Introdução ao Eclesiastes

Este pequeno livro se intitula “Palavras de Coélet, filho de Davi, rei em Jerusalém”. A palavra “Coélet” (cf. 1,2.12; 7,27; 12,8-10) não é um nome próprio, e sim um substantivo comum usado às vezes com artigo; embora feminino em sua forma, constrói-se com o masculino. Conforme a explicação mais verossímil, é um nome de ofício e designa aquele que fala na assembleia (qahal, em grego ekklesia; daí os títulos latino e português, transcritos da Bíblia grega), numa palavra, “o Pregador”. É chamado “filho de Davi e rei em Jerusalém” (cf. 1,12) e, embora o nome não seja mencionado, ele é certamente identificado com Salomão, ao qual o texto com certeza faz alusão em 1,16 (cf. 1Rs 3,12; 5,10-11; 10,7) e 2,7-9 (cf. 1Rs 3,13; 10,23). Mas essa atribuição não passa de mera ficção literária do autor, que põe suas reflexões sob o patrocínio do mais ilustre dos sábios de Israel. A linguagem do livro e sua doutrina, da qual falaremos a seguir, impedem de situá-lo antes do Exílio. Muitas vezes se tem contestado a unidade de autor e distinguido duas, três, quatro e até oito mãos distintas. Mas muitas incoerências se explicam quando se discerne certo número de citações feitas por Coélet e, a seguir, criticadas por ele. O epílogo (12,9-14) é devido a duas mãos distintas; uma (9-11) é a de um discípulo fervoroso; a segunda (12-14), de um judeu piedoso que exorta a temer a Deus e a observar seus mandamentos.

Como em outros livros sapienciais, Jó e Eclesiástico, p. ex., para não falar em Provérbios que é um livro compósito, o pensamento vai e vem, repete-se e corrige-se. Não há um plano definido; mas trata-se de variações sobre tema único, a vaidade das coisas humanas, que é afirmada no começo e no fim do livro (1,2 e 12,8). Tudo é decepcionante: a ciência, a riqueza, o amor, até a vida. Esta não é mais do que uma série de atos incoerentes e sem importância (3,1-11), cujo fim é a velhice (12,1-7) e a morte, a qual atinge igualmente sábios e néscios, ricos e pobres, animais e homens (3,14-20). O problema de Coélet é o de Jó: o bem e o mal têm sua sanção aqui na terra? E a resposta de Coélet, como a de Jó, é negativa, pois a experiência contradiz as soluções correntes (7,25-8,14). Só que Coélet é homem de boa saúde e não pergunta, como Jó, pelas ‘razões do sofrimento, e se consola gozando das modestas alegrias que a existência pode dar (3,12-13: 8,15; 9,7-9). Digamos, antes, que procura consolar-se, pois vive totalmente insatisfeito. O mistério do além o atormenta, sem que ele vislumbre uma solução para o problema do Xeol (3,21; 9,10; 12,7). Mas Coélet é homem de fé e, embora se desconcerte com o rumo que Deus dá aos assuntos humanos, afirma que Deus não tem de prestar contas (3,11.14; 7,13), que se devem aceitar de sua mão tanto as provações como as alegrias (7,14; cf. 1Sm 2,6; Jó 2,10). Tanto a Coélet, como a Jó, só se pode dar uma resposta mediante a afirmação de uma sanção de além-túmulo (cf. Introdução aos livros sapienciais).

O livro tem o caráter de obra de transição. As certezas tradicionais são abaladas, mas por enquanto nada de seguro as substitui. Nesta encruzilhada do pensamento hebraico, procurou-se discernir as influências estrangeiras que teriam agido sobre Coélet. É preciso recusar as aproximações muitas vezes propostas com as correntes filosóficas do estoicismo, epicurismo e cinismo, que Coélet teria podido conhecer por intermédio do Egito helenizado; nenhuma dessas aproximações é convincente, e a mentalidade do autor se distancia muito da dos filósofos gregos. Estabeleceram-se paralelos, mais válidos ao que parece, com certas obras egípcias como o Diálogo do desesperado com sua alma ou os Cantos do harpista e mais recentemente, com a literatura mesopotâmica de sabedoria e com a Epopeia de Gilgamesh, em que já figura o provérbio “a corda tripla não se rompe” (cf. 4,12), assim como a exortação ao carpe diem (cf 9,7ss). Mas não se consegue demonstrar a influência direta de nenhuma dessas obras. Os contatos se dão em temas que são por vezes muito antigos e que se haviam tornado patrimônio comum da sabedoria oriental. Foi sobre esta herança do passado que Coélet exerceu sua reflexão pessoal, como o diz seu editor (12,9).

Coélet era judeu da Palestina, provavelmente de Jerusalém. Escreve em hebraico tardio, repleto de aramaísmos e emprega dois termos persas (pardes, 2,5; pitgam, 8,11). Isso supõe uma data posterior ao Exílio, mas anterior ao começo do século II a.C., quando Ben Sirac se serviu desse livrinho; com efeito, a paleografia situa pelo ano 150 a.C. certos fragmentos de Ecl encontrados nas grutas de Qumrã. O século III é, pois, a data de composição mais verossímil. E o período em que a Palestina, submetida aos Ptolomeus, é atingida pela corrente humanista, sem conhecer ainda o despertar da fé e da esperança que ocorreu no tempo dos Macabeus.

O livro não representa mais do que um momento no progresso religioso e não deve ser julgado abstraindo daquilo que o precedeu e do que o seguirá. Sublinhando a insuficiência das concepções antigas e forçando os espíritos a enfrentar os enigmas humanos, abre caminho para revelação mais alta. Dá lição de desapego dos bens terrestres e, negando a felicidade dos ricos, prepara o mundo para entender que “bem-aventurados são os pobres” (Lc 6,20).


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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