Introdução aos Provérbios

O livro dos Provérbios é o mais típico da literatura sapiencial de Israel. Ele se formou em torno de duas coleções: 10,1-22,16, intitulada “Provérbios de Salomão” (375 sentenças), e 25-29, introduzida por “Também estes são provérbios de Salomão, transcritos pelos homens de Ezequias” (128 sentenças). A estas duas partes são acrescentados apêndices: à primeira, as “Palavras dos Sábios” (22,17-24,22 e “Também estes são dos Sábios” (24,23-34); à segunda, as “Palavras de Agur” (30,1-14), seguidas de provérbios numéricos (30,15-33) e as “Palavras de Lamuel” (31,1-9). Este conjunto é precedido de longa introdução (1-9), na qual um pai faz a seu filho recomendações de sabedoria e a própria Sabedoria toma a palavra. O livro termina com um poema alfabético, que louva a mulher perfeita (31,10-31).

A ordem das seções é indiferente, não é a mesma na Bíblia grega, e, no interior de cada uma, as máximas se agrupam sem plano algum e com repetições. O livro é, pois, uma coleção de coleções, enquadradas por um prólogo e um epílogo. Reflete evolução literária que já esboçamos na introdução geral aos livros sapienciais. As duas grandes coleções representam o mâshâl em sua forma primitiva e contêm apenas sentenças breves, geralmente de um só dístico. A fórmula torna-se já mais ampla nos apêndices; os pequenos poemas numéricos de 30,15-33 (cf. 6,16-19) ajuntam ao ensinamento o atrativo de apresentação enigmática, já conhecida na antiguidade (cf. Am 1). O prólogo (1-9) é sequência de instruções, interrompida por dois discursos da Sabedoria personificada, e o epílogo (31,10-31) é composição erudita.

Esta evolução da forma corresponde a uma sucessão no tempo. As partes mais antigas são as duas grandes coleções de 10-22 e 25-29. São atribuídas a Salomão que, no dizer de 1Rs 5,12, “pronunciou três mil sentenças” e que foi sempre considerado como o maior sábio de Israel. Abstraindo desse testemunho da tradição, o tom dos Provérbios é por demais anônimo para que se possa, com segurança, atribuir a esse rei esta ou aquela máxima determinada, mas não há razão para duvidar de que o conjunto remonte à sua época; as máximas da segunda coleção eram já antigas quando o pessoal de Ezequias as recolheu, por volta do ano 700. Como essas duas coleções formavam o núcleo do livro, deram-lhe seu nome: ele todo se chama “Provérbios de Salomão” (1,1). Mas os subtítulos das pequenas seções indicam que o título geral não deve ser tomado ao pé da letra, pois abrange também a obra de sábios anônimos (22,17-24,34) e as palavras de Agur e de Lamuel (30,1-31,8). Também se os nomes desses dois sábios árabes são fictícios e não pertencem a personagens reais, atestam o valor que se dava à sabedoria estrangeira. Prova clara desse valor fornecem-na certas “palavras dos Sábios” (22,17-23,11), que se inspiram nas máximas egípcias de Amenemope, escritas no começo do primeiro milênio antes da nossa era.

Os discursos de Pr 1-9 são compostos segundo o modelo das “Instruções”, que são um gênero clássico da sabedoria egípcia, mas também segundo o dos “conselhos de um pai a seu filho “, recentemente encontrados num texto acádico de Ugarit. Até a personificação da Sabedoria tem antecedentes literários no Egito, onde foi personificada Maat, a Justiça-Verdade. Mas a imitação não é servil: ela preserva a originalidade do pensador israelita e é transformada por sua fé javista. Pode-se com segurança datar de antes do Exílio toda a parte central do livro (caps. 10-29); a data dos caps. 30-31 é incerta. Quanto ao prólogo (1-9), certamente é mais tardio: seu conteúdo e seus vínculos literários com os escritos posteriores ao Exílio permitem fixar sua composição no século V a.C. Deve ter sido também nessa ocasião que a obra tomou a forma definitiva.

Como o livro representa assim vários séculos de reflexão dos Sábios, podemos acompanhar nele um progresso doutrinário. Nas duas coleções antigas predomina o tom de sabedoria humana e profana, que desconcerta o leitor cristão. Mesmo assim, um em cada sete provérbios já tem caráter religioso, Trata-se da exposição de uma teologia prática: Deus recompensa a verdade, a caridade, a pureza de coração, a humildade e pune os vícios opostos. A fonte e a síntese de todas estas virtudes é a sabedoria, que é temor de Iahweh (15,16.33; 16,6; 22,4) e é só em Iahweh que se há de confiar (20,22; 29,25). A primeira parte dá os mesmos conselhos de sabedoria humana e religiosa; censura as faltas que os antigos sábios deixavam passar em silêncio: o adultério e as relações com a mulher estrangeira (2,16s; 5,2s.15s). O epílogo manifesta igualmente respeito maior pela mulher. E, sobretudo, o prólogo apresenta, pela primeira vez, ensinamento ordenado sobre a sabedoria, seu valor, seu papel de guia e de moderadora das ações. Tomando ela própria a palavra, a Sabedoria faz seu elogio e define suas relações com Deus, em quem está desde a eternidade e a quem assistiu quando ele criou o mundo (8,22-31). É este o primeiro dos textos sobre a Sabedoria personificada, que foram apresentados juntos na p. 798.

O ensinamento dos Provérbios foi, sem dúvida, bem superado pelo de Cristo, Sabedoria de Deus, mas certas máximas anunciam já a moral do Evangelho. Deve-se também recordar que a verdadeira religião não se edifica senão sobre uma base de honestidade humana, e o uso frequente que o Novo Testamento faz do livro (catorze citações e umas vinte alusões) impõe aos cristãos o respeito por estes pensamentos dos velhos Sábios de Israel.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s