Cristo entra no “Catai” com “Li Mateu”

Publico um pequeno trecho do livro “A Igreja da Renascença e da Reforma (II)” do historiador francês Daniel-Rops.

Achei muito interessante ver um tema tão atual – a inculturação – sendo aplicado com maestria num contexto no mínimo inusitado: a China do século XVI.

Padre Mateus Ricci


Cristo entra no “Catai” com “Li Mateu”

No ano de 1583, desembarcaram em Macau, designados pelos seus superiores para a missão da China, dois jesuítas italianos de boa presença, o padre Miguel Ruggieri, siciliano, que já tinha estado duas vezes nessas paragens, e o padre Mateus Ricci. Macau era então o único ponto de apoio oficial que os cristãos possuíam no Império do Meio, ou antes, às suas portas; por isso lhe chamavam “a cidade do Santo Nome de Deus”. E embora muitas vezes se falasse na China dessa feitoria como de um “cancro no flanco do Augusto Império”, a avidez dos mandarins de Cantão conservara os portugueses nessa pequena península facilmente isolável, já que os honestos funcionários chineses não desprezavam o proveito que lhes advinha do comércio que se fazia com a Europa nesse porto franco.

Havia mais de trinta anos que São Francisco Xavier morrera na pequena ilha de Sanchão e era saudado por todos os missionários com uma fervorosa oração quando o seu navio passava por ali perto. A China não estava muito mais aberta ao Evangelho do que nos dias em que o santo pioneiro a contemplara — tão próxima e contudo tão inacessível — com os seus últimos olhares. Mas alguns missionários corajosos tinham posto ali a ponta do pé. Em 1555, de caminho para o Japão, o padre visitador Nunes Barreto pudera fazer duas pequenas escalas de um mês; no ano seguinte, um dominicano, o padre Gaspar da Cruz, também pudera passear livremente pela região de Cantão, sem que fosse incomodado. Quando o padre Valignano foi nomeado visitador geral para a Índia, em 1573, decidiu estabelecer solidamente Macau como centro das operações missionárias na China e enviar para lá o melhor aluno que tivera em Roma, quando era reitor do Colégio da Companhia: Mateus Ricci.

Penetrar no coração da China era considerado então como a pior das aventuras; o mesmo se pensava, aliás, de todo o centro da Ásia, numa época em que mal se suspeitava da existência do Himalaia! Havia até, a propósito da China, um mistério geográfico muito discutido: localizar-se-ia lá o famoso “Catai” de que falara Marco Polo no Livro das Maravilhas? O “país dos seres” seria realmente a terra da seda que o viajante veneziano tinha visitado? E seria possível atingi-lo pelo continente? São Francisco Xavier assim o julgara, tendo chegado a escrever a Santo Inácio, pouco tempo antes de partir para a sua última viagem, que pensava voltar para a Europa diretamente da China, passando pelo Santo Sepulcro… É evidente que a ignorância dos costumes, da literatura e da religião dos chineses era tão generalizada como a da geografia do seu país. Havia uma grande variedade de livros sobre esses assuntos, muitos deles já então traduzidos para o árabe, mas eram poucos os ocidentais dispostos a estudá-los.

O mérito deveras singular de Mateus Ricci (1552-1610) consistiu, desde que foi designado para a missão chinesa, em preparar cientificamente a sua obra apostólica, com todos os recursos de uma inteligência sem igual. Filho de boa família, nascido em Macerata, na Marca de Ancona, fizera-se jesuíta aos dezenove anos e revelara-se um espírito de tipo enciclopédico, um “humanista da Renascença”, igualmente brilhante não só em línguas antigas, em filosofia e teologia, como em matemática, cosmografia e astronomia, o que, como vamos ver, lhe serviria de muito. Tendo partido para a Índia em 1578, como professor no colégio jesuíta de Goa e depois no de Cochim, quando soube que o seu antigo mestre Valignano se tornara seu superior e pensava nele para a missão da China, num ano aprendeu a falar razoavelmente o chinês e até a escrever um pouco. Com a sua bela e grave aparência, o seu ar mais que reservado e a longa barba que deixou crescer, já poderia passar por um extremo-oriental; e, para cúmulo de sorte, a sua tez de italiano do Sul já não era de per si nem cor-de-rosa nem de açucena…

Antes, pois, de desembarcar na China, Mateus Ricci já a conhecia. Estudara os seus filósofos, os seus clássicos, as suas religiões. Sabia que os chineses consideravam o seu país como “a cabeça, ou melhor, o próprio corpo do mundo”, e que não estaria fora de propósito lisonjear esse orgulho. Não ignorava que a casta dos letrados exercia ali uma influência notável e concluiu que era preciso dirigir-se primeiro a eles, para, se possível, ganhar-lhes a confiança. Nunca estratégia missionária alguma fora tão profundamente pensada como a deste sutil jesuíta.

Instalados primeiro em Tchao-Kiu, os dois missionários Miguel Ruggieri e Mateus Ricci continuaram, antes de mais, a estudar prudentemente o meio e a preparar a sua ação futura, sem procurar empreender um apostolado prematuro. O padre Ricci tinha muito jeito para pintar: em breve os seus quadros lhe conquistaram a estima dos entendidos e dos letrados; e, enquanto o padre Ruggieri voltava à Europa para explicar à Santa Sé e à Companhia a situação na China, continuou os seus trabalhos de aproximação, sucessivamente, em Tchao-Kiu, Nanquim e Pequim.

Dali em diante, estava familiarizado com a China e os chineses, especialmente os letrados. Estudando as religiões que se praticavam no Império, chegou a conhecer profundamente o taoísmo, doutrina metafísica fortemente amalgamada com magia e misticismo politeísta, o budismo, agnóstico na sua origem mas popularizado na China como veneração de Buda, e o confucionismo, mais voltado para a filosofia moral e social do que para a transcendência, e deu-se conta de que toda a elite intelectual era confuciana. Tomando, pois, posição contra os taoístas e os budistas, aproveitou mais de uma ocasião para demonstrar aos confucianos que a sua doutrina se parecia muito com o cristianismo, sublinhando habilmente os pontos de coincidência. A técnica não era nova: não a tinham usado os Padres da Igreja em relação aos filósofos gregos, e São Tomás de Aquino em relação a Aristóteles? Onde faltavam os pontos de contacto, o hábil jesuíta criou-os! Por exemplo, como não existia em chinês a palavra “Deus”, admitiu que as expressões “Senhor do Céu” e “Soberano Senhor” exprimiam maravilhosamente a idéia. Quanto aos ritos chineses de prostração e incensação, era do mais elementar bom-senso integrá-los no cristianismo; assim os convertidos não teriam nenhuma necessidade de romper com os seus costumes imemoriais ao receberem o batismo. E os letrados chineses passaram a relacionar-se de bom grado com esse homem eloqüente, culto, que lhes ensinava tantas coisas maravilhosas sem interferir nos seus costumes. Deram-lhe — honra insigne — um nome de letrado na sua casta: Li Mateu, tradução fonética do seu nome cristão.

Mas o que mais maravilhou os curiosos das coisas do espírito foram os instrumentos que os jesuítas tinham levado consigo, e que eram desconhecidos na China: relógios de tique-taque misterioso, o prisma que, ao decompor a luz solar, dava uma gama de cores prodigiosa, o astrolábio, a bússola… Quanto ao exemplar do Theatrum mundi, o mapa do flamengo Ortelius que Ricci possuía, encheu de espanto todos os que o viram. A tal ponto que o próprio imperador, San-Li, quis conhecer esses estrangeiros tão sábios e os convocou à Cidade Proibida. O padre Ricci e os seus auxiliares apresentaram-se envergando trajes de seda de mandarim — tinham-nos adotado havia anos — , com o seu nome de chineses letrados e a mais chinesa das cortesias. Foi necessária mais de meia dúzia de visitas, de quatro a cinco horas cada uma, para satisfazer a imperial curiosidade e a da sua corte. Extasiado, o Filho do Céu quis que lhe explicassem o uso dos instrumentos e, quando viu o mapa, pediu ao padre Ricci que lhe fizesse uma cópia. De uma habilidade extrema, o jesuíta foi mais longe e não se contentou com executar servilmente a ordem: antigo aluno do padre Clávius, sabia bastante geografia para desenhar pessoalmente um novo planisfério, onde o império da China, como convinha, ocupasse o centro, o que o fazia parecer maior. O ato de entrega do mapa teve tal importância que os anais da dinastia Ming o registraram oficialmente. Entusiasmado, o imperador ordenou que se fizessem cópias da obra-prima destinadas a todas as partes dos seus vastos domínios, e autorizou o seu novo Ptolomeu — que não tinha em vista senão esse desfecho — a pregar livremente por toda parte.

Admirável resultado de um método missionário que, devemos confessar, não estava ao alcance de todos! Subsidiariamente, no decurso dos seus trabalhos, o padre Ricci concluíra de modo formal pela identidade entre o “Catai”, o “país dos seres” e a China. Fê-lo com tanta segurança que os superiores da Companhia na Índia, querendo tirar absolutamente a limpo o assunto, encarregaram um dos seus irmãos coadjutores, o irmão Bento de Góis — um português dos Açores de passado um pouco tempestuoso — de tentar a aventura: em cerca de quatro anos e meio, disfarçado de comerciante armênio, o irmão leigo conseguiu ir de Goa a Chung-Tcheu, na China, onde morreu, exausto, nos braços de um cristão enviado pelo padre Ricci ao seu encontro. Estava desvendado o mistério do Catai.

Quanto aos resultados estritamente apostólicos da ação do padre Ricci, à primeira vista, podem parecer desproporcionados para a soma de esforços despendidos. Quando morreu, a 14 de maio de 1610 — o mesmo dia em que, em Paris, Henrique IV caía apunhalado por Ravaillac — , o número de convertidos chineses não passava de 2.500. É verdade, porém, que todos eles, ou quase todos, pertenciam à elite chinesa, como o “Doutor Li” — que era o primeiro matemático do seu país e que, além disso, traduzira Aristóteles — , como também altos funcionários e mesmo um futuro vice-rei. Era evidentemente um grupo pequeno, que o jesuíta matemático e cartógrafo soubera reunir sob a sua tutela, mas dali em diante estava aberta a porta por onde os missionários poderiam entrar no vasto império. O método empregado por Li Mateu parecia tão excelente que numerosos jesuítas o utilizaram, e assim, durante quase um século, viram-se na corte de Pequim astrônomos e matemáticos oficiais do imperador que eram nada menos do que padres jesuítas. Por volta de 1650, calculava-se 150.000 o número de católicos na China, e a Santa Sé pensou em elevar Pequim a patriarcado, com dois ou três arcebispados e uma dúzia de bispados. Bela recompensa póstuma para o genial missionário que, mostrando ao Filho do Céu as estrelas nas suas lunetas de aproximação, tinha conseguido abrir para Cristo o país mais fechado do tempo!21.


21 Infelizmente, cerca de vinte e cinco anos mais tarde, a Querela dos Ritos, desencadeada pelos dominicanos, provocou resultados deploráveis. A idéia do padre Ricci, de “batizar” os usos e os costumes dos chineses, foi considerada inaceitável. Sobre este assunto, cfr. vol. VII, cap. II, par. A deplorável querela dos ritos chineses.

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Castidade e dignidade da mulher

As fontes mais antigas revelam-nos que a moral sexual se tinha degradado em extremo na época em que a Igreja surgiu na História. Como escreveu o satírico Juvenal, a promiscuidade generalizada levara os romanos a perder a deusa Castidade. Ovídio observou que, no seu tempo, as práticas sexuais se tinham rebaixado a um nível especialmente perverso, e até mesmo sádico. Podem-se encontrar testemunhos similares em Catulo, Marcião e Suetônio acerca do estado da fidelidade conjugal e da imoralidade sexual nos tempos de Cristo. César Augusto tentou pôr cobro a essa situação com medidas legais, mas a lei raramente consegue reformar um povo que já tenha sucumbido ao fascínio dos prazeres imediatos. No começo do século II, Tácito afirmava que uma mulher casta era um fenômeno raro1.

A Igreja ensinou que as relações íntimas só são lícitas entre marido e mulher. O próprio Edward Gibbon, que culpava o cristianismo pela queda do Império Romano, foi obrigado a admitir: “Os cristãos restauraram a dignidade do matrimônio”. Galeno, o médico grego do século II, impressionou-se tanto com a retidão do comportamento sexual dos cristãos, que os descreveu como “tão adiantados em autodisciplina e no intenso desejo de atingir a excelência moral, que em nada são inferiores aos verdadeiros filósofos”2.

Para a Igreja, o adultério não se limitava à infidelidade da esposa, como se costumava considerar no mundo antigo, mas estendia-se também à infidelidade do marido. A influência que ela exerceu neste domínio foi de grande importância histórica, e não admira que Edward Westermarck, um excelente historiador da instituição do matrimônio, tenha creditado à influência cristã a equalização do pecado de adultério3.

Esses princípios explicam em parte por que as mulheres constituíam tão grande parcela da população cristã dos primeiros séculos da Igreja. As mulheres cristãs eram tão numerosas que os romanos chegaram a desprezar o cristianismo por considerá-lo uma religião para mulheres.

A atração que a fé exercia sobre as mulheres provinha em boa medida de que a Igreja santificava o matrimônio – elevado por ela à categoria de sacramento – e proibia o divórcio (o que, na realidade, significava que nenhum homem podia abandonar sem mais nem menos a esposa para casar-se com outra mulher).

Foi também graças ao catolicismo que as mulheres alcançaram autonomia:

“As mulheres encontraram proteção nos ensinamentos da Igreja – escreve o filósofo Robert Phillips –, e foi-lhes permitido formar comunidades religiosas dotadas de governo próprio, algo inusitado em qualquer cultura do mundo antigo […] Basta repassar o catálogo dos santos, repleto de mulheres. Em que lugar do mundo, a não ser no catolicismo, as mulheres podiam dirigir as suas próprias escolas, conventos, colégios, hospitais e orfanatos?”4


(1) Alvin J. Schmidt, Under the Influence, págs. 80-2.
(2) Ibid., pág. 84.
(3) Ibid.
(4) Robert Philips, Last Things First, Roman Catholic Books, Fort Collins,Colorado, 2004, pág. 104.


Fonte: Thomas E. Woods Jr., Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Universal, págs. 199-200.

 

Nossa Senhora das Dores e os mistérios gozosos

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Quis o “acaso” que hoje, dia de Nossa Senhora das Dores, caísse numa segunda-feira, dia dos mistérios gozosos do terço.

Enquanto caminhava para casa, após a missa, rezando o terço, percebi uma aparente contradição: boa parte dos mistérios gozosos (supostamente ligados a gozo, contentamento) são referência a momentos dolorosos da vida de Maria:

O primeiro e segundo mistérios (anunciação e visitação a Santa Isabel, respectivamente), não têm nenhuma referência direta a nenhuma dor, apesar do fato de o “sim” dado durante a anunciação ser a causa de todas as dores por que ela passou.

Já os outros três mistérios estão todos entre as sete dores de Maria: o nascimento de Jesus (3º mistério), além das óbvias dores do parto, remete também à dor de ter que fugir para o Egito. Já a apresentação de Jesus no Templo (4º mistério) é o momento em que Maria ouve a profecia de Simeão: “e a ti, uma espada traspassará tua alma”. O 5º mistério nos lembra a grande dor de “perder” o Menino Jesus por três dias, até finalmente encontrá-lo no templo, entre os doutores.

Que nesse dia nos lembremos das dores por que Maria passou para que a salvação viesse a nós!

Resumo do Missal Romano em inglês e espanhol

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Sempre que viajo a um país de língua estrangeira e vou à missa, fico meio perdido, sem saber as respostas. Como o rito latino é praticamente igual em todos os lugares, consigo acompanhar bem a missa, sabendo em que parte da missa estamos, mas sempre sinto falta de acompanhar as orações no idioma local. Da última vez que fui aos EUA, achei um livrinho com um resumo bacana em inglês e fotografei, para utilizar em outras viagens. Há alguns meses eu transcrevi tudo para um documento texto, pesquisei uma ou outra coisa que faltava na internet, e juntei tudo num documento só, que você pode baixar clicando aqui.

Como minha próxima viagem é para o México, resolvi fazer outra pesquisa pela internet, para tentar achar um resumo parecido em espanhol. Infelizmente não encontrei um resumo no mesmo formato, mas felizmente encontrei o missal inteiro, e com isso pude procurar somente essas partes mais comuns e reuni-las em um documento semelhante ao que já tinha em inglês.

Publico aqui esse resumo, para aqueles que gostam de ir à missa mesmo quando em viagem ao exterior mas que se sentem incomodados de não conseguir responder no idioma local. As quatro primeiras páginas são o resumo em inglês, e as outras quatro são o mesmo resumo, só que em espanhol. Nada nesses documentos é de minha autoria, tudo foi encontrado livremente pela internet. Portanto, podem copiar, distribuir, modificar à vontade. Meu trabalho foi só de resumir e formatar pra ficar fácil de imprimir ou ler no celular.

Tirem férias do trabalho, mas não de Cristo e da Igreja. Boa viagem!

Instruções para uma boa confissão

Confissão

Em algum desses anos passados, durante um mutirão de confissões na quaresma, recebi esse folhetinho para ajudar na preparação para a confissão.

Aproveito o momento (apesar de já estar um pouco em cima da hora), para compartilhá-lo. Os grifos não são meus, mas do original. Espero que seja útil…

PRÁTICA DA PENITÊNCIA

INSTRUÇÕES PARA UMA BOA CONFISSÃO

De acordo com o Código de Direito Canônico e o Ritual da Penitência

A. O Sacramento da Penitência

  1. No sacramento da penitência, os fiéis confessam seus pecados ao ministro legítimo, arrependidos e com o propósito de se corrigirem, alcançam de Deus, mediante a absolvição dada pelo ministro, o perdão dos pecados cometidos após o batismo, e ao mesmo tempo se reconciliam com a Igreja, à qual feriram pelo pecado.
  2. O ministro do sacramento da penitência é somente o sacerdote.
  3.  Todo fiel, depois de ter chegado à idade do entendimento, deve confessar fielmente seus pecados graves, pelo menos uma vez por ano.
  4. O sacramento da penitência divide-se em quatro partes:
    1. A contrição, que consiste na dor da alma e na detestação do pecado cometido, com o propósito de não mais pecar.
    2. A confissão das culpas, que procede do verdadeiro conhecimento de si mesmo diante de Deus, e da contrição dos pecados. A confissão deve ser precedida por um bom exame de consciência.
    3. A satisfação é a mudança de vida e reparação do dano causado. A satisfação é um remédio para o pecado e renovação de vida.
    4. A absolvição é o perdão de Deus concedido ao pecador por meio do ministro da penitência. Assim, pelo sacramento da penitência, o Pai acolhe o seu filho de volta; Cristo coloca sobre os ombros a ovelha perdida; e o Espírito Santo santifica de novo seu templo.
  5. A reconciliação dos penitentes pode ser celebrada em qualquer tempo e dia. Convém, entretanto, que os fiéis saibam em que horário o sacerdote está presente para exercer este ministério.
  6. O tempo da Quaresma é o mais apropriado para a celebração da penitência, porque desde a quarta-feira de cinzas escutamos o solene convite ao povo de Deus: “Convertei-vos e crede no Evangelho”.

B. Esquema para Exame de Consciência

Convém que se faça um exame de consciência antes de se aproximar do sacramento da reconciliação. Cada um medite, antes de tudo no seguinte:

  1. Eu me aproximo do sacramento da penitência com desejo sincero de purificação, conversão, renovação de vida e amizade mais profunda com Deus? Ou, pelo contrário, o considero como um fardo que se deva receber raramente?
  2. Tenho esquecido ou omitido propositadamente algum pecado grave em minhas confissões anteriores?
  3. Tenho cumprido as penitências que me foram impostas? Tenho reparado as injustiças cometidas? Tenho me esforçado por colocar em prática os propósitos de ajustar minha vida ao Evangelho?

Cada um examine sua vida à luz da Palavra de Deus.

I. O Senhor disse: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração” .

  1. Está meu coração voltado para Deus, a ponto de amá-lo sobre todas as coisas, como um filho a seu pai, cumprindo fielmente seus mandamentos? Ou, pelo contrário, me tenho preocupado mais com coisas terrenas? Tenho pureza de intenção em minhas obras?
  2. Tenho verdadeira fé em Deus, que nos falou por intermédio de seu Filho? Tenho aderido com firmeza à doutrina da Igreja? Tenho me preocupado em adquirir a instrução cristã, ouvindo a Palavra de Deus, participando da catequese, evitando o que atenta contra a fé? Tenho professado sempre com coragem e destemor a fé em Deus e na Igreja? Tenho me portado como cristão na vida pública e particular?
  3. Tenho feito as orações da manhã e da noite? A minha oração é um verdadeiro diálogo com Deus ou apenas um ritual externo? Tenho oferecido a Deus os trabalhos, alegrias e sofrimentos? Tenho recorrido a ele nas tentações?
  4. Tenho demonstrado reverência e amor pelo nome de Deus, ou tenho ofendido a Deus com blasfêmias, juramentos falsos ou falta de respeito? Tenho desrespeitado a Virgem Maria ou os Santos?
  5. Tenho honrado o dia do Senhor e os dias santificados, participando das reuniões litúrgicas sobretudo da missa, de maneira ativa, piedosa e atenta? Tenho observado o preceito da confissão anual e da comunhão pascal?
  6. Tenho talvez outros deuses, como riquezas, as superstições, o espiritismo, ou a macumba, confiando neles mais do que em Deus?

II. O Senhor disse: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”.

  1. Tenho verdadeiro amor ao meu próximo, ou tenho abusado de meus irmãos, utilizando-os para meu proveito pessoal e fazendo a eles o que não desejo para mim mesmo? Tenho sido para eles causa de grave escândalo com minhas palavras ou ações?
  2. Tenho contribuído para o bem e a alegria dos demais membros da minha família, pela paciência e o amor sincero? Tenho sido obediente aos meus pais, respeitando-os e ajudando-os em suas necessidades materiais e espirituais? Tenho me preocupado pela educação cristã de meus filhos, ajudando-os com o bom exemplo e autoridade paterna? Tenho sido fiel a meu esposo ou esposa em meus desejos e relações com os outros?
  3. Tenho dividido os meus bens com os mais pobres do que eu? Tenho feito o possível para defender os oprimidos, socorrer os necessitados e ajudar os pobres? Ou, pelo contrário, tenho desprezado o próximo, sobretudo os pobres, os doentes, os anciãos, os estrangeiros e os homens de outra raça?
  4. Tenho me lembrado da missão recebida na confirmação? Tenho participado das obras de apostolado e caridade da Igreja e da paróquia? Tenho prestado minha ajuda à Igreja e ao mundo e rezado pelas suas necessidades, como, por exemplo, a união dos cristãos, a evangelização dos povos e o reinado da paz e da justiça etc.?
  5. Tenho me preocupado com o bem e o progresso da comunidade em que vivo, ou somente com minhas vantagens pessoais? Tenho participado, de acordo com minhas possibilidades, na promoção da justiça, da honestidade dos costumes, da concórdia, da caridade e tenho cumprido meus deveres cívicos? Tenho pago os impostos?
  6. Tenho sido justo, responsável e honesto em meu trabalho ou profissão, servindo com amor a sociedade? Tenho remunerado os operários e aqueles que servem, com justo salário? Tenho cumprido meus compromissos e contratos?
  7. Tenho obedecido às autoridades constituídas e as respeitado?
  8. Uso meus cargos ou autoridade para meu interesse pessoal ou para o bem dos outros?
  9. Tenho sido leal e verdadeiro? Ou tenho prejudicado os outros com palavras falsas, calúnias, detrações, juízos temerários, violação de segredo?
  10. Tenho prejudicado a vida, integridade física, fama, honra ou bens do próximo? Tenho aconselhado ou praticado aborto? Tenho odiado o próximo? Tenho me afastado do próximo por desentendimento, inimizade, ou injúrias? Tenho me recusado, por culpa ou egoísmo, a dar testemunho da inocência do próximo?
  11. Tenho roubado, prejudicado ou desejado injustamente os bens do próximo? Tenho procurado restituir o alheio e reparar o dano?
  12. Tenho estado pronto para perdoar ou fazer as pazes, por amor de Cristo? Ou tenho guardado ódio ou desejos de vingança?

III. O Senhor Jesus Cristo diz: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”.

  1. Qual é a orientação fundamental de minha vida? Estou animado pela esperança da vida eterna? Tenho me esforçado por progredir na vida espiritual, por meio da oração,da leitura da Palavra de Deus, da participação nos Sacramentos e na mortificação? Estou disposto a reprimir os vícios, as más inclinações e paixões, como a inveja e a gula? Tenho sido soberbo e vaidoso, menosprezando os demais e julgando-me superior a eles? Tenho sido presunçoso diante de Deus? Tenho imposto aos demais minha vontade, sem respeitar a liberdade e os direitos alheios?
  2. Que uso tenho feito do tempo, das forças e dos dons recebidos de Deus como os “talentos do Evangelho”? Tenho feito uso destas coisas para buscar a perfeição, ou tenho sido ocioso e preguiçoso?
  3. Tenho suportado com paciência as dores e contrariedades da vida? Como tenho mortificado meu corpo para completar “o que falta à paixão de Cristo”? Tenho observado a lei da abstinência e do jejum?
  4. Tenho cuidado de meus sentidos, guardando meu corpo casto como templo do Espírito Santo, destinado à ressurreição e à glória, e como sinal do amor que Deus tem pelo homem e a mulher, simbolizado plenamente no sacramento do matrimônio? Tenho manchado meu corpo com más ações, palavras e pensamentos impuros? Tenho consentido em maus desejos? Tenho-me entregue a leituras, conversações, espetáculos e diversões desonestas? Tenho sido causa, com meu exemplo, do pecado dos outros? Tenho observado a lei moral no uso do matrimônio?
  5. Tenho agido contra minha consciência por temor ou hipocrisia?
  6. Tenho procurado agir sempre na verdadeira liberdade dos filhos de Deus, segundo a lei do Evangelho, ou tenho sido escravo de minhas paixões?

C. Rito da Penitência

O penitente se aproxima para confessar os pecados e, juntamente com o sacerdote, faz o sinal da cruz, dizendo:

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

O sacerdote exorta o penitente à confiança em Deus com estas palavras ou outras semelhantes:

O Senhor esteja em teu coração, para que arrependido(a), confesses os teus pecados.

O penitente responde: Amém.

O penitente confessa os seus pecados.

Em seguida, a convite do sacerdote, o penitente faz o ato de contrição, com estas palavras ou outras semelhantes:

Senhor, eu me arrependo sinceramente de todo o mal que pratiquei e do bem que deixei de fazer. Pecando, eu vos ofendi, meu Deus, sumo bem, digno de ser amado sobre todas as coisas. Prometo firmemente, ajudado(a) por vossa graça, fazer penitência, não mais pecar e fugir às ocasiões de pecado. Senhor, tende piedade de mim, pelos méritos da paixão de nosso Salvador, Jesus Cristo.

O Sacerdote, com as mãos estendidas sobre a cabeça do penitente (pelo menos a mão direita), diz a fórmula da absolvição, conforme se encontra no Ritual da Penitência.

Depois da absolvição, o sacerdote diz:

Dai graças ao Senhor, porque ele é bom.

O penitente responde:

Porque a sua misericórdia é eterna.

O sacerdote despede o penitente reconciliado, dizendo:

O Senhor perdoou os teus pecados. Vai em paz.