Introdução a Josué, Juízes, Rute, Samuel e Reis

Na Bíblia hebraica, os livros de Josué, dos Juízes, de Samuel e dos Reis são chamados “Profetas anteriores”, em contraposição aos “Profetas posteriores”: Isaías, Jeremias, Ezequiel e os Doze Profetas Menores. Essa designação se explica por uma tradição, segundo a qual esses livros foram compostos por “profetas”: Josué seria o autor do livro que leva o seu nome; Samuel teria escrito Juízes e Samuel, e Jeremias seria o autor de Reis. Ela se justifica pelo caráter religioso que lhes é comum: esses livros, que chamamos “históricos”, têm por tema principal as relações de Israel com Iahweh, sua fidelidade ou infidelidade, sobretudo infidelidade, à palavra de Deus, cujos porta-vozes são os profetas. De fato, os profetas intervêm com frequência: Samuel, Gad, Natã, Elias, Eliseu, Isaías, Jeremias, sem contar outras figuras de menor destaque. Os livros dos Reis apresentam o quadro em que se exerceu o ministério dos profetas escritores antes do Exílio.

Esses livros, vinculados assim ao que os segue na Bíblia, vinculam-se também ao que os precede. Por seu conteúdo, constituem a sequência imediata do Pentateuco: no fim do Deuteronômio, Josué é designado como o sucessor de Moisés, e o livro de Josué começa no dia seguinte ao da morte de Moisés. Chegou-se a supor que houvesse uma unidade literária entre os dois conjuntos e procurou-se a sequência dos “documentos” ou das “fontes” do Pentateuco no livro de Josué, formando-se assim um Hexateuco; ou foi-se mais longe ainda, incluindo-se até os livros dos Reis. Mas esses esforços para se reencontrarem os documentos do Pentateuco em Juízes, Samuel e Reis não deram nenhum resultado satisfatório. Até mesmo o livro de Josué só permite dificilmente reencontrar a sequência dos documentos do Pentateuco. Por outro lado, a influência do Deuteronômio e de sua doutrina aí é clara e os partidários de um Hexateuco devem admitir uma redação deutoronomista de Josué. Tais relações com o Deuteronômio continuam nos livros seguintes, embora de maneira variável: são extensos em Juízes, muito limitados em Samuel, dominantes em Reis, mas sempre são reconhecíveis. Levantou-se, portanto, a hipótese de que o Deuteronômio era o início de uma grande história religiosa que se prolongava até o fim de Reis.

Depois que o Deuteronômio justificou historicamente a doutrina da eleição de Israel e definiu a constituição teocrática que dela resulta, o livro de Josué mostra a instalação do povo eleito na terra a ele prometida, e o dos Juízes traça a sucessão de suas apostasias e de seus retornos à graça; os livros de Samuel, depois da crise que conduziu à instituição da realeza e pôs em perigo o ideal teocrático, expõem como se realizou esse ideal no tempo de Davi; os dos Reis descrevem a decadência que começou desde o reinado de Salomão e que, por uma série de infidelidades, e apesar de alguns reis piedosos, levou à condenação do povo por seu Deus. O Deuteronômio teria sido desligado desse conjunto quando se quis reunir tudo o que se referia à pessoa e à obra de Moisés (cf. Introdução ao Pentateuco).

Esta hipótese parece justificada, mas deve ser completada, ou corrigida, por dois corolários. Por um lado, a redação deuteronomista se exerceu sobre tradições orais ou documentos escritos, que diferem pela idade e pelo caráter e que, geralmente, já estavam agrupados em coleções; e a redação retocou de modo desigual os materiais que usava. Isso explica por que os livros, ou grandes seções deles, conservam sua individualidade. Por outro lado, esta mesma redação deuteronomista não foi feita de uma só vez, e cada livro ostenta indícios de várias edições. A julgar pelo livro dos Reis, cujo testemunho é o mais claro, houve pelo menos duas redações, uma logo depois da reforma de Josias e outra durante o Exílio. Sobre esses diversos pontos serão dados esclarecimentos quando abordarmos cada livro em particular.

Em sua forma definitiva, pois, estes livros são obra de uma escola de homens piedosos, imbuídos das ideias do Deuteronômio, que meditam sobre o passado de seu povo e dele tiram uma lição religiosa. Mas eles nos conservaram também tradições ou textos que remontam até à época heroica da conquista, com a narração dos episódios notáveis da história de Israel. O fato de esta ser apresentada como uma” história santa” não diminui seu interesse para o historiador e realça seu valor para aquele que tem fé, o qual não só aprenderá nela a encontrar a mão de Deus em todos os acontecimentos do mundo, mas também reconhecerá, na solicitude exigente de Iahweh para com seu povo eleito, a lenta preparação do novo Israel, a comunidade dos fiéis.

O livro de Josué divide-se em três partes: a) a conquista da Terra Prometida (1-12); b) a partilha do território entre as tribos (13-21); c) o fim da carreira de Josué, e especialmente seu último discurso e a assembleia de Siquém (22-24). É certo que este livro não foi escrito pelo próprio Josué — como o admitiu a tradição judaica — e que lança mão de diferentes fontes. Na primeira parte, reconhece-se, nos caps. 2-9, um grupo de tradições, que se prendem ao santuário benjaminita de Guilgal. A história de uma mulher, Raab, e a de um grupo de estrangeiros, os gabaonitas, enquadra este primeiro conjunto literário e nos caps. 10-11 duas histórias de batalhas, a de Gabaon e a de Merom, das quais se faz depender a conquista de todo o sul e, depois, a de todo o norte do país. A história dos gabaonitas (cap. 9, estendendo-se até 10,1-6) serve de ligação entre estes dois grupos de capítulos, que provavelmente estavam reunidos desde o começo da época monárquica ..

As tradições recolhidas nos caps. 3-8 foram conservadas em Guilgal, um santuário de Benjamim; a figura de Josué, que é um efraimita, poderia ser aqui secundária; sua presença nos relatos quer salientar que desde antes da realeza, a entrada em Canaã se fez sob um chefe único. O aspecto etiológico destes relatos, isto é, seu cuidado de explicar fatos ou situações que permanecem observáveis, é inegável e obedece a uma motivação histórica. Nos relatos relativos a Jericó (cap. 6), e Hai (cap. 8), a historicidade dos acontecimentos relatados é difícil de provar e não recebe apoio das descobertas arqueológicas.

A segunda parte é uma explanação geográfica de tipo totalmente diverso. O cap.13 localiza as tribos de Rúben e de Gad e a meia tribo de Manassés, já instaladas por Moisés na Transjordânia, conforme Nm 32 (cf. Dt 3,12-17). Os caps. 14-19 referem-se às tribos a oeste do Jordão e combinam duas espécies de documentos: uma descrição dos limites das tribos, que é de uma precisão muito desigual e que remonta, em substância, à época pré-monárquica, e listas de cidades que foram incorporadas. A mais detalhada é a das cidades de Judá (15), que, completada por uma parte das cidades de Benjamim (18,25-28), divide as cidades em doze distritos; ela reflete uma divisão administrativa do reino de Judá, provavelmente do tempo de Josafá. A maneira de complementos, o cap. 20 enumera as cidades de refúgio, cuja lista não é anterior ao reinado de Salomão; e o cap. 21, que fala das cidades levíticas, é adição posterior ao Exílio, que utiliza, no entanto, recordações da época monárquica.

Na terceira parte, o cap. 22, sobre o retorno das tribos da Transjordânia e a ereção de um altar à beira do rio, conserva traços das redações deuteronomista e sacerdotal; tem como origem uma tradição particular, cuja idade e sentido são incertos. O cap. 24 preserva a antiga e autêntica lembrança de uma assembleia em Siquém e do pacto religioso aí concluído.

À redação deuteronomista pode-se atribuir, além dos retoques de detalhe, as seguintes passagens: 1 (em grande parte); 8,30-35; 10,28-43; 11,11-24; 12 (exceto a lista); 22,1-8; 23; a revisão de 24. O modo pelo qual o cap. 24, retocado no espírito do Deuteronômio, foi mantido ao lado do cap. 23 que nele se inspira, mas provém de outra mão, constitui um sinal de duas edições sucessivas do livro.

Este apresenta a conquista de toda a Terra Prometida como o resultado de uma ação conjunta das tribos sob a chefia de Josué. O relato de Jz 1 apresenta um quadro diferente: aí se vê cada tribo lutando por seu território e muitas vezes sendo derrotada: trata-se de uma tradição de origem judaíta, cujos elementos penetraram na parte geográfica de Josué (13,1-6; 14,6-15; 15,13-19; 17,12-18). Esta imagem de uma conquista dispersa e incompleta está mais próxima da realidade histórica, a qual só se pode reconstituir de modo conjectural. A instalação no sul da Palestina foi feita a partir de Cades e do Negueb, sobretudo por grupos que só progressivamente foram integrados a Judá: os calebitas, os cenezeus etc., e os simeonitas. A instalação na Palestina central foi levada a efeito por grupos que atravessaram o Jordão sob a guia de Josué e que eram formados pelos membros das tribos de Efraim-Manassés e de Benjamim. A instalação no norte é uma história à parte: as tribos de Zabulon, Issacar, Aser e Neftali estavam estabelecidas já desde uma certa época e não desceram ao Egito. Em Siquém, elas aderiram à fé javista, que o grupo de Josué trouxera, e conquistaram seus territórios definitivos lutando contra os cananeus, que os tinham subjugado ou que os ameaçavam. Nestas diferentes regiões, a instalação se processou em parte mediante operações bélicas, em parte por uma infiltração pacífica e por alianças com os que anteriormente ocupavam o país. E preciso considerar como autêntico o papel de Josué na instalação na Palestina central, desde a passagem do Jordão até a assembleia de Siquém. Tendo em vista a data que foi indicada para o Êxodo (Introdução ao Pentateuco, p. 27), pode-se propor a seguinte cronologia: cerca de 1250, entrada dos grupos do sul; a partir de 1225, ocupação da Palestina central pelos grupos vindos da Transjordânia; cerca de 1200 a.C., expansão dos grupos do norte.

Dessa história complexa, que só de modo hipotético reconstituímos, o livro de Josué oferece um quadro idealizado e simplificado. E idealizado: a epopeia da saída do Egito tem sua sequência nesta conquista em que Deus intervém milagrosamente em favor de seu povo. É simplificado: todos os episódios se polarizam em torno da grande figura de Josué, que dirige os combates da casa de José (1-12) e a quem é atribuída uma divisão do território que não foi efetuada por ele, nem de uma só vez (13-21). O livro termina com a despedida e a morte de Josué (23; 24,29-31); assim, do começo ao fim, é ele sua personagem principal. Nele os Padres da Igreja reconheceram uma prefiguração de Jesus: não apenas tem ele o mesmo nome, salvador, mas também a passagem do Jordão, que, com ele à frente, dá entrada na Terra Prometida, é tipo do batismo de Jesus, que nos dá acesso a Deus; a conquista e a divisão do território tornaram-se imagem das vitórias e da expansão da Igreja.

A terra de Canaã é realmente, no horizonte do Antigo Testamento, o verdadeiro tema do livro: o povo, que havia encontrado seu Deus no deserto, recebe agora sua terra, e a recebe de seu Deus. Pois foi Iahweh quem combateu em favor dos israelitas (23,3-10; 24,11-12) e lhes deu em herança o país que prometera aos Pais (23,5.14).

O livro dos Juízes compreende três partes desiguais: a) uma introdução (1,1-2,5); b) o corpo do livro (2,6-16,31); c) duas adições, que narram a migração dos danitas, com a fundação do santuário de Dã (17-18), e a guerra contra Benjamim em punição do crime de Gabaá (19-21).

A atual introdução ao livro (1,1-2,5) de fato não lhe pertence: dissemos, a propósito do livro de Josué, que ela apresenta um quadro diferente da conquista e de seus resultados, considerado do ponto de vista judaíta. Sua inserção ocasionou a repetição em 2,6-10 das notícias sobre a morte e sepultura de Josué, que já tinham sido dadas em Js 24,29-31.

A história dos Juízes é narrada na parte central (2,6-16,31). Os modernos distinguem seis juízes “maiores” — Otoniel, Aod, Barac (e Débora), Gedeão, Jefté e Sansão — cujos atos são contados de um modo mais ou menos detalhado, e seis juízes “menores” — Samgar (3,31), Tola e Jair (10,1-5), Abesã, Elon e Abdon (12,8-15) — que são recordados apenas brevemente. Mas esta distinção não é feita no texto: há uma diferença muito mais profunda entre os dois grupos, e o título comum de “juízes”, que lhes é dado, é o resultado da composição do livro, que reuniu elementos a princípio estranhos entre si. Os “juízes maiores” são heróis libertadores; sua origem, seu caráter, suas ações variam muito, mas têm um traço comum: receberam uma graça especial, um carisma, foram especialmente escolhidos por Deus para uma missão salvífica. Suas histórias foram contadas primeiro oralmente, sob diferentes formas, e foram acrescidas de vários elementos. Finalmente foram reunidas num” livro dos libertadores”, composto no reino do norte na primeira parte da época monárquica. Ele compreendia a história de Aod, a de Barac e de Débora, talvez já influenciada pela narrativa de Js 11, referente a Jabin de Hasor, a história de Gedeão/Jerobaal, a que se ligou o episódio da realeza de Abimelec e a história de Jefté com a de sua filha. Recolheram-se duas antigas composições poéticas, o Cântico de Débora (5), que faz duplicata com a narração em prosa (4), e o apólogo de Joatão (9,7-15), dirigido contra a realeza de Abimelec. Neste livro, os heróis de certas tribos tornavam-se figuras nacionais que haviam travado as guerras de Iahweh em favor de todo Israel. Os “juízes menores”, Tola, Jair, Abesã, Elon e Abdon, pertencem a uma tradição diferente. Não é atribuído a eles nenhum ato salvífico, apenas são dadas informações sobre sua origem, sua família e o lugar de sua sepultura e se diz que “julgaram” Israel durante um número exato e variável de anos. Conforme os usos do verbo shâfât, “julgar”, nas línguas semíticas do Oeste que têm parentesco com o hebraico, em Mari no século XVIII a.C. e em Ugarit no século XIII, até mesmo nos textos fenícios e púnicos da época greco-romana (os “sufetes” de Cartago), esses “juízes” não apenas administravam a justiça, mas também governavam. Sua autoridade não ia além de sua cidade ou de seu distrito. Foi uma instituição política intermediária entre o regime tribal e o regime monárquico. Os primeiros redatores deuteronomistas possuíam ‘informações autênticas sobre esses juízes, mas estenderam seu poder a todo Israel e colocaram-nos em sucessão cronológica. Transferiram seu título aos heróis do “livro dos libertadores”, que assim se tornaram “juízes de Israel”. Jefté serviu de elo para unir os dois grupos: fora libertador, mas fora também juiz; eram conhecidas e são dadas a seu respeito as mesmas informações (11,1-2; 12,7) que para os “juízes menores” em cujo meio sua história é inserida. Foi incluída também uma figura que a princípio nada tinha em comum com nenhum dos dois grupos: o singular herói danita Sansão, que não fora nem libertador nem juiz, mas cujas façanhas contra os filisteus eram contadas em Judá (13-16). Ajuntou-se à lista Otoniel (3,7-11), que pertence à época da conquista (cf. Js 14,16-19; Jz 1,12-15) e, mais tarde, Samgar (3,31), que sequer é israelita (cf. Jz 5,6); obtinha-se assim o número de doze, simbólico de todo Israel. Foi igualmente a redação deuteronomista que deu ao livro seu quadro cronológico: conservando as informações autênticas sobre os “juízes menores”, ela salpicou as narrativas de indicações convencionais, repetindo os números 40, duração de uma geração, 80, seu múltiplo, ou 20, sua metade, num esforço para obter um total que, combinado com outros dados da Bíblia, corresponde aos 480 anos que a história deuteronomista coloca entre a saída do Egito e a construção do Templo (1Rs 6,1). Neste quadro, as histórias dos Juízes preenchem sem deixar lacunas o período decorrido entre a morte de Josué e o começo do ministério de Samuel. Mas os redatores deuteronomistas deram ao livro sobretudo seu sentido religioso. Este se exprime na introdução geral de 2,6-3,6 e na introdução particular à história de Jefté (10,6-16), bem como nas fórmulas redacionais que constituem quase toda a história de Otoniel — que é composição deuteronomista — e que servem de moldura para as grandes histórias seguintes: os israelitas foram infiéis a Iahweh e ele os entregou a opressores; os israelitas invocaram Iahweh o qual lhes enviou um salvador, o juiz. Mas as infidelidades se repetem e o ciclo recomeça. Este livro deuteronomista dos Juízes teve pelo menos duas edições. Os indícios mais claros são: os dois elementos que se somam na introdução (2,11-19 e 2,6-10 + 2,20-3,6) e as duas conclusões da história de Sansão (15,20 e 16,30), que significam que o cap. 16 é adição.

Este livro não continha ainda os apêndices (17-21). Estes não narram a história de algum juiz, mas relatam acontecimentos que se deram antes da instituição da monarquia, razão por que foram acrescentados no fim do livro, após o retorno do Exílio. Reproduzem antigas tradições e tiveram longa história literária ou pré-literária antes de serem inseridos aqui. Os caps. 17-18 têm como origem uma tradição danita sobre a migração da tribo e a fundação do santuário de Dã, que foi modificada em sentido pejorativo. Os caps. 19-21 combinam duas tradições dos santuários de Masfa e de Betel, que foram estendidas a todo Israel; talvez de origem benjaminita, essas tradições foram revisadas em Judá num sentido hostil à realeza de Saul em Gabaá.

O livro dos Juízes é quase a nossa única fonte para o conhecimento da época. Ele não nos permite escrever uma história contínua. A cronologia que apresenta é artificial como já vimos. Ela justapõe períodos que podem ter sido simultâneos; as opressões, como as libertações, nunca concerniam mais do que uma parte do território; e a época dos Juízes não se prolongou por mais de um século e meio.

Os principais acontecimentos cuja lembrança nos foi conservada podem ser datados apenas aproximadamente no interior desse período. A vitória de Tanac, no tempo de Débora e Barac (4-5), pode ter sido obtida em meados do século XII; é anterior à invasão madianita (Gedeão) e à expansão dos filisteus fora de seu próprio território (Sansão). Percebe-se sobretudo que, durante esse período turbulento, os israelitas tiveram de lutar não somente contra os cananeus, primeiros proprietários do país, por exemplo, os da planície de Jezrael vencidos por Débora e Barac, mas também contra os povos vizinhos, moabitas (Aod), amonitas (Jefté), madianitas (Gedeão) e contra os filisteus recém-chegados (Sansão). Nestes momentos de perigo, cada grupo defende seu território. Acontece às vezes que um grupo se junta aos vizinhos (7,23) ou, ao contrário, que uma tribo poderosa proteste por não ter sido convidada a partilhar dos despojos (8,1-3; 12,1-6). O Cântico de Débora (5) estigmatiza as tribos que não atenderam ao chamado e, coisa notável, Judá e Simeão nem sequer são mencionados.

Essas duas tribos viviam no sul, separadas pela barreira formada pelas cidades não-israelitas de Gazer e de Jerusalém, e seu isolamento prepara sua ruptura com as tribos do norte, ruptura que acontecerá após a morte de Salomão. Por outro lado, a vitória de Tanac, dando aos israelitas a planície de Jezrael, permite a união da Casa de José e das tribos do norte. No entanto, a unidade entre as diferentes frações estava assegurada pela participação na mesma fé religiosa: todos os Juízes foram javistas convictos e o santuário da Arca em Silo se tornou um centro em que todos os grupos se encontravam. Além disso, estas lutas forjaram a alma nacional e prepararam o momento em que, diante de um perigo generalizado, todos se unirão contra o inimigo comum, sob Samuel.

O livro ensinava aos israelitas que a opressão é castigo da impiedade e que a vitória é consequência do retorno a Deus. O Eclesiástico louva os Juízes por sua fidelidade (Eclo 46,11-12), e a Carta aos hebreus apresenta seus êxitos como a recompensa de sua fé; eles fazem parte daquela “nuvem de testemunhas” que encorajam o cristão a rejeitar o pecado e a suportar com valentia a provação a que é submetido (Hb 11,32-34; 12,1).

O livro de Rute vem depois de Juízes nos Setenta, na Vulgata e nas traduções modernas. Na Bíblia hebraica está colocado com os hagiógrafos como um dos cinco rolos, os megillôt, que se liam nas festas principais, destinando-se Rute à festa de Pentecostes. Embora o tema o relacione com, o período dos Juízes (cf. 1,1), este livro não fazia parte da redação deuteronomista que se estendeu de Josué ao fim de Reis.

Trata-se da história de Rute, a moabita que, depois da morte do marido, nascido em Belém e emigrado para Moab, retoma a Judá com a sogra Noemi e casa-se com Booz, parente de seu marido, em cumprimento da lei do levirato; deste matrimônio nasce Obed que será o avô de Davi.

Uma adição (4,18-22) apresenta a genealogia de Davi, paralela à de 1Cr 2,5-15.

É muito discutida a data da composição desse livro e têm sido propostos todos os períodos, desde Davi e Salomão até Neemias. Os argumentos alegados em favor de uma data tardia — posição no cânon hebraico, língua, costumes familiares, doutrina — não são decisivos e o livro, com exceção dos últimos versículos, poderia ter sido composto na época da monarquia. É uma história edificante, que tem por objetivo principal mostrar como é recompensada a confiança que se põe em Deus, cuja misericórdia se estende até sobre uma estrangeira (2,12). Esta fé na Providência e este espírito universalista são o ensinamento perene da narrativa. O fato de Rute ter sido reconhecida como a bisavó de Davi deu a esta pequena obra um valor particular, e são Mateus incluiu o nome de Rute na genealogia de Cristo (Mt 1,5).

Os livros de Samuel constituíam uma só obra na Bíblia hebraica. A divisão em dois livros remonta à tradução grega, que também uniu Samuel e Reis sob um mesmo título: os quatro livros dos Reinos; a Vulgata denomina-os os quatro livros dos Reis. O Samuel hebraico corresponde aos dois primeiros. Este título provém da tradição que atribuía ao profeta Samuel a composição deste escrito.

O texto é um dos mais mal conservados do Antigo Testamento. A tradução grega dos Setenta muitas vezes apresenta um texto diferente, que remonta a um protótipo do qual as grutas de Qumrã forneceram importantes fragmentos. Existiam, pois, diversas recensões hebraicas dos livros de Samuel.

Nesta obra distinguem-se cinco partes: a) Samuel (1Sm 1-7); b) Samuel e Saul (1Sm 8-15); c) Saul e Davi (1Sm 16 até 2Sm 1); d) Davi (2Sm 2-20); e) suplementos (2Sm 21-24).

A obra combina ou justapõe fontes e tradições diversas sobre os inícios do período monárquico. Temos uma história da Arca e de seu cativeiro entre os filisteus (1Sm 4-6), em que Samuel não aparece e que terá sua continuação em 2Sm 6. Essa história está inserida entre um relato da infância de Samuel (1Sm 1-3) e um trecho que apresenta Samuel como o último dos Juízes e antecipa a libertação do jugo filisteu (7). Samuel tem uma função decisiva na história da instituição da realeza (1Sm 8-12), na qual já de há muito se têm distinguido dois grupos de tradições: 9; 10,1-16; 11 por um lado, e 8; 10,17-24; 12 por outro. Ao primeiro grupo deu-se o nome de versão” monarquista” do episódio e ao segundo, “versão antimonarquista”; esta última seria posterior. De fato, as duas tradições são antigas e representam somente tendências diferentes; além disso, a segunda corrente não é tão” antimonarquista” como se pretende, sendo oposta somente a uma realeza que não respeitasse os direitos de Deus. As guerras de Saul contra os filisteus são narradas nos caps. 13-14, com uma primeira versão da rejeição de Saul (13,7b-15a); uma segunda versão dessa rejeição é dada no cap. 15, em ligação com uma guerra contra os amalecitas. Esta rejeição prepara a unção de Davi por Samuel (16,1-13). A respeito dos inícios de Davi e suas desavenças com Saul, foram recolhidas tradições paralelas e, ao que parece, igualmente antigas em 1Sm 16,14-2Sm 1, onde as duplicatas são frequentes. O final dessa história encontra-se em 2Sm 2-5; a realeza de Davi em Hebron, a guerra filisteia e a conquista de Jerusalém garantem a confirmação de Davi como rei de todo Israel (2Sm 5,12). O cap. 6 retoma a história da Arca; a profecia de Natã (7) é antiga, mas foi retocada; o cap. 8 é um sumário redacional. A partir de 2Sm 9 começa um longo relato que só terminará no começo de Reis (1Rs 1-2). É a história da família de Davi e das lutas em torno da sucessão ao trono, escrita por uma testemunha ocular, na primeira metade do reinado de Salomão. É interrompida por 2Sm 21-24, que reúne peças de origem diversa sobre o reinado de Davi.

Além da grande história de 2Sm 9-20, é possível que outros conjuntos tenham-se formado desde os primeiros séculos da monarquia: um primeiro ciclo de Samuel e duas histórias de Saul e de Davi. Pode ser também que estes conjuntos já estivessem reunidos por volta de 700, mas os livros só receberam sua forma definitiva na grande história deuteronomista. Contudo, a influência do Deuteronômio é muito menos visível aqui do que em Juízes e Reis. Descobrimo-la em particular nos primeiros capítulos da obra, sobretudo 1Sm 2,22-36; 7 e 12, talvez num remanejamento da profecia de Natã (2Sm 7), mas o relato de 2Sm 9-20 foi conservado quase inalterado.

Os livros de Samuel cobrem o período que vai das origens da monarquia israelita ao fim do reinado de Davi. A expansão dos filisteus — a batalha de Afec (1Sm 4) situa-se no ano 1050 aproximadamente — punha em perigo a própria existência de Israel e impôs a monarquia. Saul, cerca do ano 1030, começa como um continuador dos Juízes, mas seu reconhecimento por todas as tribos lhe confere uma autoridade geral e permanente: nasceu a realeza. Começa a guerra de libertação e os filisteus são rechaçados para o seu território (1Sm 14); as batalhas seguintes têm lugar nos confins do território israelita; 1Sm 17: Vale do Terebinto; 28 e 31: Gelboé. Esse último combate termina em derrota e aí morre Saul, em 1010 mais ou menos. A unidade nacional acha-se de novo comprometida. Davi é sagrado rei em Hebron pela tribo de Judá, e as tribos do norte lhe opõem Isbaal, descendente de Saul, refugiado na Transjordânia. Entretanto, o assassínio de Isbaal possibilita a união e Davi é reconhecido como rei por Israel.

O segundo livro de Samuel apresenta apenas sucintamente os resultados políticos do reinado de Davi; contudo, estes foram consideráveis. Os filisteus foram definitivamente expulsos, a unificação do território chegou ao termo com a absorção dos enclaves cananeus, e, em primeiro lugar, de Jerusalém, que se tornou a capital política e religiosa do reino. Toda a Transjordânia foi subjugada, e Davi estendeu seu controle sobre os arameus da Síria meridional. Todavia, quando Davi, morreu pelo ano 970, a unidade nacional não estava realizada de fato; Davi era rei de Israel e de Judá mas estas duas frações se opunham muitas vezes: a revolta de Absalão foi apoiada por gente do norte, o benjaminita Seba quis sublevar o povo com o grito de “Às tuas tendas, Israel”. Já se pressente o cisma.

Estes livros contêm uma mensagem religiosa; enunciam as condições e as dificuldades de um reino de Deus sobre a terra. O ideal só se conseguiu no tempo de Davi; este êxito foi precedido pelo fracasso de Saul e será seguido por todas as infidelidades da monarquia, que atrairão a condenação de Deus e causarão a ruína da nação. A partir da profecia de Natã, a esperança messiânica se alimentou das promessas feitas à Casa de Davi. O Novo Testamento se refere a elas três vezes: At 2,30; 2Cor 6,18; Hb 1,5. Jesus é descendente de Davi e o nome de “filho de Davi” que o povo lhe dá é reconhecimento de seus títulos messiânicos, Os Padres da Igreja estabeleceram um paralelo entre a vida de Davi e a de Jesus, o Cristo, eleito para a salvação de todos, rei do povo espiritual de Deus e, no entanto, perseguido pelos seus.

Os livros dos Reis, como os de Samuel, formavam uma só obra na Bíblia hebraica. Correspondem aos dois últimos livros dos Reinos na tradução grega e aos dois últimos dos Reis na Vulgata.

São a continuação imediata dos livros de Samuel, e 1Rs 1-2 contém o fim do grande documento de 2Sm 9-20. A longa descrição do reinado de Salomão (1Rs 3-11) relata com pormenores a excelência de sua sabedoria, o esplendor de suas construções, sobretudo do Templo de Jerusalém e a abundância de suas riquezas. É certamente uma época gloriosa, mas o espírito conquistador do tempo de Davi desapareceu: a preocupação agora é conservar, organizar e sobretudo explorar. Mantém-se a oposição entre as duas frações do povo, e, ao morrer Salomão, em 931, o reino se divide: as dez tribos do Norte provocam uma secessão, agravada por um cisma religioso (1Rs 12-13). A história paralela dos dois Reinos de Israel e de Judá, se estende de 1Rs 14 a 2Rs 17: é amiúde a história das lutas entre esses reinos irmãos, é também a dos assaltos do exterior por parte do Egito contra Judá e dos arameus no norte. O perigo se agrava quando os exércitos assírios intervêm na região, primeiro no século IX, depois, com mais força, no século VllI, quando Samaria cai sob seus golpes em 721, enquanto Judá já se declara vassalo, A história, agora restrita a Judá, prossegue até a destruição de Jerusalém, no ano 587, em 2Rs 18,1-25,21. O relato se detém sobretudo em dois reinados, o de Ezequias (2Rs 18-20) e o de Josias (2Rs 22-23), marcados pelo ressurgimento nacional e pela reforma religiosa. Os grandes acontecimentos políticos da época são a invasão de Senaquerib, no tempo de Ezequias, em 701, em represália contra a recusa do tributo assírio e, no tempo de Josias, a ruína da Assíria e a formação do império caldeu. Judá teve de submeter-se aos novos senhores do Oriente, mas logo se revoltou. O castigo não tardou: em 597, os exércitos de Nabucodonosor tomaram Jerusalém e deportaram uma parte dos seus habitantes; dez anos depois, um levante de independência motivou nova intervenção de Nabucodonosor, que terminou em 587 com a ruína de Jerusalém e uma segunda deportação. Os livros dos Reis encerram-se com dois breves apêndices: 2Rs 25,22-30.

A obra cita nominalmente três de suas fontes: uma História de Salomão, os Anais dos reis de Israel e os Anais dos reis de Judá, mas houve outras fontes: além do final do grande documento davídico (1Rs 1-2), uma descrição do Templo, de origem sacerdotal (1Rs 6-7), e sobretudo uma história de Elias, composta pelo fim do século IX, e uma história de Eliseu, um pouco posterior; essas duas histórias estão na origem dos ciclos de Elias (1Rs 17-2Rs 1) e de Eliseu (2Rs 2-13). Os relatos do reinado de Ezequias, que colocam em cena Isaías (2Rs 18,17-20,19), provêm dos discípulos deste profeta.

Quando a utilização das fontes não o impede, os acontecimentos ficam encerrados num quadro uniforme: cada reinado é tratado em si mesmo e de maneira completa, e o início e o fim dos reinados são marcados por fórmulas quase constantes, em que jamais falta um julgamento sobre a conduta religiosa do rei. Todos os reis de Israel são condenados por causa do “pecado original” deste reino, a saber, a fundação do santuário de Betel; dentre os reis de Judá, somente oito são louvados por sua fidelidade geral às prescrições de Iahweh. Mas este louvor em seis casos sofre a restrição de que “os lugares altos não desapareceram”; apenas Ezequias e Josias recebem uma aprovação sem reservas.

Evidentemente estes vereditos inspiram-se na lei do Deuteronômio sobre a unidade do santuário. Mais ainda: a descoberta do Deuteronômio no tempo de Josias e a reforma religiosa que ela inspirou marcam o ponto culminante de toda essa história, e toda a obra é uma demonstração da tese fundamental do Deuteronômio, retomada em 1Rs 8 e 2Rs 17: se o povo observar a aliança concluída com Deus, será abençoado; se a transgredir, será castigado. Essa influência deuteronomista encontra-se também no estilo, cada vez que o redator explana ou comenta suas fontes.

É provável que uma primeira redação deuteronomista tenha sido feita antes do Exílio, antes da morte de Josias em Meguido, no ano 609, e o elogio feito a este rei (2Rs 23,25), com exceção das últimas palavras, seria a conclusão da obra primitiva. Uma segunda edição, também deuteronomista, foi elaborada durante o Exílio, depois de 562, se se lhe atribui o final atual do livro (2Rs 25,22-30), ou um pouco antes, se colocarmos seu ponto final depois do relato da segunda deportação (2Rs 25,21), que parece ser uma conclusão. Houve finalmente algumas adições, durante o Exílio e depois.

Os livros dos Reis devem ser lidos no espírito em que foram escritos, como uma história da salvação. A ingratidão do povo eleito, a ruína sucessiva das duas partes da nação parecem levar ao fracasso o plano de Deus, mas resta sempre, para salvaguardar o futuro, um grupo de fiéis que não dobrou o joelho diante de Baal, um resto de Sião que guarda a Aliança. A estabilidade das disposições divinas manifesta-se na admirável permanência da linhagem davídica, depositária das promessas messiânicas, e o livro, em sua forma definitiva, encerra-se com o favor concedido a Joaquin, como se fora a aurora de uma redenção.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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