Introdução às Epístolas de São Paulo

São Paulo nos é conhecido, melhor que qualquer outra personalidade do NT, por suas Epístolas e pelos Atos dos Apóstolos, duas fontes independentes que se confirmam e se completam , não obstante algumas divergências em pormenores. Além disso, alguns sincronismos com acontecimentos conhecidos através da história — sobretudo o proconsulado de Galião em Corinto (At 18,12) — permitem precisar certas datas e estabelecer assim uma cronologia relativamente correta da vida do Apóstolo.

Nascido em Tarso da Cilícia (At 9,11; 21,39; 22,3), pelo início de nossa era (Fm 9), de uma família judaica da tribo de Benjamim (Rm 11,1; Fl 3,5), mas ao mesmo tempo cidadão romano (At 16,37s; 22,25-28, 23,27), recebeu desde a infância, em Jerusalém, de Gamaliel, séria formação religiosa segundo a doutrina dos fariseus (At 22,3; 26,4s; Gl 1,14; Fl 3,5). No princípio, foi perseguidor implacável da jovem Igreja cristã (At 22,4s; 26,9-12; Gl 1,13; Fl 3,6); teve conversão súbita no caminho de Damasco, devida à aparição de Jesus ressuscitado, que, ao lhe manifestar a verdade da fé cristã: indicou-lhe sua missão especial de Apóstolo dos gentios (At 9,3-19p; Gl 1,12.15s; Ef 3,2s). A partir deste momento (cerca do ano 33), consagrará toda a sua vida ao serviço de Cristo que o “conquistou” (Fl 3,12). Depois de uma temporada na Arábia e do regresso a Damasco (Gl 1,17), onde já prega (At 9,20), sobe a Jerusalém pelo ano 37 (Gl 1,18; At 9,26-29); depois retira-se para a Síria-Cilícia (Gl 1,21; At 9,30), de onde é reconduzido a Antioquia por Barnabé, com o qual ensina (At 11,25s; cf. 9,27). A primeira missão apostólica, no início dos anos 40, fá-lo anunciar o evangelho em Chipre, Panfília, Pisídia e Licaônia (At 13-14); foi então, segundo Lucas, que ele começou a usar seu nome romano Paulo, de preferência ao nome judaico Saulo (At 13,9), e é também então que suplanta seu companheiro Barnabé, em razão da sua preponderância na pregação (At 14,12). Sua segunda viagem missionária (At 15,36-18,22), de 47 a 51, levou-o à Europa. Encontrou Galião em Corinto durante o verão de 51, depois do que ele sobe a Jerusalém para participar do concílio apostólico, onde se admite, em parte por sua influência, que a Lei judaica não obriga os cristãos convertidos do paganismo. (At 15, Gl 2,3-6). Ao mesmo tempo sua missão de Apóstolo dos pagãos é oficialmente reconhecida (Gl 2,7-9), e parte de novo para novas viagens apostólicas. A segunda (At 15,36-18,22) e a terceira (At 18,23-21,17), ocupam respectivamente os anos 50-52 e 53-58), falaremos disso mais adiante, para situar as diversas epístolas que as assinalam. Em 58, é preso em Jerusalém (At 21,27-23,22) e retido na prisão em Cesareia da Palestina até o ano 60 ([At 23,23|At 23]]-26,32). No final de 60 o procurador Festo o envia escoltado a Roma (At 27,1-28,16), onde Paulo permanece dois anos (At 28,30), de 61 a 63. Aqui se limita nosso conhecimento certo da vida de Paulo. Tradições antigas, baseadas em parte sobre as epístolas pastorais (sobre cujo valor histórico veja abaixo), afirmam que depois de dois anos o processo foi anulado por falta de provas, e Paulo viajou de novo no Leste, ou talvez realizou seu projeto de visitar a Espanha (Rm 15,24.28). A tradição também sustenta que um subsequente aprisionamento em Roma terminou no martírio, entre 64 e 68 d.C.

As Epístolas e os Atos nos traçam também um retrato impressionante da personalidade do Apóstolo.

Paulo é apaixonado, alma de fogo que se consagra sem limites a um ideal. E este ideal é essencialmente religioso. Para ele, Deus é tudo e ele o serve com lealdade absoluta, primeiro perseguindo os que ele tem na conta de hereges (Gl 1,13; cf. At 24,5.14), depois pregando Cristo, após haver entendido por revelação que só nele esta a salvação. Este zelo incondicional traduz-se pela vida de abnegação total ao serviço daquele que ele ama. Trabalhos, fadigas, sofrimentos, privações, perigos de morte (1Cor 4,9-13; 2Cor 4,8s; 6,4-10; 11,23-27), nada lhe importa, contanto que cumpra a missão pela qual se sente responsável (1Cor 9,16s). Nenhuma dessas coisas o poderá separar do amor de Deus e de Cristo (Rm 8,35-39); ou melhor, tudo isso é de inestimável valor, por conformá-lo à paixão e à cruz de seu Mestre (2Cor 4,10s|2Cor 4]]; Fl 3,10s). O sentimento de sua eleição singular lhe inspira ambições imensas. Quando confessa sua solicitude por todas as igrejas (2Cor 11,28; cf. CI 1,24), quando declara haver trabalhado mais que os outros (1Cor 15,10; cf. 2Cor 11,5),quando exorta seus fiéis a imitá-lo (1Cor 11,1+), não se trata de orgulho, é a altivez legítima e muito humilde de um santo: sabe-se o último de todos, ele, o perseguidor (1Cor 15,9; Ef 3,8), e atribui unicamente à graça de Deus as grandes coisas que se fazem por seu intermédio (1Cor 15,10; 2Cor 4,7; Fl 4,13; Cl 1,29; Ef 3,7).

O ardor do seu coração sensível se traduz bem nos sentimentos que demonstra por seus fiéis. Cheio de abandono confiante para com os de Filipos (Fl 1,7s; 4,10-20), inflama-se de indignação quando os da Galácia se dispõem a trair sua fé (Gl 1,6; 3,1-3), e sente doloroso embaraço diante da inconstância vaidosa dos de Corinto (2Cor 12,11-13,10). Para censurar os inconstantes, sabe manejar a ironia (1Cor 4,8; 2Cor 11,7; 12,13) ou até as duras reprimendas (Gl 3,1-3; 4,11; 1Cor 3,1-3; 5,1-2; 6,5; 11,17-22; 2Cor 11,3s). Mas é para o bem deles (2Cor 7,8-13). E logo modera suas repreensões com acentos de tocante ternura (2Cor 11,1-2; 12,14s): não é ele o único pai que eles têm (1Cor 4,14s; 2Cor 6,13; cf. 1Ts 2,11; Fm 10), a mãe deles (1Ts 2,7; Gl 4,19)? Que se restabeleçam, pois, as boas relações de antigamente (Gl 4,12-20; 2Cor 7,11-13)!

De fato, suas censuras visam menos a eles do que aos adversários que tentam seduzi-los: os cristãos judaizantes que queriam reconduzir seus convertidos para debaixo do jugo da Lei (Gl 1,7; 2,4; 6,12s). Para com eles não tem consideração (1Ts 2,15s; Gl 5,12; FI 3,2). A suas pretensões orgulhosas e carnais opõe o autêntico poder espiritual que se manifesta em sua fraca pessoa (2Cor 10,1-12,12) e a sinceridade, comprovada pelo seu desinteresse (At 18,3+). Houve quem pensasse que seus rivais fossem os grandes apóstolos de Jerusalém. Nada o prova; trata-se, antes, de judeu-cristãos integristas que alegavam fidelidade a Pedro (1Cor 1,12) e Tiago (Gl 2,12) para minar a confiança em Paulo. Com efeito, ele respeita sempre a autoridade dos verdadeiros apóstolos (Gl 1,18; 2,2), embora reivindicando o título igual a ser testemunha de Cristo (Gl 1,11s; 1Cor 9,1; 15,8-11); e se lhe acontece resistir ao próprio Pedro numa determinada questão (Gl 2,11-14), sabe também mostrar-se compreensivo (At 21,18-26) e empenha-se com o maior carinho naquela coleta em favor dos pobres de Jerusalém (Gl 2,10), na qual vê o melhor penhor da união entre os cristãos da gentilidade e os da Igreja-mãe (2Cor 8,14; 9,12-13; Rm 15,26s).

Sua pregação é antes de tudo o “querigma” apostólico (At 2,22+), proclamação do Cristo crucificado e ressuscitado conforme as Escrituras (1Cor 2,2; 15,3-4; Gl 3,1). “Seu” evangelho (Rm 2,16; 16,25) não lhe é próprio; é o da fé comum (Gl 1,6-9; 2,2; Cl 1,5-7), apenas com uma aplicação especial à conversão dos gentios (Gl 1,16; 2,7-9), na linha universalista inaugurada em Antioquia. Paulo é solidário das tradições apostólicas, que cita ao se apresentar a ocasião (1Cor 11,23-25; 15,3-7), supõe por toda parte e às quais certamente deve muito. Parece que não conheceu Cristo durante sua vida (cf. 2Cor 5,16+), mas conhece seus ensinamentos (1Cor 7,10s; 9,14). Aliás, é também testemunha direta, e sua convicção irresistível se apoia sobre a experiência pessoal; pois “viu” Cristo (1Cor 9,1; 15,8). Foi favorecido com revelações e êxtases (2Cor 12,1-4). O que recebeu da tradição, pode também atribuir, com toda a verdade, às comunicações diretas do Senhor (Gl 1,12; 1Cor 11,23).

Houve quem apontasse como causa destes fenômenos místicos um temperamento exaltado e doentio. Nada é menos fundado. A doença que o deteve na Galácia (Gl 4,13-15), provavelmente, não foi mais que uma crise de paludismo; e “o espinho na carne” (2Cor 12,7) poderia bem ser a oposição dentro de suas comunidades. Ele nada tem do imaginativo, se julgarmos pelas imagens pouco numerosas e corriqueiras que emprega: o estádio (1Cor 9,24-27; FI 3,12-14; 2Tm 4,7s), o mar (Ef 4,14), a agricultura (1Cor 3,6-8) e a construção (1Cor 3,10-17; Rm 15,20; Ef 2,20-22), dois temas que gosta de associar e misturar (1Cor 3,9; Cl 2,7; Ef 3,17; cf. Cl 2,19; Ef 4,16). Paulo é, antes, cerebral. Nele se une a um coração ardente a inteligência lúcida, lógica, exigente, preocupada em expor a fé segundo as necessidades dos ouvintes. É graças a isso que temos as admiráveis explanações teológicas com que envolve o querigma segundo as circunstâncias. Sem dúvida esta lógica não é a nossa. Paulo argumenta muitas vezes como rabino, segundo os métodos exegéticos que recebeu do seu meio e da sua educação (por exemplo, Gl 3,16; 4,21-31). Mas seu gênio sabe ultrapassar os limites desta herança tradicional, e é doutrina profunda que faz passar por canais que, para nós, são um tanto ultrapassados.

Além disso, esse semita tem também boa cultura grega, recebida talvez desde a infância em Tarso, enriquecida por repetidos contatos com o mundo greco-romano, e esta influência se reflete na sua maneira de pensar, bem como em sua linguagem e no estilo. Cita, dada a ocasião, autores clássicos (1Cor 15,33); e conhece certamente a filosofia popular baseada no estoicismo. Deve à “diatribe” cínico-estoica seu estilo de argumentação rigorosa, por meio de curtas perguntas e respostas (Rm 3,1-9.27-31), ou suas explanações por acumulação retórica (2Cor 6,4-10); e quando, ao contrário, usa frases longas e carregadas, nas quais as proposições se acumulam em vagas sucessivas (Ef 1,3-14; Cl 1,9-20), pode ainda encontrar seus modelos na literatura religiosa helenística. Fala correntemente o grego, com poucos semitismos. E o grego de seu tempo, naturalmente, o da “koiné” distinta, mas sem pretensões aticistas, pois despreza os artifícios da eloquência humana e não quer fazer depender sua força de persuasão senão do poder da Palavra da fé, confirmada pelos sinais do Espírito (1Ts 1,5; 1Cor 2,4s; 2Cor 11,6; Rm 15,18). Há casos até em que sua expressão é incorreta e inacabada (1Cor 9,15), de tão incapaz que é o molde da linguagem para conter o impulso de um pensamento por demais rico ou de emoções demasiado vivas. Com raras exceções (Fm 19), dita (Rm 16,22), como costumavam fazer os antigos, contentando-se com escrever a saudação final (2Ts 3,17; Gl 6,11; 1Cor 16,21; Cl 4,18); e, se mais de um trecho parece fruto de redação longamente meditada, muitos outros dão a impressão de primeiro impulso espontâneo e sem retoques. Apesar destas falhas, ou talvez por causa delas, este estilo fogoso é de densidade extraordinária. Pensamento tão elevado, expresso de maneira tão ardorosa, prepara ao leitor mais de uma dificuldade (2Pd 3,16); mas oferece-lhe ao mesmo tempo textos cujo vigor religioso e até literário permanecem talvez sem rival na história das cartas humanas.

As epístolas que Paulo nos deixou são escritos ocasionais, jamais devemos esquecê-lo . Não são tratados de teologia, mas respostas a situações concretas. Verdadeiras cartas que se inspiram no formulário então em uso (Rm 1,1+), não são nem “cartas” meramente particulares, nem “epístolas” puramente literárias, mas explanações que Paulo destina a leitores concretos e, para além deles, a todos os fiéis de Cristo. Não se deve, pois, buscar aí uma exposição sistemática e completa do pensamento do Apóstolo; sempre deve-se supor, por detrás delas, a palavra viva, de que são o comentário em pontos particulares. Com isso, não deixam de ser infinitamente preciosas, enquanto sua riqueza e variedade nos permitem encontrar de fato o essencial da mensagem paulina. Embora dirigidas em ocasiões e a auditórios diferentes, descobre-se nelas uma mesma doutrina fundamental, centrada em torno de Cristo morto e ressuscitado, mas que se adapta, se desenvolve e se enriquece no decurso desta vida consagrada totalmente a todos (1Cor 9,19-22). Alguns intérpretes atribuíram a Paulo um ecletismo que o teria feito adotar, segundo as circunstâncias, pontos de vista diferentes e até contraditórios, aos quais não daria nenhum valor absoluto, pois quereria somente que ganhassem os corações para Cristo. Outros opuseram a este modo de ver um “fixismo”, segundo o qual o pensamento de Paulo, firmado desde o começo pela experiência de sua conversão, não teria conhecido em seguida nenhuma evolução. A verdade está entre esses extremos: a teologia de Paulo se desenvolveu conforme uma linha contínua, mas se desenvolveu realmente sob o impulso do Espírito que dirigia seu apostolado. Nós identificaremos as etapas desta evolução percorrendo suas diferentes epístolas em sua ordem cronológica, que não é a ordem do Cânon do NT, observada pela maioria das traduções, na qual foram colocadas conforme o tamanho, em ordem decrescente.

As primeiras em data são dirigidas aos Tessalonicenses, que Paulo evangelizou na decurso da segunda viagem (At 17,1 -10) do final de 49 aos inícios de 50. Forçado, por, causa dos ataques dos judeus, a partir para Bereia, de onde se dirigiu para Atenas e Corinto.foi sem dúvida desta última cidade na metade de 50, que escreveu 1Ts. Silas e Timóteo estão a seu lado, e as boas noticias trazidos por este último de uma segunda visita a Tessalônica são para Paulo a ocasião para desafogar seu coração (1-3); seguem exortações práticas (4,1-12; 5,12-28), entre as quais se insere uma resposta sobre o destino dos falecidos e a parusia de Cristo (4,13-5,11). Escrita, sem dúvida: de Corinto alguns meses mais tarde (2Ts 2,15) 2Ts apresenta, juntamente com outras exortações práticas (1; 2,13-3,15), novas instruções sobre a data da parusia e os sinais que a devem preceder (2,1-12).

2Ts contém notáveis semelhanças literárias com 1Ts, a tal ponto que certos críticos a tomaram como obra de falsário que se teria inspirado em Paulo, imitando seu estilo. Mas nao há meto de descobrir qual teria sido o motivo de tal falsificação, e é mais simples pensar que o próprio Apóstolo, a fim de corrigir, malentendidos do seu ensinamento escatológico (1Ts 5,2.9), tenha escrito esta segunda carta, retomando expressões da primeira. Os dois escritos não se contradizem, mas se completam; e sua autenticidade é igualmente bem atestada pela antiga tradição da Igreja.

Além do seu interesse em apresentar já esboçados diversos temas que serão retomados pelas epístolas posteriores, estas são importantes sobretudo por sua doutrina sobre a escatologia. Nesta etapa primitiva de seu apostolado, o pensamento do Apóstolo apresenta-se todo concentrado na ressurreição de Cristo e na sua vinda na glória, que trará a salvação aos que tiverem acreditado nele, ainda que já tenham morrido (1Ts 4,13-18). Esta vinda gloriosa e descrita segundo as tradições da apocalíptica judaica e do cristianismo primitivo (discurso escatológico dos sinóticos, sobretudo de Mt). Em consonância com os ensinamentos de Jesus, ora insiste na iminência imprevisível desta vinda que nos obriga à vigilância (1Ts 5,1-11), a ponto de dar a Impressão de que tanto ele como seus leitores assistiriam a ela em vida (1Ts 4,17), ora acalma seus fiéis impressionados por esta perspectiva, lembrando-lhes que o Dia ainda não chegou e deve ser precedido de certos sinais (2Ts 2,1-12). Estes não são mais tão claros para nós como o deveriam ser para os leitores. Parece que Paulo imagina o Anticristo como um indivíduo que deve ,surgir no fim dos tempos. Quanto ao
obstáculo “que por ora o retém” (2Ts 2,6), certos intérpretes viram nele o império romano, outros a pregação evangélica e a questão permanece obscura.

Enquanto escrevia essas cartas Paulo evangelizava Corinto durante mais de 18 meses (At 18,1-18), de março-junho de 50 a setembro de 51. Conforme seu costume de agir nos grandes centros, queria implantar a fé em Cristo naquele porto famoso e densamente habitado, de onde ela se irradiaria por toda a Acaia (2Cor 1,1; 9,2). De fato, conseguiu estabelecer lá, sobretudo nas camadas modestas da população (1Cor 1,26-28), uma comunidade florescente. Mas aquela grande cidade era centro de cultura grega, em que se defrontavam correntes de pensamento e de religião muito diversas. O contato da jovem fé cristã com esta capital do paganismo devia suscitar, para os neófitos, muitos problemas delicados. É na solução deles que o Apóstolo se empenha nas duas cartas que lhes escreveu.

A origem destas duas epístolas é bastante clara, não obstante alguns pontos duvidosos. A primeira carta “pré-canônica” (1Cor 5,9-13), de data incerta, não foi conservada. Mais tarde; durante a temporada de mais de 2 anos (52-54) que ele passou em Éfeso no decurso da terceira viagem (At 19,1-20,1), algumas questões trazidas por uma delegação de coríntios (1Cor 16,17), às quais se somavam informações recebidas por meio de Apolo (At 18,27s; 1Cor 16,12) e de “pessoas da casa de Cloé” (1Cor 1,11), levaram Paulo a escrever nova carta, que é nossa 1Cor, por volta da Páscoa de 54 (1Cor 5,7s; 16,5-9). Pouco depois, deve ter surgido em Corinto uma crise, provavelmente envolvendo Timóteo (1Cor 4,17; 16,10-11), que o obrigou a fazer lá uma rápida e amarga visita (2Cor 1,23-2,1), no decurso da qual prometeu regressar em breve (2Cor 1,15-16). De fato não voltou, e substituiu esta visita por uma carta severa, escrita “em meio a muitas lágrimas” (2Cor 2,3s.9), que produziu efeito salutar (2Cor 7,8-13). Foi na Macedônia, depois de haver partido de Éfeso em consequência de crises muito graves, pouco conhecidas por nós (1Cor 15,32; 2Cor 1,8-10; At 19,23-40), que Paulo soube, por meio de Tito, deste feliz resultado (2Cor 1,12s; 7,5-16); e foi então, entre abril e setembro de 55, que escreveu as duas partes de 2Cor. Depois, haveria de passar por Corinto (At 20,1s; cf. 2Cor 9,5; 12,14; 13,1.10), para de lá regressar a Jerusalém, onde seria preso.

Alguns consideram 2Cor como a compilação de cerca de cinco cartas enviadas por Paulo a Corinto em diferentes ocasiões. Outros se impressionam menos com as transições difíceis que tal hipótese procura explicar, mas concordam que os cc. 10-13 não podem ser a continuação dos cc. 1-9 — seria psicologicamente impossível que Paulo pudesse repentinamente mudar da celebração da reconciliação (cc. 1-9), à severa reprovação e à sarcástica autodefesa (cc. 10-13). Sugeriu-se que os cc. 10-13 poderiam ser identificados com a epístola escrita entre lágrimas por causa do seu tom áspero, mas isso não é recomendado pelo conteúdo. A carta escrita entre lágrimas foi ocasionada pelo comportamento de um indivíduo determinado (2Cor 2,5-8), do qual não se faz sequer alusão nos cc. 10-13, que se referem ao dano feito às comunidades por falsos apóstolos. É mais provável, portanto, que os cc. 10-13 foram ocasionados pela deterioração da situação em Corinto subsequente ao envio dos cc. 1-9.

Se estas epístolas nos trazem, a respeito da alma de Paulo e de suas relações com seus convertidos, luzes de notável interesse, não é menor sua importância doutrinal. Nelas encontramos, sobretudo em 1Cor, informações e decisões concernentes a diversos problemas cruciais do cristianismo primitivo, tanto em sua vida interior — pureza dos costumes (1Cor 5,1-13; 6,12-20), matrimônio e virgindade (7,1-40), ordem das assembleias religiosas e celebração da Eucaristia (11-12), uso dos carismas (12,1-14,40) — como em seu relacionamento com o mundo pagão: apelo aos tribunais (6,1-11), carnes oferecidas.aos ídolos (8-10). Aquilo que poderia ser simples casos de consciência ou normas de liturgia, se torna, graças ao gênio de Paulo, ocasião de mensagens profundas sobre a verdadeira liberdade da vida cristã, a santificação do corpo, O primado da caridade, a união a Cristo. A defesa de seu apostolado (2Cor 10-13) inspira-lhe páginas esplêndidas sobre a grandeza do ministério apostólico (2Cor 2,12-6,10); e o tema concreto da coleta (2Cor 8-9) é iluminado pelo ideal da união entre as igrejas. O horizonte escatológico está sempre presente e fundamenta toda a exposição sobre a ressurreição da carne (1Cor 15). Mas as descrições apocalípticas de 1Ts e 2Ts cedem lugar a uma discussão mais racional, que justifica esta esperança difícil para espíritos gregos. Esta adaptação do Evangelho ao mundo novo em que ele penetra, manifesta-se sobretudo na oposição da loucura da cruz à sabedoria helênica. Aos coríntios que se dividem, opondo entre si seus diversos mestres e seus talentos humanos, Paulo recorda que não há senão um só mestre, Cristo, uma só mensagem, a salvação pela cruz, e que aí está a única e verdadeira Sabedoria (1Cor 1,10-4,13). Assim, por força das circunstâncias e sem contrariar as perspectivas escatológicas, ele é levado a insistir mais na vida cristã presente, como união a Cristo no verdadeiro conhecimento, que é o da fé. E ele vai aprofundar mais ainda esta vida dada pela fé, desta vez com relação ao judaísmo, em consequência da crise gálata.

As epístolas aos Gálatas e aos Romanos devem ser tratadas juntamente, pois tratam do mesmo problema, aquela como primeira reação provocada pela situação concreta, esta como exposição mais calma e mais completa, que põe em ordem as ideias suscitadas pela polêmica. Esse estreito parentesco das duas epístolas é uma das principais razões que desaconselham situar a composição de Gl nos primeiros anos de Paulo, antes mesmo do concílio de Jerusalém, como alguns propuseram, os quais opinam que a segunda visita de Paulo a Jerusalém, narrada em Gl 2,1-10, deve ser a segunda visita, mencionada pelos Atos (11,30; 12,25), não a terceira (At 15,2-30), que difere em diversos pontos da narração de Paulo. Uma vez que este, por outro lado, parece ignorar o Decreto de At 15,20.29 (cf. Gl 2,6), sua carta deve ser anterior ao concílio de Jerusalém, e bastaria para tanto admitir que os “gálatas” fossem os habitantes da Licaônia e da Pisídia evangelizados durante a primeira viagem missionária; a ida e volta de Paulo explicariam a dupla visita que Gl 4,13 parece supor. Mas tudo isso tem pouco fundamento. Se é verdade que a Licaônia e a Pisídia estavam politicamente ligadas à Galácia desde 36-25 a.C., não é menos certo que a linguagem corrente do séc. I da nossa era continuou a reservar esta última denominação à Galácia propriamente dita, que fica mais ao norte, e parece particularmente dificil que seus habitantes possam ter sido chamados de “gálatas” (Gl 3,1). Aliás, esta suposição difícil não é de modo algum necessária. A segunda visita de Gl 2,1-10 identifica-se muito bem com a terceira de At 15 — com a qual apresenta semelhanças multo marcantes — muito melhor do que com a segunda (At 11,30; 12,25), de importância tão pequena que Paulo pôde omiti-la na sua argumentação de Gl, a não ser que também ela não se tenha verificado e resulte simplesmente de uma duplicata literária de são Lucas (cf. Atos, Introdução e At 11,30+). Assim, a epístola aos Gálatas é bem posterior ao concílio de Jerusalém. Se nela Paulo não fala do Decreto, é talvez porque este é de época mais tardia (cf. At 15,1+), circunstância que explicaria também a atitude de Pedro, censurada em Gl 2,11-14. Os destinatários são realmente os habitantes da região “gálata”, percorrida por Paulo na sua segunda e terceira viagens (At 16,6; 18,23). E a carta pode ter sido escrita de Éfeso ou também da Macedônia, entre 54 e 55.

A epístola aos Romanos deve tê-la seguido de perto. Paulo está em Corinto (final de 55, início de 56), prestes a partir para Jerusalém, de onde espera dirigir-se a Roma e de lá à Espanha (Rm 15,22-32; cf. 1Cor 16,3-6; At 19,21; 20,3) Mas não foi ele quem fundou a igreja de Roma e não recebera mais que parcas informações sobre a situação local, talvez por meio de pessoas como Áquila (At 18,2); as raras alusões de sua epístola deixam apenas vislumbrar uma comunidade em que os convertidos do judaísmo e do paganismo correm o perigo de se desentenderem. Assim, para preparar sua chegada, acha útil enviar por sua patrona Febe (Rm 16,1) uma carta em que expõe sua solução do problema judaísmo-cristianismo, tal como acaba de amadurecer devido à crise gálata. Para isso, retoma as ideias de Gl, mas de modo mais ordenado e matizado. Se Gl representa um grito que parte do coração, no qual a apologia pessoal (1,11-2,21) se justapõe à argumentação doutrinal (3,1-4,31) e às advertências veementes (5,1-6,18), Rm oferece explanação continuada, em que algumas grandes seções se concatenam harmoniosamente com o auxílio de temas que primeiro se anunciam e depois são retomados.

A autenticidade da epistola aos Romanos, bem como a das epistolas aos Coríntios e aos Gálatas, não é seriamente posta em dúvida por ninguém. Apenas se tem perguntado se os caps. 15 e 16 não lhe teriam sido acrescentados posteriormente. Este último, sobretudo, com suas tão numerosas saudações, poderia ter sido primitivamente um bilhete destinado à igreja de Éfeso. Mas o cap. 15, não obstante certos manuscritos, não pode ser separado do resto da epístola; e os que nela mantêm também o cap. 16 observam que Paulo não dirige jamais saudações a indivíduos pertencentes às comunidades nas quais trabalhou. Isso teria provocado ciúmes se houvesse tratado diferentemente alguns, num grupo cujos membros lhe eram conhecidos. A lista de nomes do c. 16 indica que ele era dirigido a uma igreja que Paulo não havia fundado — o que exclui Éfeso como destinatária. Quanto à doxologia (16,25-27), as notas peculiares de seu estilo não constituem motivo suficiente para rejeitar sua autenticidade, mas podem sugerir uma data mais tardia.

Enquanto as epístolas aos Coríntios opunham o Cristo Sabedoria de Deus à vã sabedoria do mundo, as epístolas aos Gálatas e aos Romanos opõem o Cristo Justiça de Deus a justiça que os homens pretenderiam merecer por seus próprios esforços. Lá o perigo provinha do espírito grego com sua confiança orgulhosa na razão; aqui ele vem do espírito judaico, com sua orgulhosa confiança na Lei. Certos judaizantes vieram dizer aos fiéis da Galácia que não podiam se salvar, a não ser que praticassem a circuncisão, pondo-se assim sob o jugo da Lei (Gl 5,2s). Paulo se opõe com toda a força a esta volta atrás, que tornaria vã a obra de Cristo (Gl 5,4). Sem negar o valor da economia antiga, assinala seus justos limites de etapa provisória no conjunto do plano de salvação (Gl 3,23-25). A Lei de Moisés, em si boa e santa (Rm 7,12), fez o homem conhecer a vontade de Deus, mas sem lhe dar a força interior de cumpri-la; assim, o que ela conseguiu foi apenas fazê-lo tomar consciência de seu pecado e da necessidade que tem do socorro de Deus (Gl 3,19-22; Rm 3,20; 7,7-13). Ora, este socorro inteiramente gratuito, prometido outrora a Abraão antes do dom da Lei (Gl 3,16-18; Rm 4), acaba de ser concedido em Jesus Cristo: sua morte e ressurreição operaram a destruição da humanidade antiga, viciada pelo pecado de Adão, e a recriação de uma humanidade nova, da qual ele é o protótipo (Rm 5,12-21). Ligado a Cristo pela fé e animado de seu Espírito o homem recebe doravante gratuitamente a verdadeira justiça e pode viver segundo a vontade divina (Rm 8,1-4). Certamente sua fé deve desabrochar em boas obras; mas estas obras, realizadas pela força do Espírito (Gl 5,22-25; Rm 8,5-13) não são mais aquelas obras da Lei nas quais o judeu orgulhosamente depositava sua confiança. Elas são acessíveis a todo os que creem, também aos que vieram do paganismo (Gl 3,6-9.14; Rm 4,11). A economia mosaica, que teve seu valor de etapa preparatória é, pois, doravante obsoleta. Os judeus que pretendem permanecer nela colocam-se fora da verdadeira salvação. Deus permitiu a cegueira deles para assegurar o acesso dos gentios. Contudo, eles não poderiam perder para sempre a sua primeira eleição pois Deus é fiel: alguns dentre eles, o “pequeno resto” anunciado pelos profetas, abraçaram a fé; os outros se converterão um dia (Rm 9-11). Desde agora os fiéis de Cristo, quer de origem judaica quer pagã, devem formar um só todo na caridade e no apoio mútuo (Rm 12,1-15,13). São essas as grandes perspectivas que, esboçadas em Gl são ampliadas em Rm e nos fornecem admiráveis explanações sobre o passado pecador de toda a humanidade (Rm, 1,18-3,20 e a luta interior em cada homem (Rm 7,14-25), a gratuidade da salvação (Rm 3,24 e passim), a eficácia da morte e da ressurreição de Cristo (Rm 4,24s; 5,6-11), participadas mediante a fé e o batismo (Gl 3,26s; Rm 6,3-11), o chamado de todos os homens para se tornarem filhos de Deus (Gl 4,1-7; Rm 8,14-17) e o amor imensamente sábio do Deus justo e fiel, que dirige todo o desígnio de salvação em suas diferentes etapas (Rm 3,21-26; 8,31-39). As perspectivas escatológicas permanecem: estamos salvos em esperança (Rm 5,1-11; 8,24); mas, como nas epístolas aos Coríntios, frisa-se a realidade da salvação já começado: já possuímos a título de primícias o Espírito prometido (Rm 8,23); desde agora o cristão vive em Cristo (Rm 6,11) e Cristo vive nele (Gl 2,20).

Assim a epístola aos Romanos representa urna das mais belas sínteses da doutrina paulina. Todavia, não é síntese completa, nem é a doutrina toda. O interesse primordial que lhe valeu a controvérsia luterana seria prejudicial, se nos levasse a deixar de completá-la com as outras epistolas, integrando-a numa síntese mais vasta.

Filipos, importante cidade da Macedônia e colônia romana, tinha sido evangelizada por Paulo durante sua segunda viagem, entre setembro de 48 e junho de 49 (At 16,12-40). Ele tornou a passar por lá duas vezes, quando da sua terceira viagem, pelo fim de 54/início de 55 (At 20,1-2) e na Páscoa de 56 (At 20,3-6). Os fiéis que ele conquistou lá para Cristo testemunharam uma tocante afeição por seu Apóstolo, enviando-lhe socorros a Tessalônica (FI 4,16) e depois a Corinto (2Cor 11,9). E quando Paulo lhes escreve, é precisamente para agradecer-lhes novos recursos que ele acaba de receber por intermédio do delegado deles, Epafrodito (FI 4,10-20); aceitando sua oferta, ele, que ordinariamente receava parecer interesseiro (At 18,3+), dá provas de que confiava neles de modo todo especial.

Paulo está preso no momento em que lhes escreve (FI 1,7.12-17), e por multo tempo se pensou que se tratasse de seu rimeiro cativeiro romano, Contudo, os contatos frequentes e aparentemente multo fáceis que os filipenses têm com ele e com Epafrodito, que na época se achava em sua companhia (2,25-30), surpreendem se ele se encontra na longínqua Roma. Sobretudo não se compreende bem, se Paulo está em Roma (ou, rigorosamente falando, em Cesareia da Palestina, outro lugar de um cativeiro que nos é conhecido), que a remessa de dinheiro feita por eles por meio de Epafrodito seja a primeira ocasião que eles encontraram de ajudar o Apóstolo desde as contribuições que ofertaram na segunda viagem (4,10.16), pois ele passou duas vezes pela terra deles durante a terceira viagem. Tudo se explica melhor se Paulo escreve antes destas duas novas visitas, isto é, em Éfeso, entre 52 e 54. As alusões ao “Pretório” (Fl 1,13) e à “casa de César” (4,22) não levantam dificuldade, pois havia destacamentos de pretorianos nas grandes cidades, em particular em Éfeso, tanto corno em Roma. O fato de ignorarmos um cativeiro de Paulo em Éfeso não e tampouco um obstáculo intransponível, pois Lucas nos disse bem poucas coisas sobre aquela estada de quase três anos, e Paulo dá a entender que encontrou Ia dificuldades bem graves (1Cor 15,32; 2Cor 1,8-10).

Se se admite essa hipótese, é preciso dissociar Fl de Cl, Ef, Fm e aproximá-la das “grandes epístolas”, em particular de 1Cor. Longe de se lhe opor, o estilo e a doutrina da epístola favorecem até esta aproximação, Este escrito é, porém, pouco doutrinal. É antes efusão do coração, uma troca de notícias, urna advertência contra os “maus operários” que destroem alhures os trabalhos do Apóstolo e bem poderiam atacar também os seus caros filipenses, enfim e sobretudo apelo à unidade na humildade, que nos oferece a admirável passagem sobre os sofrimentos de Cristo (2,6-11): quer seja da autoria do próprio Paulo, quer seja apenas citação feita por ele, de qualquer forma este hino ritmado apresenta um testemunho de primeira grandeza sobre a fé primitiva.

A autenticidade de Fl não é posta em dúvida, mas sua integridade foi seriamente questionada. Diversos pesquisadores argumentariam que é de fato urna coleção de três cartas. Talvez a divisão mais satisfatória seja: Carta A = 4,10-20; Carta B = 1,1-3,1 + 4,2-9.21-23; Carta C = 3,2-4,1. A carta A precede às outras duas, e foi enviada por ocasião da recepção do dom trazido por Epafrodito. A carta C é provavelmente a mais tardia. É uma fogosa polêmica contra missionários judeu-cristãos, e nenhum traço seu aparece na carta B, que é sereno apelo à unidade e à perseverança, e também ao testemunho resoluto da verdade.

As epístolas aos Efésios e aos Colossenses formam um grupo bem homogêneo: mesma missão de Tíquico em Cl 4,7s e Ef 6,21s; notáveis semelhanças de estilo e de doutrina entre Cl e Ef. Paulo está ainda na prisão (Fm 1.9s.13.23; Cl 4,3.10.18; Ef 3,1; 4,1; 6,20), e desta vez tudo sugere Roma corno lugar de seu cativeiro (de 61 a 63), de preferência a Cesareia, onde seria difícil explicar. a presença de Marcos ou de Onésimo, e a Éfeso, onde Lucas parece não ter estado ao lado de Paulo. Além disso, a mudança de estilo e o progresso da doutrina requerem certa distância entre Cl, Ef e as
“grandes epístolas”, Cor, Gl, Rm. Neste intervalo sobreveio uma crise, de Colossas, que não fora evangelizada por Paulo (1,4; 2,1); seu representante apostólico Epafras (1,7) veio trazer-lhe informações alarmantes. Logo que foi alertado, Paulo responde por meio da epístola aos Colossenses, que confia a Tíquico. Mas a reação suscitada em seu espírito pelo novo perigo levou-o a aprofundar seu pensamento e, como Rm lhe havia servido para pôr em ordem as ideias lançadas em Gl, escreve outra epístola, praticamente contemporânea de Cl, em que organiza sua doutrina em função do novo ponto de vista que a polêmica acaba de lhe impor. Esta admirável síntese é a nossa epístola “aos Efésios”. Tal denominação, que nem sequer é garantida textualmente (cf. Ef 1,1), pode criar confusão. Na realidade, Paulo não se dirige aos fiéis de Éfeso, com os quais permaneceu três anos (Ef 1,15; 3,2-4), mas antes aos crentes em geral e mais particularmente às comunidades do vale do Lico, entre os quais faz circular sua carta (Cl 4,16).

A interpretação delineada respeita a tradição que atribui Cl e Ef a Paulo; ela goza de considerável probabilidade. Mas desde a metade do século XIX críticos contestaram a autenticidade destas duas cartas. O estilo pesado e repetitivo, dizem, não é o de Paulo; as ideias teológicas, principalmente as que se referem ao Corpo de Cristo, Cristo cabeça do Corpo, a Igreja universal, são diferentes das cartas anteriores, os erros combatidos são posteriores a Paulo e pertencem mais às ideias gnósticas do século Il. Tais objeções merecem séria consideração. Elas são formuladas por numerosos estudiosos, até católicos. Todavia, elas não são incontestáveis. De fato, no tocante a Cl, a inclinação é agora em favor da autenticidade, e com boa justificação. Pois aí não se encontram as ideias fundamentais de Paulo, mas as novas ideias são satisfatoriamente explicadas pelas circunstâncias mencionadas acima. O mesmo pode ser verdade de Ef, embora a dúvida aí permaneça. Entre os argumentos a favor de Paulo, temos: 1) Ef não é o trabalho de um pensador derivado, mas de alguém com gênio para trabalho criador. 2) O estilo lento, rico e até pesado de Cl e Ef, que contrasta tanto com o estilo rápido e com os solavancos das discussões das cartas anteriores, pode provavelmente ser explicado por estes novos e mais largos horizontes que Paulo estava abrindo. 3) O estilo das cartas anteriores não é inteiramente consistente, e dois exemplos desse estilo tardio contemplativo e semilitúrgico podem-se encontrar já em Rm 3,23-26; 2Cor 9,8-14. A única dificuldade real provém das muitas passagens em que Ef parece tomar frases de Cl de maneira servil e até mesmo desajeitada; mas isso pode ser porque Paulo não tinha o hábito de compor cada palavra de suas cartas e nessa ocasião pode ter permitido a um discípulo tomar uma parte maior do que a usual. Mas deve-se admitir que os fenômenos notados neste segundo e terceiro pontos poderiam ser explicados mais facilmente com a hipótese de autor diferente de Paulo, se tal se pudesse encontrar, que fosse ao mesmo tempo pensador criativo de gênio semelhante ao de Paulo, e ainda assim se contentasse de tornar servilmente frases inteiras de outras cartas paulinas. A dificuldade de postular tal autor híbrido de Efésios é um dos principais fatores que levaram diversos estudiosos a supor que Colossenses também, da qual a grande maioria das frases são tomadas, emprestadas, não é paulina.

Portanto, tendo conhecimento de que a genuína autoria paulina destas duas cartas é a mais forte mas não a única hipótese possível, podemos tentar reconstruir a gênese do pensamento de Paulo em Cl e Ef.

Os erros em Colossas que Paulo combate ainda não são os dos gnósticos do século II, mas antes ideias comuns entre os essênios judeus. O perigo em Colossas era o resultado de especulações judaicas (Cl 2,16) basicamente sobre os poderes celestes ou cósmicos. Pensava-se que estes controlavam o movimento do cosmo, e os colossenses tendiam a exagerar sua importância de tal modo a comprometer a supremacia de Cristo. O autor desta carta aceita os postulados da luta e não põe em dúvida a atividade desses poderes; até chega a assimilá-los aos anjos da tradição judaica (cf. 2,15). Mas é precisamente para recolocá-los no seu devido lugar no grande desígnio da salvação. Eles cumpriram sua missão de intermediários e administradores da Lei. Atualmente está terminada essa função. Instaurando a nova ordem, o Cristo Kyrios assumiu o governo do mundo. Sua exaltação celeste colocou-o acima dos poderes cósmicos, que ele despojou de suas antigas atribuições (2,15). Ele, que já os dominava em razão da primeira criação, na sua qualidade de Filho Imagem do Pai, agora domina-os definitivamente como seu chefe na nova criação, na qual assumiu em si todo o pleroma, isto é, toda a plenitude do Ser, de Deus e do mundo em Deus (1,13-20). Libertados desses “elementos do mundo” (2,8.20) por sua união ao Cristo-Cabeça e pela participação na sua plenitude (2,10), os cristãos não devem recolocar-se sob a tirania deles por meio de observâncias obsoletas e ineficazes (2,16-23). Unidos pelo batismo ao Cristo morto e ressuscitado (2,11-13), eles são os membros de seu Corpo e não recebem a vida nova senão dele como de sua Cabeça vivificante (2,19). Certamente é ainda esta salvação cristã o interesse primordial do autor, mas as necessidades da polêmica levaram-no a precisar a extensão cósmica da obra de Cristo, integrando nela, ao lado da humanidade salva, este vasto universo que é o seu cenário e que também se encontra situado, de maneira indireta, sob o domínio do único Senhor. Daí esta ampliação do tema do “Corpo de Cristo”, já esboçado antes (1Cor 12,12+), com insistência nova no Cristo como Cabeça; daí esta dilatação cósmica da obra da salvação; daí este horizonte mais aberto em que Cristo é considerado mais no seu triunfo celestial, enquanto a Igreja em sua unidade coletiva constrói-se em direção a ele; daí, enfim, esta insistência mais forte na escatologia já realizada (cf. Ef 2,6+).

Essas perspectivas são retomadas na epístola aos Efésios. Mas o esforço polêmico para recolocar os poderes em seu lugar já produziu frutos (Ef 1,20-22) e o olhar se dirige mais para a Igreja, Corpo de Cristo ampliado segundo as dimensões do novo universo, “plenitude daquele que plenifica tudo em todos ” (1,23). Nesta contemplação suprema, que é como que o ápice de sua obra, o autor retoma diversos temas antigos para ordená-los f!a síntese mais vasta à qual chegou. Repensa sobretudo os problemas da epístola aos Romanos, outro ápice que coroava a etapa anterior de seu pensamento. Da epístola aos Romanos evoca com algumas palavras não apenas as explanações sobre o passado pecador da humanidade e sobre a gratuidade da salvação por Cristo (2,1-10), mas ainda reconsidera o problema dos judeus e dos gentios, que outrora angustiava Paulo (Rm 9-11). E desta vez, é sob a luz tranquila da escatologia realizada no Cristo celeste: doravante os dois povos lhe aparecem unidos, reconciliados numa humanidade nova e caminhando juntos para o Pai (Ef 2,11-22). Este acesso dos gentios à salvação de Israel em Cristo é o grande “mistério” (1,9; 3,3-6.9; 6,19; Cl 1,27; 2,2; 4,3), cuja contemplação lhe inspira expressões inigualáveis: sobre a infinita sabedoria que aí vê manifestada (3,9s; Cl 2,3), sobre a caridade insondável de Cristo que aí se revela (Ef 3,18s), sobre a eleição inteiramente gratuita que escolheu Paulo para ser seu ministro (3,2-8), Este desígnio de salvação realizou-se por etapas, segundo os propósitos eternos de Deus (1,3-14), e seu termo sao as núpcias de Cristo com a humanidade salva, que é a Igreja (5,22-32).

A autenticidade de Filêmon não é questionada. Ela é habitualmente agrupada com Cl e Ef, ambos porque Paulo é prisioneiro (1.9s.13.23; Cl 4,3.10; Ef 3,1; 4,1; 6,20) e porque os nomes de seus companheiros (Fm 12.23-24) aparecem em Cl 4,10-14. Consequentemente é datada dos anos 61-63. Apesquisa recente, contudo, recusa dar a estas indicações valor decisivo, e considera a prisão de Paulo em Éfeso (durante os anos 52 -54) uma situação mais apropriada, particularmente por causa da proximidade entre Éfeso, e Colossas, que é presumível como residência de Filêmon (Fm 22; cf. Cl 4,9).

Esta breve carta anuncia, a um cristão de Colossas, convertido por Paulo (v. 19), a volta do seu escravo fugitivo, Onésimo, também conquistado para Cristo pelo Apóstolo (v. 10). Esse bilhete autógrafo (v. 19)fornece dados preciosos sobre o coração delicado de Paulo; e interessante também por nos confirmar a sua solução do problema da escravidão (Rm 6,15+): também se eles conservam suas relações sociais de antigamente, o senhor e o escravo cristãos devem viver doravante como dois irmãos ao serviço do mesmo Senhor (v. 16, cf. Cl 3,22-4,1).

As cartas a Timóteo e a Tito são dirigidas a dois dos mais fiéis discípulos de Paulo (At 16,14; 2Cor 2,13). Elas dão diretivas ‘para a organização e conduta das comunidades confiadas a eles. É por isso que se tornou costumeiro, desde o século XVIII, chamá-las “pastorais”. Essas cartas divergem de maneira significativa de outras cartas paulinas. Há considerável diferença de vocabulário, Muitas das palavras comuns em outras epístolas desapareceram, e há também uma proporção muito maior de palavras não usadas em outro lugar por Paulo. O estilo não é mais apaixonado e entusiasta, mas mitigado e burocrático. O modo de resolver problemas mudou. Paulo simplesmente condena os falsos ensinamentos em lugar de argumentar persuasivamente contra eles. Finalmente, é difícil situar cartas na vida de Paulo, assim como é conhecida dos Atos dos Apóstolos. É compreensível, portanto, que a autenticidade das pastorais seja disputada.

Muitos explicam as diferenças postulando um Paulo mais velho, que deve ter dado muito mais espaço a um secretário (possivelmente Lucas, 2Tm 4,11) e levando em conta que nada conhecemos da vida de Paulo subsequente à sua libertação da prisão em Roma. Igual número de estudiosos rejeitam tais argumentos como subjetivos demais, e sustentam que as pastorais foram compostas por um discípulo de Paulo no fim do século I para tratar de uma igreja muito diferente. Embora não impossível em si mesma, esta hipótese não é sustentada por qualquer evidência de que cartas pseudoepigráficas fossem comuns e aceitáveis, 2Ts 2,2 e Ap 22,18 mostram que os primeiros cristãos viam a necessidade de distinguir entre escritos autênticos e forjados. Posição intermediária entre esses dois extremos é defendida por uma minoria de críticos que acreditam que um leal seguidor de Paulo herdou três cartas que Timóteo e Tito conservaram até sua morte. Ele então expandiu essas cartas, acrescentando o que pensava que seria dito por Paulo diante das circunstâncias mudadas da igreja. As pastorais então não seriam do Apóstolo, mas conteriam fragmentos paulinos autênticos (p.e., 2Tm 1,15-18; 4,9-15; Tt 3,12-14). A falta de concordância sobre a extensão e número de fragmentos é uma séria fraqueza dessa hipótese, que também falha em prover qualquer evidência contemporânea de tal prática editorial.

A natureza insatisfatória de todas as hipóteses correntes sugere que poderia ter sido um engano tratar as pastorais como um bloco unificado. Nessa aproximação, observações e afirmações são confusas. O que é visto como verdadeiro para uma carta e afirmado como válido para as outras duas. O exame minucioso, porém, revela que 1Tm e Tt são mais próximas uma da outra do que ambas em relação a 2Tm. Se a última é considerada separadamente, não há objeções convincentes contra a autoria paulina. Dirigidas a um indivíduo, sua divergência em relação a epístolas dirigidas a igrejas tem seu paralelo nas diferenças entre as cartas de Inácio à igreja de Esmirna e ao seu bispo, Policarpo. Uma vez que se reconheça que 2Tm 4,6 não é referência à morte próxima, 2Tm se coloca naturalmente dentro do último periodo da prisão de Paulo em Roma (At 28,16s), quando aguardava sua liberdade.

Se 2Tm é aceita como autêntica, o isolamento de 1Tm e Tt no corpus paulino torna-se cada vez mais marcante. Em particular elas desenvolvem uma visão do ministério que contrasta vivamente com o ethos missionário dinâmico de Paulo (1Ts 1,6-8; Fl 2,14-16. Predomina um conceito burguês de respeitabilidade e aceitação, 1Tm 2,1-2; 6,2; Tt 3,1-2), e as qualidades dos ministros são as requeridas de todos os burocratas (1Tm 3,1-13; Tt 1,5-9). Deste modo houve uma evolução definida nas igrejas paulinas. Uma igreja entusiástica radiante com o Espírito tornou-se um cômodo lar. Todavia, embora a liderança carismática tenha dado caminho à direção institucional, não há evidência do tipo do episcopado monárquico atestado por Inácio de Antioquia. A autoridade na Igreja é colegial, e os “bispos” (1Tm 3,2-5), têm as mesmas funções que os anciãos (1Tm 5,17). Cada “ancião” precisa ter as qualidades de “bispo” (Tt 1,6-9). Assim, 1Tm e Tt não deveriam ser datadas muito tardiamente no primeiro século.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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