Resposta detalhada – aborto

Volto aqui, depois de quase um ano, pra completar a resposta que dei ao comentário da Jéssica.

Vou inverter a ordem cronológica dos acontecimentos, e colocar primeiro a minha resposta e depois o comentário dela, com comentários que farei agora.

Minha resposta, na época:

Obrigado pelo comentário, Jéssica. Você levantou tantos pontos que seria necessário fazer um post só sobre isso. Vou ver se em breve consigo um tempo pra comentar ponto a ponto. Enquanto isso, um resumo:

Você praticamente já resumiu a minha resposta no seu primeiro parágrafo: “ninguém tem o direito de ceifar uma vida, esteja esse ser em gestação ou já nascido”. Eu acrescentaria só mais uma palavra para o seu texto ficar exato: “inocente”.

Afinal, há casos em que matar pode ser justificado: legítima defesa, os casos raríssimos em que a pena de morte pode ser aceitável, etc. Porém, esses casos só são aceitáveis por causa da existência de uma ação que a justifique. Se um bandido invadiu a sua casa e te deu um tiro, você pode matar esse bandido sem dor na consciência, pois você tem um motivo mais do que justo para fazê-lo: a sua reação foi proporcional à agressão.

Mas matar um ser inocente? Que ação desse ser poderia ser proporcional a isso? Nenhuma, claro. Portanto, o centro da questão é: no momento que você admite a possibilidade de matar um inocente para resolver um problema seu ou de outra pessoa, você perdeu totalmente o senso das proporções, e portanto será capaz de fazer o que for preciso pelo seu objetivo de “resolver” o problema, seja isso imoral ou não.

Os casos que você citou (estupros de adolescentes, etc.) são realmente revoltantes e comoventes e a princípio até dão uma certa dúvida, mas quando você pensa no parágrafo que eu coloquei acima, qualquer dúvida cessa imediatamente. A ação deve ser punida: o estuprador preso, o abusador também, mas o bebê é totalmente inocente na história.

Assim, o que a princípio parece complicado, se torna claro: não há motivo que justifique a morte de um inocente.

Tem um filme que, apesar de não ter relação alguma sobre o tema do aborto, toca nesse assunto da proporcionalidade entre ação e reação (o benefício conseguido e o preço pago por ele). Trata-se do filme “A Caixa” (The Box). Vale a pena assistir.

Desculpe dar uma resposta assim tão rápida, mas vou ver se consigo responder ponto a ponto assim que puder.

A pergunta dela, com comentários adicionais, feitos agora:

Olá, é a primeira vez que acesso o blog e gostei muito.
Sou contra o aborto. Acredito que ninguém tem o direito de ceifar uma vida, esteja esse ser em gestação ou já nascido.

Essa parte já foi bem respondida, vamos aos outros pontos:

Alguns seres humanos são abomináveis em pensar que podem decidir se a vida de alguém vai continuar ou não.

Esse é um ponto importantíssimo que passa despercebido por muitas pessoas: o autoritarismo por trás de quem defende o aborto. E não é coincidência que seja justamente o autoritarismo o mais citado como argumento contra o aborto: querem, através do “acuse-os do que você faz”, passar o autoritarismo para quem é contra o aborto, dizendo que é uma ingerência contra “o corpo da mulher”. Não, não é. São dois corpos unidos, mas distintos. Qualquer um que entenda um pouco de Biologia consegue perceber isso. E quanto mais se aprende, quanto mais descobertas científicas aparecem nessa área, mais isso se confirma.

Aborto, guerras, assassinatos, são crimes horríveis e na minha opinião estão todos no mesmo nível de crueldade e até, se não for exagero, insanidade.

Entendo sua posição, apesar de não concordar com ela. O aborto está em um nível de crueldade muito maior que os outros exemplos por um simples motivo: o feto não tem a mais mínima possibilidade de se defender, enquanto que a população envolvida em guerras e assassinatos podem ao menos tentar se defender na maioria dos casos.

A questão do aborto sempre me deixou em parafusos, pois traz (na minha consciência) muitas questões latentes, por exemplo, casos de estupros ou crianças de 12, 13 anos que engravidam sem orientação alguma ou até mesmo foram abusadas sexualmente e também pensando como estão cheios de crianças a procura de um lar, os orfanatos e outras entidades, até na rua.

Sim, todos esses problemas são graves, mas “two wrongs don’t make a right” (dois errados não fazem um certo), ou “um erro não justifica outro”, como se diz por aqui. Matar o filho não pune o culpado do estupro, do abuso ou da falta de formação do menor, mas pune uma criatura 100% inocente de todos os episódios citados.

Quanto às crianças que precisam de um lar, o aborto também não resolve o problema delas, pois uma pessoa que está disposta a assassinar o próprio filho certamente não estará disposta a adotar o filho de outra pessoa.

Sendo minha opinião contra o aborto, seria correto pensar que as gestações desses casos devem ser mantidas, pois não se tem o direito de matar esse ser, que não tem culpa alguma. Em contrapartida eu fico pensando como pessoas sem condições de criar e educar uma criança têm filhos, pessoas que além de não conseguirem criar adequadamente, também não sabem dar amor, não têm condições de encaminhar um filho a um bom caminho. E acredito que muitas dessas mulheres “sem qualquer condição” de ter um filho são as que fazem o aborto e se não o fizessem, seria mais uma criança a ser suportada (no sentido de dar suporte mesmo) pelas pessoas da sociedade. E quando falo em “condições de criar”, não me refiro a nível de poder aquisitivo, não, me refiro a ser adequado, porque existem muitos ricos que estão por fora do que é criar uma criança e dar amor, assistência e atender as necessidades básicas. Vira um circulo vicioso.

Novamente temos um problema grave, mas cuja resposta não está em matar o filho. Afinal, se fosse assim, não haveria problema algum matar um filho já nascido. A justificativa “já que ele não terá uma criação adequada, é preferível matá-lo” vale tanto para os não nascidos como para os já nascidos. Percebe-se, portanto, que como estamos falando de uma justificativa inaceitável para um caso (o do já nascido), não faz sentido torná-la aceitável em outro caso (o do não nascido), a não ser que haja uma diferença substancial que justifique essa distinção. A mera localização física do assassinado (dentro ou fora da barriga da mãe) certamente não é um argumento que justifique esse ato bárbaro.

Por isso, apesar de ser contra o aborto, as questões que esse assunto me trazem são tão complicadas.
Gostaria de saber a opinião de vocês sobre essas questões.

Em primeiro lugar, cabe esclarecer que não há nenhum “vocês” aqui. O blog é pessoal, e quem escreve sou só eu. Não há nenhuma equipe por trás desse blog. Em segundo lugar, repito o que já havia dito há quase um ano: “o que a princípio parece complicado, se torna claro: não há motivo que justifique a morte de um inocente”. A questão só parece complicada porque as pessoas insistem em inventar complicações que não existem. E não estou falando de você, Jéssica, mas de ideólogos que jogam essas coisas nas nossas cabeças e às vezes nem percebemos.

Bom, espero ter esclarecido tudo, apesar da grande demora. Não estava lembrando dessa dívida, então peço perdão pelo atraso.

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