Introdução aos livros de Tobias, de Judite e de Ester

Na Vulgata, os três livros de Tobias, de Judite e de Ester são colocados depois dos livros históricos. Alguns grandes manuscritos da versão grega seguem a mesma ordem, mas há outros que os apresentam depois dos Escritos sapienciais. Formam um pequeno grupo que se distingue por várias características particulares.

1ª Possuem um texto que não é uniforme. O livro de Tobias depende de um original semítico que se perdeu. São Jerônimo utilizou, para a Vulgata, um texto “caldaico” (aramaico) que não possuímos mais. Todavia, foram descobertos numa gruta de Qumrã os restos de quatro manuscritos aramaicos e de um manuscrito hebraico de Tobias. As versões grega, siríaca e latina representam quatro recensões do texto, das quais as mais importantes são, de um lado, a do manuscrito Vaticano (B) e Alexandrino (A), e do outro a do códice Sinaítico (S) e da Vetus Latina. Esta última recensão, apoiada agora pelos fragmentos de Qumrã, parece ser a mais antiga e é a ela que seguiremos na presente tradução, sem deixar de recorrer às demais testemunhas.

O original hebraico do livro de Judite também se perdeu. E duvidoso que ele seja representado por algum dos textos hebraicos que circularam na Idade Média. Os textos gregos se apresentam sob três formas que divergem notavelmente. Por sua vez, a Vulgata oferece um texto bastante diferente: parece que são Jerônimo limitou-se a revisar, com o auxílio de uma paráfrase aramaica, uma tradução latina anterior.

O livro de Ester existe numa forma curta, a do hebraico, e numa forma longa, a do grego. Há duas modalidades do texto grego: o tipo comum da Bíblia grega e o tipo aberrante da recensão de Luciano de Antioquia. A versão grega acrescenta ao hebraico os seguintes complementos: sonho de Mardoqueu (1,1a-q) e sua explicação (10,3a-j) dois editos de Assuero (3,13a-g e 8,12a-u), preces de Mardoqueu (4,17a-i) e de Ester (4,17j-y), outro relato da intervenção de Ester junto a Assuero (5,1a-f e 5,2a-b), um apêndice que explica a origem da versão grega (10,3k). Estas adições foram colocadas por são Jerônimo no final do texto hebraico (Vulg. 10,4-16,24); na presente tradução, foram deixadas no lugar que lhes destina o texto grego, impressas em caracteres itálicos e com uma numeração especial.

2ª Eles só entraram posteriormente no cânon das Escrituras. Os livros de Tobias e de Judite não foram admitidos pela Bíblia hebraica, nem tampouco os admitem os protestantes. São livros deuterocanônicos, que a Igreja católica reconheceu, após algumas hesitações, na época patrística. Lidos e utilizados desde antigamente, eles figuram nas listas oficiais do Cânon, no Ocidente a partir do sínodo romano de 382, no Oriente a partir do concílio de Constantinopla, denominado “in Trullo”, em 692. As seções gregas de Ester são igualmente deuterocanônicas e têm a mesma história que Tobias e Judite. O livro hebraico era ainda discutido pelos rabinos no século I de nossa era, mas depois teve grande aceitação entre os judeus.

3ª Eles têm em comum certo gênero literário. Estas histórias tratam a história e a geografia com muita liberdade. De acordo com Tobias, o velho Tobit presenciou em sua juventude a divisão do reino por ocasião da morte de Salomão (em 931: Tb 1,4), foi deportado com a tribo de Neftali (em 734: Tb 1,5.10) e seu filho Tobias só veio a morrer após a ruína de Nínive (em 612: Tb 14,15). O livro menciona Senaquerib como sucessor imediato de Salmanasar (Tb 1,15), omitindo o reinado de Sargon. Entre Rages, situada na montanha, e Ecbátana, no meio da planície, haveria não mais de dois dias de caminhada (Tb 5,6), embora Ecbátana esteja a uma altitude de dois mil metros, muito mais alta que Rages, e as duas cidades estejam a uma distância de trezentos quilômetros uma da outra. O livro de Ester tem quadro histórico mais consistente: a cidade de Susa é descrita com exatidão, certos costumes persas são bem observados. Assuero, transcrição hebraica de Xerxes, é um personagem conhecido e o perfil moral do rei se harmoniza com o que dele nos diz Heródoto. No entanto, o decreto de extermínio dos judeus, que ele aceita assinar, não combina bem com a política tolerante dos Aquemênidas; é ainda menos verossímil que ele tenha autorizado o massacre de seus próprios súditos e que setenta e cinco mil persas se tenham deixado matar sem resistência. Nas datas que a narrativa apresenta, a rainha dos persas, esposa de Xerxes, chamava-se Amestris, e a história geral não deixa lugar para Vasti nem para Ester. Se Mardoqueu foi deportado no tempo de Nabucodonosor (Est 2,6), teria mais ou menos 150 anos no reinado de Xerxes.

O livro de Judite, sobretudo, manifesta uma soberba indiferença pela história e pela geografia. O relato é situado no tempo de “Nabucodonosor, que reinou sobre os assírios em Nínive” (Jt 1,1); ora, Nabucodonosor foi rei de Babilônia, e Nínive fora destruída por seu pai Nabopolassar. Por sua vez, o retorno do Exílio, no tempo de Ciro, é apresentado como algo que já se realizou (Jt 4,3; 5,19). Holofernes e Bagoas são nomes persas, mas há também alusões claras a certos costumes gregos (3,7-8; 15,13). O itinerário bélico de Holofernes (2,21-28) é desafio à geografia. Quando ele chega a Samaria, pensamos estar num terreno mais firme e os nomes de lugares se multiplicam. Mas muitos nos são desconhecidos e soam de modo estranho; a própria cidade de Betúlia, que é o centro das operações, não se consegue localizá-la num mapa, apesar das aparentes precisões topográficas da narrativa.

Essas surpreendentes liberdades só se explicam se os autores quiseram fazer algo diferente de uma obra de história. E provável que se tenham baseado em fatos reais, mas é impossível determinar de que fatos se trata, cobertos como estão pelos desenvolvimentos a que serviram de pretexto, desenvolvimentos que são a obra própria dos autores e contêm a mensagem deles. O que importa é determinar a intenção de cada livro e extrair o ensinamento que ele contém.

O livro de Tobias é história de família. Tobit, exilado da tribo de Neftali, residente em Nínive, piedoso, observante, caridoso fica cego. Seu parente Raguel, em Ecbátana, tem uma filha, Sara, que viu morrer sucessivamente sete noivos, mortos na noite do casamento pelo demônio Asmodeu. Tobit e Sara, cada qual por seu lado, pedem a Deus que os livre desta vida. Desses dois infortúnios e dessas duas preces Deus fará uma grande alegria: envia seu anjo Rafael, que conduz Tobias, filho de Tobit, à casa de Raguel, faz que ele se case com Sara e lhe dá o remédio que curará o cego. É uma história edificante, na qual têm lugar notável os deveres para com os mortos e o conselho de dar esmola. O sentimento de família aí se exprime com emoção e encanto. Desenvolve uma noção muito elevada do matrimônio. O anjo Rafael manifesta e ao mesmo tempo esconde a ação de Deus, do qual é instrumento. É essa providência cotidiana, essa proximidade de um Deus benévolo, que o livro convida a reconhecer.

O livro inspira-se em modelos bíblicos, sobretudo nos relatos patriarcais do Gênesis; literariamente, situa-se entre Jó e Ester, entre Zacarias e Daniel. Apresenta pontos de contato com a Sabedoria de Aicar (cf. Tb 1,22; 2,10; 11,18; 14,10), obra apócrifa cujo tema remonta pelo menos ao século V a.c. (ver Tb 1,22+). Ao que parece, o livro de Tobias foi escrito por volta do ano 200 a.C., talvez na Palestina e provavelmente em aramaico.

O livro de Judite é a história de uma vitória do povo eleito contra seus inimigos, graças à intervenção de uma mulher. A pequena nação judaica enfrenta o possante exército de Holofernes, que deve submeter o mundo ao rei Nabucodonosor e destruir todo culto que não seja o de Nabucodonosor divinizado. Os judeus são sitiados em Betúlia que, por falta de água, está na iminência de se render. Aparece então Judite, uma jovem viúva, bela, sábia, piedosa e decidida, que vencerá sucessivamente o desalento de seus compatriotas e o exército assírio. Ela reprova os chefes da cidade pela sua falta de confiança em Deus, depois reza, enfeita-se, sai de Betúlia e faz-se conduzir perante Holofernes. Utiliza contra ele a sedução e a astúcia e, ao ficar sozinha com o militar embriagado, corta-lhe a cabeça. Tomados de pânico, os assírios fogem, e seu acampamento é entregue ao saque. O povo exalta Judite e se dirige a Jerusalém para solene ação de graças.

Parece que o autor multiplicou de propósito as incorreções históricas para desviar a atenção de um contexto histórico preciso e orientá-la toda para o drama religioso e seu desenlace. É relato habilmente composto, que tem íntimo parentesco com os apocalipses. Holofernes, servo de Nabucodonosor, é síntese das potências do mal; Judite, cujo nome significa “a judia”, representa a causa de Deus, identificada com a de sua nação. Esta parece votada ao extermínio, mas Deus promove seu triunfo pelas fracas mãos de uma mulher, e o povo santo sobe a Jerusalém. Este livro tem inegáveis contatos com Daniel, Ezequiel e Joel; a cena se passa na planície de Esdrelon, perto daquela planície de Harmagedon, onde são João situará a batalha escatológica de Ap 16,16. A vitória de Judite recompensa sua oração, sua observância escrupulosa das regras de pureza legal, e no entanto a perspectiva do livro é universalista: a salvação de Jerusalém é obtida em Betúlia, naquela Samaria odiada pelos “ortodoxos” do judaísmo rígido; o sentido religioso do conflito é descoberto por Aquior, que é amonita (Jt 5,5-21) e se converte ao verdadeiro Deus (Jt 14,5-10). O livro foi escrito na Palestina em meados do século II antes da nossa era, na atmosfera de fervor nacional e religioso que foi criada pelo levante dos Macabeus.

O livro de Ester narra, como o de Judite, a libertação da nação por intermédio de uma mulher. Os judeus radicados na Pérsia são ameaçados de extermínio pelo ódio do vizir onipotente, Amã, e são salvos graças à intervenção de Ester, jovem compatriota que se tornara rainha e era orientada por sua vez pelo tio Mardoqueu. Há reviravolta completa da situação: Amã é enforcado, Mardoqueu assume seu lugar, os judeus massacram seus inimigos. A festa de Purim é instituída para comemorar essa vitória e recomenda-se aos judeus celebrá-la todos os anos.

A narrativa mostra a hostilidade de que os judeus eram objeto no mundo antigo, por causa da singularidade de sua vida, que os punha em conflito com as leis do monarca (compare-se com a perseguição de Antíoco Epífanes); seu nacionalismo exacerbado é reação de defesa. Sua violência nos choca, mas devemos lembrar-nos de que o livro é anterior à revelação cristã. Também é preciso levar em conta o elemento literário: essas intrigas de harém e essas matanças não têm outra função senão apresentar dramaticamente uma tese que é religiosa. A exaltação de Mardoqueu e de Ester e a libertação que daí resulta recordam a história de Daniel e sobretudo a de José, oprimido e depois exaltado para a salvação do seu povo. No relato do Gênesis sobre José, Deus não manifesta externamente seu poder, e no entanto dirige os acontecimentos. Do mesmo modo, no livro hebraico de Ester, que evita mencionar o nome de Deus, a Providência conduz todas as peripécias do drama. Os atores sabem disso e põem toda a sua confiança em Deus, que realizará seu desígnio de salvação, mesmo se falham os instrumentos humanos que ele escolheu (cf. Est 4,13-17 que dá a chave do livro). As adições gregas têm tom mais religioso (proporcionaram todas as passagens de Ester utilizadas pela liturgia}, mas limitam-se a explicitar o que o autor hebreu deixava adivinhar.

A tradução grega existia em 114 (ou 78) a.C., data em que foi enviada ao Egito para autenticar a festa de Purim (Est 10,31). O texto hebraico é anterior; conforme 2Mc 15,36, os judeus da Palestina celebravam, em 160 a.C., um “dia de Mardoqueu”, que supõe conhecida a história de Ester e talvez também o próprio livro. Este pode ter sido composto no segundo quartel do século II a.C. Sua relação original com a festa de Purim é incerta: a perícope de Est 9,20-32 é de estilo diferente e parece ser adição. As origens da festa são obscuras e é possível que o livro tenha sido relacionado com ela secundariamente (2Mc 15,36 não dá o nome de “Purim” ao “dia de Mardoqueu”) e tenha servido para justificá-la historicamente.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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