Introdução a Jó

A obra-prima da literatura do movimento sapiencial é o livro de Jó. Começa com uma narração em prosa. Era uma vez um grande servo de Deus, chamado Jó, que vivia rico e feliz. Deus permitiu a Satã prová-lo para ver se ele continuaria fiel no infortúnio. Ferido primeiro nos seus bens e nos seus filhos, Jó aceita que Deus retome o que lhe havia dado. Atormentado em sua carne por doença repugnante e dolorosa, Jó se mantêm conformado e censura sua mulher que o aconselha a amaldiçoar a Deus. Então, três amigos seus, Elifaz, Baldad e Sofar, chegam para compadecer-se dele (1-2). Após este prólogo, abre-se grande diálogo poético, que forma o corpo do livro. Primeiramente, é conversa entre quatro pessoas: em três ciclos de discursos (3-14; 15-21; 22-27) Jó e seus amigos contrapõem suas concepções da justiça divina; as ideias progridem de modo bastante livre, principalmente intensificando-se a luz sobre os princípios postos no início. Elifaz fala com a moderação da idade e também com a severidade que longa experiência dos homens pode dar; Sofar se deixa levar pelos arroubos da juventude; Baldad é homem sentencioso que se mantém no meio-termo. Mas os três defendem a tese tradicional das retribuições terrestres: se Jó sofre é porque pecou; pode parecer justo a seus próprios olhos, mas não o é aos olhos de Deus. Diante dos protestos de inocência de Jó, só sabem radicalizar sua posição. A essas considerações teóricas, Jó contrapõe sua experiência dolorosa e as injustiças de que o mundo está cheio. Retoma ao tema sem cessar, e sempre esbarra no mistério de um Deus justo que aflige o justo. Não caminha, fica vagando na escuridão. Em sua aflição moral, profere gritos de revolta e palavras de submissão, e tem momentos de crise e de alívio em seu sofrimento físico. Este movimento alternado atinge dois ápices: o ato de fé do cap. 19 e o protesto final de inocência do c. 31. É então que intervém nova personagem, Eliú, que contesta Jó e seus amigos e, com eloquência prolixa (32-37), procura justificar a maneira de agir de Deus. É interrompido pelo próprio Iahweh que “do meio da tempestade”, isto é, no contexto das antigas teofanias, responde a Jó; ou melhor, recusa-se a responder, pois o homem não tem o direito de julgar Deus, que é infinitamente sábio e todo-poderoso, e Jó reconhece que falou sem compreender (38,1-42,6). Epílogo em prosa põe termo ao livro: Iahweh censura os três interlocutores de Jó e devolve a este filhos e filhas e seus bens em dobro (42,7-17).

A personagem principal deste drama, Jó, é herói dos tempos antigos (Ez 14,14.20), que se supõe ter vivido na época patriarcal, nos confins da Arábia e do país de Edom, numa região cujos sábios eram célebres (Jr 49,7; Br 3,22-23; Ab 8) e de onde vêm também seus três amigos. A tradição considerava-o grande justo (cf. Ez 14) que permanecera fiel a Deus numa provação excepcional. O autor serviu-se desta velha história para enquadrar seu livro e, não obstante as diferenças de estilo e de tom, o diálogo poético não pode ter existido sem o prólogo e o epílogo em prosa.

No diálogo, tem sido contestada a autenticidade de certas passagens. O poema sobre a Sabedoria (28) não pode ser posto nos lábios de Jó: contém noção de sabedoria que não é a de Jó nem de seus amigos; por outro lado, tem afinidades com o discurso de Iahweh (38-39). Mas é obra que provém do mesmo ambiente e que foi composta à margem do livro; não se sabe por que foi inserida precisamente neste lugar, onde ela não tem ligação com o contexto. Também se tem duvidado que os discursos de Iahweh (38-41) pertençam ao poema primitivo, mas quem assim pensa desconhece o sentido do livro: precisamente porque não levam em conta a discussão que precedeu nem o caso particular de Jó, porque transferem o debate do plano humano ao puramente divino, esses discursos dão ao problema a única solução que o autor vislumbrava: a do mistério das ações de Deus. No interior desta seção, alguns gostariam de descartar pelo menos a passagem sobre o avestruz (39,13-18) e as longas descrições de Beemot e de Leviatã (40,15-41,26). Se suprimirmos as descrições desses dois animais exóticos, quase nada resta do segundo discurso de Iahweh: teria existido primitivamente um discurso único, que teria sido aumentado e dividido em dois por uma primeira e breve resposta de Jó (41,3-5). A hipótese é atraente, mas não há nenhum argumento decisivo em seu favor e a questão é de importância secundária. Há, enfim, no terceiro ciclo de discursos ([24|Jó 24]]-27), desordem real, que se poderia explicar por acidentes da tradição manuscrita ou por retoques redacionais.

A autenticidade dos discursos de Eliú (32-37) está sujeita a dúvidas mais sérias. A personagem intervém subitamente, sem ter sido anunciada, e Iahweh, que o interrompe, não o leva em conta. Isto é mais estranho ainda, porque Eliú antecipou em parte os discursos de Iahweh; dá inclusive a impressão de querer completá-los. Por outro lado, repete inutilmente o que disseram os três amigos. Enfim, o vocabulário e o estilo são diferentes e os aramaísmos são
muito mais frequentes que em outros lugares. Parece, portanto, que esses capítulos foram acrescentados ao livro, e por outro autor. Mas eles também trazem sua contribuição doutrinária.

O autor de Jó não nos é conhecido senão pela obra-prima que compôs. Por ela reconhece-se que certamente se trata de um israelita, nutrido das obras dos profetas e dos ensinamentos dos sábios. Vivia provavelmente na Palestina, mas deve ter viajado ou morado no exterior, particularmente no Egito. Sobre a data em que viveu não podemos fazer senão conjecturas. O tom patriarcal do relato em prosa levou os antigos a crer que o livro era, como o Gênesis, obra de Moisés. Mas seja como for, o argumento só valeria para o contexto do poema, e esse colorido se explica suficientemente como herança da tradição ou como pasticho literário. O livro é posterior a Jeremias e a Ezequiel, com os quais tem contatos quanto à expressão e ao pensamento, e sua linguagem está fortemente mesclada de aramaísmos . Isto nos situa na época posterior ao Exílio, num momento em que a obsessão pela sorte da nação é substituída pela preocupação com o destino dos indivíduos. A data mais indicada — mas sem razões decisivas — é o começo do século V antes de nossa era.

O autor considera o caso de um justo sofredor. Para a doutrina corrente das retribuições terrestres, tal caso seria paradoxo irreal: o homem recebe aqui na terra a recompensa ou o castigo de suas obras. No plano coletivo, a norma é claramente indicada pelos grandes textos de Dt 28 e Lv 26; o livro dos Juízes e os dos Reis mostram como o princípio se aplica no desenrolar da história, e a pregação profética o supõe constantemente. A noção da responsabilidade individual, já latente e às vezes expressa (Dt 24,16; Jr 31,29-30; 2Rs 14,6), é exposta claramente por Ez 18. Mas até mesmo Ezequiel se restringe às retribuições terrestres e assim incorre no flagrante desmentido dos fatos. Numa perspectiva de solidariedade, pode-se aceitar que, predominando os pecados da coletividade, os justos sejam punidos juntamente com os maus. Mas se cada um deve ser tratado segundo suas obras, como um justo pode sofrer? Ora, há justos, que sofrem, e cruelmente: Jó, por exemplo. O leitor sabe, pelo prólogo, que seus males vêm de Satã e não de Deus e que eles são uma prova de sua fidelidade. Mas Jó não o sabe, e tampouco seus amigos. Estes dão as respostas tradicionais: a felicidade dos maus é de curta duração (cf. Sl 37 e 73), o infortúnio dos justos prova sua virtude (cf. Gn 22,12), ou então a pena é castigo pelas faltas cometidas por ignorância ou por fraqueza (cf. Sl 19,13; 25,7). Isto, à medida que acreditam na inocência relativa de Jó, mas os gritos que a dor lhe arranca, suas queixas contra Deus, levam-nos a admitir nele um estado de injustiça muito mais profundo: os males que Jó padece não se podem explicar senão como castigo de pecados graves. Os discursos de Eliú aprofundam estas soluções: se Deus aflige os que parecem justos, é para fazê-los expiar pecados de omissão ou faltas inadvertidas, ou então — e esta é a contribuição mais original desses capítulos — é para prevenir faltas mais graves e curar do orgulho. Mas Eliú mantém, como os três amigos, embora com menor rigidez, a ligação entre o sofrimento e o pecado pessoal.

Contra essa rigorosa correlação, Jó se levanta com toda a força de sua inocência. Não nega a retribuição terrena; espera-a e Deus lha concederá finalmente no epílogo. Mas para ele é escândalo o fato de ela lhe ser negada no presente, e busca em vão o sentido de sua provação. Luta desesperadamente para reencontrar a Deus que se esquiva e em cuja bondade ele continua crendo. E quando Deus intervém, é para revelar a transcendência de seu ser e de seus desígnios e reduzir Jó ao silêncio. Esta é a mensagem religiosa do livro: o homem deve persistir na fé até mesmo quando seu espírito não encontra sossego. Naquela etapa da revelação, o autor do livro de Jó não podia ir mais longe. Para aclarar o mistério da dor inocente, era preciso aguardar que se tivesse a certeza das sanções de além-túmulo e conhecer o valor do sofrimento dos homens unido ao sofrimento de Cristo. À pergunta angustiante de Jó responderão dois textos de são Paulo: “Os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há de revelar-se em nós” (Rm 8,18) e: “Completo em minha carne o que falta às tribulações de Cristo em favor de seu Corpo, que é a Igreja” (Cl 1 ,24).


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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