Introdução ao Cântico dos Cânticos

O Cântico dos Cânticos, isto é, o Cântico por excelência, o mais belo Canto, celebra o amor mútuo de um Amado e de uma Amada, que se juntam e se perdem, se procuram e se encontram. O Amado é chamado “rei” (1,4.12) e “Salomão”, isto é, “o Pacífico” (3,7.9); a Amada é chamada “a Sulamita, a Pacificada” (7,1), “aquela que encontrou a paz” (8,10). Aproximou-se o nome “Sulamita” da Sunamita que aparece na história de Davi e Salomão (1Rs 1,3; 2,21-22). Como a tradição sabia que Salomão tinha composto cânticos (1Rs 5,12), foi-lhe atribuído este cântico no superlativo, de onde o título do livro (1,1), como também lhe foram atribuídos, pelo fato de ser sábio, os Provérbios, o Eclesiastes e a Sabedoria. Por causa do título, colocou-se o Cântico na Bíblia grega entre os livros sapienciais depois do Eclesiastes; na Vulgata, entre o Eclesiastes e a Sabedoria. Na Bíblia hebraica, o Cântico é colocado entre os “escritos” que formam a terceira e a mais recente parte do cânon judaico. Pelo século V da nossa era, quando o Cântico foi utilizado na liturgia judaica pascal, ele se tornou um dos cinco “megillôt “, ou rolos, que eram lidos nas grandes festas.

Este livro, que emprega a linguagem de amor apaixonado, causou espanto. O nome de Iahweh só aparece nele sob forma abreviada, lah, em 8,6, “uma chama de Iah(weh)”. No século I de nossa era, os judeus cantavam o Cântico nas festas profanas de casamento e continuaram a fazê-lo, malgrado a interdição feita por Rabbi Aqiba. Nos meios judaicos, foram levantadas dúvidas sobre a canonicidade do Cântico e foram resolvidas pelo apelo à tradição. É fundando-se sobre esta que a Igreja cristã recebeu sempre o Cântico como Escritura santa.

Não há livro no Antigo Testamento do qual tenham sido propostas interpretações mais divergentes.

Procurou-se a origem do Cântico no culto de Ishtar e de Tamuz e nos ritos antigos de matrimônio divino, de hierogamia cultual, que se supõem realizados pelo rei, substituto de deus. Tal ritual, tomado dos cananeus, teria sido praticado também no culto de Iahweh, e o Cântico seria o livrete expurgado e demitizado dessa liturgia. Essa teoria cultual e mitológica é inaceitável, pois é impossível imaginar um crente israelita que copiasse essas produções de uma religião da fecundidade, tantas vezes denunciada por todos os profetas (Is 7,10; Jr 7,18; Ez 8,14; Zc 12,11), a fim de tirar dela cantos de amor. Se há semelhança de expressões entre os hinos a Ishtar ou a Tamuz e o Cântico, é porque uns e outros falam a linguagem do amor.

A interpretação alegórica tornou-se comum entre os judeus a partir do século II de nossa era: o amor de Deus por Israel e o do povo por seu Deus são representados como as relações entre dois esposos. É o tema da alegoria nupcial que os profetas longamente desenvolveram a partir de Oseias. Os autores cristãos, sobretudo sob a influência de Orígenes e malgrado a oposição individual de Teodoro de Mopsuéstia, seguiram a mesma linha da exegese judaica, mas a alegoria tornou-se para eles a das núpcias de Cristo e da Igreja ou da união mística da alma com Deus. Muitos comentadores católicos modernos se atêm ao tema geral de Iahweh esposo de lsrael, ou então procuram encontrar na sequência do Cântico a história das conversões de Israel, de suas desilusões e de suas esperanças. O caráter inspirado e canônico do Cântico parece-lhes exigir que cante coisa diferente do amor profano. Com efeito, o poeta parece retomar frequentemente a linguagem profética da Aliança, como na expressão “procurar, encontrar” (3,1-2), e sua obra apresenta muitos contatos com o Salmo 45, que propõe os mesmos problemas de interpretação. Por outro lado, dois escritos apócrifos do século I de nossa era parecem depender do Cântico: em “A vida de Adão e de Eva”, escrito. anterior ao ano 70 d.C., mencionam-se o nardo, o açafrão, o cálamo, o cinamomo (cf. Ct 4,14), falando de Eva e de Set; no “Quarto livro de Esdras” (fim do século I) sucedem-se as imagens da vinha, da pomba e do lírio, como em Ct 1,14-2,1.

Para muitos exegetas, o Cântico seria uma coletânea de cânticos que celebram o amor mútuo e fiel que sela o matrimônio. Ele proclama a legitimidade exalta o valor do amor humano; e o assunto não é somente profano, uma vez que Deus abençoou o matrimônio, entendido menos como um meio de procriação do que como associação afetuosa e estável do homem e da mulher (Gn 2; Pr 2,17; 5,18; 31,10; MI 2,14; Eclo 26). Sob a influência do javismo, a vida sexual que o meio cananeu concebia à imagem das relações entre divindades da fecundidade, é aqui demitizada e considerada com realismo sadio. O mesmo amor humano é acessoriamente o assunto de outros livros do Antigo Testamento, como nas antigas narrativas do Gênesis, na história de Davi e no livro de Tobias; ele é então tratado do mesmo modo e frequentemente com expressões muito próximas das do Cântico; sua honestidade justifica a transferência que os profetas dele fazem para as relações de Iahweh e de Israel. Dessa forma o Cântico tira do amor do homem e da mulher as constrições do puritanismo, bem como as licenças do erotismo. Tal seria o sentido literal desse escrito, que legitima sua classificação entre os livros sapienciais: como eles, o Cântico se preocupa com a condição humana e nela considera um de seus aspectos vitais.

Todavia, pode-se falar aqui de uma simples coletânea de cantos de amor, de uma espécie de repertório de circunstância para a celebração de matrimônios (cf. Jr 7,24; 16,9)? Invocam-se aproximações com as cerimônias e os cantos de núpcias dos árabes da Síria e da Palestina. Citam-se os elogios físicos do Amado e da Amada, semelhantes ao wasf “descrição” da poesia árabe. Aproximam-se sobretudo os cantos de amor da poesia egípcia, obras literárias que evocam em todo o lugar, como o Cântico, as flores, os perfumes, as vestes, os jardins, e em que o amante chama sua bem-amada de “minha irmã”. Tais peças são variações sobre um mesmo tema, o que explica o fato de haver aí numerosas duplicatas; elas não eram destinadas a ser recitadas ou cantadas todas em seguida. O autor do Cântico, como hábil letrado, inspirar-se-ia nesses poemas egípcios, conhecidos há muito tempo em Israel, mas não seguiria plano definido. É preciso, por outro lado, lembrar-se de que a linguagem do amor utiliza em todo lugar as mesmas imagens e as mesmas hipérboles.

Pode-se ir mais longe? A intenção do autor se revelaria desde o início em alguns traços referentes ao Egito: a égua atrelada aos carros do Faraó (1,9), a tez morena da jovem (1,3), que aplica a si própria o nome de “lótus” (2,1), palavra hebraica tomada do egípcio sshshn. Dada a paronomásia “Salomão/Sulamita” (7,1), somos levados a evocar o matrimônio de Salomão e da filha do Faraó (1Rs 3,1; 7,8; 9,16.24; 2Cr 8,11). Esse episódio estaria portanto na base do livrete do Cântico; ele explicaria o lugar central ocupado pela personagem de Salomão, particularmente por ocasião da descrição de seus esponsais (3,6s). Além disso, o poeta hebraico gosta de multiplicar, desde o prólogo, as paronomásias e as aliterações em tomo do nome de Salomão. Não seria para atrair a atenção dos ouvintes, no início de sua obra, sobre a personalidade do filho de Davi, tipo do messias pacífico, tão esperado por Israel na época do segundo Templo? Com efeito, há acordo em situar o Cântico nesse período, por causa dos aramaísmos, da presença de uma palavra grega (3,9) e de uma palavra persa (4,13), sem falar de diversos arcaísmos. O lugar de composição é certamente a Palestina; o Cântico encerra numerosos nomes geográficos relacionados com a Terra Santa, e por outro lado causa espanto vê-los figurar em tal poesia amorosa. A menção da cidade de Tersa (6,4), por exemplo, explica-se pela significação desse nome: “agradável, prazerosa”. O poeta poria portanto em cena o novo Salomão, rei de Israel e figura messiânica, com sua noiva de origem pagã, na Sião futura dos tempos novos. Seus cantos de amor tomariam assim a conotação universalista e messiânica. Algumas expressões enigmáticas, como os montes de Beter (2,17) ou os carros de Aminadib (6,12), poderiam então ser interpretadas em contexto bíblico.

Tal hipótese encontrar-se-ia confirmada pela presença de diversos refrães, de numerosas repetições, de palavras-gancho, que asseguram ao conjunto do livro, aparentemente tão fragmentário, certa unidade literária que permite discernir uma dezena de poemas, enquadrados por um prólogo (1,1-4) e um epílogo (8,5-7), seguido de acréscimos (2,6-7 e 8,3-4), formam uma grande inclusão.

Por fim, a interpretação aqui proposta permitiria aplicar o Cântico às relações do Cristo Jesus com sua Igreja Ou em particular com cada um dos crentes. Assim se justificaria o uso admirável que dele fizeram os místicos cristãos, como São João da Cruz.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s