Introdução ao Eclesiástico

Este livro foi transmitido nas bíblias grega, latina e siríaca, mas não figura no cânon hebraico. Entretanto, ele foi composto em hebraico; Jerônimo diz tê-lo conhecido em sua língua original e alguns rabinos, até o século IV, o citaram: o Talmude conserva seu testemunho. Aproximadamente dois terços desse texto hebraico, perdido há séculos, foram reencontrados, desde 1896, em seis manuscritos medievais fragmentários, provenientes de uma antiga sinagoga do Cairo. Mais recentemente, alguns fragmentos saíram das grutas de Qumrã e, em 1964, foi descoberta em Massada uma cópia igualmente fragmentária (39,27-44,17) numa escritura do início do século I a.C. As variantes de um testemunho para outro e em relação às traduções grega, latina e siríaca indicam que o livro muito cedo conheceu diversas recensões.

No início do século II a.C. Jesus Ben Sirá, mestre de sabedoria em Jerusalém — ver as subscrições de 50,27 e 51,30 — reuniu em um livro o melhor de seu ensinamento, ver Prólogo 7-14. Seu neto, que chegou ao Egito muito provavelmente em 132 a.C., empreendeu a tradução em grego da obra de seu avô, ver Prólogo 27s. Esta tradução continua sendo o melhor testemunho do livro de Ben Sirá; ela foi transmitida pelos três principais manuscritos, o Vaticano, o Sinaítico e o Alexandrino, que formam o que se chama de “texto recebido”.

Entretanto, o livro conheceu, provavelmente desde o século I a.C., uma revisão e a inserção de numerosas adições. Esta segunda edição, com efeito, deixou marcas nos fragmentos hebraicos reencontrados e na versão siríaca Peshitta, mas ela é sobretudo transmitida em muitos manuscritos gregos, que são designados aqui pela sigla Gr II, e na antiga versão latina que passou na Vulgata.

A Igreja recebeu e conservou as duas edições do livro de Ben Sirá: os Padres gregos citam tanto uma como a outra, os Padres latinos utilizam normalmente o texto longo. A Igreja reconhece este livro como canônico, sem precisar sua língua e sem excluir a segunda edição.

A tradução que é dada aqui segue a versão grega estabelecida pelo neto de Ben Sirá: é atualmente o testemunho mais seguro do original. As notas indicam as passagens onde nos separamos dela. Todavia, seguindo a edição crítica de J. Ziegler em 1965, inserimos em seu lugar no texto, mas em caracteres itálicos, as adições da segunda edição transmitidas pelos manuscritos gregos. Algumas outras adições e variantes transmitidas em hebraico, em latim ou em siríaco são trazidas em notas. A ordem dos capítulos é a do texto hebraico e das versões latina e siríaca, enquanto todos os manuscritos gregos colocam 33,16b-36,13a antes de 30,25-33,16a: na margem foi indicada a numeração grega desses capítulos.

O título do livro em grego é dado na subscrição de 51,30: “Sabedoria de Jesus, filho de Sirá”, Seu título latino Ecclesiasticus (Liber) aparece já em são Cipriano no século III: ele salienta sem dúvida o uso oficial que a Igreja dele fazia; esse título foi mantido aqui.

O autor se chama em hebraico Ben Sirá e, em grego o Sirácida, segundo a forma grega Sirac. Nascido provavelmente no meio do século III a.C., ele viu Jerusalém passar da dominação dos Lágidas à dos Selêucidas em 198 a.C.; conheceu o sumo sacerdote Simão, o Justo (50,1-20) que morreu após 200 a.C.

Nessa época, a helenização, com a adoção de costumes estrangeiros, era favorecida por uma parte da classe dirigente; a essas novidades ameaçadoras, Ben Sirá opõe todas as forças da tradição. Ele é escriba que une o amor da Sabedoria ao amor da Lei (24): para ele, a revelação bíblica é sabedoria autêntica que não deve se envergonhar diante da sabedoria da Grécia. Está cheio de fervor pelo Templo e suas cerimônias, cheio de respeito pelos sacerdócio herdado de Aarão e de Sadoc, mas também está alimentado pelos livros santos, sobretudo os livros sapienciais anteriores.

Quando seu neto traduz sua obra, a situação já havia mudado. O sacerdócio não é mais hereditário, mas é comprado (2Mc 4). Pior ainda, Antíoco IV Epífanes (175-163) quis impor o helenismo pela força e o Templo foi profanado, provocando a revolta dos Macabeus (2Mc 5-6). O tradutor leva em conta esse novo estado de coisas (cf. 50,24).

Menos de um século mais tarde, sob a pressão dos acontecimentos, certas ideias religiosas evoluíram, especialmente no que se refere ao destino humano e à retribuição. Ben Sirá e seu neto têm as mesmas incertezas que Jó e o Eclesiastes (cf. 7,17+.36; 17,23; 40,3-4; 50,24). Eles creem na retribuição, sentem a importância trágica da morte, mas não sabem ainda de que modo Deus devolverá a cada um segundo seus atos. A nova luz aparece em algumas adições, cujos autores são desconhecidos; sua teologia se assemelha à dos fariseus e dos essênios (cf. 12,6; 16,22; 19,19; os acréscimos latinos a 24,22.32 e o acréscimo siríaco a 1,22). O amor para com o Senhor faz também mais explicitamente parte da atitude religiosa (1,10.18; 11,15; 17,18; 24,18; 25,12).

Em sua forma, o livro está na linha de seus predecessores e de seus modelos. Seu estilo põe em ação todos os recursos da poética dos sábios. Encontra-se em Ben Sirá o provérbio ou uma sequência de provérbios sem clara ligação entre si, como nas coletâneas antigas do livro dos Provérbios (10s). Mais frequentemente, porém, expõe seu ensinamento em passagens mais desenvolvidas nas quais uma argumentação serve de arcabouço; nisso se aproxima de Pr 1-9, de Jó e de Ecl. Embora não dê a seu livro estrutura fechada, como Jó, Ecl ou Sb, reúne frequentemente diversas perícopes que formam assim verdadeiros pequenos tratados; assim 14,11-16,22 e 16,24-18,14, sobre a liberdade, o pecado, a conversão e a entrega à misericórdia divina; 22,27-23,6 é prece que abre uma lição sobre o bom uso da palavra e sobre a luxúria; 25-26 refere-se ao matrimônio; 34,18-36,17 trata do ato cultual autêntico e da prece do pobre; 36,18-37,26 insiste no discernimento na escolha de relações privilegiadas.

Ademais, a maior parte da obra não oferece estrutura fechada; damos-lhe aqui o título de coleção de sentenças (1,1-42,14). Entretanto, algumas passagens consagradas à Sabedoria (1,1-10; 4,11-19; 6,18-26; 14,20-15,10; 24), dão o ritmo à primeira metade enquanto outras, centradas no sábio (24,30-24; 37,16-26; 39,1-11), escandem a segunda. Os últimos capítulos do livro cantam de modo bem mais homogêneo a Glória de Deus na natureza (42,15-43,33), e na história (44-50). O capítulo final une uma ação de graças depois da provação (51,1-12; cf. 2), e o último retrato do sábio (51,13s, cujo início foi reencontrado em hebraico em Qumrã); cf. 1.

A doutrina de Ben Sirá é uma retomada mas sapiencial, de toda a tradição bíblica anterior (cf. 39,1). A Sabedoria é o seu centro: dom de Deus sempre oferecido aos que escolheu e experimentou, ela cumula de bens aquele que a acolhe docilmente e faz do sábio um portador de Sabedoria. De fato, a Sabedoria de Deus se manifestou em Israel, e a Lei, compreendida como a revelação bíblica, é sua melhor expressão (24,23). A condição para receber a Sabedoria é o temor de Deus, atitude de veneração e até de amor (2,15-16), pela qual o homem se abre ao dom de Deus e se submete aos apelos de sua Lei (1,11-30; 2; 10,19-25; 25,7-11; 40,18-27).

Sobre estas bases, Ben Sirá salienta tudo o que faz o homem realizado. O domínio de si é característica fundamental, de início nas relações interpessoais. Insistirá no controle necessário da palavra (18,15-20,21; 21,1-22,26; 22,27-23,1.7-15; 28,13-26). Escrevendo para jovens, recorda os perigos da luxúria que destroem o matrimônio (9,1-9; 23,2-6.16-27; 36,27-31; 42,12-14); aprecia a harmonia conjugal, mas também descreve com severidade as misérias do casal mal combinado (25,1-26,27). Elogia a amizade e relembra suas condições (6,5-17; 12,8-18; 22,19-26; 27,16-21; 37,1-6). Com mais sensibilidade, ele convida a ajudar o próximo, em particular os pobres (3,30-4,10; 7,32-36; 18,15-18; 29,1-20). Para ele, o orgulho não é digno (3,26-28; 10,7-18); a riqueza tem seus riscos e, de per si, não torna sábio (5,1-7; 31,1-11). Entre as virtudes, recomenda a humildade (3,17-24; 10,26-11,6), a confiança apenas em Deus (2; 11,12-28), ele chama à conversão (17,25-32; 21,1-3), ao perdão (27,28-28,7). Para ele, o ato cultual, o sacrifício, caminha a par da justiça (34,18-35,24), e na provação somente o Senhor salva (2; 36,1-22).

Ben Sirá mostrou a ligação que une a Sabedoria à revelação bíblica (24). Nesta linha, é o primeiro a reler a História santa, de Adão a Neemias, aos quais acrescenta o sumo sacerdote Simão (44-50). Essa galeria dos antepassados, segundo sua ordem cronológica, oferece apenas modelos: com exceção de Davi, Ezequias e Josias, os reis são condenados, como já o fazia 1-2 Rs. Por outro lado, o lugar de honra volta ao sacerdócio aaronita. Nesses heróis vê os que asseguraram até sua época a permanência da Sabedoria autêntica. A respeito de um ponto, todavia, a tradição antiga não encontra nele nenhum eco: ele conhece a promessa feita a Davi (45,25; 47,11), mas a espera do messias não o anima (cf. 24,24+; 36,20-22).

Ben Sirá é o último testemunho canônico da sabedoria bíblica na Terra Santa. É o representante por excelência dos hassidim, esses “piedosos” do judaísmo (cf. 1Mc 2,42+), que logo defenderão sua fé na perseguição de Antíoco IV Epífanes e que manterão em Israel núcleos fiéis em que germinará a pregação de Cristo.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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