Introdução à Sabedoria de Salomão

Muitas vezes chamado simplesmente Livro da Sabedoria na tradição latina, este livro foi escrito inteiramente em grego, mesmo seus primeiros capítulos, para os quais alguns supuseram erradamente um original hebraico ou aramaico. Ele não faz portanto parte do cânon hebraico. Os Padres o utilizaram desde o século II e, apesar das hesitações e certas oposições, em particular a de são Jerônimo, ele foi incluído no cânon da Igreja católica.

Em uma primeira parte (1-6), o autor anônimo convida seus leitores a buscar a Sabedoria fugindo do mal, pois o homem foi criado para a imortalidade de que ela é garantia (1; 6). Duas vezes ele dá a palavra aos ímpios: estes expõem primeiro sua concepção da existência e seu projeto de uma vida de fruição que os levará a perseguir o justo (2), mas, para além da morte, eles confessarão seu erro quando virem a glória do justo, antes de serem aniquilados pelo Senhor (5). A felicidade final dos justos, a quem faltara cá embaixo a tríplice bênção da felicidade, da fecundidade ou de uma longa vida, é comparada à sorte infeliz dos ímpios (3-4). Este longo prólogo literariamente muito trabalhado toma emprestado mais de um elemento à investigação judiciária e aos processos.

Anunciada no fim da primeira parte (6,22-25), a segunda dá a palavra a Salomão, atrás do qual o autor se esconde; ele explica por que e como desejou em sua juventude obter a Sabedoria e quais benefícios dela recebeu (7,1-22a; 8,2-21). No centro desta parte (7,22b-8,1), o autor procede então ao elogio da Sabedoria da qual canta a natureza de uma pureza absoluta, a origem em Deus e a ação benéfica. Mas, uma vez que a Sabedoria só pode ser recebida de Deus, ele renova a prece que Salomão dirigiu ao Senhor no início de seu reinado (9; cf. 1Rs 3,6-14).

Atraída pelo fim da prece, a terceira parte recorda inicialmente como a Sabedoria salvou os heróis do Gênesis e do Êxodo (10). Segue então uma longa meditação em forma de prece na qual as pragas infligidas aos egípcios são comparadas aos benefícios que o Senhor concedeu a seu povo no deserto (11,1-14; 16-19). Sete paralelos, procedimento grego visando a convencer, são assim estabelecidos. Entretanto as diversas pragas provocadas por animais dão ao autor a ocasião de meditar sobre a misericórdia universal do Senhor (11,15-12,27), até para aqueles que praticavam a zoolatria, a mais abjeta das religiões pagãs (13-14).

Dessa forma, a unidade de composição acompanha a da língua, ágil e rica, para se verter com arte nas formas da retórica acadêmica do mundo greco-romano, utilizando, sobretudo na terceira parte, procedimentos próprios ao midraxe da tradição judaica.

O autor é considerado ser Salomão. Dirige-se, sem se denominar, a seus colegas na realeza (1,1; 6,1-11.21); chegando ao ápice de sua glória, evoca o tempo em que ainda jovem, assumindo a realeza, pediu ao Senhor coração sábio e inteligente para governar; fala então como um rei (7,5; 8,9-15), e relembra sua vocação de rei, de juiz e de construtor do Templo (9,7-8.12). Mas é artifício literário evidente, que coloca este escrito de sabedoria, como o Eclesiastes ou o Cântico dos Cânticos, sob o patronato do mais célebre dos sábios de Israel.

O autor real é certamente judeu, cheio de fé no “Deus dos Pais” (9,1), orgulhoso de pertencer ao “povo santo”, à “raça irrepreensível” (10,15), mas é judeu helenizado. Sua insistência nos acontecimentos do Êxodo, a antítese que constrói entre egípcios e israelitas, sua crítica à zoolatria, provam que morava em Alexandria, que se tornara ao mesmo tempo capital do helenismo sob os Ptolomeus e grande cidade judaica da Diáspora. Cita a Escritura segundo a tradução da Setenta, feita naquele meio: ele, portanto, lhe é posterior, mas não conhece a obra de Fílon de Alexandria (20 a.C. — 54 d.C.). Por sua vez, este filósofo grego não parece inspirar-se nunca na Sabedoria de Salomão. Todavia, alguns termos utilizados em Sabedoria, não eram correntes senão a partir do reinado do imperador Augusto e 14,22 ironiza provavelmente sobre a Pax romana. O livro pode, portanto, ter sido escrito durante os últimos decênios do século I antes de nossa era: é o mais recente dos livros do Antigo Testamento.

O autor se dirige aos seus compatriotas judeus, e muito particularmente à juventude judaica que amanhã deverá governar a comunidade. A evocação do jovem Salomão toma então todo o seu sentido. A fidelidade desta juventude corre perigo, com efeito, de ser abalada pelos prestígios da civilização alexandrina: o esplendor das escolas filosóficas, o desenvolvimento das ciências, o apelo das religiões mistéricas, da astrologia, da magia, ou a atração sensível dos cultos populares, como o de Ísis.

Dado o ambiente, a cultura e as intenções do autor, não é estranho que se observem em seu livro numerosos contatos com o pensamento grego. À sua formação helenística, deve certamente um vocabulário abstrato e aquela facilidade de raciocinar que o léxico e a sintaxe hebraica não permitiriam; deve-lhe também esquemas de classificação, temas acadêmicos e até um gênero literário que toma de empréstimo à retórica. Mas tais empréstimos são limitados e não significam adesão a uma doutrina intelectual; eles veiculam um pensamento que se alimenta da Bíblia. Dos sistemas filosóficos ou especulações da astrologia nada mais sabe do que um homem culto de sua época, enquanto, nele, o pensamento bíblico marca progressos reais.

A primeira parte do livro afirma que Deus criou o homem incorruptível (2,23): a imortalidade é seu destino, a morte é o fruto do mal. Daí uma vida terrestre de sofrimento, mas vivida santamente, terá sua recompensa junto do Senhor, enquanto a impiedade levará seus partidários à aniquilação de seus sonhos e à sua destruição. Assim a questão da retribuição, que preocupava tantos sábios, recebe aqui uma solução. O autor não fala de ressurreição corporal, mas talvez a vise implicitamente.

A segunda parte trata da Sabedoria e do sábio. A Sabedoria é compreendida como a presença imanente do Deus transcendente da revelação bíblica, presença benfazeja no mundo do qual assegura a coerência, ao qual dá sentido, presença de graça no coração dos que a desejam, os profetas e os amigos de Deus. Esta Sabedoria de Deus, assimilada a seu espírito (9,17), deve ser desejada pelo sábio (7,7-10), e ele deve já vibrar de amor em relação a ela (8,2.9.18), mas ela, da qual ele experimenta a necessidade, só pode ser recebida de Deus; é preciso, pois pedi-la a ele (8,21): daí a prece (9), na qual o pedido reiterado da Sabedoria justifica-se pela grandeza da vocação comum a todo homem e da própria do sábio, enquanto a fraqueza e nosso corpo nos deixam pesados. O passo para a frente é feito aqui no sentido da interioridade e de uma espiritualização, ainda inábil, do conceito de Sabedoria. As fórmulas de 7,25-26 serão frequentemente retomadas pelos Padres a propósito de Cristo, Verbo encarnado.

A terceira parte liga-se sobretudo ao acontecimento fundador de Israel, o Êxodo. O Senhor aí se manifestou salvador de seu povo: ele o libertou dos ímpios e até de suas próprias faltas por meio de realidades tangíveis, cósmicas, sendo o maná a mais nobre (16,24-29). É assim que fez seus fiéis passarem da morte para a vida (16,13-14). Resumindo essa experiência inicial de Israel (19,10-12.18-21), o autor reconhece no maná um alimento de imortalidade (19,21+). Ora, o que o Senhor fez nas origens de seu povo, utilizando as forças deste mundo para salvá-lo, ele não deixa jamais de fazer de novo (19,22). Daí esta terceira parte esclarecer a primeira: o Êxodo funda a fé do autor em um Deus que salvará os justos, assegurando-lhes a vida; nessa vida, os elementos do mundo renovado constituem uma criação nova (16,24; 19,6), que deixa entrever a ideia de uma ressurreição corporal.

Nesta obra, tão solidamente pensada, a fidelidade na prova e a busca apaixonada da Sabedoria apoiam-se sobre a meditação orante do Êxodo para afirmar a felicidade dos justos junto de Deus para além da morte. Este livro atrai cada vez mais os leitores atuais; até os últimos capítulos, tão diferentes de nossos modos de pensar, chamam atualmente a atenção dos leitores familiares aos processos midráxicos do judaísmo antigo.

O texto grego do manuscrito Vaticano, do século lV, serviu de base para a presente tradução; é aquele que é indicado pela expressão “texto recebido”. A sigla, Lat. representa a antiga versão latina Ítala, passada para a Vulgata, mas não revista por são Jerônimo.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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