Cristo entra no “Catai” com “Li Mateu”

Publico um pequeno trecho do livro “A Igreja da Renascença e da Reforma (II)” do historiador francês Daniel-Rops.

Achei muito interessante ver um tema tão atual – a inculturação – sendo aplicado com maestria num contexto no mínimo inusitado: a China do século XVI.

Padre Mateus Ricci


Cristo entra no “Catai” com “Li Mateu”

No ano de 1583, desembarcaram em Macau, designados pelos seus superiores para a missão da China, dois jesuítas italianos de boa presença, o padre Miguel Ruggieri, siciliano, que já tinha estado duas vezes nessas paragens, e o padre Mateus Ricci. Macau era então o único ponto de apoio oficial que os cristãos possuíam no Império do Meio, ou antes, às suas portas; por isso lhe chamavam “a cidade do Santo Nome de Deus”. E embora muitas vezes se falasse na China dessa feitoria como de um “cancro no flanco do Augusto Império”, a avidez dos mandarins de Cantão conservara os portugueses nessa pequena península facilmente isolável, já que os honestos funcionários chineses não desprezavam o proveito que lhes advinha do comércio que se fazia com a Europa nesse porto franco.

Havia mais de trinta anos que São Francisco Xavier morrera na pequena ilha de Sanchão e era saudado por todos os missionários com uma fervorosa oração quando o seu navio passava por ali perto. A China não estava muito mais aberta ao Evangelho do que nos dias em que o santo pioneiro a contemplara — tão próxima e contudo tão inacessível — com os seus últimos olhares. Mas alguns missionários corajosos tinham posto ali a ponta do pé. Em 1555, de caminho para o Japão, o padre visitador Nunes Barreto pudera fazer duas pequenas escalas de um mês; no ano seguinte, um dominicano, o padre Gaspar da Cruz, também pudera passear livremente pela região de Cantão, sem que fosse incomodado. Quando o padre Valignano foi nomeado visitador geral para a Índia, em 1573, decidiu estabelecer solidamente Macau como centro das operações missionárias na China e enviar para lá o melhor aluno que tivera em Roma, quando era reitor do Colégio da Companhia: Mateus Ricci.

Penetrar no coração da China era considerado então como a pior das aventuras; o mesmo se pensava, aliás, de todo o centro da Ásia, numa época em que mal se suspeitava da existência do Himalaia! Havia até, a propósito da China, um mistério geográfico muito discutido: localizar-se-ia lá o famoso “Catai” de que falara Marco Polo no Livro das Maravilhas? O “país dos seres” seria realmente a terra da seda que o viajante veneziano tinha visitado? E seria possível atingi-lo pelo continente? São Francisco Xavier assim o julgara, tendo chegado a escrever a Santo Inácio, pouco tempo antes de partir para a sua última viagem, que pensava voltar para a Europa diretamente da China, passando pelo Santo Sepulcro… É evidente que a ignorância dos costumes, da literatura e da religião dos chineses era tão generalizada como a da geografia do seu país. Havia uma grande variedade de livros sobre esses assuntos, muitos deles já então traduzidos para o árabe, mas eram poucos os ocidentais dispostos a estudá-los.

O mérito deveras singular de Mateus Ricci (1552-1610) consistiu, desde que foi designado para a missão chinesa, em preparar cientificamente a sua obra apostólica, com todos os recursos de uma inteligência sem igual. Filho de boa família, nascido em Macerata, na Marca de Ancona, fizera-se jesuíta aos dezenove anos e revelara-se um espírito de tipo enciclopédico, um “humanista da Renascença”, igualmente brilhante não só em línguas antigas, em filosofia e teologia, como em matemática, cosmografia e astronomia, o que, como vamos ver, lhe serviria de muito. Tendo partido para a Índia em 1578, como professor no colégio jesuíta de Goa e depois no de Cochim, quando soube que o seu antigo mestre Valignano se tornara seu superior e pensava nele para a missão da China, num ano aprendeu a falar razoavelmente o chinês e até a escrever um pouco. Com a sua bela e grave aparência, o seu ar mais que reservado e a longa barba que deixou crescer, já poderia passar por um extremo-oriental; e, para cúmulo de sorte, a sua tez de italiano do Sul já não era de per si nem cor-de-rosa nem de açucena…

Antes, pois, de desembarcar na China, Mateus Ricci já a conhecia. Estudara os seus filósofos, os seus clássicos, as suas religiões. Sabia que os chineses consideravam o seu país como “a cabeça, ou melhor, o próprio corpo do mundo”, e que não estaria fora de propósito lisonjear esse orgulho. Não ignorava que a casta dos letrados exercia ali uma influência notável e concluiu que era preciso dirigir-se primeiro a eles, para, se possível, ganhar-lhes a confiança. Nunca estratégia missionária alguma fora tão profundamente pensada como a deste sutil jesuíta.

Instalados primeiro em Tchao-Kiu, os dois missionários Miguel Ruggieri e Mateus Ricci continuaram, antes de mais, a estudar prudentemente o meio e a preparar a sua ação futura, sem procurar empreender um apostolado prematuro. O padre Ricci tinha muito jeito para pintar: em breve os seus quadros lhe conquistaram a estima dos entendidos e dos letrados; e, enquanto o padre Ruggieri voltava à Europa para explicar à Santa Sé e à Companhia a situação na China, continuou os seus trabalhos de aproximação, sucessivamente, em Tchao-Kiu, Nanquim e Pequim.

Dali em diante, estava familiarizado com a China e os chineses, especialmente os letrados. Estudando as religiões que se praticavam no Império, chegou a conhecer profundamente o taoísmo, doutrina metafísica fortemente amalgamada com magia e misticismo politeísta, o budismo, agnóstico na sua origem mas popularizado na China como veneração de Buda, e o confucionismo, mais voltado para a filosofia moral e social do que para a transcendência, e deu-se conta de que toda a elite intelectual era confuciana. Tomando, pois, posição contra os taoístas e os budistas, aproveitou mais de uma ocasião para demonstrar aos confucianos que a sua doutrina se parecia muito com o cristianismo, sublinhando habilmente os pontos de coincidência. A técnica não era nova: não a tinham usado os Padres da Igreja em relação aos filósofos gregos, e São Tomás de Aquino em relação a Aristóteles? Onde faltavam os pontos de contacto, o hábil jesuíta criou-os! Por exemplo, como não existia em chinês a palavra “Deus”, admitiu que as expressões “Senhor do Céu” e “Soberano Senhor” exprimiam maravilhosamente a idéia. Quanto aos ritos chineses de prostração e incensação, era do mais elementar bom-senso integrá-los no cristianismo; assim os convertidos não teriam nenhuma necessidade de romper com os seus costumes imemoriais ao receberem o batismo. E os letrados chineses passaram a relacionar-se de bom grado com esse homem eloqüente, culto, que lhes ensinava tantas coisas maravilhosas sem interferir nos seus costumes. Deram-lhe — honra insigne — um nome de letrado na sua casta: Li Mateu, tradução fonética do seu nome cristão.

Mas o que mais maravilhou os curiosos das coisas do espírito foram os instrumentos que os jesuítas tinham levado consigo, e que eram desconhecidos na China: relógios de tique-taque misterioso, o prisma que, ao decompor a luz solar, dava uma gama de cores prodigiosa, o astrolábio, a bússola… Quanto ao exemplar do Theatrum mundi, o mapa do flamengo Ortelius que Ricci possuía, encheu de espanto todos os que o viram. A tal ponto que o próprio imperador, San-Li, quis conhecer esses estrangeiros tão sábios e os convocou à Cidade Proibida. O padre Ricci e os seus auxiliares apresentaram-se envergando trajes de seda de mandarim — tinham-nos adotado havia anos — , com o seu nome de chineses letrados e a mais chinesa das cortesias. Foi necessária mais de meia dúzia de visitas, de quatro a cinco horas cada uma, para satisfazer a imperial curiosidade e a da sua corte. Extasiado, o Filho do Céu quis que lhe explicassem o uso dos instrumentos e, quando viu o mapa, pediu ao padre Ricci que lhe fizesse uma cópia. De uma habilidade extrema, o jesuíta foi mais longe e não se contentou com executar servilmente a ordem: antigo aluno do padre Clávius, sabia bastante geografia para desenhar pessoalmente um novo planisfério, onde o império da China, como convinha, ocupasse o centro, o que o fazia parecer maior. O ato de entrega do mapa teve tal importância que os anais da dinastia Ming o registraram oficialmente. Entusiasmado, o imperador ordenou que se fizessem cópias da obra-prima destinadas a todas as partes dos seus vastos domínios, e autorizou o seu novo Ptolomeu — que não tinha em vista senão esse desfecho — a pregar livremente por toda parte.

Admirável resultado de um método missionário que, devemos confessar, não estava ao alcance de todos! Subsidiariamente, no decurso dos seus trabalhos, o padre Ricci concluíra de modo formal pela identidade entre o “Catai”, o “país dos seres” e a China. Fê-lo com tanta segurança que os superiores da Companhia na Índia, querendo tirar absolutamente a limpo o assunto, encarregaram um dos seus irmãos coadjutores, o irmão Bento de Góis — um português dos Açores de passado um pouco tempestuoso — de tentar a aventura: em cerca de quatro anos e meio, disfarçado de comerciante armênio, o irmão leigo conseguiu ir de Goa a Chung-Tcheu, na China, onde morreu, exausto, nos braços de um cristão enviado pelo padre Ricci ao seu encontro. Estava desvendado o mistério do Catai.

Quanto aos resultados estritamente apostólicos da ação do padre Ricci, à primeira vista, podem parecer desproporcionados para a soma de esforços despendidos. Quando morreu, a 14 de maio de 1610 — o mesmo dia em que, em Paris, Henrique IV caía apunhalado por Ravaillac — , o número de convertidos chineses não passava de 2.500. É verdade, porém, que todos eles, ou quase todos, pertenciam à elite chinesa, como o “Doutor Li” — que era o primeiro matemático do seu país e que, além disso, traduzira Aristóteles — , como também altos funcionários e mesmo um futuro vice-rei. Era evidentemente um grupo pequeno, que o jesuíta matemático e cartógrafo soubera reunir sob a sua tutela, mas dali em diante estava aberta a porta por onde os missionários poderiam entrar no vasto império. O método empregado por Li Mateu parecia tão excelente que numerosos jesuítas o utilizaram, e assim, durante quase um século, viram-se na corte de Pequim astrônomos e matemáticos oficiais do imperador que eram nada menos do que padres jesuítas. Por volta de 1650, calculava-se 150.000 o número de católicos na China, e a Santa Sé pensou em elevar Pequim a patriarcado, com dois ou três arcebispados e uma dúzia de bispados. Bela recompensa póstuma para o genial missionário que, mostrando ao Filho do Céu as estrelas nas suas lunetas de aproximação, tinha conseguido abrir para Cristo o país mais fechado do tempo!21.


21 Infelizmente, cerca de vinte e cinco anos mais tarde, a Querela dos Ritos, desencadeada pelos dominicanos, provocou resultados deploráveis. A idéia do padre Ricci, de “batizar” os usos e os costumes dos chineses, foi considerada inaceitável. Sobre este assunto, cfr. vol. VII, cap. II, par. A deplorável querela dos ritos chineses.

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“Brechas nos costumes”

Esse texto está no capítulo III do livro “A Igreja dos apóstolos e dos mártires“, o primeiro dos 10 volumes da coleção “História da Igreja“, de Daniel-Rops.

Os grifos são meus, com a intenção de mostrar a semelhança entre a situação que vivemos hoje e a de Roma às vésperas de sua decadência. É óbvio que os motivos são diferentes, mas os sintomas são muito semelhantes.

E a dica de São Jerônimo continua valendo: “São os nossos vícios que tornam os bárbaros tão fortes”. E basta olhar o mundo para ver os “bárbaros”. Se continuarmos nesse passo, eles virão, não tenham dúvida…


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Ao verificarmos, porém, que o conflito entre Roma e a Cruz era inevitável, e ao considerarmos o resultado bastante desconcertante que adveio de tal conflito — isto é, o triunfo do cristianismo —, somos levados a perguntar-nos se não haveria já, na própria estrutura da majestosa sociedade imperial, certas brechas que iriam permitir a infiltração da nova doutrina na sua massa, e provocar ou, em todo o caso, apoiar um processo de dissociação.

Essas brechas existiam, com efeito, e apesar de serem pouco visíveis aos olhos da maioria dos contemporâneos, são perfeitamente discerníveis para a história. E evidente que não se tratava de decadência, e seria falsear inteiramente as perspectivas aplicar esse termo à época do Alto Império; mas não há dúvida de que as causas profundas que mais tarde — a partir do século III — hão de arrastar Roma cada vez mais rapidamente para o abismo, se observam desde os tempos da idade de ouro. Até o ano 192, não se pode falar ainda em declínio, mas “a crise já está no homem”.

Esta crise, cujos sintomas se irão perfilando e cujos efeitos irão aumentando até a trágica derrocada do século IV, está ligada às próprias condições em que se ergueu essa obra obra-prima que foi o Império nos seus primeiros tempos. Roma conquistou o mundo; mas o que era Roma? Nos seus começos, um pequeno burgo itálico, o mercado onde se reuniam honestas famílias camponesas, o modesto centro administrativo onde vinham discutir os seus interesses uns homens rudes e simples, presos à rabiça do arado ou ao punho da espada, mas pouco preparados para enfrentar grandes tarefas civilizadoras.

Muito em breve havia de tornar-se enorme a desproporção entre este pequeno núcleo de governantes e a gigantesca massa dos governados, e daí resultou um perigoso desequilíbrio. Um desequilíbrio tanto mais grave quanto, entre os povos vencidos, muitos tinham uma concepção mais rica do mundo e uma civilização mais evoluída do que o dominador. O Oriente exerceu, pois, sobre os romanos uma verdadeira fascinação, e eles se submeteram à sua escola. Tal é o sentido profundo das célebres palavras de Horácio: “A Grécia conquistada conquistou o seu terrível vencedor”. Arte grega, pensamento grego, religiões orientais, costumes da Ásia — é uma torrente ininterrupta que, partindo do Oriente, vem desaguar na Itália, carregando consigo o melhor e o pior.

A conquista arrastou, pois, a sociedade romana para uma espécie de atoleiro espiritual. Aquilo que constitui o fundo de uma civilização, as suas profundas razões de viver, o conceito que ela tem de si mesma, o seu centro nervoso — eis o que Roma encontra cada vez menos nas suas próprias fidelidades. A medida que se refinam e se civilizara, os romanos afastam-se cada vez mais da antiga imagem da sua raça, que consideram grosseira e atrasada. A inteligência vem da Grécia. A bela ideia humanista do universalismo romano é uma herança recebida dos filósofos helênicos e dos geniais desígnios de Alexandre. A língua das pessoas cultas é a de Homero e de Aristóteles. Podemos fazer uma ideia do que era esse atoleiro espiritual se imaginarmos o que seria uma França que adotasse o árabe como língua das elites e definisse o seu papel segundo os preceitos do Corão.

No começo do Império, a vitalidade nacional é ainda suficiente para que qualquer contributo vindo de fora não esterilize as possibilidades latinas e para que, pelo contrário, a planta romana, enxertada no tronco grego, produza frutos maravilhosos. Quanto mais se avança no sentido universalista, porém, quanto mais se intensifica o intercâmbio entre todas as províncias do Império, mais a consciência romana é afogada pelo Oriente. Politicamente, o Império tornar-se-á campo de disputa das dinastias asiáticas, antes de o ser dos bárbaros; espiritualmente, estará pronto para aceitar uma outra concepção do mundo, já que a sua desmoronou.

Este fenômeno fez sentir as suas consequências em todos os planos e particularmente no plano moral. Ao conquistar o mundo, Roma viu que lhe começavam a faltar aquelas forças vivas que lhe tinham permitido a conquista. Mas podia ela ter procedido de outra maneira? não. Eis um exemplo marcante desses insolúveis dilemas em que o destino coloca o homem, sem dúvida para lhe dar a conhecer os seus limites. Para que a consciência latina se conservasse intacta e indomável, teria sido necessário que o romano continuasse a ser aquele homem rude, honesto e fiel que era na origem; mas então teria sido incapaz de governar o seu imenso domínio e, a partir do momento em que quisesse abandonar o plano da força, as suas energias vitais teriam decaído. De século para século, de 100 a.C. a 400 d.C., a sociedade romana dá-nos uma crescente impressão de esgotamento. Os seus costumes ir-se-ão corrompendo, assim como se irão dissolvendo a sua arte e o seu pensamento1. E não é este o único exemplo que a história nos oferece da íntima relação que existe entre o refinamento dos ideais de civilização e a desagregação das virtudes originais. Para que, nesta sociedade, se reconciliassem a força e a moral, o heroico e o humano, era necessário que houvesse uma reviravolta total, precisamente aquela que o Evangelho traria consigo.

Tal é o verdadeiro sentido desta “crise moral” que durante muito tempo esteve na moda pintar com as cores mais negras e que importa caracterizar mais razoavelmente. Não foi no mundo gangrenado do Baixo Império que se semeou a semente evangélica, mas numa sociedade ainda muito firme nas suas bases e que, apesar de fendida num ou noutro lugar, não se sentia abalada. Seria também absurdo julgar os costumes romanos pelas críticas acerbas de Juvenal, de Luciano e de Suetônio, ou pelas descrições de Petrônio ou de Apuleio, como o seria apreciar toda a França do século XX pelas comédias satíricas de Bourdet ou de Pagnol, ou pelos romances mundanos de Marcel Proust. A desmoralização à maneira do Asno de Ouro ou do Satiricon não atinge senão certos elementos das classes ricas, sobretudo nas grandes cidades. Uma casta luxuosa e corrompida pode oferecer modelos pitorescos a escritores talentosos, sem que por isso seja representativa da sua época.

Quando se põem de parte os textos literários em que só se retratam os poderosos, e nos debruçamos sobre documentos mais modestos, tais como epitáfios, graffiti e papiros, a vida privada romana do Alto Império oferece muitos exemplos de virtudes sólidas. O amor conjugal, a ternura para com os desamparados, a piedade filial, a afeição fraterna, são sentimentos que vemos louvar em frases comoventes. “Ela fiou a lá e guardou a casa”. “Foi boa e formosa, bela, piedosa, recatada, sóbria e casta. Foi compassiva para com todos”—. Assim rezam algumas inscrições tumulares redigidas por maridos agradecidos. Dois esposos quiseram dormir o último sono lado a lado, debaixo deste epitáfio comovedor: “Tínhamos um só coração”. Mesmo na alta aristocracia, e até em volta do trono imperial, vêem imagens admiráveis, que continuarão a resplandecer em plena decadência: esposas heroicas e ternas, filhos respeitosos, almas fiéis, para quem os preceitos da moral não são uma palavra vã.

Mas numa sociedade podem muito bem coexistir elementos perfeitamente sãos e fermentos ativos de desagregação: temos diante dos olhos um exemplo desta natureza. Em Roma, nos primeiros séculos, apesar das virtudes praticadas por muitas pessoas sãs, os sintomas denotam a existência de perigos graves que nada poderá evitar, porque resultam dos vícios estruturais do Império, daquilo que o torna rico e poderoso.

As conquistas fizeram afluir a Roma ouro e escravos. Os despojos de guerra recolhidos no Oriente pelos generais alcançam cifras vertiginosas; o saque ordenado por Pompeu teria rendido setecentos e oitenta e seis milhões de sestércios2, e a ele seguiram-se muitos outros, acabando Roma por ficar inundada de ouro. Os tributos arrecadados nas províncias do Oriente atingiam anualmente cerca de trezentos milhões de sestércios. De todo este maná, o povo recebia uma parte mínima, sob a forma de presentes aos soldados e de distribuições feitas à plebe; as classes dirigentes ficavam com a parte do leão. E numa época em que, por falta de grandes indústrias, eram muito reduzidas as oportunidades de investimento, o ouro servia apenas para que a plebe se entregasse à doce vida e para que os ricos o esbanjassem em vivendas, alimentos e prazeres. É assim que o metal amarelo, tão perigoso quando não é fruto do trabalho, irá desagregar a sociedade romana.

No Império Romano, há ainda uma outra fartura que vem juntar as suas desastrosas consequências is do ouro: a dos escravos. Durante os dois últimos séculos da República, as guerras puseram nas mãos dos vencedores centenas de milhares de escravos. Não era raro que uma só campanha militar arrebanhasse cento e cinquenta mil de uma só vez, e assim continuará, enquanto durarem as guerras imperiais. É necessário ainda ter em conta a pirataria, o frutuoso negócio do tráfico humano e a reprodução normal dos escravos já transplantados, para podermos fazer uma ideia da imensidão da massa servil e das incríveis proporções que ela atingia na sociedade. Em Roma, no tempo de Augusto, mais de um terço da população era constituída por escravos, e em Alexandria chegava provavelmente a dois terços. Como a quantidade diminui o preso da mercadoria um escravo corrente valia cerca de cento e cinquenta francos-ouro, e um especializado quinhentos a dois mil —, qualquer pessoa, proprietário, empreiteiro ou artífice que tivesse necessidade de mão-de-obra, preferia lançar mão dos escravos a recorrer a um homem livre. Era mais uma causa de desagregação da sociedade.

Estabelece-se nas grandes cidades, e sobretudo em Roma, uma massa popular mais ou menos ociosa, formada por camponeses desenraizados, trabalhadores autônomos agora privados de trabalho, escravos libertos e estrangeiros cosmopolitas: um terreno excelente para todas as doenças políticas e para todas as forças de desmoralização. O antigo romano, tão sólido no seu trabalho, torna-se o “cliente”, o parasita, a quem a “espórtula” remunera uma fidelidade suspeita. Os imperadores têm de contar com esta plebe lamentável e por isso a rodeiam de atenções. Mas um povo não se habitua à mendicidade e à preguiça sem que a sua alma seja atingida. Em breve a covardia e a crueldade andarão de mãos dadas com o vício, e o vício, como diz a sabedoria popular, é a mãe de todos os males. Já não há quem queira combater nas fronteiras, como não há quem queira trabalhar a terra. E assim aquela imensa multidão, para se distrair, irá procurar nos jogos do circo os prazeres que acabam por degradar a sensibilidade humana.

Mas há algo pior ainda do que esse deslizar da sociedade para a inércia mortal; ou, melhor, há ainda outro fenômeno que anda a par deste, proveniente das mesmas causas e sobretudo do enriquecimento excessivo. A sociedade romana foi atingida na fonte viva que alimenta toda a sociedade: a família está abalada e a natalidade decresce. A mãe dos Gracos tivera doze filhos, mas nos começos do século II serão louvados como uma exceção os pais que tenham três. Evita-se o casamento; porventura a orbitas, o celibato, não traz ao rico todas as vantagens, assegurando-lhe uma fiel clientela de herdeiros expectantes? E de que poderá o celibato privar o homem, se a escravidão lhe proporciona companheiras mais dóceis que as esposas e que se podem renovar à vontade? O aborto e o abandono de crianças assumem proporções espantosas. Uma inscrição do tempo de Trajano dá-nos a conhecer que, de cento e oitenta e um recém-nascidos, cento e setenta e nove são legítimos, e destes, apenas trinta e cinco são meninas, o que prova suficientemente a facilidade com que as pessoas se desembaraçavam das meninas e dos filhos naturais. Quanto ao divórcio, tornou-se tão corrente que já não lhe procuravam sequer qualquer aparência de justificação: bastava o simples desejo de mudança.

Que se poderia opor a estas forças de desagregação? Os Estados têm mostrado sempre incapazes de recolocar a moral nas suas verdadeiras bases, depois de a terem deixado definhar. Os dirigentes romanos não estão inteiramente inconscientes do perigo, mas a sua boa vontade mostra-se irrisória perante o conjunto de circunstâncias que arrastam a sua sociedade para a ruína. O exemplo de Augusto é revelador. Multiplicou as leis de intenção altamente moralizadora com o fim de combater o adultério e o divórcio. Quem as tomou a sério? Nem mesmo os da sua família. Aliás, não tinha sido ele que oficializara a preguiça, fundando a prefeitura da Bolsa Família Anona3, encarregada de alimentar gratuitamente o povo? Periodicamente, veremos os imperadores subsequentes reeditarem essas primeiras medidas, o que prova que foram totalmente ineficazes. Os costumes dissolutos de tantos dos seus senhores, a resignação mais ou menos altaneira com que um Cláudio ou um Marco Aurélio suportam as suas desgraças conjugais, esclarecem a plebe sobre o verdadeiro alcance das medidas legislativas. Nos começos do século III, ao tomar posse do Consulado, Dion Cássio há de encontrar, só em Roma, três mil casos de adultério inscritos no respectivo registro. Pode-se dizer que ainda existe crime, quando ele é universal ou quase universal?

Em todos os tempos e em todos os países, a substituição das tendências naturais do homem pela vontade do Estado é sempre um indício de decadência. Um povo está muito doente quando, para viver honestamente e ter filhos, necessita de prêmios ou de regulamentos. “Chegamos a um ponto — dizia já Tito Lívio — em que já não podemos suportar nem os nossos vícios nem os remédios que os poderiam curar”. Quatro séculos mais tarde, São Jerônimo escreverá: “São os nossos vícios que tornam os bárbaros tão fortes”. Já não estava nas mãos do imperador ou dos seus juristas restituirá sociedade romana as suas sadias raízes. Tornava-se necessária nada menos que uma mudança radical nos próprios fundamentos da moral e nos seus meios de ação sobre a consciência.


(1) A diminuição da força criativa é, com efeito, um sintoma muito marcante da esterilização progressiva da sociedade romana. Nem a arte nem a literatura conseguem manter-se sãs numa civilização cuja saúde está abalada. Desde a época de Augusto, pressente-se o declínio. As obras-primas romanas, nascidas da semeadura grega feita em terreno latino, duram pouco tempo. Segue-se a época das cópias, do crescente academicismo. Grandiosa em muitos casos, mas pouco original, a arte imperial vive no inicio à sombra dos últimos tempos da República, e depois cai no pomposo, no grandiloquente e, em breve, no mau gosto. A literatura mais espalhada no primeiro século não é a de Virgílio ou de Tácito, mas a dos fabricantes de súmulas e de florilégios: um Higino, um Valério Máximo, o Sêneca das Questões naturais ou o Plínio, o Velho, da História Natural. No século II, o sucesso irá para os neo-sofistas, para os gramáticos, para os lexígrafos, para as compilações científicas de Ptolomeu e de Nicômaco, para obras que, em si, estão longe de carecer de mérito, mas a que falta o espírito criador. Também neste domínio será imenso o papel do cristianismo: tanto as artes como as letras serão renovadas pelo Evangelho.

(2) O sestércio foi durante muitos séculos a moeda básica do Império Romano. Equivalia a um quarto de um denário, que por sua vez correspondia à paga diária de um operário não especializado.

(3) O hábito de o Estado distribuir alimentos irá estendendo-se cada vez mais. No século III, para uma população de 1.200.000 pessoas, calcula-se que não haveria menos de 100.000 chefes de família que não se valessem da Anona.