Introdução aos Salmos

Como seus vizinhos do Egito, da Mesopotâmia e de Canaã, Israel cultivou, desde as origens, a poesia lírica sob todas as formas. Algumas peças estão inseridas nos livros históricos, desde o Cântico de Moisés (Ex 15), o Cântico do Poço (Nm 21,17-18), o hino de vitória de Débora (Jz 5), a elegia de Davi sobre Saul e Jônatas (2Sm 1) etc., até os elogios de Judas e de Simão Macabeu (1Mc 3,3-9 e 14,4-15) e, mais tarde, os cânticos do Novo Testamento: o Magnificat, o Benedictus e o Nunc dimittis. Numerosas passagens dos livros proféticos pertencem aos mesmos gêneros literários. Existiam antigas coleções, das quais só restaram o nome e alguns vestígios: o livro das Guerras de Iahweh (Nm 21,14) e o livro do Justo (Js 10,13; 2Sm 1,18). Mas o tesouro da lírica religiosa de Israel nos foi conservado pelo Saltério.

Os nomes

O Saltério (do grego Psaltérion, propriamente nome do instrumento de cordas que acompanhava os cânticos, os salmos) é a coleção dos cento e cinquenta salmos. Do Sl 10 ao Sl 148, a numeração da Bíblia hebraica (a que aqui seguimos) está uma unidade na frente da numeração da Bíblia grega e da Vulgata, que reúnem os Sl 9 e 10 e os Sl 114 e 115, mas dividem em dois os Sl 116 e o Sl 147.

Em hebraico, o Saltério chama-se Tehillim, “Hinos”, mas o nome só se aplica adequadamente a certo número de salmos. De fato, nos títulos que encabeçam a maioria dos salmos, o nome de hino é dado apenas ao Sl 145. O título mais frequente é mizmor, que supõe um acompanhamento musical e que se traduz muito bem com nossa palavra “salmo”. Alguns destes “salmos” são chamados também “cânticos”, e o mesmo termo, usado sozinho, introduz cada peça da coleção “Cânticos das subidas ” (Sl 120-134). Outras designações são mais raras e às vezes difíceis de interpretar.

Gêneros literários

Uma classificação melhor se obtém pelo estudo das formas literárias e, deste ponto de vista estilístico, distinguem-se três grandes gêneros: os hinos, as súplicas e as ações de graças. Esta divisão não é exaustiva, porque existem formas secundárias, aberrantes ou mistas e ela nem sempre corresponde a uma classificação dos salmos que se faria segundo seus temas ou suas intenções.

1. Os hinos. São os Sl 8; 19; 29; 33; 46-48; 76; 84; 87; 93; 96-100; 103-106; 113; 114; 117; 122; 135; 136; 145-150. Sua composição é bastante uniforme. Todos começam por uma exortação a louvar a Deus. O corpo do hino descreve os motivos deste louvor, os prodígios realizados por Deus na natureza, especialmente sua obra criadora, e na história, particularmente a salvação concedida a seu povo. A conclusão repete a fórmula de introdução ou exprime uma prece.

Neste conjunto podemos distinguir, conforme seu tema, dois grupos de salmos. Os Cânticos de Sião (Sl 46; 48; 76; 87) exaltam, com uma nota marcante de escatologia, a cidade santa, morada do Altíssimo e meta das peregrinações (cf. Sl 84 e 122). Os Salmos do Reino de Deus, especialmente Sl 47; 93; 96-98 celebram, num estilo que relembra os profetas, o reino universal de Iahweh. Posto que utilizam o vocabulário e as imagens da subida dos reis humanos ao trono, pretendeu-se relacioná-los com uma festa de entronização de Iahweh, que, como se supõe, era celebrada todo ano em Israel, como se fazia em Babilônia em honra de Marduc. Mas a existência de tal festa em Israel é uma hipótese pouco segura.

2. As súplicas, salmos de sofrimento, ou lamentações. Não cantam as glórias de Deus, mas dirigem-se a ele, e nisto diferem dos hinos. Geralmente as súplicas começam com uma invocação, acompanhada de pedido de socorro, de prece ou de expressão de confiança. No corpo do salmo procura-se comover a Deus descrevendo-lhe a triste situação dos suplicantes, com metáforas que são clichês e raramente permitem determinar as circunstâncias históricas ou concretas da oração: fala-se das águas do abismo, dos laços da morte ou do Xeol, de inimigos ou de feras (cães, leões, touros) que ameaçam ou dilaceram, de ossos que secam ou quebram, do coração que palpita e se apavora. Há protestos de inocência (Sl 7; 17; 26) e confissões de pecados como o Miserere (Sl 51) e outros salmos de penitência. Recorda-se a Deus seus benefícios antigos ou se lhe faz a censura de parecer esquecido ou ausente (Sl 9-10; 22; 44). Mas afirma-se também a confiança que se mantém nele (Sl 3; 5; 42-43; 55-57; 63; 130 etc.), e às vezes o salmo de petição não é senão longo apelo confiante (Sl 4; 11; 16; 23; 62; 91; 121; 125; 131). Muitas vezes a súplica termina, e de modo às vezes repentino, pela certeza de que a prece é atendida e por ação de graças, como os Sl 6; 22; 69; 140.

Estas súplicas podem ser coletivas ou individuais.

a) Súplicas coletivas são, p. ex., Sl 12; 44; 60; 74; 79; 80; 83; 85; 106; 123; 129; 137. Sua ocasião é desastre nacional, derrota ou destruição, ou necessidade comum; pede-se então a salvação e a restauração do povo. Os Sl 74 e 137, pelo menos, como também a coleção das Lamentações atribuídas a Jeremias, refletem as consequências da ruína de Jerusalém em 587; o Sl 85 exprime os sentimentos dos repatriados. O Sl 106 é confissão geral dos pecados da nação.

b) Súplicas individuais são, p. ex., Sl 3; 5-7; 13; 17; 22; 25; 26; 28; 31; 35; 38; 42-43; 51; 54-57; 59; 63; 64; 69-71; 77; 86; 102; 120; 130; 140-143. Estas preces são particularmente numerosas e seu conteúdo é muito variado: além dos perigos de morte, das perseguições, do exílio e da velhice, os males de que pedem a libertação são especialmente a doença, a calúnia e o pecado. Os inimigos, “os que fazem o mal”, dos quais se queixam ou contra os quais se irritam, são pouco definidos. Em todo caso, não são, como alguns pensaram, feiticeiros cujos malefícios estes salmos combateriam. Estes poemas não são, como se afirmava outrora, a expressão no singular do “eu” coletivo. Tampouco podem, como recentemente se opinou, ser todos postos na boca do rei que falaria em nome do seu povo. Estas orações são, por um lado, demasiado individuais e, por outro, por demais desprovidas de alusões à pessoa e à condição régia, para que estas teorias sejam verossímeis. É verdade, sem dúvida, que várias foram adaptadas e utilizadas como lamentações nacionais, p. ex., Sl 22; 28; 59; 69; 71; 102; é verdade também que há salmos régios, dos quais falaremos adiante; é verdade enfim que todas estas preces entraram finalmente no uso comum (o que significa sua inserção no Saltério), mas é fato que elas foram compostas para tal pessoa, ou por tal pessoa, numa necessidade particular. Elas são gritos da alma e expressões de fé pessoal. Pois jamais são puras lamentações; são apelos confiantes a Deus na tribulação.

3. As ações de graças. Já vimos que as súplicas podiam terminar com um agradecimento a Deus que escuta a oração. Este agradecimento pode tornar-se o essencial do poema nos salmos de ação de graças, que são bem pouco numerosos, p. ex., Sl 18; 21; 30; 33; 34; 40; 65-68; 92; 116; 118; 124; 129; 138; 144. Raramente são coletivos: neste caso o povo dá graças pela libertação de um perigo, pela abundância das colheitas, pelos benefícios concedidos ao rei. Com maior frequência são individuais: pessoas particulares, depois de recordar os males sofridos e a oração atendida, exprimem seu reconhecimento e exortam os fiéis a louvar a Deus com elas. Esta última parte serve frequentemente para introduzir temas didáticos. A estrutura literária dos salmos de ação de graças é semelhante à dos hinos.

4. Gêneros aberrantes e mistos. A fronteira entre os gêneros até aqui descritos é imprecisa e acontece amiúde que eles se misturem. Há por exemplo, lamentações que seguem a uma prece confiante (Sl 27; 31) ou que são seguidas de um cântico de ação de graças (Sl 28; 57). O Sl 89 começa como um hino, prossegue com um oráculo e termina com uma lamentação. O longo Sl 119 é um hino à Lei, mas é também lamentação individual e expõe doutrina de Sabedoria. Na verdade, muitos elementos, em si mesmos estranhos à lírica, introduziram-se no Saltério. Acabamos de aludir aos temas de Sabedoria e já disséramos que eles se encontram em certos salmos de ação de graças. Podem às vezes ocupar extensão tal que se fala, bastante impropriamente, em Salmos didáticos. De fato, os Sl 1; 112 e 127 são puras composições sapienciais. Mas alguns outros conservam certas características dos gêneros líricos: o Sl 25 assemelha-se às lamentações, os Sl 32; 37; 73 às ações de graças etc.

Outros salmos há que incorporaram oráculos, ou não são senão oráculos ampliados, p. ex., Sl 2; 50; 75; 81; 82; 85; 95; 110. Eles foram explicados recentemente como verdadeiros oráculos emitidos por sacerdotes ou profetas durante as cerimônias do Templo. Outra opinião insiste em não ver neles mais que uma expressão do estilo profético, sem conexão real com o culto. A questão é debatida, mas é preciso reconhecer, de um lado, que as relações entre o Saltério e a literatura profética não se limitam aos oráculos, mas se estendem a numerosos temas, como as teofanias, as imagens da taça, do fogo, do crisol etc., e, de outro lado, que há vínculos inegáveis que ligam o Saltério ao culto do Templo; voltaremos a falar desse assunto.

Salmos régios

Há certo número de cânticos “régios” espalhados no Saltério e que pertencem a diversos gêneros literários. Há oráculos em favor do rei (Sl 2 e 110), orações pelo rei (Sl 20; 61; 72), uma ação de graças pelo rei (Sl 21), orações do rei (Sl 18; 28; 63; 101), um canto real de procissão (Sl 132), um hino régio (Sl 144) e até mesmo um epitalâmio para casamento principesco (Sl 45). Seriam poemas antigos, datando da época monárquica e refletindo a linguagem e o cerimonial da corte. Teriam em vista um rei da época, e os Sl 2; 72; 110 podem ter sido salmos de entronização. O rei é chamado filho adotivo de Deus, seu reino será sem fim, seu poder se estenderá até os confins da terra; fará triunfar a paz e a justiça, será o salvador do povo. Tais expressões podem parecer extravagantes, mas não vão além do que os povos vizinhos diziam de seu soberano e do que Israel esperava do seu.

Mas em Israel o rei recebe a unção, que faz dele o vassalo de Iahweh e seu representante na terra. Ele é o Ungido de Iahweh, em hebraico o “Messias”, e esta relação religiosa estabelecida com Deus especifica a concepção israelita e a diferencia das do Egito ou da Mesopotâmia, não obstante o uso de fraseologia comum. O “messianismo régio”, que começa com a profecia de Natã (2Sm 7), exprime-se nos comentários que dão sobre ela os Sl 89 e 132 e especialmente nos Sl 2; 72 e 110. Eles mantinham o povo na esperança das promessas feitas à dinastia de Davi. Se se define o messianismo como a espera de um rei futuro, de um último rei que haveria de trazer a salvação definitiva e que instauraria o reino de Deus sobre a terra, nenhum desses salmos seria propriamente “messiânico”. Mas alguns destes antigos cânticos régios, continuando a ser utilizados depois da queda da monarquia e sendo incorporados no Saltério, talvez com retoques e adições, alimentaram a ideia de um Messias individual, descendente de Davi. Esta esperança estava viva entre os judeus às vésperas do começo da nossa era e os cristãos viram sua realização em Cristo (título que significa Ungido em grego, como Messias em hebraico]. O Sl 110 será o texto do Saltério mais frequentemente citado no Novo Testamento. O canto nupcial do Sl 45 passou a exprimir a união do Messias com o novo Israel, na linha das alegorias matrimoniais dos profetas, e é aplicado a Cristo por Hb 1,8. Na mesma perspectiva, o Novo Testamento e a tradição cristã aplicam a Cristo outros salmos que não eram salmos régios, mas exprimiram de antemão a condição e os sentimentos do Messias, o Justo por excelência, p. ex., os Sl 16 e 22, e certas passagens de numerosos salmos, em particular dos Sl 8; 35; 40; 41; 68; 69; 97; 102; 118; 119. Da mesma forma, os salmos do reino de Iahweh foram relacionados com o reino de Cristo. Também se estas aplicações ultrapassam o sentido literal, continuam legítimas porque todas as esperanças que animam o Saltério só se realizam plenamente com a vinda do Filho de Deus ao mundo.

Os Salmos e o culto

O Saltério é a coleção dos cânticos religiosos de Israel. Ora, sabemos que entre o pessoal do Templo figuravam cantores e, embora estes não sejam mencionados explicitamente senão depois do Exílio, é certo que existiram desde o começo. As festas de lahweh eram celebradas com danças e coros (Jz 21,19-21; 2Sm 6,5.16). Conforme Am 5,23, os sacrifícios eram acompanhados de cânticos e, já que o palácio real tinha seus cantores no tempo de Davi, segundo 2Sm 19;36, e no tempo de Ezequias, conforme os Anais de Senaquerib, o Templo de Salomão deve ter tido os seus, como todos os grandes santuários orientais. Com efeito, há salmos atribuídos a Asaf, aos filhos de Coré, a Emã e a Etã (ou Iditun), todos eles cantores do Templo pré-exílico, de acordo com as Crônicas. A tradição, que atribui a Davi muitos salmos, faz também remontar a ele a organização do culto, inclusive os cantores (1Cr 25), e concorda com os textos antigos que o mostram dançando e cantando diante de Iahweh (2Sm 6,5.16).

Muitos dos salmos trazem indicações musicais ou litúrgicas. Alguns se referem, em seu texto, a algum rito que se efetua conjuntamente (Sl 20; 26; 27; 66; 81; 107; 116; 134; 135). É evidente que estes e outros salmos (Sl 48; 65; 95; 96; 118) eram recitados no recinto do Templo. Os “Cânticos das subidas” (Sl 120-134), como também o Sl 84, eram cânticos de peregrinação ao santuário. Estes exemplos, escolhidos entre os mais claros, bastam para mostrar que numerosos salmos, inclusive certos salmos individuais, foram compostos para o serviço do Templo. Outros, se não tinham inicialmente este destino, foram pelo menos adaptados ao mesmo, por exemplo, pela adição de bênçãos (Sl 125; 128; 129).

A relação dos Salmos com o culto e o caráter litúrgico do Saltério tomado em seu conjunto são, portanto .fatos inegáveis. Mas geralmente nos faltam informações para identificar a cerimônia ou a festa no decurso das quais determinado salmo era utilizado. O título hebraico do Sl 92 destina-o para o dia de sábado; os títulos gregos dos Sl 24; 48; 93 e 94 os repartem por outros dias da semana. O Sl 30 era utilizado na festa da Dedicação, conforme o hebraico, e o Sl 29 se cantava na festa das Tendas, segundo o grego. Talvez estas indicações não sejam primitivas, mas elas testemunham, como as rubricas detalhadas que foram feitas na época judaica, que o Saltério foi o livro de canto do Templo e da Sinagoga, antes de se tornar o da Igreja cristã.

Autores e datas

Os títulos atribuem 73 salmos a Davi, doze a Asaf, onze aos filhos de Coré, e salmos Isolados a Emã, Etã (ou Iditun), Moisés e Salomão. Os títulos da versão grega nem sempre coincidem com o hebraico e atribuem 82 salmos a Davi. A versão siríaca é ainda mais diferente.

Esses títulos não pretendiam talvez, originalmente, designar os autores destes salmos. A fórmula hebraica empregada estabelece apenas certa relação do salmo com a personagem mencionada, seja por causa da concordância do tema, seja porque este salmo pertencia a uma coleção atribuída a ele. Os salmos “dos filhos de Coré” pertenciam ao repertório desta família de cantores, como os numerosos salmos “do mestre de canto” (Sl 4; 5; 6; 8 etc.) eram peças que o coro do Templo executava. Havia também uma coleção de Asaf e uma davídica. Mas bem depressa passou-se a ver indicações de autor nestas etiquetas de procedência, e certos salmos “de Davi” receberam subtítulo especificando a circunstância da vida do rei em que o poema foi composto (Sl 3; 7; 18; 34; 51; 52; 54 etc.). Finalmente a tradição viu em Davi o autor não só de todos os salmos que trazem seu nome, mas do Saltério inteiro.

Estas interpretações exageradas não nos devem levar a negligenciar o testemunho importante e antigo que os títulos dos salmos oferecem. É razoável admitir que as coleções de Asaf e dos filhos de Coré foram compostas por cantores do Templo. De modo semelhante a coleção davídica deve vincular-se de algum modo ao grande rei. Tendo em vista o que os livros históricos atestam sobre seu talento musical (1Sm 16,16-18; cf. Am 6,5) e de poeta (2Sm 1,19-27; 3,33-34), sobre seu gosto pelo culto (2Sm 6,5.15-16), temos de reconhecer que deve haver no Saltério peças que têm Davi por autor. De fato, o Sl 18 reproduz, numa recensão distinta, um poema atribuído a Davi por 2Sm 22. Sem dúvida, nem todos os salmos da coleção davídica são obra dele, mas esta coleção não se pôde formar senão a partir de um núcleo autêntico. Infelizmente é difícil precisar mais. Já vimos que os títulos dados pelo hebraico não são argumento decisivo, e os escritos do Novo Testamento, quando citam este ou aquele salmo sob o nome de Davi, se conformam à opinião de seu tempo. Contudo, estes testemunhos não devem ser rejeitados inteiramente e sempre se deverá reservar a Davi, “cantor dos cânticos de Israel” (2Sm 23,1), papel essencial nas origens da lírica religiosa do povo eleito.

O impulso dado por ele persistiu e o Saltério resume vários séculos de atividade poética. Depois de ter situado a quase totalidade dos salmos na época do retorno do Exílio e às vezes numa época bem posterior, a crítica volta, atualmente, a posições mais prudentes. Número bastante grande de salmos procederia da época monárquica, em particular os salmos “régios”, mas seu conteúdo é por demais vago para poder fazer mais que hipótese sobre sua data precisa. Por outro lado, os salmos do Reino de Iahweh, carregados de reminiscências de outros salmos e da segunda parte de Isaías, foram compostos durante o Exílio; o mesmo se diga, evidentemente, dos salmos que, como o Sl 137, falam da ruína de Jerusalém e da deportação. O Retorno é cantado no Sl 126. O período seguinte parece ter sido fecundo em composições sálmicas: é o momento em que o culto se expandiu no Templo restaurado, em que os cantores são promovidos em dignidade e são assimilados aos levitas, em que também os sábios adotam o gênero sálmico para difundir seus ensinamentos, como o fará Ben Sirac. Será preciso chegar até depois da época persa e reconhecer salmos macabeus? A questão surge sobretudo com respeito aos Sl 44; 74; 79; 83; mas os argumentos propostos não são suficientes para tornar verossímil data tão tardia.

Formação do Saltério

O Saltério que possuímos é o termo desta longa atividade. Existiram a princípio coleções parciais. O Sl 72 (cujo título o atribui, aliás, a Salomão) conclui-se com a nota: “Fim das orações de Davi”, embora haja salmos não davídicos antes dele e outros salmos davídicos depois. Com efeito, há primeiramente dois grupos davídicos (Sl 3-41 e 51-72) atribuídos individualmente a Davi, exceto o último (Salomão) e três salmos anônimos. Outras coleções análogas devem ter existido a princípio isoladas: o saltério de Asaf (Sl 50 e 73-83 (Sl 42-49 e 84; 85; 87; 88), o das Subidas (Sl 120-134), do Hallel (Sl 105-107; 111-118; 135; 136; 146-150). A coexistência de várias coleções é comprovada pelos salmos que se repetem com poucas variantes, p. ex., Sl 14 e 53; 40,14-18 e 70; 57,8-12 junto com 60,7-14 e 108.

O trabalho dos colecionadores transparece também no uso dos nomes divinos: “Iahweh” é usado de modo quase exclusivo nos Sl 1-41 (primeiro grupo davídico); “Elohim” o substitui nos Sl 42-89 (que abrange o segundo grupo davídico, parte dos salmos dos filhos de Coré e o saltério de Asaf); e todo o resto (Sl 90-150) é “javista”, com exceção do Sl 108, que combina os dois salmos “eloístas” 57 e 60. Este segundo conjunto “javista”, no qual muitos salmos são anônimos e são frequentes as repetições e citações, deve ser o mais recente do Saltério, o que não concerne à data de cada salmo em particular.

Finalmente, o saltério foi dividido, sem dúvida à imitação do Pentateuco, em cinco livros que foram separados por curtas doxologias: 41,14; 72,18-20; 89,52; 106,48. O Sl 150 serve de longa doxologia final, ao passo que o Sl 1 é como que um prefácio para dar início ao conjunto.

Esta forma canônica do Saltério não se impôs definitivamente senão bem tarde e teve concorrentes. O Saltério grego conta 151 salmos e a antiga versão siríaca, 155. As descobertas do mar Morto restituíram o original hebraico do Sl 151 grego — que de fato é a combinação de dois salmos — e os dois últimos salmos siríacos; deram também a conhecer três novas composições poéticas, inseridas em manuscritos do Saltério, onde, além disso, os Salmos nem sempre se seguem na ordem canônica. Por conseguinte, o Saltério permaneceu uma coleção aberta até o começo de nossa era, pelo menos em certos ambientes.

Valor espiritual

Não é preciso alongar-nos, tão evidente é a riqueza religiosa dos salmos. Eles foram as preces do Antigo Testamento, quando o próprio Deus inspirou os sentimentos que seus filhos devem ter a seu respeito e as palavras de que devem servir-se ao se dirigirem a ele. Foram recitados por Jesus e por Maria, pelos Apóstolos e pelos primeiros mártires. A igreja cristã fez deles, sem alteração, sua prece oficial. Sem alteração: aqueles gritos de louvor, de súplica ou de ação de graças, arrancados aos salmistas nas circunstâncias de sua época e de sua experiência pessoal, têm caráter universal, pois exprimem a atitude que todo homem deve ter diante de Deus. Sem alteração nas palavras, mas com enriquecimento considerável do sentido: na Nova Aliança, o fiel louva e agradece a Deus que lhe revelou o segredo de sua vida íntima, que o resgatou pelo sangue de seu Filho, que lhe infundiu seu Espírito e, na recitação litúrgica, cada salmo termina com a doxologia trinitária do Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. As súplicas antigas se tornam mais ardentes depois que a Última Ceia, a Cruz e a Ressurreição ensinaram ao homem o amor infinito de Deus, a universalidade e a gravidade do pecado, a glória prometida aos justos. As esperanças cantadas pelos salmistas se realizam: o Messias veio, ele reina e todas as nações são chamadas a louvá-lo.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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Capítulo Versículos Trecho
1 1-22 Satã põe Jó à prova I. Prólogo
2 1-13
3 1-26 Jó amaldiçoa o dia do nascimento II. Diálogo 1. Primeiro ciclo de discursos
4 1-21 Confiança em Deus
5 1-27
6 1-30 Só o homem abatido conhece sua miséria
7 1-21
8 1-22 O curso necessário da justiça divina
9 1-35 A justiça divina domina o direito
10 1-22
11 1-20 A sabedoria de Deus desafia a Jó
12 1-25 A sabedoria de Deus manifesta-se principalmente por seu poder destruidor
13 1-28
14 1-22
15 1-35 Jó condena-se por sua linguagem 2. Segundo ciclo de discursos
16 1-22 Da injustiça dos homens à justiça de Deus
17 1-16
18 1-21 A ira nada pode contra a ordem da justiça
19 1-29 O triunfo da fé no abandono de Deus e dos homens
20 1-29 A ordem da justiça não tem exceção
21 1-34 O desmentido dos fatos
22 1-30 Deus castiga unicamente em nome da justiça 3. Terceiro ciclo de discursos
23 1-17 Deus está longe, e o mal triunfa
24 1-17.25
25 1-6 Hino à onipotência de Deus
26 5-14
1-4 Baldad fala a esmo
27 1-12 Jó, inocente, conhece o poder de Deus
13-23 Discurso de Sofar: o maldito
24 18-24
28 1-28 A sabedoria é inacessível ao homem 4. Elogio da sabedoria
29 1-10;21-25;11-20 Queixas e apologia de Jó: A. Os tempos antigos
30 1-31 B. A tribulação presente
31 1-15;38-40a;16-37.40b Apologia de Jó
32 1-6a Intervenção de Eliú III. Discursos de Eliú
6b-22 Exórdio
33 1-33 A presunção de Jó
34 1-37 O fracasso dos três sábios na tentativa de desculpar a Deus
35 1-16 Deus não fica indiferente aos assuntos humanos
36 1-21 O sentido verdadeiro dos sofrimentos de Jó
22-33 Hino à sabedoria onipotente
37 1-24
38 1-41 A sabedoria criadora confunde Jó IV. Os discursos de Iahweh Primeiro discurso
39 1-30
40 1-5
6-14 O domínio de Deus sobre as forças do mal Segundo discurso
15-24 Beemot
25-32 Leviatã
41 1-26
42 1-6 Última resposta de Jó
7-9 Iahweh repreende os três sábios V. Epílogo
10-17 Iahweh restaura a felicidade de Jó

Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Introdução a Jó

A obra-prima da literatura do movimento sapiencial é o livro de Jó. Começa com uma narração em prosa. Era uma vez um grande servo de Deus, chamado Jó, que vivia rico e feliz. Deus permitiu a Satã prová-lo para ver se ele continuaria fiel no infortúnio. Ferido primeiro nos seus bens e nos seus filhos, Jó aceita que Deus retome o que lhe havia dado. Atormentado em sua carne por doença repugnante e dolorosa, Jó se mantêm conformado e censura sua mulher que o aconselha a amaldiçoar a Deus. Então, três amigos seus, Elifaz, Baldad e Sofar, chegam para compadecer-se dele (1-2). Após este prólogo, abre-se grande diálogo poético, que forma o corpo do livro. Primeiramente, é conversa entre quatro pessoas: em três ciclos de discursos (3-14; 15-21; 22-27) Jó e seus amigos contrapõem suas concepções da justiça divina; as ideias progridem de modo bastante livre, principalmente intensificando-se a luz sobre os princípios postos no início. Elifaz fala com a moderação da idade e também com a severidade que longa experiência dos homens pode dar; Sofar se deixa levar pelos arroubos da juventude; Baldad é homem sentencioso que se mantém no meio-termo. Mas os três defendem a tese tradicional das retribuições terrestres: se Jó sofre é porque pecou; pode parecer justo a seus próprios olhos, mas não o é aos olhos de Deus. Diante dos protestos de inocência de Jó, só sabem radicalizar sua posição. A essas considerações teóricas, Jó contrapõe sua experiência dolorosa e as injustiças de que o mundo está cheio. Retoma ao tema sem cessar, e sempre esbarra no mistério de um Deus justo que aflige o justo. Não caminha, fica vagando na escuridão. Em sua aflição moral, profere gritos de revolta e palavras de submissão, e tem momentos de crise e de alívio em seu sofrimento físico. Este movimento alternado atinge dois ápices: o ato de fé do cap. 19 e o protesto final de inocência do c. 31. É então que intervém nova personagem, Eliú, que contesta Jó e seus amigos e, com eloquência prolixa (32-37), procura justificar a maneira de agir de Deus. É interrompido pelo próprio Iahweh que “do meio da tempestade”, isto é, no contexto das antigas teofanias, responde a Jó; ou melhor, recusa-se a responder, pois o homem não tem o direito de julgar Deus, que é infinitamente sábio e todo-poderoso, e Jó reconhece que falou sem compreender (38,1-42,6). Epílogo em prosa põe termo ao livro: Iahweh censura os três interlocutores de Jó e devolve a este filhos e filhas e seus bens em dobro (42,7-17).

A personagem principal deste drama, Jó, é herói dos tempos antigos (Ez 14,14.20), que se supõe ter vivido na época patriarcal, nos confins da Arábia e do país de Edom, numa região cujos sábios eram célebres (Jr 49,7; Br 3,22-23; Ab 8) e de onde vêm também seus três amigos. A tradição considerava-o grande justo (cf. Ez 14) que permanecera fiel a Deus numa provação excepcional. O autor serviu-se desta velha história para enquadrar seu livro e, não obstante as diferenças de estilo e de tom, o diálogo poético não pode ter existido sem o prólogo e o epílogo em prosa.

No diálogo, tem sido contestada a autenticidade de certas passagens. O poema sobre a Sabedoria (28) não pode ser posto nos lábios de Jó: contém noção de sabedoria que não é a de Jó nem de seus amigos; por outro lado, tem afinidades com o discurso de Iahweh (38-39). Mas é obra que provém do mesmo ambiente e que foi composta à margem do livro; não se sabe por que foi inserida precisamente neste lugar, onde ela não tem ligação com o contexto. Também se tem duvidado que os discursos de Iahweh (38-41) pertençam ao poema primitivo, mas quem assim pensa desconhece o sentido do livro: precisamente porque não levam em conta a discussão que precedeu nem o caso particular de Jó, porque transferem o debate do plano humano ao puramente divino, esses discursos dão ao problema a única solução que o autor vislumbrava: a do mistério das ações de Deus. No interior desta seção, alguns gostariam de descartar pelo menos a passagem sobre o avestruz (39,13-18) e as longas descrições de Beemot e de Leviatã (40,15-41,26). Se suprimirmos as descrições desses dois animais exóticos, quase nada resta do segundo discurso de Iahweh: teria existido primitivamente um discurso único, que teria sido aumentado e dividido em dois por uma primeira e breve resposta de Jó (41,3-5). A hipótese é atraente, mas não há nenhum argumento decisivo em seu favor e a questão é de importância secundária. Há, enfim, no terceiro ciclo de discursos ([24|Jó 24]]-27), desordem real, que se poderia explicar por acidentes da tradição manuscrita ou por retoques redacionais.

A autenticidade dos discursos de Eliú (32-37) está sujeita a dúvidas mais sérias. A personagem intervém subitamente, sem ter sido anunciada, e Iahweh, que o interrompe, não o leva em conta. Isto é mais estranho ainda, porque Eliú antecipou em parte os discursos de Iahweh; dá inclusive a impressão de querer completá-los. Por outro lado, repete inutilmente o que disseram os três amigos. Enfim, o vocabulário e o estilo são diferentes e os aramaísmos são
muito mais frequentes que em outros lugares. Parece, portanto, que esses capítulos foram acrescentados ao livro, e por outro autor. Mas eles também trazem sua contribuição doutrinária.

O autor de Jó não nos é conhecido senão pela obra-prima que compôs. Por ela reconhece-se que certamente se trata de um israelita, nutrido das obras dos profetas e dos ensinamentos dos sábios. Vivia provavelmente na Palestina, mas deve ter viajado ou morado no exterior, particularmente no Egito. Sobre a data em que viveu não podemos fazer senão conjecturas. O tom patriarcal do relato em prosa levou os antigos a crer que o livro era, como o Gênesis, obra de Moisés. Mas seja como for, o argumento só valeria para o contexto do poema, e esse colorido se explica suficientemente como herança da tradição ou como pasticho literário. O livro é posterior a Jeremias e a Ezequiel, com os quais tem contatos quanto à expressão e ao pensamento, e sua linguagem está fortemente mesclada de aramaísmos . Isto nos situa na época posterior ao Exílio, num momento em que a obsessão pela sorte da nação é substituída pela preocupação com o destino dos indivíduos. A data mais indicada — mas sem razões decisivas — é o começo do século V antes de nossa era.

O autor considera o caso de um justo sofredor. Para a doutrina corrente das retribuições terrestres, tal caso seria paradoxo irreal: o homem recebe aqui na terra a recompensa ou o castigo de suas obras. No plano coletivo, a norma é claramente indicada pelos grandes textos de Dt 28 e Lv 26; o livro dos Juízes e os dos Reis mostram como o princípio se aplica no desenrolar da história, e a pregação profética o supõe constantemente. A noção da responsabilidade individual, já latente e às vezes expressa (Dt 24,16; Jr 31,29-30; 2Rs 14,6), é exposta claramente por Ez 18. Mas até mesmo Ezequiel se restringe às retribuições terrestres e assim incorre no flagrante desmentido dos fatos. Numa perspectiva de solidariedade, pode-se aceitar que, predominando os pecados da coletividade, os justos sejam punidos juntamente com os maus. Mas se cada um deve ser tratado segundo suas obras, como um justo pode sofrer? Ora, há justos, que sofrem, e cruelmente: Jó, por exemplo. O leitor sabe, pelo prólogo, que seus males vêm de Satã e não de Deus e que eles são uma prova de sua fidelidade. Mas Jó não o sabe, e tampouco seus amigos. Estes dão as respostas tradicionais: a felicidade dos maus é de curta duração (cf. Sl 37 e 73), o infortúnio dos justos prova sua virtude (cf. Gn 22,12), ou então a pena é castigo pelas faltas cometidas por ignorância ou por fraqueza (cf. Sl 19,13; 25,7). Isto, à medida que acreditam na inocência relativa de Jó, mas os gritos que a dor lhe arranca, suas queixas contra Deus, levam-nos a admitir nele um estado de injustiça muito mais profundo: os males que Jó padece não se podem explicar senão como castigo de pecados graves. Os discursos de Eliú aprofundam estas soluções: se Deus aflige os que parecem justos, é para fazê-los expiar pecados de omissão ou faltas inadvertidas, ou então — e esta é a contribuição mais original desses capítulos — é para prevenir faltas mais graves e curar do orgulho. Mas Eliú mantém, como os três amigos, embora com menor rigidez, a ligação entre o sofrimento e o pecado pessoal.

Contra essa rigorosa correlação, Jó se levanta com toda a força de sua inocência. Não nega a retribuição terrena; espera-a e Deus lha concederá finalmente no epílogo. Mas para ele é escândalo o fato de ela lhe ser negada no presente, e busca em vão o sentido de sua provação. Luta desesperadamente para reencontrar a Deus que se esquiva e em cuja bondade ele continua crendo. E quando Deus intervém, é para revelar a transcendência de seu ser e de seus desígnios e reduzir Jó ao silêncio. Esta é a mensagem religiosa do livro: o homem deve persistir na fé até mesmo quando seu espírito não encontra sossego. Naquela etapa da revelação, o autor do livro de Jó não podia ir mais longe. Para aclarar o mistério da dor inocente, era preciso aguardar que se tivesse a certeza das sanções de além-túmulo e conhecer o valor do sofrimento dos homens unido ao sofrimento de Cristo. À pergunta angustiante de Jó responderão dois textos de são Paulo: “Os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há de revelar-se em nós” (Rm 8,18) e: “Completo em minha carne o que falta às tribulações de Cristo em favor de seu Corpo, que é a Igreja” (Cl 1 ,24).


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Introdução aos livros sapienciais

Dá-se o nome de “livros sapienciais” a cinco livros do Antigo Testamento: , Provérbios, Eclesiastes, Eclesiástico e Sabedoria; a eles se acrescentam impropriamente os Salmos e o Cântico dos Cânticos. Representam uma corrente de pensamento que se encontra também numa parte dos livros de Tobias e de Baruc.

A literatura sapiencial floresceu em todo o Antigo Oriente. Ao longo de sua história, o Egito produziu escritos de sabedoria. Na Mesopotâmia, desde a época sumérica, foram compostos provérbios, fábulas e poemas sobre o sofrimento que se assemelham ao livro de Jó. Esta sabedoria mesopotâmica penetrou em Canaã: encontraram-se em Rás Shamra textos sapienciais escritos em acádico. Dos ambientes de língua aramaica procede a Sabedoria de Aicar, de origem assíria e traduzida em diversas línguas antigas. Esta sabedoria é internacional. Tem poucas preocupações religiosas e se detém no plano do profano. Esclarece o destino dos indivíduos, não por uma reflexão filosófica à maneira dos gregos, mas colhendo os frutos da experiência. É uma arte de viver bem e um sinal de boa educação. Ensina o homem a se conformar à ordem do universo e deveria dar-lhe os meios de ser feliz e prosperar. Mas nem sempre isso acontece; por isso, esta experiência justifica o pessimismo de certas obras de sabedoria, tanto no Egito como na Mesopotâmia.

Esta sabedoria foi conhecida pelos israelitas. O mais belo elogio que a Bíblia pensa fazer da sabedoria de Salomão é que ela ultrapassava a dos filhos do Oriente e a do Egito (1Rs 5,10). Os sábios árabes e edomitas eram afamados (Jr 49,7; Br 3,22-23; Ab 8). Jó e os três sábios, seus amigos, viviam em Edom. O autor de Tobias conhecia a Sabedoria de Aicar, e Pr 22,17-23,11 tem estreita relação com as máximas de Amenemope. Diversos salmos são atribuídos a Hemã e a Etã, que sãos sábios de Canaã, segundo 1Rs 5,11. O livro dos Provérbios contém as Palavras de Agur (Pr 30,1-14) e as Palavras de Lamuel (Pr 31,1-9), ambos originários de Massa, tribo ao norte da Arábia (Gn 25,14).

Não é de admirar que as primeiras obras sapienciais de Israel se pareçam muito com as de seus vizinhos: todas elas provêm do mesmo ambiente. As partes antigas dos Provérbios não apresentam senão preceitos de sabedoria humana. Se excetuarmos Eclesiástico e Sabedoria, que são os mais recentes, os livros sapienciais não abordam os grandes temas do Antigo Testamento: a Lei, a Aliança, a Eleição, a Salvação. Os sábios de Israel não se preocupam com a história ou com o futuro do seu povo; eles pesquisam o destino dos indivíduos, como seus colegas orientais. Mas o consideram sob uma luz mais alta, a da religião javista. Apesar de origem comum e de tantas semelhanças, existe, por essa causa, em favor da sabedoria israelita, uma diferença essencial, que se acentua com o progresso da Revelação. A oposição sabedoria-loucura transforma-se numa oposição entre justiça e iniquidade, entre piedade e impiedade. A verdadeira sabedoria é, com efeito, o temor de Deus, e o temor de Deus é a piedade. Se a sabedoria oriental é humanismo, poder-se-ia dizer que a sabedoria israelita é um “humanismo devoto”.

Mas esse valor religioso da sabedoria só se mostrou pouco a pouco. O termo hebraico tem uma significação complexa: pode designar a habilidade manual ou profissional, o senso político, o discernimento, e também a astúcia, o “jeitinho” e a arte da magia. Essa sabedoria humana pode-se exercer com finalidade boa ou má, e tal ambiguidade justifica os juízos desfavoráveis que os profetas fazem sobre os sábios, como em Is 5,21; 29,14; Jr 8,9. Ela pode explicar também por que custaram tanto a falar da sabedoria de Deus, embora seja ele quem a dá aos homens e embora já em Ugarit a sabedoria fosse o atributo do grande deus El. É somente nos escritos pós-exílicos que se dirá que só Deus é sábio, possuindo uma sabedoria transcendente, que o homem vê atuando na criação, mas que é incapaz de perscrutar (Jó 28; 38-39; Eclo 1,1-10; 16,24s; 39,12s; 42,15-43,33 etc.). No grande prólogo que encabeça o livro dos Provérbios 1-9 a Sabedoria fala como uma pessoa, está ao mesmo tempo presente em Deus desde a eternidade e agindo com ele na criação (sobretudo Pr 8,22-31). Em Jó 28, aparece como distinta de Deus, que é o único a conhecer onde ela se esconde. Em Eclo 24, a própria Sabedoria se declara saída da boca do Altíssimo, habitando nos céus e enviada a Israel por Deus. Em Sb 7,22-8,1 ela é efusão da glória do Todo-poderoso, imagem de sua excelência. Assim a Sabedoria, atributo de Deus, destaca-se dele e torna-se pessoa. Na fé do Antigo Testamento, essas expressões tão vivas excedem os limites de personificação literária, mas guardam seu mistério e preparam a revelação das Pessoas Divinas. O Logos de são João, como essa Sabedoria, está ao mesmo tempo em Deus e fora de Deus, e todos esses grandes textos justificam o título de “Sabedoria de Deus” que são Paulo dá a Cristo (1Cor 1,24).

Como o destino dos indivíduos era a preocupação dominante dos sábios, o problema da retribuição tinha para eles importância capital. É no seu ambiente e por sua reflexão que a doutrina evolui. Nas partes antigas dos Provérbios, a sabedoria, isto é, a justiça, conduz necessariamente à felicidade, e a insensatez, isto é, a iniquidade, leva à ruína. É Deus quem assim recompensa os bons e pune os maus. Tal é ainda a posição do prólogo dos Provérbios (3,33-35; 9,6.18). Esta doutrina é então a base do ensinamento de sabedoria e se deduz do fato de o mundo ser governado por um Deus sábio e justo. Ela pretende apelar para a experiência, porém a experiência amiude a contradiz. É o que expõe de maneira dramática o livro
de Jó, no qual os três amigos defendem a tese tradicional. Mas para a questão do justo infeliz não há resposta que satisfaça o espírito, se nos limitarmos às retribuições terrenas; não há outra saída senão aderir a Deus na fé, apesar de tudo. Por mais divergente que seja o seu tom, o Eclesiastes não apresenta outra solução; sublinha também a insuficiência das respostas correntes, nega que se possa pedir contas a Deus e exigir a felicidade como algo devido. O Eclesiástico permanece fiel à mesma doutrina: exalta a felicidade do sábio (14,20-15,10), mas a ideia da morte o atormenta e ele sabe que tudo depende desta última hora. Diz que “é fácil para o Senhor, no dia da morte, retribuir a cada um segundo suas obras” (11,26; cf. 1,13; 7,36; 28,6; 41,9). Pressente a doutrina dos “novíssimos”, mas não a exprime claramente. Pouco depois dele, Dn 12,2 explicitará a fé numa retribuição após a morte, e no pensamento dele esta fé estará ligada à fé na ressurreição dos mortos, já que a mentalidade hebraica não concebe vida do espírito separado da carne. No judaísmo alexandrino, a doutrina progredirá em caminho paralelo e irá mais adiante. Depois que a filosofia platônica, com sua teoria da alma imortal, tiver libertado o pensamento hebraico de seus entraves, o livro da Sabedoria afirmará que “Deus criou o homem para a imortalidade” (2,23) e que depois da morte a alma fiel gozará de felicidade sem fim junto de Deus, enquanto os ímpios receberão seu castigo (3,1-12). Assim, finalmente, estará dada a resposta ao grande problema dos sábios de Israel.

A forma mais simples e mais antiga da literatura sapiencial é o mâshâl. É esse, no plural, o título do livro que chamamos de Provérbios. O mâshâl é, mais exatamente, fórmula surpreendente, ditado popular ou máxima. As coleções antigas dos Provérbios contêm apenas sentenças breves. Depois o mâshâl se desenvolve, torna-se parábola ou alegoria, discurso ou raciocínio. Esta evolução, perceptível já nas pequenas seções anexas dos Provérbios e mais ainda no Prólogo (1-9), acelera-se nos livros seguintes: Jó e Sabedoria são grandes obras literárias.

Por detrás de todas essas formas literárias, mesmo as mais simples, a origem da sabedoria deve ser procurada na vida da família ou do clã. As observações sobre a natureza e sobre os homens, acumuladas de geração em geração, exprimiram-se em sentenças, em ditados populares, em curtos apólogos, que tinham aplicação moral e que serviam de normas de conduta. A mesma origem pode ser atribuída às primeiras formulações do direito consuetudinário, que às vezes se assemelham, no conteúdo e não só na forma, às sentenças de sabedoria. Essa corrente de sabedoria popular prosseguiu paralelamente à formação das coleções sapienciais. Dela se originam, por exemplo, os provérbios de 1Sm 24,14; 1Rs 20,11, a fábula de Jz 9,8-15 e a de 2Rs 14,9, e até mesmo os profetas dela extraíram textos como Is 28,24-28; Jr 17,5-11.

A brevidade das sentenças, que assim se gravam na memória, destinava-as ao ensino oral. O pai ou a mãe ensina-as ao filho (Pr 1,8; 4,1; 31,1; Eclo 3,1) e o mestre continuará chamando “seu filho” ao discípulo que forma, pois os sábios fazem escola (Eclo 51,23.26; cf. Pr 7,1s; 9,1s). A sabedoria torna-se privilégio da classe erudita, daquela, por conseguinte, que também sabe escrever; sábios e escribas aparecem lado a lado em Jr 8,8-9, e Eclo 38,24-39,11 enaltece, opondo-a aos trabalhos braçais, a profissão do escriba que lhe permite adquirir a sabedoria. Dentre os escribas o rei escolhia seus funcionários, e foi na corte que primeiro se desenvolveram as doutrinas de sabedoria. Todos esses traços têm paralelos exatos nos outros ambientes da sabedoria oriental, no Egito ou na Mesopotâmia. Uma das coleções salomônicas dos Provérbios foi reunida pelos “homens de Ezequias, rei de Judá” (Pr 25,1). Mas estes sábios não eram apenas colecionadores de máximas antigas; eles próprios também escreviam. Duas obras literárias compostas provavelmente na corte de Salomão, a história de José e a da sucessão ao trono de Davi, podem ser consideradas como escritos de sabedoria.

O ambiente dos sábios é, pois, bem diferente daqueles donde procedem os escritos sacerdotais e os proféticos, e Jr 18,18 enumera, como formando três classes, os sacerdotes, os sábios e os profetas. As preocupações deles são diferentes: os sábios não têm interesse especial pelo culto, não parecem comovidos com as calamidades do seu povo, nem influenciados pela grande esperança que o sustenta. Mas, a partir do Exílio, estas três correntes confluem. O prólogo dos Provérbios assume o tom de pregação profética, o Eclesiástico (44-49) e a Sabedoria (10-19) meditam longamente sobre a História Santa; o Eclesiástico venera o sacerdócio, mostra-se entusiasta do culto e enfim identifica Sabedoria e Lei (Eclo 24,23-34): é a aliança entre o escriba (ou o sábio) e o doutor da Lei, que encontraremos nos tempos evangélicos.

Aqui chegamos, no Antigo Testamento, ao termo de uma longa caminhada em cujo início se colocava Salomão. Também neste ponto se encontram paralelos orientais: dois escritos da sabedoria egípcia eram considerados como ensinamentos dados por um Faraó a seu filho. Desde 1Rs 5,9-14 (cf. 3,9-12.28; 10,1-9) até Eclo 47,12-17, Salomão foi exaltado como o maior sábio de Israel, e as duas coleções mais importantes e mais antigas dos Provérbios (10-22 e 25-29) lhe são atribuídas; isto explica o título dado ao livro inteiro (Pr 1,1). Também foram colocados sob seu nome o Eclesiastes, a Sabedoria e o Cântico dos cânticos. Todo esse ensinamento comunicado gradualmente ao povo eleito preparava a revelação da Sabedoria encarnada. Mas “aqui está algo mais do que Salomão” (Mt 12,42).


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Segundo Livro dos Macabeus

Capítulo Versículos Trecho
1 1-10a I. Cartas aos judeus do Egito Primeira carta
10b Destinatários Segunda carta
11-17 Ação de graças pela punição de Antíoco
18-36 O fogo sagrado milagrosamente preservado
2 1-12 Jeremias esconde o material do culto
13-15 A biblioteca de Neemias
16-18 Convite à festa da dedicação do Templo
19-32 II. Prefácio do autor
3 1-12 A vinda de Heliodoro a Jerusalém III. Episódio de Heliodoro
13-23 A consternação da cidade
24-34 Castigo de Heliodoro
35-40 Conversão de Heliodoro
4 1-6 Desmandos do superintendente Simão IV. Propaganda helenística e perseguição sob Antíoco Epífanes
7-20 Jasão, sumo sacerdote, introduz o helenismo
21-22 Antíoco Epífanes aclamado em Jerusalém
23-29 Menelau torna-se sumo sacerdote
30-38 Assassínio de Onias
39-42 Lisímaco perece no decorrer de uma revolta
43-50 Menelau é absolvido a peso de prata
5 1-4 Segunda campanha no Egito
5-14 Agressão de Jasão e repressão de Epífanes
15-23 Pilhagem do Templo
24-27 Intervenção do misarca Apolônio
6 1-11 Instalação dos cultos pagãos
12-17 Sentido providencial da perseguição
18-31 O martírio de Eleazar
7 1-42 O martírio dos sete irmãos
8 1-7 Judas Macabeu na resistência V. Vitória do judaísmo. Morte do perseguidor e purificação do Templo
8-29 Campanha contra Nicanor e Górgias
30-33 Timóteo e Báquides são derrotados
34-36 Fuga e confissão de Nicanor
9 1-17 Fim de Antíoco Epífanes
18-29 Carta de Antíoco aos judeus
10 1-8 Purificação do Templo
9-13 Inícios do reinado de Antíoco Eupátor VI. Lutas de Judas contra os povos vizinhos e contra Lísias, ministro de Eupátor
14-23 Górgias e as fortalezas da Idumeia
24-38 Judas vence Timóteo e toma Gazara
11 1-12 Primeira campanha de Lísias
13-38 Paz com os judeus. Quatro cartas referentes ao tratado
12 1-9 Episódios de Jope e de Jâmnia
10-16 Expedição na Galaadítida
17-26 A batalha do Cárnion
27-31 Retorno por Efron e Citópolis
32-37 Campanha contra Górgias
38-45 O sacrifício pelos mortos
13 1-8 Campanha de Antíoco V e de Lísias. Execução de Menelau
9-17 Preces e vitória dos judeus perto de Modin
18-26 Antíoco V faz acordo com os judeus
14 1-14 Intervenção do sumo sacerdote Alcimo VII. Luta contra Nicanor, general de Demétrio I. O dia de Nicanor
15-25 Nicanor faz amizade com Judas
26-36 Alcimo reacende as hostilidades e Nicanor ameaça o Templo
37-46 Morte de Razis
15 1-5 Blasfêmias de Nicanor
6-16 Exortação e sonho de Judas
17-24 Disposições dos combatentes
25-36 Derrota e morte de Nicanor
37-39 Epílogo do abreviador

Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Primeiro Livro dos Macabeus

Capítulo Versículos Trecho
1 1-9 Alexandre e os Diádocos I. Preâmbulo
10-15 Antíoco Epífanes e a penetração do helenismo em Israel
16-28 Primeira campanha no Egito e saque do Templo
29-40 Intervenção do Misarca e construção da Cidadela
41-64 Instalação dos cultos pagãos
2 1-14 Matatias e seus filhos II. Matatias desencadeia a guerra santa
15-28 A prova do sacrifício em Modin
29-38 A prova do sábado no deserto
39-48 Atividade de Matatias e seus seguidores
49-70 Testamento e morte de Matatias
3 1-9 Elogio de Judas Macabeu III. Judas Macabeu, chefe dos judeus (166-160 a.C.)
10-26 Primeiras vitórias de Judas
27-37 Preparativos de Antíoco contra a Pérsia e a Judeia. Regência de Lísias
38-45 Górgias e Nicanor invadem a Judeia com o exército da Síria
46-60 Reunião dos judeus em Masfa
4 1-27 A batalha de Emaús
28-35 Primeira campanha de Lísias
36-61 Purificação e dedicação do Templo
5 1-8 Expedição contra os idumeus e os amonitas
9-20 Preparativos das campanhas na Galileia e em Galaad
21-54 Expedições à Galileia e ao Galaad
55-62 Revés em Jâmnia
63-68 Vitórias na Idumeia e na Filisteia
6 1-13 Fim de Antíoco Epífanes
14-17 Subida ao trono de Antíoco V
18-27 Judas Macabeu põe cerco à Cidadela de Jerusalém
28-47 Campanha de Antíoco V e de Lísias. Batalha de Bet-Zacarias
48-54 Tomada de Betsur e cerco do monte Sião pelos sírios
55-63 O rei concede aos judeus a liberdade religiosa
7 1-24 Demétrio I torna-se rei. Báquides e Alcimo são enviados à Judeia
25-32 Nicanor na Judeia. Combate de Cafarsalama
33-38 Ameaças contra o Templo
39-50 O dia de Nicanor em Adasa
8 1-16 Elogio dos romanos
17-32 Aliança dos judeus com os romanos
9 1-18 Combate de Beerzet e morte de Judas Macabeu
19-22 Funerais de Judas Macabeu
23-31 Prevalece o partido helenista. Jônatas lidera a resistência IV. Jônatas, chefe dos judeus e sumo sacerdote (160-142 a.C.)
32-42 Jônatas no deserto de Técua. Episódios sangrentos junto a Mádaba
43-49 A passagem do Jordão
50-57 Fortificações de Báquides. Morte de Alcimo
58-73 O cerco de Bet-Basi
10 1-21 Competição de Alexandre Balas. Jônatas é por ele nomeado sumo sacerdote
22-45 Carta de Demétrio I a Jônatas
46-50 Jônatas repele as ofertas de Demétrio. Morte do rei
51-66 Casamento de Alexandre com Cleópatra. Jônatas elevado a estratego e governador
67-89 Demétrio II. Apolônio, governador da Celessíria, é vencido por Jônatas
11 1-19 Ptolomeu VI dá apoio a Demétrio II. Morre Alexandre Balas e também Ptolomeu
20-29 Primeiras relações entre Demétrio II e Jônatas
30-37 Novo decreto em favor dos judeus
38-53 Demétrio II é socorrido em Antioquia pelas tropas de Jônatas
54-74 Jônatas contra Demétrio II. Simão retoma Betsur. A escaramuça de Asor
12 1-23 Relações de Jônatas com Roma e Esparta
24-34 Jônatas na Celessíria, Simão na Filisteia
35-38 Obras em Jerusalém
39-53 Jônatas cai nas mãos de seus inimigos
13 1-11 Simão assume o comando V. Simão, sumo sacerdote e etnarca dos judeus (142-134 a.C.)
12-24 Simão afasta Trifão da Judeia
25-30 Jônatas é sepultado no mausoléu de Modin, construído por Simão
31-42 Favores de Demétrio II a Simão
43-48 Simão toma Gazara
49-53 Simão toma posse da Cidadela
14 1-15 Elogio de Simão
16-24 Renovação da aliança com Esparta e Roma
25-49 Decreto honorífico em favor de Simão
15 1-14 Carta de Antíoco VII e cerco de Dora
15-24 Volta da embaixada de Roma para a Judeia e promulgação da aliança com os romanos
25-36 Antíoco VII, ao assediar Dora torna-se hostil a Simão e o censura
37-41 O governador Cendebeu molesta a Judeia
16 1-10 Vitória dos filhos de Simão contra Cendebeu
11-24 Fim trágico de Simão em Doc. Sucede-lhe seu filho João

Fonte: Bíblia de Jerusalém.