Em que posso te atrapalhar?

Estado

Pois é… Já tem alguns meses que eu compartilhei essa foto no Facebook, e hoje me aconteceu uma coisa que me lembrou dessa imagem:

Eu estou com uma cadela operada, e o veterinário recomendou o uso de Rifamicina, um antibiótico em spray, para aplicar sobre os pontos. Comprei na própria pet shop, e utilizei por uma semana. Como é difícil manter cachorro, mesmo ficando preso quase o dia todo, alguns pontos se abriram, e foi necessário refazê-los. Com isso, a recuperação demorou, e a Rifamicina está acabando. É aí que aparece o Estado pra atrapalhar a minha vida: eu saio de casa agora à noite para comprar mais um frasco do antibiótico, mas ao chegar à farmácia a atendente me diz que só pode vender com receita médica.

Alguns vão dizer: “o Estado só está tentando proteger o cidadão”. Mas me proteger de quê, exatamente? De mim mesmo? O Estado está dizendo que eu, você e todos os cidadãos brasileiros são burros demais pra comprar um antibiótico por conta própria? Que a proibição é mais benéfica a nós que a minha liberdade de comprar o remédio? Sim, há casos em que a droga é muito forte, e o risco de vida é alto para quem toma, mas estamos falando de um antibiótico bactericida! Basta ler a bula pra ver que o benefício é muito maior que qualquer reação ou efeito colateral!

O que fazer? Tentei convencer a atendente, mas ela disse que não podia, que a Anvisa fiscaliza pesado as farmácias maiores. Me recomendou ir a uma farmácia menor, de preferência na periferia, que lá eles vendem porque a fiscalização é menor. O Estado me trata como se eu fosse um sujeito perigoso, que tem que procurar a clandestinidade pra curar uma cadela. Dá pra perceber o quanto isso é ridículo e inócuo? Afinal, eu vou comprar de qualquer jeito amanhã, no veterinário (que não exige receita médica) ou até em alguma farmácia na periferia (e com isso o Estado está dizendo indiretamente que acha que a vida deles vale menos que a dos demais cidadãos).

E isso tudo em nome das “boas intenções”.

Resultado: minha cachorra vai ficar sem o remédio hoje, e só amanhã à tarde terei tempo de ir ao veterinário comprar mais.

É esse tipo de controle sobre o cidadão que não pode existir. Orientar, tudo bem, mas tratar quem precisa como se fosse um criminoso é ridículo. É nessas horas que eu quase (quase!) concordo com os que pedem a liberação de todas as drogas. Fazer esse controle com medicamentos mais fortes, que oferecem risco real à saúde a quem compra, tudo bem. Isso é algo que até o mais radical dos libertários pode entender, ainda que não concorde. Mas pra um spray para matar bactérias? Fala sério!

E ao mesmo tempo que o Estado todo-poderoso se intromete cada vez mais na sua vida particular, ele não resolve os problemas básicos da população, como os mais de 50 mil assassinatos por ano, pra citar só um exemplo.

Mas fazer o quê? O jeito é fazer piada…

O governo é prejudicial à saúde

Êxodo

Capítulo Versículos Trecho
1 1-7 A descendência de Jacó I. A libertação do Egito 1. Israel no Egito
8-22 Opressão dos israelitas
2 1-10 Nascimento de Moisés 2. Juventude e vocação de Moisés
11-22 Fuga de Moisés para Madiã
23-25 Deus lembra-se de Israel Vocação de Moisés
3 1-6 A sarça ardente
7-12 Missão de Moisés
13-15 Revelação do Nome divino
16-20 Instruções para a missão de Moisés
21-22 Espoliação dos egípcios
4 1-9 Poder dos sinais dado a Moisés
10-17 Aarão intérprete de Moisés
18-23 Partida de Moisés de Madiã e volta do Egito.
24-26 Circuncisão do filho de Moisés
27-31 Encontro com Aarão
5 1-5 Primeira entrevista com Faraó
6-14 Instrução aos chefes de corveias
15-18 Queixa dos escribas hebreus
19-23 Recriminações do povo. Orações de Moisés
6 1
2-13 Nova narração da vocação de Moisés
14-27 Genealogia de Moisés e Aarão
28-30 Retoma-se a narração da vocação de Moisés
7 1-7
8-13 A vara transformada em serpente 3. As pragas do Egito. A Páscoa
14-25 I. A água transformada em sangue
26-29 II. As rãs
8 1-11
12-15 III. Os mosquitos
16-28 IV. As moscas
9 1-7 V. A peste dos animais
8-12 VI. As úlceras
13-35 VII. A chuva de pedras
10 1-20 VIII. Os gafanhotos
21-29 IX. As trevas
11 1-10 Anúncio da morte dos primogênitos
12 1-14 A Páscoa
15-20 A Festa dos Ázimos
21-28 Prescrições sobre a Páscoa
29-34 A décima praga: morte dos primogênitos
35-36 Espoliação dos egípcios
37-42 A partida de Israel
43-51 Prescrições a respeito da Páscoa
13 1-2 Os primogênitos
3-10 Os Ázimos
11-16 Os primogênitos
17-22 A saída dos israelitas 4. A saída do Egito
14 1-4 De Etam ao mar dos Juncos
5-14 Os egípcios perseguem Israel
15-31 O milagre do mar
15 1-21 Canto de vitória
22-27 Mara II. A caminhada no deserto
16 1-36 O maná e as codornizes
17 1-7 A água da rocha
8-16 Combate contra Amalec
18 1-12 Encontro de Jetro com Moisés
13-27 Instituição dos Juízes
19 1-2 Chegada ao Sinai III. A Aliança no Sinai 1. A Aliança e o Decálogo
3-8 Promessa da Aliança
9-15 Preparação da Aliança
16-25 A teofania
20 1-21 O Decálogo
22-26 Lei do altar 2. O código da Aliança
21 1-11 Leis acerca dos escravos
12-17 Homicídio
18-36 Golpes e ferimentos
37 Roubos de animais
22 1-3
4-14 Delitos que implicam indenização
15-16 Violação de uma virgem
17-27 Leis morais e religiosas
28-30 Primícias e primogênitos
23 1-9 A justiça. Os deveres para com os inimigos
10-13 Ano sabático e sábado
14-19 Festas de Israel
20-33 Promessas e instruções em vista da entrada em Canaã
24 1-18 3. A conclusão da Aliança
12-18 Moisés sobre a montanha
25 1-9 A contribuição para o santuário 4. Prescrições referentes à construção do santuário e aos seus ministros
10-22 A Tenda e sua mobília. A Arca
23-30 A mesa dos pães da oblação
31-40 O candelabro
26 1-14 A Habitação. As cortinas e os estofos
15-30 A armação
31-37 O véu
27 1-8 O altar dos holocaustos
9-19 O átrio
20-21 O azeite para o candelabro
28 1-5 As vestimentas dos sacerdotes
6-14 O efod
15-30 O peitoral
31-35 O manto
36-39 O sinal da consagração
40-43 Vestimentas dos sacerdotes
29 1-3 Consagração de Aarão e de seus filhos. Preparação
4-9 Purificação, investidura e unção
10-21 Oferendas
22-30 A investidura dos sacerdotes
31-35 Refeição sagrada
36-37 A consagração do altar dos holocaustos
38-46 Holocausto cotidiano
30 1-10 O altar dos perfumes
11-16 O tributo para o culto
17-21 A bacia
22-33 O óleo da unção
34-38 O perfume
31 1-11 Os operários do santuário
12-17 Repouso sabático
18 Entrega das tábuas da lei a Moisés
32 1-6 O bezerro de ouro 5. O bezerro de ouro e a renovação da Aliança
7-10 Iahweh adverte Moisés
11-14 Oração de Moisés
15-20 Moisés quebra as tábuas da Lei
21-24 O papel de Aarão na falta do povo
25-29 O zelo dos levitas
30-35 Nova oração de Moisés
33 1-6 A ordem para a partida
7-11 A Tenda
12-17 Oração de Moisés
18-23 Moisés sobre a montanha
34 1-5a Renovação da Aliança. As tábuas da Lei
5b-9 A aparição de Deus
10-28 A Aliança
29-35 Moisés desce da montanha
35 1-3 A lei do repouso sabático 6. Construção e ereção do santuário
4-29 Coleta dos materiais
30-35 Os operários do santuário
36 1
2-7 A entrega da coleta
8-19 A Habitação
20-34 A armação
35-38 A cortina
37 1-9 A arca
10-16 A mesa dos pães da oblação
17-24 O candelabro
25-29 O altar dos perfumes. O óleo da unção e o perfume
38 1-7 O altar dos holocaustos
8 A bacia
9-20 Construção do átrio
21-31 Enumeração dos metais
39 1 A vestimenta do sumo sacerdote
2-7 O efod
8-21 O peitoral
22-26 O manto
27-29 Vestimentas sacerdotais
30-32 O sinal de consagração
33-43 Entrega das obras realizadas a Moisés
40 1-15 Ereção e consagração do santuário
16-33 Realização das ordens divinas
34-35 Iahweh toma posse do santuário
36-38 A nuvem guia os israelitas

Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Introdução ao Pentateuco

Nomes, divisões e conteúdo

Os cinco primeiros livros da Bíblia formam um conjunto que os judeus denominam “Lei”, ou Torá. O primeiro testemunho certo dessa denominação encontra-se no prefácio do Eclesiástico, e ela já era de uso corrente no começo da nossa era, por exemplo, no Novo Testamento (Mt 5,17; Lc 10,26; cf. Lc 24,44). Bem entendido, o termo “Lei” não se aplica somente à parte legislativa, como o mostra tal citação do NT (cf. Mc 12,26; Lc 20,37).

O desejo de obter cópias manejáveis desse grande conjunto fez com que se dividisse seu texto em cinco rolos de tamanho quase igual. Daí provém o nome que lhe foi dado nos círculos de língua grega: he pentateuchos (subentendido biblos), “O livro em cinco volumes”, que foi transcrito em latim como Pentateuchus (subentendido liber), donde a palavra portuguesa Pentateuco. Por sua vez, os judeus de língua hebraica deram-lhe também o nome de “os cinco quintos da Lei”.

Essa divisão em cinco livros é atestada antes de nossa era pela versão grega dos Setenta. Esta — e seu uso se impôs à Igreja — intitulava os volumes segundo o seu conteúdo: Gênesis (porque começa pelas origens do mundo), Êxodo (porque começa com a saída do Egito), Levítico (porque contém a lei dos sacerdotes da tribo de Levi), Números (por causa dos recenseamentos dos caps. 1-4) e Deuteronômio (ou a “segunda lei”, de acordo com uma interpretação grega de Dt 17,18). Mas em hebraico os judeus designavam, e designam ainda, cada livro pela primeira palavra, ou pela primeira palavra importante, de seu texto: Bereshit, “no principio”; Shemôt, “eis os nomes”; Wayyiqra’: “Iahweh chamou”; Bemidbar, “Iahweh falou a Moisés no deserto”; Debarim, “eis as palavras”.

O Gênesis divide-se em duas partes desiguais: a história primitiva (1-11), sendo assim como que o pórtico da história da salvação, da qual a Bíblia inteira vai falar; ela remonta às origens do mundo e estende sua perspectiva à humanidade inteira. Relata a criação do universo e do homem, a queda original e suas consequências, e a perversidade crescente, castigada pelo dilúvio. A partir de Noé, a terra se repovoa, mas listas genealógicas cada vez mais restritas concentram finalmente o interesse em Abraão, pai do povo eleito. A história patriarcal (12-50) evoca a figura dos grandes antepassados: Abraão, o homem da fé, cuja obediência é recompensada por Deus, que promete, a ele, uma posteridade e, a seus descendentes, a Terra Santa (12,1-25,18); Jacó, o homem da astúcia, que suplanta seu irmão Esaú, rouba a bênção de seu pai Isaac e vence em esperteza seu tio Labão. Mas de nada lhe serviriam todas essas habilidades, se Deus não o tivesse preferido a Esaú desde antes de seu nascimento e não lhe tivesse renovado as promessas da aliança concedidas a Abraão (25,19-36,43). Entre Abraão e Jacó, Isaac é uma figura bastante apagada, cuja vida é narrada sobretudo em vista da de seu pai ou de seu filho. Os doze filhos de Jacó são os antepassados das Doze Tribos de Israel. A um deles é consagrado todo o final do Gênesis: os caps. 37-50 (menos 38 e 49) são uma biografia de José, o homem da sabedoria. Esta narração, que difere das precedentes, se desenvolve sem intervenção direta de Deus e sem nova revelação, mas toda ela é uma lição: a virtude do sábio é recompensada e a Providência divina converte em bem as faltas dos homens.

O Gênesis forma um todo completo: é a história dos antepassados. Os três livros seguintes formam outro bloco, no qual, dentro do contexto da vida de Moisés, narram-se a formação do povo eleito e o estabelecimento de sua lei social e religiosa.

O Êxodo desenvolve dois temas principais: a libertação do Egito (1,1-15,21) e a Aliança no Sinai (19,1-40,38); esses temas são interligados pelo tema da caminhada no deserto (15,22-18,27). Moisés, que recebeu a revelação do nome de Iahweh na montanha de Deus, é o condutor dos israelitas libertados da escravidão. Numa teofania impressionante, Deus faz aliança com o povo e lhe dita suas leis. Mal fora concluído, o pacto é violado pela adoração do bezerro de ouro, mas Deus perdoa e renova a Aliança. O grande conjunto dos caps. 25-31 e 35-40 relata a construção da tenda, lugar de culto na época do deserto.

O Levítico, de caráter quase exclusivamente legislativo, interrompe a narração dos acontecimentos. Contém: um ritual dos sacrifícios (1-7); o cerimonial de investidura dos sacerdotes, aplicado a Aarão e a seus filhos (8-10); as normas referentes ao puro e ao impuro (11-15), que terminam com o ritual do grande dia das Expiações (16); e a “lei de santidade” (17-26), que inclui um calendário litúrgico (23) e se encerra com bênçãos e maldições (26). Em forma de apêndice, o cap. 27 determina as condições do resgate das pessoas, dos animais e dos bens consagrados a Iahweh.

Números retoma o tema da caminhada pelo deserto. A partida do Sinai é preparada por um recenseamento do povo (1-4) e pelas grandes ofertas feitas para a dedicação do Tabernáculo (7). Após a celebração da segunda Páscoa, os israelitas deixam a montanha santa (9-10) e chegam, depois de várias etapas, a Cades, de onde fazem uma tentativa frustrada de penetrar em Canaã pelo sul (11-14). Depois da estada em Cades põem-se de novo a caminho e chegam às estepes de Moab, em frente de Jericó (20-25). Vencidos os madianitas, as tribos de Gad e Rúben se estabelecem na Transjordânia (31-32). Uma lista resume as etapas do Êxodo (33). Em torno dessas narrações são agrupadas prescrições que completam a legislação do Sinai ou que preparam o estabelecimento em Canaã (5-6; 8; 15-19; 26-30; 34-36).

O Deuteronômio tem estrutura particular: é código de leis civis e religiosas (12,1-26,15), enquadrado num grande discurso de Moisés (5-11 e 26,16-28,68). Este conjunto, por sua vez, é precedido do primeiro discurso de Moisés (1-4) e seguido do terceiro discurso (29-30) e também de trechos referentes ao fim de Moisés: missão de Josué, cântico e bênçãos de Moisés e sua morte (31-34). O código deuteronômico retoma, em parte, as leis promulgadas no deserto. Os discursos recordam os grandes acontecimentos do Êxodo, do Sinai e da conquista que começava; salientam seu sentido religioso, sublinham o alcance da lei e exortam à fidelidade.

Composição literária

A composição desta vasta coletânea era atribuída a Moisés pelo menos desde o começo de nossa era, e Cristo e os apóstolos conformaram-se com essa opinião (Jo 1,45; 5,45-47; Rm 10,5). Mas as tradições mais antigas jamais haviam afirmado explicitamente que Moisés fosse o redator de todo o Pentateuco. Quando o próprio Pentateuco diz, o que é muito raro, que “Moisés escreveu”, aplica essa fórmula a alguma passagem particular. Efetivamente, o estudo moderno desses livros apontou diferenças de estilo, repetições numerosas, sobretudo nas leis, e desordens nos relatos, que impedem de ver no Pentateuco uma obra que tenha saído toda da mão de um só autor. Depois de longas hesitações, no fim do século XIX uma teoria conseguiu impor-se aos críticos, sobretudo por influência dos trabalhos de Graf e de Wellhausen: o Pentateuco seria a compilação de quatro documentos, diferentes quanto à idade e ao ambiente de origem, mas todos eles muito posteriores a Moisés. Teria havido primeiramente duas obras narrativas: o Javista (J), que desde o relato da criação usa o nome Iahweh, com o qual Deus se revelou a Moisés, e o Eloísta (E), que designa Deus pelo nome comum de Elohim; o Javista teria sido escrito no século lX em Judá, o Eloista um pouco mais tarde em Israel; depois da ruína do reino do Norte, os dois documentos teriam sido reunidos num só (JE); depois de Josias, o Deuteronômio (D) lhe teria sido acrescentado (JED); e, depois do Exílio, o código Sacerdotal (P), que continha sobretudo leis, com algumas narrações, teria sido somado a essa compilação, à qual serviu de arcabouço e de moldura (JEDP).

Essa teoria documentária clássica, que aliás estava ligada a uma concepção evolucionista das ideias religiosas em Israel, foi frequentemente questionada, e outros autores só a aceitam com modificações mais ou menos consideráveis; ela podia ser até rejeitada em bloco por diferentes razões, a ligação com a tradição antiga, judaica ou cristã, desempenhando talvez um papel particularmente importante. Não se deve esquecer que a teoria documentária é apenas uma hipótese elaborada para tentar explicar certo número de fatos literários. Seria fácil (é o que se faz habitualmente hoje), argumentar a partir do fato que jamais houve verdadeiro consenso quanto à repartição precisa dos textos entre os diferentes documentos propostos. Ora, se as conclusões da hipótese documentária podiam ser consideradas frágeis há 20 anos, elas parecem ter sido depois expulsas, embora o panorama das certezas sobre a composição literária do Pentateuco pareça aflitivo: A “nova crítica” é questionamento sistemático das conclusões às quais conduzia o lento trabalho de gerações de biblistas há vários séculos. Há 20 anos as diferenças de um autor para outro podiam ser significativas, até mesmo consideráveis, mas a hipótese de conjunto era a mesma: hoje não existe mais uma hipótese geral comumente admitida; propõem-se antes diferentes modelos para tentar explicar a gênese do Pentateuco. Assiste-se mesmo à rejeição pura e simples de todo o trabalho da crítica julgado inadequado ou inoperante para a compreensão dos textos, até mesmo contrário a uma aproximação que os considere como Escritura.

Todavia, mesmo que não tenhamos certezas na questão, ainda que ignoremos o que se mantém finalmente de tantas pesquisas indo um pouco em todos os sentidos e de posições que se excluem mutuamente, certo número de indicações de base pode ajudar o leitor a melhor compreender o que ele lê; é por isso que as propomos aqui, mesmo que estejamos conscientes dos limites daquilo que propomos.

É preciso começar, não por uma declaração de impotência, mas pelo reconhecimento do caráter limitado de nossos conhecimentos em relação com os textos e com o meio de origem que os explica. Hoje em dia muitos dirão que toda questão relativa às origens é um desvio ou até uma perda de tempo inútil. Pode-se ler um texto sem se colocar a questão de saber quem o escreveu ou quais eram as circunstâncias ou as razões que deram nascimento a esta obra literária, grande ou pequena. Mas, são questões legítimas: elas surgem espontaneamente no leitor. O que fazer quando questões bem colocadas permanecem sem resposta ou quando as respostas são contraditórias? Uma boa dose de humildade é requerida para reconhecer que nossas questões não têm uma resposta simples.

Os textos do Pentateuco têm sua origem num passado que só conhecemos de maneira limitada. Certamente, a contribuição de ciências como a história, a arqueologia ou a linguística comparada é considerada; tal contribuição nos ajuda a considerar os textos sob nova luz, mas dir-se-ia que, frequentemente, o pouco de luz que nossas pesquisas trazem aos textos dá lugar a novas questões. Numerosas são as que surgem no próprio momento em que se desejaria responder às que tinham sido propostas no ponto de partida. Mas não nos encontramos em total obscuridade.

O conhecimento de literaturas de outros povos do Oriente próximo antigo nos ajuda a reconhecer ao mesmo tempo a amplitude das tradições literárias e o caráter relativamente recente do meio cultural que deu nascimento aos textos bíblicos. Por outro lado, uma boa proporção desses textos não tem origem simples: frequentemente a formulação que chega até nós é o resultado de longo processo, que só podemos descobrir imperfeitamente e em grandes traços. Daí não se poderia afirmar que esses textos sejam obra de autor determinado (ainda que anônimo) e que sua composição se situaria num momento determinado da história, momento que poderíamos determinar sem ambiguidade. Deve-se mesmo reconhecer que, o mais frequentemente, duas grandes etapas se abrem, explicando as origens e o desenvolvimento dos textos até a fixação definitiva, aquela que conhecemos mediante nossa Bíblia: nas origens, e durante um período por vezes bastante longo, afixação é oral; é apenas pouco a pouco que se passa para afixação por escrito. Isso é ao menos o que se julga segundo o que conhecemos da história literária dos povos do Oriente próximo antigo, embora se conheçam igualmente casos de criação literária pura e simples, que não se devem minimizar.

Há, portanto, uma história literária. Mas é aí talvez que se encontra o problema mais considerável: conhecemos o final, a forma definitiva dos textos; mas, para as etapas anteriores, complexas, que são passos para a fixação definitiva, não temos quase nunca dados seguros ou são claramente insuficientes para pormenorizar o percurso completo. E por isso que, na ausência de dados exteriores para responder às nossas questões legítimas, devemos apelar para a análise direta e precisa dos textos. Ora, a observação escrupulosa das características literárias dos textos, principalmente narrativos do Pentateuco (o que quer dizer que se considera o vocabulário, o estilo, a sintaxe as repetições e as tensões) conduziu progressivamente à teoria documentária como hipótese de explicação da formação do conjunto tradicional do Pentateuco. Era uma hipótese, mas tentava responder a dados objetivos. Por que hoje a hipótese documentária clássica é corrigida de maneira notável, ou pura e simplesmente abandonada?

Pode-se pensar que, talvez entre outras razões, dois fatos tiveram um papel no nascimento da crise atual: a simplificação pertinaz à hipótese e o esquecimento de seu estatuto de hipótese. A simplificação, que se manifesta principalmente em obras destinadas a um público não especializado, é inegável quando se tenta fazer das fontes (ou de certas dentre elas) a obra de um só autor de época determinada, de preferência muito antiga, e quando se desconhece ou se esquece a parte das redações sucessivas e uma contribuição por vezes considerável de acréscimos diversos. No momento em que a hipótese documentária se constituiu, falava-se preferentemente de obras de escolas que tinham conhecido diversas edições sucessivas, em que cada uma, excetuando-se a primeira, era a revisão e a amplificação daquela que a havia precedido. Por outro lado, a unificação redacional dos diferentes “documentos” teria contribuído muito para a formulação definitiva do texto. Isso nos diz quanto o fenômeno é complexo, sobretudo se se leva em conta o fato de que, falando normalmente, uma tradição oral teria precedido a composição escrita dos textos, conforme já foi dito.

A crise atual de um lado ajuda a perceber melhor que a hipótese documentária é precisamente uma hipótese: não se pode sempre explicar tudo de maneira adequada, seja porque os dados que devem ser levados em conta são complexos, seja porque os mesmos fenômenos podem ser explicados de maneiras diferentes. Daí a possibilidade de diferentes modelos explicativos.

Por outro lado, a situação cultural que vivemos tem, também ela, consequências ou incidências sobre nossos métodos, sobretudo pelo fato de que certas questões, por exemplo, a da origem dos textos, julgadas essenciais para nossos predecessores, perdem sua importância ou são até consideradas como não pertinentes. É assim que, em nosso tempo, se dirá frequentemente que é preciso compreender o texto tal qual se apresenta, sem tentar descascá-lo segundo características literárias que deveriam ser explicadas pela origem diferente dos textos.

Pode-se prescindir de descobertas de uma hipótese documentária e, de início, da questão da origem dos textos? Dissemos acima que a questão é legítima; se é assim que se deve julgar a questão, a resposta, mesmo se for fragmentária e repousar sobre dados em parte hipotéticos, vale mais que a ausência de qualquer resposta.

Que haja um problema literário é fato inegável para quem se inclina atentamente sobre os textos. Desde as primeiras páginas do Gênesis encontram-se duplicatas, repetições e discordâncias: dois relatos das origens, que, apesar de suas diferenças, contam de maneira dupla a criação do homem e da mulher (1,1-2,4a e 2,4b-3,24); duas genealogias de Caim-Cainã (4,17s e 5,12-17); dois relatos combinados do dilúvio (6-8). Na história patriarcal, há duas apresentações da aliança com Abraão (Gn 15 e 17); duas expulsões de Agar (16 e 21); três relatos da desventura da mulher de um patriarca em país estrangeiro (12,10-20; 20; 26,1-11); provavelmente duas histórias combinadas de José e de seus irmãos nos últimos capítulos do Gênesis. Em seguida, há dois relatos da vocação de Moisés (Ex 3,1-4,17 e 6,2-7,7), dois milagres da água em Meriba (Ex 17,1-7 e Nm 20,1-13); dois textos do Decálogo (Ex 20,1-17 e Dt 5,6-21); quatro calendários litúrgicos (Ex 23,14-19; 34,18-23; Lv 23; Dt 16,1-16). Poderiam ser citados vários outros exemplos, sobretudo a repetição das leis nos livros do Êxodo, Levítico e Deuteronômio. Os textos se agrupam por afinidades de linguagem, de modo, de conceitos, que determinam linhas de força paralelas que se podem seguir através do Pentateuco. Elas correspondem a quatro correntes de tradição.

Como proceder para fazer uma ideia das origens complexas do Pentateuco? Vale mais começar pelos conjuntos mais recentes, para os quais temos pontos de referência mais fáceis, tanto para as características literárias como para as relações com a história de Israel.

O livro do Deuteronômio é um conjunto que se destaca claramente do resto do Pentateuco. Este livro se caracteriza por um estilo muito particular, amplo e oratório, no qual voltam frequentemente as mesmas fórmulas batidas e por uma doutrina constantemente afirmada: entre todos os povos, Deus, por pura complacência, escolheu Israel como seu povo; mas esta eleição e o pacto que a sanciona têm como condição a fidelidade de Israel à lei de seu Deus e ao culto legítimo que lhe deve prestar num santuário único. O Deuteronômio é o ponto de chegada de uma tradição parecida com certas tradições do Reino do Norte (Israel) e com a corrente profética, principalmente com o profeta Oseias. A comparação com as medidas de Josias por ocasião de sua reforma religiosa, inspirada pela descoberta de “um livro da Lei” (2Rs 22-23), que parece ser o Deuteronômio, provaria que este livro existia já por volta de 622-621 a.C., mas provavelmente numa forma mais breve que aquela que conhecemos. O núcleo do Deuteronômio pode representar costumes do Norte, trazidos a Judá pelos Levitas após as ruínas de Samaria. Esta lei, talvez já emoldurada por um discurso de Moisés, pode ter sido depositada no templo de Jerusalém. Mas não se exclui que a obra tenha sido composta sob Josias e para servir a seu projeto de reforma. Que ela tenha sido encontrada no templo lhe conferiria uma autoridade que certamente não teria tido, se fosse apresentada como obra que acabara de ser redigida.

O Deuteronômio é, portanto, uma obra de escola: certamente o conjunto não é absolutamente homogêneo, tanto no plano da teologia como no da expressão literária, mas os acréscimos — principalmente o primeiro (1,1-4,44), e o terceiro discurso de Moisés (29-30), (mas também o segundo discurso de Moisés [­4,45-28,68), como também uma parte dos apêndices [­29-31]) — são feitos no mesmo espírito. Certos acréscimos devem ser relacionados com a redação ou a revisão do conjunto que vai de Josué até o fim de Reis e que se chama frequentemente “História Deuteronomista”; eles podem ter sido feitos durante o exílio babilônico ou até depois dele. Atualmente fala-se também com frequência de influências deuteronômicas ou de redações deuteronomistas nos livros do Gênesis do Êxodo e dos Números. Se o fato não é novo, o que espanta é a amplitude do fenômeno. Todavia, não é o caso de valorizá-lo demais; porque, mesmo sendo a orientação teológica ou a expressão literária parcialmente comparáveis, as relações entre os textos podem ser bastante complexas. Certas passagens do resto do Pentateuco podem ser anteriores ao Deuteronômio, apresentando já algumas das características literárias que florescerão com o Deuteronômio, ou exprimindo ideias próximas à deste livro.

A contribuição da “tradição sacerdotal” à configuração do Pentateuco é considerável. É, portanto, ainda aqui, uma obra de escola. As leis constituem a parte principal desta tradição, que tem um interesse especial na organização do santuário, nos sacrifícios e nas festas, na pessoa e nas funções de Aarão e de seus descendentes. Além dos textos legislativos ou institucionais, ela contém também partes narrativas, que são especialmente desenvolvidas quando servem para exprimir o espírito legalista ou litúrgico que a anima. Ela gosta de cômputos e genealogias; seu vocabulário particular e seu estilo geralmente abstrato e redundante a tornam facilmente reconhecível. Esta tradição é a dos sacerdotes do templo de Jerusalém; ela preservou elementos antigos mas só se constituiu durante o exílio e se impôs depois da repatriação; nela se distinguem diversas camadas redacionais, principalmente a “Lei de santidade” (Lv 17-26), um “escrito de base”, e revisões que acrescentam muito aos dois conjuntos primitivos. Por outro lado é difícil decidir se esta tradição sacerdotal teve num tempo existência independente como obra literária ou se, e mais provavelmente, um ou diversos redatores representantes desta tradição não inseriram seus elementos nas tradições já existentes e, por um trabalho de edição, não deram ao Pentateuco sua forma definitiva.

Se se eliminarem o Deuteronômio e os textos atribuíveis à corrente sacerdotal, resta ainda uma parte considerável do livro do Gênesis e seções importantes dos livros do Êxodo e dos Números, principalmente na parte narrativa. A questão que se propõe é a de saber como julgar estes materiais. Havia algo escrito, documentos precisos, antes da contribuição dos deuteronomistas e dos sacerdotes de Jerusalém? Se a crítica clássica afirmava a existência de ao menos dois documentos (ou fontes) , o “Javista” e o “Eloista”, hoje em dia a resposta é menos fácil. A despeito da tendência cada vez mais afirmada da exegese recente deve-se afirmar que a fixação por escrito das tradições do Pentateuco começou antes do Deuteronômio, mesmo se, muito provavelmente, ela não for tão antiga quanto se desejava e se for difícil determinar a configuração precisa de documentos autônomos. Aqui, porém, os pontos de referência são difíceis de estabelecer. Se tradições orais puderam existir desde as origens do povo de Israel (mas hoje tende-se mesmo a minimizar o papel da tradição oral), o assentamento por escrito só começa provavelmente pelo séc. VIlI a.C. A pregação de Oseias manifesta já que, no mínimo, havia pela metade deste século tradições muito bem estabelecidas a respeito de Jacó, da saída do Egito sob a guia de Moisés, do estabelecimento de uma aliança entre Deus e Israel e do dom da Lei, até mesmo de certos episódios da caminhada no deserto. A questão é saber se tais tradições tinham já uma forma escrita. Não é fácil responder a esta questão, mas pode-se dizer que diversos fatores — cuja crise, provocada pela ameaça e depois pela conquista assíria, sem falar do desenvolvimento cultural que leva à utilização, ainda limitada, da escritura para outra coisa além de fins utilitários — contribuíram para as primeiras fixações escritas de certas tradições narrativas e de um pequeno número de leis. Todavia, qualquer informação exterior aos textos está ausente. Pode-se contudo notar que as tradições bíblicas testemunham uma atividade literária dos “escribas” de Ezequias (Pr 25,1), assim como uma transmissão, que pode ter começado oralmente, na escola de seu contemporâneo, o profeta Isaías (Is 8,16). Pode-se pensar que o fim do séc. VIlI a.C. não é um início absoluto, mas não temos dados seguros para remontar mais alto. De maneira hipotética pode-se sugerir que o período de paz e de prosperidade dos reinos de Jeroboão lI em Israel (c. 783-743) e de Ozias em Judá (c. 781-740) pode ter sido já o momento das primeiras fixações literárias das tradições de Israel e de Judá sobre seu passado. Isto quereria dizer que houve no início tradições próprias a cada um dos dois reinos. As tradições do Norte são “eloístas” e as do Sul “javistas”: elas utilizam respectivamente os nomes divinos Elohim e lahweh. Mas estes dois conjuntos de tradições, dos quais uma fixação escrita antes da queda de Samaria em 722-721 a.C. é provável, confluíram para Jerusalém e é lá que o processo de sua fixação prosseguiu. Tem-se eventualmente unificado pouco os dois conjuntos de tradições, mas respeitando suas características próprias. É por isso que temos relatos, e até certas prescrições legais, em duplicata; é por isso também que as perspectivas são diferentes.

Se a crítica clássica aí distinguia normalmente duas fontes, Javista e Eloísta, hoje deve-se falar preferentemente de tradições. Se existem aí documentos (fontes) no sentido preciso do termo, o conjunto parece ser formado de maneira progressiva, embora nas tradições javistas, para dar este ‘exemplo, possam-se encontrar passagens muito tardias, compreendendo passagens importantes, como o monólogo divino e a intercessão de Abraão por Sodoma e Gomorra (Gn 18,17-19 e 22b-33a). Uma parte desse crescimento progressivo está, sem dúvida, ligada ao esforço realizado para reunir as tradições do reino do Norte (Israel), desaparecido com as conquistas assírias, às tradições próprias do reino do Sul (Judá). O trabalho pôde ao menos começar sob Ezequias. É o que a crítica clássica, de modo mais ou menos claro, atribui ao redator “Jeovista”. Atualmente tende-se a situá-lo pelo período do exílio babilônico (ou pouco antes), mas uma parte ao menos desse trabalho de compilação, que acrescenta muito aos textos já fixados por escrito (ou por uma tradição oral firme), é anterior aos deuteronomistas. É claro que se tem aí um trabalho de muitas gerações, e não o de um só escritor (ou escriba) que se situaria num momento preciso do fim do período monárquico em Judá, ou até depois.

Nos materiais javistas e eloístas a legislação ocupa pouco lugar, pois há apenas três documentos muitos breves: o Decálogo (Ex 20,2-17), o Código da Aliança (Ex 20,22-23,19), e Ex 34,10-26 (cf.Ex 12,21-23 sobre a Páscoa). A parte narrativa, ao contrário, é considerável no Gênesis (relatos das origens; tradições sobre os antepassados, Abraão, Isaac e Jacó; história de José); ela é ainda importante na primeira parte do Êxodo, mas torna-se rara depois de Ex 15: episódios da caminhada no deserto e acontecimentos do Sinai.

As tradições javistas têm uma origem judaíta. A composição pode ser tardia no caso de certos relatos, mas um fundo, talvez até um verdadeiro documento de certa consideração, pode ter aparecido pelo meio do séc. VIlI. O estilo dessas tradições é vivo e colorido; sob forma imagística e com real talento da narração, elas dão resposta profunda às graves questões que se propõem a todo homem, e as expressões humanas de que elas se servem testemunham sentido muito elevado do divino. Como prólogo da história dos antepassados de Israel encontra-se aí a história das origens da humanidade a partir de um primeiro casal. O pecado da humanidade é de alguma forma a tela de fundo sobre a qual são traçadas as origens do povo através da história dos grandes antepassados (patriarcas) e da geração de Moisés e da saída do Egito. Esta “história nacional” salienta a intervenção de Deus: chama Abraão (e sua descendência), abençoa-o e lhe faz promessas; ele salva também os israelitas do Egito e os conduz para lhes dar a Terra prometida.

As tradições eloístas são menos consideráveis e menos unificadas. Já antes da crise recente dos estudos sobre o Pentateuco pode-se falar de conservação fragmentária do documento ou dizer que os textos eloístas seriam apenas suplementos aos da tradição javista. Mas pode-se manter a relativa independência de certas tradições que utilizam o nome divino Elohim. Seriam tradições do reino do Norte que teriam chegado a Judá por ocasião do desaparecimento de Israel; elas puderam ser fixadas por escrito, ao menos em parte, antes de 721 a.C. Em todo o caso, as tradições eloístas só começam com a história dos antepassados, entre os quais Jacó, como em Oseias, tem papel central. O relato continua com a narração das origens do povo sob Moisés. Nas tradições eloístas a moral é mais exigente e pode-se nelas notar também a preocupação de melhor salientar a distância que separa Deus e o homem.

Para facilitar o esforço do leitor do Pentateuco podem-se fazer aqui algumas notações gerais quanto à disposição dos textos. Deixando de lado o Deuteronômio, salvo talvez os apêndices (31-34), os textos de tradição sacerdotal são os mais fáceis de perceber por causa de suas características, principalmente quando se encontram em grandes blocos. É o caso de Ex 25-31 e 35-40, do conjunto do Levítico, de Nm 1,1-10,10 e de outros conjuntos mais modestos. Para o resto, Gênesis, Ex 1-24 e 32-34; Nm 10,11-36,13, a repartição entre as tradições javistas é eloístas e o que provém da escola sacerdotal, compreendendo os
últimos redatores, é muito desigual. Nos relatos há frequentemente uma predominância das tradições javistas, mas não é uma regra geral. E a maneira como os textos foram reunidos é igualmente diferente conforme os casos: às vezes podemos ter relatos completos de uma só tradição, como Gn 1,1-2,4a (sacerdotal) ou 2,4b-3,24 (javista), outras vezes os dados de origem diversa são misturados, por exemplo, no relato do dilúvio em Gn 6,5-9,17 (tradições javista e sacerdotal com elementos redacionais). Procurar-se-á indicar o essencial ao leitor pelas notas colocadas no início dos capítulos ou das seções. Mas o que propomos é limitado (e até suscetível de outras explicações). O leitor tentará sempre ler o texto tal como se apresenta e compreender seu alcance. Mesmo no caso de elementos de origem diversa pode-se pensar que os textos têm uma significação sob a forma que nós os conhecemos. Mas um leitor atento talvez notará elementos que não se podem explicar caso se suponha perfeita unidade de composição. É então que o recurso a uma explicação diacrônica, que leva em conta a diversidade de origem e de perspectiva, tem seu lugar.

Os relatos e a história

O leitor dos relatos do Pentateuco estabelece normalmente uma relação estreita entre uma mensagem religiosa, seja qual for, e a exatidão quase material dos acontecimentos de que fala o relato. Esta exatidão fundamental, esta historicidade, se se quiser, seria a condição de possibilidade de um sentido religioso. E uma atitude que devemos a nossa cultura, mas devemos tentar nos situar na perspectiva própria dos textos em vez de lhes impor nossa perspectiva historicizante. As tradições eram o patrimônio vivo de um povo de um passado distante; davam-lhe o sentimento de sua unidade, uma vez que todas se ligavam a antepassados comuns, e, sobretudo, eram o sustentáculo de sua fé; eram como um espelho em que o povo se contemplava nas situações mais diversas. Pode-se pensar que essas mesmas situações, a partir das quais se refletia sobre o passado, tinham condicionado de um lado a maneira de contar as coisas. Não se poderia pedir a tais textos o rigor que o historiador moderno usaria. Mas, se a historicidade parece problemática do ponto de vista do historiador, pois os relatos e as leis do Pentateuco não são em primeiro lugar um livro de história, devemos, em contrapartida, salientar seu caráter religioso: eles são o testemunho da fé de um povo ao longo de numerosas gerações, sobretudo durante o período movimentado que vai das conquistas assírias à perda da independência nacional sob a égide do império persa. É este testemunho religioso que é importante para nós, como crentes, independentemente do valor que os textos podem ter para escrever uma história do povo da Bíblia, em termos de história moderna. É verdade que existe uma relação entre o acontecimento e o testemunho religioso, mas frequentemente o acontecimento importante é aquele a partir do qual se reflete sobre o passado e não aquele do qual se fala. Por outro lado, parece evidente que se fala do passado tal qual é conhecido frequentemente há séculos de distância, e para dele tirar uma lição para o presente. Atribuir aos autores bíblicos perspectivas de bibliografias ou de historiadores modernos não é a melhor perspectiva para chegar àquilo que eles têm anos dizer.

Os onze primeiros capítulos do Gênesis devem ser considerados à parte. Atualmente fala-se frequentemente de “mito”. É preciso compreender o termo como a designação do caráter literário, e não no sentido de história fabulosa, ou legendária: Um “mito” é simplesmente uma antiga tradição popular que conta as origens do mundo e do homem ou de certos acontecimentos, por exemplo, do diluvio universal, que teriam acontecido nas origens da humanidade. Um “mito” é relato feito de modo imagístico e simbólico; o autor do relato bíblico tomou tal ou tal tradição de seu próprio ambiente porque ela servia ao seu desígnio didático. Por outro lado os mitos ou relatos de origens, têm normalmente caráter etiológico: tais relatos fornecem uma resposta às grandes questões da existência humana no mundo; por meio dessas narrativas, dá-se uma resposta a questões como a da origem do pecado ou do sofrimento humano. O que se diz sobre este passado distante oferece uma explicação à nossa situação atual. De certa maneira procede-se por eliminação: tudo aquilo que, hoje, é percebido, como limitação explica-se por um acontecimento nas origens. Em poucas palavras, o “mito” explica como vieram à existência o mundo e todas as suas criaturas e por que nós, humanos, somos tais como somos.

O resto dos acontecimentos de que fala o Pentateuco, desde Abraão até a morte de Moisés, tem caráter diferente. Pode-se falar de história a propósito destes relatos? É muito fácil perceber que não se trata de história no sentido moderno do termo. O fim buscado pelos diferentes autores hão é o que o historiador de hoje buscaria. Isso, porém, não quer dizer que aí não possa haver ensinamentos dos quais o historiador poderia se servir para escrever tal história, por mais difícil que seja a tarefa em vista do caráter dos textos bíblicos.

A história patriarcal é história de família: as lembranças que se guardavam séculos mais tarde, a respeito dos antepassados, Abraão, Isaac, Jacó e José. É história popular: detém-se nos episódios pessoais e nos traços pitorescos, sem nenhuma preocupação de relacionar essas narrações com a história geral. É, enfim, história religiosa: todos os momentos decisivos são marcados por uma intervenção divina e neles tudo aparece como providencial, concepção teológica verdadeira de ponto de vista superior, mas que deixa na sombra a ação das causas segundas; além disso, os fatos são introduzidos, explicados e agrupados a fim de demonstrar uma tese religiosa: há um Deus que formou um povo e lhe deu um país; este Deus é Iahweh, este povo é Israel, este país é a Terra Santa. Contudo, tais relatos podem dar uma imagem fiel, embora simplificada, da origem e das migrações dos antepassados de Israel, de seus vínculos geográficos e étnicos, de seu comportamento moral e religioso. Porém, apesar da contribuição sempre crescente das descobertas da história e da arqueologia orientais, não estamos em posição de verificar a fundamentação de cada pormenor ou de situar com precisão os patriarcas na história geral.

Depois de uma lacuna, o Êxodo e os Números, que têm seu eco no Deuteronômio, e um complemento no fim do mesmo livro, referem os acontecimentos que vão do nascimento à morte de Moisés: a saída do Egito, a permanência no Sinai, a subida até Cades, a caminhada através da Transjordânia e a instalação nas estepes de Moab. Negar a realidade histórica desses fatos e da pessoa de Moisés é tornar inexplicáveis a história subsequente de Israel; sua fidelidade ao javismo, apesar da inclinação, que durou séculos, de se voltar para os deuses estrangeiros, sobretudo cananeus, e sua devoção à Lei. É preciso reconhecer, contudo, que a importância dessas recordações para a vida do povo e o eco que elas tinham nos ritos deram aos relatos a cor de uma gesta heroica (por exemplo, a passagem do mar) e por vezes de uma liturgia (como a Páscoa). Israel, que se tornou povo, faz então sua entrada na história geral e, embora nenhum documento antigo o mencione ainda — salvo uma alusão obscura na estela do Faraó Merneptah — o que a Bíblia diz dele concorda, em linhas gerais, com o que os textos e a arqueologia nos informam sobre a descida dos grupos semíticos para o Egito, sobre a administração egípcia do Delta e a situação política da Transjordânia. A tarefa do historiador atual é confrontar esses dados da Bíblia com os fatos conhecidos da história geral. Ela não é fácil e impõe reservas que provêm tanto da insuficiência dos dados bíblicos quanto da incerteza da cronologia extrabíblica. É por isso que há diversas hipóteses sobre a época dos patriarcas ou sobre a data provável do Êxodo dos israelitas para fora do Egito, sob a guia de Moisés. Infelizmente não podemos confiar nas indicações cronológicas de 1Rs 6,1 e Jz 11,26. Para alguns, a indicação decisiva encontrar-se-ia em Ex 1,11: os hebreus no Egito teriam trabalhado na construção das cidades-armazéns de Pitom e de Ramsés. O Êxodo seria posterior à ascensão de Ramsés II, que fundou a cidade de Ramsés. Os grandes trabalhos começaram aí desde o início de seu reino e é provável que a saída do grupo de Moisés tenha ocorrido na primeira metade ou pelo meio deste longo reino (1290-1224), digamos por volta de 1250 a.C. ou pouco antes. Se levarmos em conta a tradição bíblica sobre uma estada no deserto durante uma geração, a instalação na Transjordânia colocar-se-ia nas cercanias de 1225 a.C. Estas datas estão conformes aos ensinamentos da história geral sobre a residência dos faraós da XIX dinastia no Delta do Nilo, sobre o enfraquecimento do controle egípcio na Síria-Palestina pelo fim do reinado de Ramsés II, e sobre as perturbações que abalaram todo o Oriente próximo no fim do séc. XIII. Elas concordam com as indicações da arqueologia sobre o início da Idade do ferro, que coincide com o estabelecimento dos israelitas em Canaã.

A legislação

Na Bíblia judaica, o Pentateuco é chamado a Lei, a Torá: de fato, recolhe o conjunto das prescrições que regulavam a vida moral, social e religiosa do povo. Para nossos olhos modernos, o traço mais notável dessa legislação é seu caráter religioso. Esse aspecto encontra-se também em certos Códigos do Oriente antigo, mas nunca acompanhado de tanta compenetração do sagrado e do profano; em Israel, a lei é ditada por Deus, regula seus deveres para com Deus e motiva suas prescrições com considerações religiosas. Isso parece óbvio no caso das normas morais do Decálogo ou das leis cultuais do Levítico; mas é muito mais significativo que, numa mesma coleção, se misturem leis civis e penais com preceitos religiosos, e que o conjunto seja apresentado como a carta da aliança com Iahweh. Por uma consequência natural, o enunciado dessas leis é vinculado às narrações dos acontecimentos do deserto, onde essa aliança foi concluída.

Já que as leis são feitas para serem aplicadas, era preciso adaptá-las às condições variáveis de cada ambiente e época. Isso explica que se encontrem, nos conjuntos que vamos examinar, junto com elementos antigos, fórmulas ou disposições que testemunham preocupações novas. Por outro lado, nesta matéria, Israel foi necessariamente tributário de seus vizinhos. Certas disposições do Código da Aliança ou do Deuteronômio se reencontram, com estranha semelhança, nos Códigos da Mesopotâmia, na coleção das Leis assírias ou no código hitita. Não houve dependência alguma direta; esses contatos se explicam pela irradiação das legislações estrangeiras ou por um direito consuetudinário que se tornou em parte o bem comum do antigo Oriente próximo. Além disso, logo após o Êxodo, a influência cananeia se fez sentir fortemente na expressão das leis e nas formas do culto.

O Decálogo, “as palavras” (Ex 20,1; 24,3-8 etc.) ou “Dez palavras” (Dt 4,13; 10,4; cf. Ex 34,28), é por excelência “o livro da aliança” (Ex 24,7), o que põe em relevo a tradição das “tábuas de pedra ” (Ex 31,18+). Ele é a lei fundamental, moral e religiosa, da Aliança de Iahweh com Israel. Ele é dado duas vezes (Ex 20,2-17 e Dt 5,6-21), com variantes por vezes notáveis que traem retoques mais recentes. Estas duas versões poderiam remontar a uma forma mais curta que era apenas uma série de proibições. Se em principio, nada se opõe à origem mosaica do Decálogo, não podemos na verdade prová-la.

O Código da Aliança (Ex 20,22-23,33 [mais estritamente Ex 20,22-23,19]), faz parte das tradições eloístas e foi inserido entre o fim do Decálogo e a conclusão da aliança. Este conjunto de leis responde a uma situação posterior à época de Moisés.

É o direito de uma sociedade de pastores e de camponeses; e o interesse que demonstra pelos animais de carga, pelos trabalhos nos campos e na vinha, pelas casas, leva a crer que a sedentarização já é fato consumado. É somente nessa época que Israel pôde conhecer e praticar o direito consuetudinário no qual este Código se inspira e que explica seus paralelos precisos com os Códigos da Mesopotâmia, mas o Código da Aliança é penetrado pelo espírito do javismo, muitas vezes em reação contra a civilização de Canaã. Reúne, sem plano sistemático, coleções de preceitos que se distinguem por seu objeto e por sua formulação, ora “casuística” ou condicional; ora “apodítica” ou imperativa. A coleção teve de início existência independente e poderia nesse caso refletir um período relativamente antigo na história de Israel. Sua inserção nos relatos do Sinai é anterior à composição do Deuteronômio.

O Código deuteronômico (Dt 12,1-26,15) forma a parte central do livro do Deuteronômio, cujas características e história literária descrevemos acima. Retoma uma parte das leis do Código da Aliança, mas adapta-as às mudanças da vida econômica e social; assim, com referência ao perdão das dívidas e ao estatuto dos escravos, compare-se Dt 15,1-11 com Ex 23,10-11; Dt 15,12-18 com Ex 21,2-11. Mas, desde seu primeiro preceito, ele se opõe ao Código da Aliança num ponto importante: este havia legitimado a multiplicidade dos santuários (Ex 20,24), ao passo que o Deuteronômio impõe a lei da unidade do lugar de culto (Dt 12,2-12) e essa centralização acarreta modificações nas regras antigas sobre os sacrifícios, o dízimo e as festas. O Código deuteronômico contém também prescrições alheias ao Código da Aliança e por vezes arcaicas, que provêm de fontes desconhecidas. O que permanece como sua característica e que marca a mudança dos tempos é a preocupação de proteger os pobres, a lembrança constante dos direitos de Deus sobre sua terra e sobre seu povo e o tom exortativo que penetra essas prescrições legais.

O Levítico, embora só tenha recebido sua forma definitiva depois do Exílio, contém elementos bem antigos, como as proibições alimentares (11) as regras de pureza (13-15); o cerimonial tardio do grande dia da Expiação (16), sobrepõe uma concepção muito elaborada do pecado a um antigo rito de purificação. Os caps. 17-26 formam um conjunto chamado Lei de santidade, que inicialmente era separado do Pentateuco. Essa Lei reúne elementos diversos, alguns dos quais podem remontar até à época nômade, como o cap. 18, outros são ainda pré-exilicos e outros mais recentes. Uma primeira coleção se formou em Jerusalém pouco antes do Exílio, coleção esta que Ezequiel pode ter conhecido, com muitos contatos de linguagem e de conteúdo com a Lei de Santidade. Mas esta só foi editada no decurso do Exílio, antes de ser inserida no Pentateuco pelos redatores sacerdotais que a adaptaram ao resto do material que reuniram.

Sentido religioso

A religião do Antigo Testamento, como a do Novo, é religião histórica: funda-se na revelação que Deus fez a determinados homens, em determinados lugares e circunstâncias, e nas intervenções de Deus em determinados momentos da evolução humana. O Pentateuco, que reproduz a história dessas relações de Deus com o mundo, é o fundamento da religião judaica e tornou-se seu livro canônico por excelência, sua lei.

Nele encontrava o israelita a explicação do seu destino. Não apenas tem, no começo do Gênesis, a resposta às interrogações que todo homem se faz sobre o mundo e a vida, sobre o sofrimento e a morte, mas encontra também resposta para seu problema particular: Por que Iahweh, o Único, é o Deus de Israel? Por que Israel é seu povo entre todas as nações da terra? É porque Israel recebeu a promessa. O Pentateuco é o livro das promessas: a Adão e Eva após a queda, o anúncio da salvação longínqua, o Proto-evangelho; a Noé depois do dilúvio, a certeza de uma nova ordem do mundo; e a Abraão principalmente. A promessa que lhe é feita é renovada a Isaac e a Jacó e se estende a todo o povo deles nascido. Essa promessa se refere imediatamente à posse do país em que viveram os Patriarcas, a Terra prometida, mas implica outras coisas mais: significa que existem entre Israel e o Deus dos Pais relações especiais, únicas.

Pois Iahweh chamou Abraão, e nessa vocação já se prefigurava a eleição de Israel. Foi Iahweh que fez dele um povo e deste povo, seu povo, por uma eleição gratuita, por um desígnio amoroso concebido desde a criação e continuado através de todas as infidelidades dos homens.

Essa promessa e essa eleição são garantidas por uma aliança. O Pentateuco é também o livro das alianças. Uma já é feita, embora tácita, com Adão; ela é explícita com Noé, com Abraão, com todo o povo, enfim, pelo ministério de Moisés. Não se trata de um pacto entre iguais, pois Deus não necessita dele e é ele quem toma a iniciativa. No entanto, ele se compromete, se obriga, de certa maneira, pelas promessas que faz. Mas exige, em contrapartida, a fidelidade de seu povo: a recusa de Israel, seu pecado, pode romper o vínculo que o amor de Deus formou.

As condições dessa fidelidade estão reguladas pelo próprio Deus. Deus dá sua lei ao povo que escolheu para si. A lei ensina-lhe seus deveres, regula sua conduta conforme a vontade de Deus, e, mantendo a aliança, prepara o cumprimento das promessas.

Esses temas da Promessa, da Eleição, da Aliança e da Lei são os fios de ouro que se entrecruzam na trama do Pentateuco e continuam seu curso por todo o Antigo Testamento. Pois o Pentateuco não é completo em si mesmo: menciona a promessa, mas não a realização, já que termina antes da entrada na Terra Santa. Devia permanecer aberto como uma esperança e uma exigência: esperança nas promessas, que a conquista de Canaã parecerá cumprir (Js 23), mas que os pecados do povo comprometerão e que os exilados recordarão na Babilônia; exigência de uma lei sempre premente, que permanecia como que uma testemunha contra Israel (Dt 31,26).

Essa situação continuou até Cristo, que é o termo para o qual tendia obscuramente a história da salvação e que lhe dá todo o seu sentido. São Paulo salienta o significado deste fato, sobretudo em Gl 3,15-29. Cristo concluiu a Nova Aliança, prefigurada pelos pactos antigos, e nela faz entrar os cristãos, herdeiros de Abraão pela fé. Quanto à Lei, ela foi dada para guardar as promessas, como um pedagogo que conduz a Cristo, em quem essas promessas se realizam.

O cristão não está mais sob o pedagogo, é libertado das observâncias da Lei, mas não de seu ensinamento moral e religioso. Pois Cristo não veio ab-rogar a Lei, e sim levá-la à perfeição (Mt 5,17); o Novo Testamento não se opõe ao Antigo, prolonga-o. Não só a Igreja reconheceu nos grandes eventos da época patriarcal e mosaica, nas festas e ritos do deserto (sacrifício de Isaac, passagem do mar Vermelho, Páscoa etc.), as realidades da Nova Lei (sacrifício de Cristo, batismo, Páscoa cristã), como também a fé cristã exige a mesma atitude fundamental que os relatos e os preceitos do Pentateuco prescreviam aos israelitas. Mais ainda: em seu itinerário para Deus, toda alma atravessa as mesmas etapas de desapego, provação e purificação pelas quais passou o povo eleito, e encontra sua instrução nas lições que foram dadas a este.

Uma leitura cristã do Pentateuco deve seguir antes de tudo a ordem dos relatos: o Gênesis, depois de haver oposto às bondades de Deus Criador as infidelidades do homem pecador, mostra, nos Patriarcas, a recompensa concedida à fé; o Êxodo é o esboço de nossa redenção; Números representa o tempo de provação em que Deus instrui e castiga seus filhos, preparando a congregação dos eleitos. O Levítico poderá ser lido com mais proveito em conexão com os últimos capítulos de Ezequiel ou depois dos livros de Esdras e Neemias; o sacrifício único de Cristo tornou caduco o cerimonial do antigo Templo, mas suas exigências de pureza e de santidade no serviço de Deus continuam sendo uma lição sempre válida. A leitura do Deuteronômio acompanhará bem a de Jeremias, o profeta de quem ele está mais próximo pelo tempo e pelo espírito.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Gênesis

Capítulo Versículos Trecho
1 1-31 A obra dos seis dias I. As origens do mundo e da humanidade 1. Da criação ao dilúvio
2 1-4a
4b-25 A formação do homem e da mulher
3 1-24 O relato do paraíso
4 1-16 Caim e Abel
17-24 A descendência de Caim
25-26 Set e seus descendentes
5 1-32 Os Patriarcas anteriores ao dilúvio
6 1-4 Filhos de Deus e filhas dos homens
5-12 A corrupção da humanidade 2. O dilúvio
13-22 Preparativos do dilúvio
7 1-16
17-24 A inundação
8 1-14 Vazão das águas
15-22 A saída da arca
9 1-17 A nova ordem do mundo
18-29 Noé e seus filhos 3. Do dilúvio a Abraão
10 1-29 A tábua das nações
11 1-9 A torre de Babel
10-26 Os Patriarcas depois do dilúvio
27-32 A descendência de Taré
12 1-9 Vocação de Abraão II. História dos Patriarcas 1. Ciclo de Abraão
10-20 Abraão no Egito
13 1-18 Separação de Abraão e de Ló
14 1-16 A campanha dos quatro grandes reis
17-24 Melquisedec
15 1-21 As promessas e a aliança divinas
16 1-16 Nascimento de Ismael
17 1-27 A aliança e a circuncisão
18 1-16 A aparição de Mambré
17-33 A intercessão de Abraão
19 1-29 A destruição de Sodoma
30-38 Origem dos moabitas e dos amonitas
20 1-18 Abraão em Gerara
21 1-7 Nascimento de Isaac
8-21 Expulsão de Agar e Ismael
22-34 Abraão e Abimelec em Bersabéia
22 1-19 O sacrifício de Abraão
20-24 A descendência de Nacor
23 1-20 O túmulo dos Patriarcas
24 1-67 Casamento de Isaac
25 1-6 A descendência de Cetura
7-11 Morte de Abraão
12-18 A descendência de Ismael
19-28 Nascimento de Esaú e Jacó 2. O ciclo de Isaac e de Jacó
29-34 Esaú cede seu direito de primogenitura
26 1-14 Isaac em Gerara
15-25 Os poços entre Gerara e Bersabeia
26-33 Aliança com Abimelec
34-35 As mulheres heteias de Esaú
27 1-45 Jacó intercepta a bênção de Isaac
46 Isaac envia Jacó a Labão
28 1-5
6-9 Outro casamento de Esaú
10-22 O sonho de Jacó
29 1-14 Jacó chega à casa de Labão
15-30 Os dois casamentos de Jacó
31-35 Os filhos de Jacó
30 1-24
25-43 Como Jacó se enriqueceu
31 1-21 Fuga de Jacó
22-42 Labão persegue Jacó
43-54 Tratado entre Jacó e Labão
32 1-3
4-22 Jacó prepara seu reencontro com Esaú
23-33 A luta com Deus
33 1-11 O encontro com Esaú
12-17 Jacó separa-se de Esaú
18-20 Chegada a Siquém
34 1-5 Violência feita a Dina
6-24 Pacto matrimonial com os siquemitas
25-31 Vingança traidora de Simeão e Levi
35 1-15 Jacó em Betel
16-20 Nascimento de Benjamim e morte de Raquel
21-22a Incesto de Rúben
22b-26 Os doze filhos de Jacó
27-29 Morte de Isaac
36 1-5 Mulheres e filhos de Esaú em Canaã
6-8 Migração de Esaú
9-14 Descendência de Esaú em Seir
15-19 Os chefes de Edom
20-30 Descendência de Seir, o horreu
31-39 Os reis de Edom
40-43 Ainda os chefes de Edom
37 1
2-11 José e seus irmãos III. História de José
12-36 José vendido por seus irmãos
38 1-30 História de Judá e de Tamar
39 1-6 Inícios de José no Egito
7-20a José e a sedutora
20b-23 José na prisão
40 1-23 José interpreta os sonhos dos oficiais do Faraó
41 1-36 Os sonhos do Faraó
37-49 Exaltação de José
50-52 Os filhos de José
53-57 A fome
42 1-24 Primeiro encontro de José com seus irmãos
25-38 Retorno dos filhos de Jacó a Canaã
43 1-14 Os filhos de Jacó retornam com Benjamim
15-34 O encontro com José
44 1-17 A taça de José na saca de Benjamim
18-34 Intervenção de Judá
45 1-15 José se dá a conhecer
16-20 O convite do Faraó
21-28 O retorno a Canaã
46 1-7 Saída de Jacó para o Egito
8-27 A família de Jacó
28-34 A acolhida de José
47 1-5a.6b A audiência do Faraó
5b-6a.7-12 Outra narrativa
13-26 Política agrária de José
27-31 Últimas vontades de Jacó
48 1-22 Jacó adota e abençoa os dois filhos de José
49 1-28 Bênçãos de Jacó
29-33 Últimos momentos e morte de Jacó
50 1-14 Funerais de Jacó
15-26 Da morte de Jacó à morte de José

Fonte: Bíblia de Jerusalém.