunda-feira, dia 29, quase duas semanas depois. Mas é ela mesma. Muito bem cuidada. Aqui uma pausa para o maior agradecimento: muito obrigado por cuidar da nossa Bardot por todo esse tempo, Cláudia.

Só então ficamos sabendo: ela foi encontrada pela Cláudia logo depois de fugir da Manuela. Era muito difícil falar com ela por causa das viagens que ela faz. E, provavelmente, o fato de ela não ter deixado ninguém pegar, nem mandar fotos, foi para ter certeza de estar entregando a Bardot para a pessoa certa. Confesso que essa dúvida de quase cinco dias foi muito agoniante, mas entendo perfeitamente os motivos dela. A Bardot foi muito bem cuidada durante esse tempo, e nos alivia muito saber que todo esse tempo ela não ficou perambulando pelas ruas, mas sendo cuidada com muito carinho.

Bom… Agora que ela já está aqui em casa, dá pra esfriar a cabeça e fazer um balanço final: se isso acontecer contigo, não demore, como eu. Mande fazer logo as faixas e distribua panfletos o máximo que puder. Se eu tivesse feito isso antes, talvez a Cláudia tivesse visto o anúncio antes, e “devolvido” a Bardot antes da nossa viagem.

O fato é que eu confiei demais na Internet, talvez por trabalhar na área de informática. É claro que é uma ferramenta poderosa, mas como a grande maioria das pessoas não a utilizam, o poder de penetração não é tão grande. O que resolveu pra nós foi uma combinação de faixas + panfletos. Ou seja: utilize todos os meios, pois não dá pra saber de antemão que tipo de pessoa encontrou seu querido cãozinho…

A foto que ilustra o post é dela já em casa, depois de toda essa confusão. Fica aqui nosso muito obrigado a todos que tentaram ajudar da forma como puderam!

P.S.: sempre reviso os textos antes de publicar, mas dessa vez vou deixar o “primeiro take”. Perdoem os eventuais erros. Até o título ficou ruim, mas tá tarde, vai ficar assim mesmo… =)

Eu gosto de gente…

Tá rolando pela internet:

Eu gosto de gente que se diverte sem culpa.

Gente que vai a luta.

Que senta numa budega ou local chique.

Que bebe cana ou whisky.

Que não se importa com o que você tem, mas com o que você é.

Que te escuta sobre rock, forró, axé.

Eu gosto de gente que reza.

Gente que preza.

Gente que pensa além do dinheiro.

Gente que é da paz o ano inteiro.

Gente que elogia a mulher de havaianas ou de salto.

Gente que te coloca lá no alto.

Gente que não te faz sofrer.

Eu gosto de gente que sabe viver.

Apresento-lhes a versão cristã do mesmo poema:

Eu gosto de gente.

E pra não ficar sem rima (ruim, mas rima):

Porque cristão que se preze tem que amar a todos sem distinção. (Jo 15,12)

Tem que enxergar Deus em cada um, goste dele ou não.  (Mt 5,46)

Novamente “o mínimo”

Como alguns amigos já sabem, estou lendo “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” aos poucos. Não porque não tenha tempo, mas para poder refletir sobre cada texto antes de passar para o próximo. Para quem não conhece o livro: trata-se de uma compilação de textos de Olavo de Carvalho, brilhantemente classificados e organizados por assunto por Felipe Moura Brasil.

O texto que li hoje foi “A ilusão corporalista”, originalmente publicado no Jornal do Brasil , 4 de dezembro de 2008. Como o livro é uma compilação, todos os textos estão disponíveis online, e este não é exceção. Ele está aqui.

No livro, o texto foi classificado no tema “Revolução”, subtema “Mentalidade”. Está certo, não discordo disso, pelo contrário: ele parece estar no lugar correto. Só acho que ele também se encaixaria muito bem no tema “Religião”, pelo menos até o penúltimo parágrafo.

É que a origem da óbvia descristianização do mundo está bem descrita no texto:

A partir do momento em que o universo cultural passou a girar em torno da tecnologia e das ciências naturais, com a exclusão concomitante de outras perspectivas possíveis, era inevitável que o imaginário das multidões fosse se limitando, cada vez mais, aos elementos que pudessem ser expressos em termos da ação tecnológica e dos conhecimentos científicos disponíveis. Gradativamente, tudo o que escape desses dois parâmetros vai perdendo força simbolizante e acaba sendo reduzido à condição de “produto cultural” ou “crença”, sem mais nenhum poder de preensão sobre a realidade.

O fato é que esse trecho deixou bem claro para mim o motivo de eu ver tantas pessoas exigindo “provas científicas” da existência de Deus, quando na verdade, nem ao menos percebem que estão clamando por um absurdo. O homem moderno clama por “provas” da existência de Deus, mas nem ao menos consegue descrever um experimento científico que comprovasse ou descartasse a existência de Deus. E não consegue por um motivo óbvio: porque é impossível.

Hoje a ciência é idolatrada por todos, e com muitos méritos, diga-se. Por outro lado, a filosofia parece ser descartada automaticamente, como se fosse algo desconectado da realidade. Nada mais falso. O problema é que não se percebe que o método científico, em si, é apenas um modelo filosófico — muito bem montado — que ajuda imensamente na investigação do mundo natural, ou seja: sem a filosofia, a ciência não é nada!

Agora chego aonde queria: é triste ver pessoas dizendo coisas do tipo “a razão não te leva para Deus, pelo contrário, ela te mostra que não existe Deus algum“. Isso foi postado como comentário aqui nesse blog (e jogado no lixo, pois não tinha relação nenhuma com o texto onde foi colocado). Uma pessoa que diz algo desse naipe demonstra que não conhece nada nem de religião nem de ciência nem de razão. E o pior: ele nem percebe que não sabe!

O cara simplesmente ouviu alguém dizer essa frase, “sentiu” que parecia algo inteligente, não analisou a fundo o que significava, e começou a repetir por aí, como se essa repetição o fizesse sentir mais inteligente, ou seja: provavelmente essa frase não passa de mera auto-ajuda.

Nesse ponto, o “mínimo” é um tesouro. Depois de ler alguns artigos do livro, posso afirmar sem medo de errar: fui idiota em muitos momentos de minha vida, e continuo sendo idiota em vários outros. Se por um lado é doloroso constatar isso, por outro é gratificante ao menos saber que eu estou fazendo papel de idiota em vários momentos da minha vida. Perceber a condição de idiota não é, em si, nenhuma vantagem. Tentar sair dessa condição, sim. Mas esse é um outro passo, muito mais difícil…

Blood Money

Blood Money – Aborto legalizado chega aos cinemas do Brasil

Documentário apresentado por sobrinha de Martin Luther King Jr revela os bastidores da indústria do aborto nos Estados Unidos

Você provavelmente não verá esse filme num comercial de TV. Muito menos num anúncio de jornal. É que ele fala sobre um assunto não muito “politicamente correto” para os dias de hoje. Ele fala sobre o aborto. Blood Money, uma produção norte-americana, dirigida por David Kyle e apresentada pela ativista do movimento de negros dos EUA, Alveda King – sobrinha de Martin Luther King Jr. -, denuncia a máquina de lucros em que se transformou a indústria abortista nos Estados Unidos, desde que a infame lei Roe vs. Wade foi aprovada. O documentário chega às salas de cinema de todo o Brasil no próximo dia 15 de novembro.

Blood Money – Aborto legalizado” é mais uma vitória contra a cultura da morte. O mercado negro do aborto vem perdendo fôlego mundo afora, e agora muito mais, graças ao empenho do movimento pró-vida. Como registrado aqui, os Estados Unidos assistiram, no início deste ano, à maior Marcha pela vida da história daquele país. 650 mil pessoas, na sua maioria jovens, reuniram-se na frente da Corte Suprema americana, a apenas poucos dias da posse de Obama – paladino dos abortistas -, para dizer um rotundo “não” à ideologia do aborto. Na ocasião, o então papa reinante, Bento XVI, expressou seus sentimentos pelo Twitter, dizendo: “Uno-me à distância a todos os que se manifestam pela vida, e rezo para que os políticos protejam ao não-nascido e promovam a cultura da vida”.

E por que perde a causa abortista? Porque mente! A cultura da morte é mentirosa desde o princípio. Mente quando nega ao nascituro o direito inalienável à vida, rebaixando-o ao nível de um sub-humano ou célula cancerígena. Mente quando manipula os números de casos de aborto, criando a impressão de que se trata de um “caso de saúde pública”. E mente quando ensina à mulher que ela será livre mantando seu bebê. É óbvio que uma farsa dessa proporção, mais cedo ou mais tarde, tem de cair. O mote da campanha pró-aborto não é só um atentado contra a vida inocente, é um atentado contra toda a humanidade. Uma sociedade que começa matando seus filhos termina matando a si mesma.

Por mais que se façam malabarismos para distorcer o sentido desta palavra, o fato é que o aborto se trata, sim!, de um assassinato. Isso é inegável. Com efeito, o silêncio da mídia, ou então, a sua propaganda descarada a favor dessa ideologia traduzem claramente a cegueira e a desonestidade que imperam nas redações jornalísticas. Historicamente, as grandes ditaduras do último século contaram com o expresso apoio dos jornais, ora sacralizando seus líderes, ora fechando os olhos para seus crimes. O caso agora em debate, ou seja, o aborto, ajuda a ilustrar que o perigo das ideologias ainda não é um assunto superado.

O povo deve ir aos cinemas. Contra a mentira da indústria abortista, contra o silêncio da mídia, contra o avanço da cultura da morte: fazer de Blood Money um sucesso não é só um dever, é um ato heroico. Sim, pois, num momento em que se instala no ordenamento jurídico brasileiro um vírus de “Cavalo de Tróia” – a lei 12.845, que abre uma verdadeira auto-estrada para o aborto no Brasil -, é tarefa de todos lembrar àquelas pessoas de Brasília que elas não são deuses e que, portanto, estão lá para servir, não para ditar regras contrárias à dignidade do ser humano.

É uma questão de consciência, muito mais que de religião. Assistam a Blood Money!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere | Informações: Deus lo vult e Blog da Vida


Esse texto não é meu; é uma republicação de um artigo do site padrepauloricardo.org.

Esses são os locais de exibição:

O poder da internet

A tradução que eu fiz no último post fez o meu blog “bombar”. Até ontem era um blog desinteressante, despretensioso, feito para mim mesmo, com umas postagens meio soltas, sem organização alguma, e cujo número de acessos em um dia nunca tinha passado de 30. De repente aparecem 4.714 visitantes em um dia, e mais de 20 mil visitantes no outro (até agora). Foi o efeito inesperado de uma ação despretensiosa.

Isso tudo aconteceu porque decidi traduzir um texto que achei interessante. Só isso. Como tenho amigos que não conseguem ler em inglês, e como achei a história muito interessante, resolvi fazê-la acessível a eles. Um texto que era para ser compartilhado apenas com os amigos mais próximos acabou sendo compartilhado com milhares de desconhecidos, do mundo todo (esse texto foi lido em mais de 50 países, de todos os continentes).

E com os acessos vêm os comentários. Alguns elogiando, outros discordando, inclusive uns dos outros, muito engraçado. Imaginem se o assunto fosse polêmico! E como o intuito nunca foi defender uma tese ou algo que o valha, mas apenas compartilhar um texto, decidi aprovar todos os comentários e não me meter nas discussões. Essa polêmica não me interessa.

Mas o que mais me impressionou nisso tudo foi sentir tão de perto o poder da internet. Tá, eu sei que isso é uma realidade, que qualquer “Rei do Camarote” consegue milhões de acessos em poucas horas, que os protagonistas do “Para noooooossa alegria!” acabaram parando na TV, etc., mas uma tradução despretensiosa? Feita por alguém que nem é tradutor, e que, inclusive, teve que corrigir um erro de tradução graças à dica de um amigo (that’s what friends are for, Bruno! Valeu!)? Eu fiquei, e ainda estou impressionado de ver isso acontecendo. Se eu consegui um alcance tão amplo sem ter a menor intenção de fazê-lo, imagine o poder que está nas mãos de quem faz isso propositalmente…

Nessas horas a gente percebe e o motivo de os poderosos estarem tão incomodados com a Internet, a ponto de quererem “regulamentá-la” (controlá-la, na verdade) a todo custo…

Médicos cubanos

Muito se tem falado esses dias a favor e contra a chegada dos médicos cubanos. Eu sou contra a forma com que isso está sendo feito, por alguns motivos bastante óbvios, entre eles:

  • Os cubanos não terão liberdade: serão escravos de Cuba e da profissão. Não terão o direito de qualquer pessoa livre, de mudar de carreira para receber mais em outra mais promissora, ou de trazer sua família para morar aqui. Escravos, portanto.
  • O pagamento direto a Cuba deixa claro que essa “importação” de médicos é só uma fachada, uma maneira de fazer com que Cuba não imploda por falta de dinheiro, fim inevitável de qualquer país comunismo, como já demonstrado por Ludwig von Mises.
  • A isenção de fazer o Revalida é claramente outra fachada: os números históricos mostram a reprovação de médicos cubanos é de mais de 90%. Alguns falam que demoraria demais, mas se a situação está assim há tanto tempo e ninguém fez nada até agora, por que essa sangria desatada só agora?
  • A alta taxa de reprovação no Revalida faz crer que os médicos cubanos não estão à altura dos médicos brasileiros, e portanto são justamente os mais pobres que sofrerão na mão de médicos que demonstram não ter capacidade para exercer a profissão.

Mas os motivos são tão óbvios que nem é por isso que escrevo. O que está me chamando a atenção é que para defender a “importação” de médicos estão aparecendo as mais escabrosas contradições:

  • Justificativas estapafúrdias, como a de que Veja em 1999 apoiou a vinda de médicos cubanos, no governo FHC. Mas afinal, a opinião de Veja vale alguma coisa ou não? É pra concordar ou discordar? Da Veja de hoje ou da de 1999? Afinal, o que FHC fez foi bom ou ruim? Se foi bom, por que não bateram palmas na época? Se foi ruim, por que defender a mesma bandeira hoje?
  • Esse é realmente o Partido dos Trabalhadores? Dizem que dão valor às leis trabalhistas e ao povo cubano, mas quando um cubano vem para cá não tem direito às leis trabalhistas? Diante essa situação, só vejo duas opções: ou eles acham que as leis trabalhistas não prestam, ou que o povo cubano é uma classe inferior.
  • Afinal, eles condenam ou não a “mais-valia” (argh!)? Afinal, não ficam indignados com o lucro de 90% que o empresário Fidel está recebendo! 90%! Me mostrem um único capitalista que consiga receber mais de 20% de lucro em seus serviços sem ser chamado de explorador!
  • São defensores da igualdade ou não? Se são, deveriam em primeiro lugar se preocupar com o valor pago aos médicos. Rumores dizem que o valor será em torno de R$ 1000. Por que não pagar o mesmo que qualquer médico brasileiro recebe? O fato é que teremos dois médicos trabalhando lado a lado, um recebendo muito mais que o outro. Repito a pergunta: por acaso o povo cubano é uma classe inferior para ter que se sujeitar a isso?
  • E o melhor: gente que nunca precisou ser atendida pelo SUS reclamando que quem nunca precisou ser atendido pelo SUS não sabe de nada. (então cala a boca, oras!)
  • Alguns dizem que é um avanço para os médicos, pois é melhor ganhar R$ 1000 aqui que US$ 30 em Cuba. Certamente. Mas então você está concordando que a vida em Cuba é miserável? Então por que defender Cuba com unhas e dentes?
  • Esse pessoal realmente se preocupa com os pobres? Claro que não! Afinal, sem o Revalida, quem garante que o cara é competente? Mais ainda: quem garante que ele é realmente médico? Ah, mas quem vai sofrer com isso são os pobres, mesmo, então pra eles não faz diferença. Pra eles é fácil, pois quando tiverem algum problema de saúde é só dar um pulinho ali no Sírio-Libanês que tá beleza. Haja hipocrisia…
  • Como o CFM é contra, eles chamam de “elitistas”. Mas como? O CFM é uma entidade de classe, e estas, assim como os sindicatos, não são estimuladas e adoradas por eles? Não dizem que é preciso criar estruturas para defender as classes? Então por que criticar quando fazem eles se defendem?
  • Se o problema é realmente resolver o problema da saúde, então vamos fazer o seguinte: paga-se R$ 5000 direto para cada médico cubano, e o projeto sai pela metade do preço! Mas aí eles não querem. Só querem se forem escravos que recebem indiretamente… Ou seja: fica claro que não estão minimamente preocupados com o problema da saúde, apenas com o companheiro Fidel.
  • Quem pensa nos cubanos, que perderão 4 mil médicos? Alguém já se perguntou se eles não farão falta lá em Cuba?
  • Por último: alguns estão dizendo que ser contra a vinda de médicos cubanos é “xenofobia”. Não senhores! Não sou contra a vinda de médicos cubanos. Sou contra regras diferentes para médicos cubanos. Se querem vir, que venham, mas fazendo o Revalida e recebendo dinheiro diretamente, como todos os outros. Como escravos não! Sou contra o senhor de engenho Fidel, não contra os cubanos. Xenofóbico é o governo brasileiro, que pagará menos a eles que aos demais médicos; que não dará aos cubanos os mesmos direitos que dá aos demais médicos.

E essas são só as que eu tô me lembrando agora. E vai sempre ser assim, pois a única maneira de defender o indefensável é com inconsistências lógicas. Isso tudo é profundamente imoral, só não vê quem não quer.

Então faça o seguinte: tenha vergonha na cara e assuma logo que quer que o governo brasileiro mande dinheiro para Cuba! É mais digno.