Introdução aos livros dos Macabeus

Os dois livros dos Macabeus não faziam parte do cânon escriturístico dos judeus, mas foram reconhecidos pela Igreja cristã como inspirados (livros deuterocanônicos). Referem-se à história das lutas travadas contra os soberanos selêucidas para obter a liberdade religiosa e política do povo judeu. Seu titulo provém do sobrenome de Macabeu dado ao principal herói desta história (1Mc 2,4) e estendido depois a seus irmãos.

O Primeiro livro dos Macabeus descreve na introdução (1-2) os adversários que se enfrentam: o helenismo conquistador, que encontra cúmplices em certos Judeus, e a reação da consciência nacional, devotada à Lei e ao Templo: de um lado, Antíoco Epífanes, que profana o Templo e desencadeia a perseguição; do outro, Matatias que lança o apelo à guerra santa. O corpo do livro se divide em três partes, consagradas às atividades dos três filhos de Matatias que sucessivamente assumem a liderança da resistência. Judas Macabeu (166-160 a.C.: 3,1-9,22) obtém uma série de vitórias sobre os generais de Antíoco, purifica o Templo e consegue para os judeus a liberdade de viver segundo seus costumes. No tempo de Demétrio I, as intrigas do sumo sacerdote Alcimo lhe criam dificuldades, mas prossegue em seus êxitos militares, e Nicanor, que queria destruir o Templo, é derrotado e morto. Para assegurar suas posições, Judas procura a aliança dos romanos. Morre no campo de batalha. Sucede-lhe seu irmão Jônatas (160-142: 9,23-12,53). As manobras políticas prevalecem sobre as operações militares. Jônatas com habilidade tira proveito das rivalidades entre os pretendentes ao trono da Síria: é nomeado sumo sacerdote por Alexandre Balas, reconhecido por Demétrio II e confirmado por Antíoco VI. Procura fazer aliança com os romanos e os espartanos. Vai-se dilatando o território submetido a seu controle e a paz interior parece assegurada, quando Jônatas cai nas mãos de Trifão, que mandou matá-lo, bem como ao jovem Antíoco VI. O irmão de Jônatas, Simão (142-134: 13,1-16,24), apoia Demétrio II, que retoma o poder, e é reconhecido por este e depois por Antíoco VII como sumo sacerdote, estratego e etnarca dos judeus. Assim é conseguida a autonomia política. Estes títulos lhe são confirmados por um decreto do povo. Renova-se a aliança com os romanos. É uma época de paz e prosperidade. Mas Antíoco VII volta-se contra os judeus, e Simão, com dois de seus filhos, é assassinado por seu genro, que julgava agradar com isso ao soberano.

O relato do primeiro livro dos Macabeus abrange assim quarenta anos, desde a ascensão de Antíoco Epífanes ao poder, em 175, até a morte de Simão e o início do governo de João Hircano em 134 a.C. Foi escrito em hebraico, mas só foi conservado numa tradução grega. Seu autor é judeu palestinense, que compôs a obra depois do ano 134, mas antes da tomada de Jerusalém por Pompeu em 63 a.c. As últimas linhas do livro (16,23-24) indicam que foi escrito não antes do final do reinado de João Hircano, mais provavelmente pouco depois de sua morte, por volta de 100 a.C. É documento precioso para a história deste tempo, contanto que se leve em conta seu gênero literário, que imita as antigas crônicas de Israel — e as intenções do autor.

Pois, embora ele se detenha longamente nos acontecimentos da guerra e nas intrigas políticas, é história religiosa que ele pretende narrar. Considera as desgraças do seu povo como punição pelo pecado e atribui à assistência de Deus os êxitos de seus heróis. É judeu zeloso de sua fé e compreendeu que ela era o motivo da luta entre a influência pagã e os costumes dos pais. É, portanto, adversário resoluto da helenização e é cheio de admiração pelos heróis que combateram pela Lei e pelo Templo e que conquistaram para o povo a liberdade religiosa e posteriormente a independência nacional. É o cronista de uma luta em que foi salvo o judaísmo, portador da Revelação.

O Segundo livro dos Macabeus não é a continuação do primeiro. É, em parte, paralelo a ele, iniciando a narração dos acontecimentos um pouco antes, no fim do reinado de Seleuco IV, predecessor de Antíoco Epífanes, mas acompanhando-os apenas até a derrota de Nicanor, antes da morte de Judas Macabeu. Isto não representa mais do que quinze anos e corresponde somente ao conteúdo dos caps. 1-7 do primeiro livro.

O gênero literário é muito diferente. O livro, escrito originalmente em grego, apresenta-se como o compêndio da obra de certo Jasão de Cirene (2,19-32) e se inicia com duas cartas dos judeus de Jerusalém (1,1-2,18). O estilo, que é o dos escritores helenísticos, mas não dos melhores, é às vezes empolado. É menos o estilo de historiador que de pregador, embora o conhecimento das instituições gregas e das personagens da época que nosso autor demonstra seja muito superior ao que aparenta o autor de 1Mc.

Na realidade, seu objetivo é agradar e edificar (2,25; 15,39) narrando a guerra de libertação comandada por Judas Macabeu, sustentada por aparições celestiais e vencida graças à intervenção divina (2,19-22). A própria perseguição era efeito da misericórdia de Deus, que corrigia seu povo antes que a medida do pecado ficasse repleta (6,12-17). Ele escreve para os judeus de Alexandria, e sua intenção é despertar neles o sentimento de comunhão com seus irmãos da Palestina. Quer interessá-los especialmente pela sorte do Templo, centro da vida religiosa segundo a Lei, objeto do ódio dos gentios. Esta preocupação transparece no plano do livro: depois do episódio de Heliodoro (3,1-40), que sublinha a santidade inviolável do santuário, a primeira parte (4,1-10,8) termina com a morte do perseguidor, Antíoco Epífanes, que manchou o Templo, e com a instituição da festa da Dedicação; a segunda parte (10,9-15,36) encerra-se também com a morte de um perseguidor, Nicanor, que fizera ameaças contra o Templo, e com a instituição de festa comemorativa. As duas cartas colocadas no começo do livro (1,1-2,18) visam ao mesmo objetivo: são convites dirigidos pelos judeus de Jerusalém a seus irmãos do Egito para celebrar com eles a festa da purificação do Templo, a Dedicação.

Já que o último acontecimento é a morte de Nicanor, a obra de Jasão de Cirene teria sido composta pouco depois de 160 a.C. Se tiver sido o próprio compendiador que colocou no início as duas cartas dos caps. 1-2 para acompanharem a remessa de seu resumo — mas esta hipótese é discutida — a data deste seria fornecida pela indicação de 1,10a, que corresponde ao ano 124 a.C. O valor histórico do livro não deve ser subestimado. É verdade que o compendiador (ou um redator?) incorporou as narrativas apócrifas contidas na carta de 1,10b-2,18 e reproduziu as histórias patéticas de Heliodoro (3), do martírio de Eleazar (6,18-31) e do martírio dos sete irmãos (7), que encontrou em Jasão e que bem ilustram suas teses religiosas. Mas a concordância geral com 1Mc assegura a historicidade dos acontecimentos narrados por estas duas fontes independentes. Há um ponto importante em que 2Mc está em conflito com 1Mc e é preferível a este. 1Mc 6,1-13 situa a purificação do Templo antes da morte de Antíoco Epífanes e 2Mc 9,1-29 situa-a depois; uma tabuinha cronológica babilônica, recentemente publicada, deu-lhe razão: Antíoco morreu em outubro/novembro de 164, antes da rededicação do Templo, que teve lugar no fim de dezembro do mesmo ano. Nas secções que são próprias de 2Mc, não há motivo para suspeitar das informações dadas no cap. 4 sobre os anos que precederam o saque do Templo por Antíoco. No entanto, há grave confusão, pela qual é responsável provavelmente o compendiador e não Jasão: possuindo uma carta de Antíoco V (11,22-26), ele juntou-lhe em 11,1-12,9 outras cartas, bem como a narração dos fatos que datam do final do reinado de Antíoco IV e que deveriam ter sido colocadas entre os caps. 8 e 9.

O livro é importante pelas afirmações que contém sobre a ressurreição dos mortos (ver a nota a respeito de 7,9; 14,46), as sanções de além-túmulo (6,26), a prece pelos defuntos (12,41-46 e a nota), o mérito dos mártires (6,18-7,41) e a intercessão dos santos (15,12-16 e a nota). Estes ensinamentos, referentes a pontos que os outros escritos do Antigo Testamento deixavam incertos, justificam a autoridade que a Igreja lhe reconheceu.

O sistema cronológico adotado por cada um dos dois livros é mais bem conhecido depois da descoberta duma tabuinha cuneiforme que é um fragmento de cronologia dos reis selêucidas, a qual possibilitou fixar a data da morte de Antíoco Epifanes. Constata-se que 1Mc segue o cômputo macedônico, que começa em outubro de 312 a.C., ao passo que 2Mc segue o cômputo judaico, análogo ao cômputo babilônico, que parte de Nisã (3 de abril) de 311. Mas isto com dupla exceção: em 1Mc, os acontecimentos peculiares ao Templo e à história judaica são datados segundo o calendário judaico-babilônico (1,54; 2,70; 4,52; 9,3.54; 10,21; 13,41.51; 14,27; 16,14), enquanto as cartas citadas por 2Mc 11 são datadas segundo o cômputo macedônico, o que é perfeitamente normal.

O texto nos foi transmitido por três unciais — o Sinaítico, o Alexandrino e o Vêneto — e por uns trinta minúsculos, mas no Sinaítico (nosso melhor testemunho), a parte correspondente a 2Mc infelizmente se perdeu. Os minúsculos que atestam a recensão do presbítero Luciano (300 d.C.) conservam por vezes um texto mais antigo que os dos outros manuscritos gregos, texto que se reencontra nas Antiguidades Judaicas do historiador Flávio Josefo, que segue geralmente 1Mc e ignora 2Mc. A Vetus Latina, também, é a tradução dum texto grego perdido e frequentemente melhor que o dos manuscritos que conhecemos. O texto que está na Vulgata não foi traduzido por são Jerônimo — para quem os Livros dos Macabeus não eram canônicos — e não representa senão uma recensão secundária.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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Ester

Capítulo Versículos Trecho
1 1a-1k Sonho de Mardoqueu Preliminares
1l-1q Conspiração contra o rei
1-8 O banquete de Assuero I. Assuero e Vasti
9-22 A questão de Vasti
2 1-18 Ester torna-se rainha II. Mardoqueu e Ester
19-23 Mardoqueu e Amã
3 1-6
7-15 Decreto de extermínio dos judeus III. Os judeus ameaçados
4 1-17 Mardoqueu e Ester irão conjurar o perigo
17a-17i Oração de Mardoqueu
17j-17y Oração de Ester
5 1-14 Ester se apresenta no palácio
6 1-13 Desgraça de Amã IV. Desforra dos judeus
14 Amã no banquete de Ester
7 1-10
8 1-12 A benevolência real para com os judeus
12a-17 Decreto de reabilitação
9 1-19a O grande dia dos Purim
20-32 Instituição oficial da festa dos Purim V. A festa dos Purim
10 1-3j Elogio de Mardoqueu
3k Nota sobre a tradução grega do livro

Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Judite

Capítulo Versículos Trecho
1 1-12 Nabucodonosor e Arfaxad I. Campanha de Holofernes
13-16 Campanha contra Arfaxad
2 1-20 Campanha ocidental
21-28 Etapas do exército de Holofernes
3 1-10
4 1-8 Alarme na Judeia
9-15 As grandes súplicas
5 1-24 Conselho de guerra no acampamento de Holofernes
6 1-21 Aquior é entregue aos israelitas
7 1-32 Campanha contra Israel II. Assédio de Betúlia
8 1-8 Apresentação de Judite III. Judite
9-36 Judite e os anciãos
9 1-14 Oração de Judite
10 1-23 Judite dirige-se a Holofernes IV. Judite e Holofernes
11 1-23 Primeira entrevista de Judite e Holofernes
12 1-9
10-20 Judite no banquete de Holofernes
13 1-10
11-20 Judite leva para Betúlia a cabeça de Holofernes
14 1-19 Os judeus assaltam o acampamento assírio V. A vitória
15 1-7
8-14 Ação de graças
16 1-20
21-25 Velhice e morte de Judite

Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Tobias

Capítulo Versículos Trecho
1 1-2
3-22 I. O exilado
2 1-14 II. O cego
3 1-6
7-17 III. Sara
4 1-20 IV. Tobias
5 1-22 V. O companheiro
6 1
2-20 VI. O peixe
7 1-14 VII. Raguel
8 1-21 VIII. O túmulo
9 1-6 IX. As núpcias
10 1-13
11 1-18 X. Os olhos
12 1-21 XI. Rafael
13 1-17 XII. Sião
14 1a
1b-15 XIII. Nínive

Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Introdução aos livros de Tobias, de Judite e de Ester

Na Vulgata, os três livros de Tobias, de Judite e de Ester são colocados depois dos livros históricos. Alguns grandes manuscritos da versão grega seguem a mesma ordem, mas há outros que os apresentam depois dos Escritos sapienciais. Formam um pequeno grupo que se distingue por várias características particulares.

1ª Possuem um texto que não é uniforme. O livro de Tobias depende de um original semítico que se perdeu. São Jerônimo utilizou, para a Vulgata, um texto “caldaico” (aramaico) que não possuímos mais. Todavia, foram descobertos numa gruta de Qumrã os restos de quatro manuscritos aramaicos e de um manuscrito hebraico de Tobias. As versões grega, siríaca e latina representam quatro recensões do texto, das quais as mais importantes são, de um lado, a do manuscrito Vaticano (B) e Alexandrino (A), e do outro a do códice Sinaítico (S) e da Vetus Latina. Esta última recensão, apoiada agora pelos fragmentos de Qumrã, parece ser a mais antiga e é a ela que seguiremos na presente tradução, sem deixar de recorrer às demais testemunhas.

O original hebraico do livro de Judite também se perdeu. E duvidoso que ele seja representado por algum dos textos hebraicos que circularam na Idade Média. Os textos gregos se apresentam sob três formas que divergem notavelmente. Por sua vez, a Vulgata oferece um texto bastante diferente: parece que são Jerônimo limitou-se a revisar, com o auxílio de uma paráfrase aramaica, uma tradução latina anterior.

O livro de Ester existe numa forma curta, a do hebraico, e numa forma longa, a do grego. Há duas modalidades do texto grego: o tipo comum da Bíblia grega e o tipo aberrante da recensão de Luciano de Antioquia. A versão grega acrescenta ao hebraico os seguintes complementos: sonho de Mardoqueu (1,1a-q) e sua explicação (10,3a-j) dois editos de Assuero (3,13a-g e 8,12a-u), preces de Mardoqueu (4,17a-i) e de Ester (4,17j-y), outro relato da intervenção de Ester junto a Assuero (5,1a-f e 5,2a-b), um apêndice que explica a origem da versão grega (10,3k). Estas adições foram colocadas por são Jerônimo no final do texto hebraico (Vulg. 10,4-16,24); na presente tradução, foram deixadas no lugar que lhes destina o texto grego, impressas em caracteres itálicos e com uma numeração especial.

2ª Eles só entraram posteriormente no cânon das Escrituras. Os livros de Tobias e de Judite não foram admitidos pela Bíblia hebraica, nem tampouco os admitem os protestantes. São livros deuterocanônicos, que a Igreja católica reconheceu, após algumas hesitações, na época patrística. Lidos e utilizados desde antigamente, eles figuram nas listas oficiais do Cânon, no Ocidente a partir do sínodo romano de 382, no Oriente a partir do concílio de Constantinopla, denominado “in Trullo”, em 692. As seções gregas de Ester são igualmente deuterocanônicas e têm a mesma história que Tobias e Judite. O livro hebraico era ainda discutido pelos rabinos no século I de nossa era, mas depois teve grande aceitação entre os judeus.

3ª Eles têm em comum certo gênero literário. Estas histórias tratam a história e a geografia com muita liberdade. De acordo com Tobias, o velho Tobit presenciou em sua juventude a divisão do reino por ocasião da morte de Salomão (em 931: Tb 1,4), foi deportado com a tribo de Neftali (em 734: Tb 1,5.10) e seu filho Tobias só veio a morrer após a ruína de Nínive (em 612: Tb 14,15). O livro menciona Senaquerib como sucessor imediato de Salmanasar (Tb 1,15), omitindo o reinado de Sargon. Entre Rages, situada na montanha, e Ecbátana, no meio da planície, haveria não mais de dois dias de caminhada (Tb 5,6), embora Ecbátana esteja a uma altitude de dois mil metros, muito mais alta que Rages, e as duas cidades estejam a uma distância de trezentos quilômetros uma da outra. O livro de Ester tem quadro histórico mais consistente: a cidade de Susa é descrita com exatidão, certos costumes persas são bem observados. Assuero, transcrição hebraica de Xerxes, é um personagem conhecido e o perfil moral do rei se harmoniza com o que dele nos diz Heródoto. No entanto, o decreto de extermínio dos judeus, que ele aceita assinar, não combina bem com a política tolerante dos Aquemênidas; é ainda menos verossímil que ele tenha autorizado o massacre de seus próprios súditos e que setenta e cinco mil persas se tenham deixado matar sem resistência. Nas datas que a narrativa apresenta, a rainha dos persas, esposa de Xerxes, chamava-se Amestris, e a história geral não deixa lugar para Vasti nem para Ester. Se Mardoqueu foi deportado no tempo de Nabucodonosor (Est 2,6), teria mais ou menos 150 anos no reinado de Xerxes.

O livro de Judite, sobretudo, manifesta uma soberba indiferença pela história e pela geografia. O relato é situado no tempo de “Nabucodonosor, que reinou sobre os assírios em Nínive” (Jt 1,1); ora, Nabucodonosor foi rei de Babilônia, e Nínive fora destruída por seu pai Nabopolassar. Por sua vez, o retorno do Exílio, no tempo de Ciro, é apresentado como algo que já se realizou (Jt 4,3; 5,19). Holofernes e Bagoas são nomes persas, mas há também alusões claras a certos costumes gregos (3,7-8; 15,13). O itinerário bélico de Holofernes (2,21-28) é desafio à geografia. Quando ele chega a Samaria, pensamos estar num terreno mais firme e os nomes de lugares se multiplicam. Mas muitos nos são desconhecidos e soam de modo estranho; a própria cidade de Betúlia, que é o centro das operações, não se consegue localizá-la num mapa, apesar das aparentes precisões topográficas da narrativa.

Essas surpreendentes liberdades só se explicam se os autores quiseram fazer algo diferente de uma obra de história. E provável que se tenham baseado em fatos reais, mas é impossível determinar de que fatos se trata, cobertos como estão pelos desenvolvimentos a que serviram de pretexto, desenvolvimentos que são a obra própria dos autores e contêm a mensagem deles. O que importa é determinar a intenção de cada livro e extrair o ensinamento que ele contém.

O livro de Tobias é história de família. Tobit, exilado da tribo de Neftali, residente em Nínive, piedoso, observante, caridoso fica cego. Seu parente Raguel, em Ecbátana, tem uma filha, Sara, que viu morrer sucessivamente sete noivos, mortos na noite do casamento pelo demônio Asmodeu. Tobit e Sara, cada qual por seu lado, pedem a Deus que os livre desta vida. Desses dois infortúnios e dessas duas preces Deus fará uma grande alegria: envia seu anjo Rafael, que conduz Tobias, filho de Tobit, à casa de Raguel, faz que ele se case com Sara e lhe dá o remédio que curará o cego. É uma história edificante, na qual têm lugar notável os deveres para com os mortos e o conselho de dar esmola. O sentimento de família aí se exprime com emoção e encanto. Desenvolve uma noção muito elevada do matrimônio. O anjo Rafael manifesta e ao mesmo tempo esconde a ação de Deus, do qual é instrumento. É essa providência cotidiana, essa proximidade de um Deus benévolo, que o livro convida a reconhecer.

O livro inspira-se em modelos bíblicos, sobretudo nos relatos patriarcais do Gênesis; literariamente, situa-se entre Jó e Ester, entre Zacarias e Daniel. Apresenta pontos de contato com a Sabedoria de Aicar (cf. Tb 1,22; 2,10; 11,18; 14,10), obra apócrifa cujo tema remonta pelo menos ao século V a.c. (ver Tb 1,22+). Ao que parece, o livro de Tobias foi escrito por volta do ano 200 a.C., talvez na Palestina e provavelmente em aramaico.

O livro de Judite é a história de uma vitória do povo eleito contra seus inimigos, graças à intervenção de uma mulher. A pequena nação judaica enfrenta o possante exército de Holofernes, que deve submeter o mundo ao rei Nabucodonosor e destruir todo culto que não seja o de Nabucodonosor divinizado. Os judeus são sitiados em Betúlia que, por falta de água, está na iminência de se render. Aparece então Judite, uma jovem viúva, bela, sábia, piedosa e decidida, que vencerá sucessivamente o desalento de seus compatriotas e o exército assírio. Ela reprova os chefes da cidade pela sua falta de confiança em Deus, depois reza, enfeita-se, sai de Betúlia e faz-se conduzir perante Holofernes. Utiliza contra ele a sedução e a astúcia e, ao ficar sozinha com o militar embriagado, corta-lhe a cabeça. Tomados de pânico, os assírios fogem, e seu acampamento é entregue ao saque. O povo exalta Judite e se dirige a Jerusalém para solene ação de graças.

Parece que o autor multiplicou de propósito as incorreções históricas para desviar a atenção de um contexto histórico preciso e orientá-la toda para o drama religioso e seu desenlace. É relato habilmente composto, que tem íntimo parentesco com os apocalipses. Holofernes, servo de Nabucodonosor, é síntese das potências do mal; Judite, cujo nome significa “a judia”, representa a causa de Deus, identificada com a de sua nação. Esta parece votada ao extermínio, mas Deus promove seu triunfo pelas fracas mãos de uma mulher, e o povo santo sobe a Jerusalém. Este livro tem inegáveis contatos com Daniel, Ezequiel e Joel; a cena se passa na planície de Esdrelon, perto daquela planície de Harmagedon, onde são João situará a batalha escatológica de Ap 16,16. A vitória de Judite recompensa sua oração, sua observância escrupulosa das regras de pureza legal, e no entanto a perspectiva do livro é universalista: a salvação de Jerusalém é obtida em Betúlia, naquela Samaria odiada pelos “ortodoxos” do judaísmo rígido; o sentido religioso do conflito é descoberto por Aquior, que é amonita (Jt 5,5-21) e se converte ao verdadeiro Deus (Jt 14,5-10). O livro foi escrito na Palestina em meados do século II antes da nossa era, na atmosfera de fervor nacional e religioso que foi criada pelo levante dos Macabeus.

O livro de Ester narra, como o de Judite, a libertação da nação por intermédio de uma mulher. Os judeus radicados na Pérsia são ameaçados de extermínio pelo ódio do vizir onipotente, Amã, e são salvos graças à intervenção de Ester, jovem compatriota que se tornara rainha e era orientada por sua vez pelo tio Mardoqueu. Há reviravolta completa da situação: Amã é enforcado, Mardoqueu assume seu lugar, os judeus massacram seus inimigos. A festa de Purim é instituída para comemorar essa vitória e recomenda-se aos judeus celebrá-la todos os anos.

A narrativa mostra a hostilidade de que os judeus eram objeto no mundo antigo, por causa da singularidade de sua vida, que os punha em conflito com as leis do monarca (compare-se com a perseguição de Antíoco Epífanes); seu nacionalismo exacerbado é reação de defesa. Sua violência nos choca, mas devemos lembrar-nos de que o livro é anterior à revelação cristã. Também é preciso levar em conta o elemento literário: essas intrigas de harém e essas matanças não têm outra função senão apresentar dramaticamente uma tese que é religiosa. A exaltação de Mardoqueu e de Ester e a libertação que daí resulta recordam a história de Daniel e sobretudo a de José, oprimido e depois exaltado para a salvação do seu povo. No relato do Gênesis sobre José, Deus não manifesta externamente seu poder, e no entanto dirige os acontecimentos. Do mesmo modo, no livro hebraico de Ester, que evita mencionar o nome de Deus, a Providência conduz todas as peripécias do drama. Os atores sabem disso e põem toda a sua confiança em Deus, que realizará seu desígnio de salvação, mesmo se falham os instrumentos humanos que ele escolheu (cf. Est 4,13-17 que dá a chave do livro). As adições gregas têm tom mais religioso (proporcionaram todas as passagens de Ester utilizadas pela liturgia}, mas limitam-se a explicitar o que o autor hebreu deixava adivinhar.

A tradução grega existia em 114 (ou 78) a.C., data em que foi enviada ao Egito para autenticar a festa de Purim (Est 10,31). O texto hebraico é anterior; conforme 2Mc 15,36, os judeus da Palestina celebravam, em 160 a.C., um “dia de Mardoqueu”, que supõe conhecida a história de Ester e talvez também o próprio livro. Este pode ter sido composto no segundo quartel do século II a.C. Sua relação original com a festa de Purim é incerta: a perícope de Est 9,20-32 é de estilo diferente e parece ser adição. As origens da festa são obscuras e é possível que o livro tenha sido relacionado com ela secundariamente (2Mc 15,36 não dá o nome de “Purim” ao “dia de Mardoqueu”) e tenha servido para justificá-la historicamente.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Neemias

Capítulo Versículos Trecho
1 1-11 Vocação de Neemias: sua missão em Judá
2 1-10
11-20 Decisão de reconstruir as muralhas de Jerusalém
3 1-32 Os voluntários para a reconstrução
33-38 Reações dos inimigos dos judeus
4 1-17
5 1-19 Dificuldades sociais sob Neemias. Apologia de sua administração
6 1-19 Intrigas dos inimigos de Neemias. Término da muralha
7 1-3
4-5 O repovoamento de Jerusalém
6-72a Lista dos primeiros sionistas
72b Dia do nascimento do judaísmo: Esdras faz a leitura da Lei. A festa das Tendas
8 1-18
9 1-37 Cerimônia expiatória
10 1-40 Processo verbal do compromisso assumido pela comunidade
11 1-3 O sinecismo de Neemias. Listas diversas
4-20 A população judaica em Jerusalém
21-25a Notas complementares
25b-36 A população judaica na província
12 1-9 Sacerdotes e levitas que voltaram sob Zorobabel e Josué
10-11 Lista genealógica dos sumos sacerdotes
12-26 Sacerdotes e levitas no tempo do sumo sacerdote Joaquim
27-43 Dedicação da muralha de Jerusalém
44-47 Uma época ideal
13 1-3
4-31 A segunda missão de Neemias

Fonte: Bíblia de Jerusalém.