Introdução aos Atos dos Apóstolos

O terceiro evangelho e o livro dos Atos eram primitivamente as duas partes de uma só obra, à qual daríamos hoje o nome de “História das origens cristãs”. Logo o segundo livro ficou conhecido com o título de “Atos dos apóstolos” ou “Atos de apóstolos”, conforme o modo da literatura helenística que conhecia os “Atos” de Aníbal, os “Atos” de Alexandre etc.; no cânon do NT é separado do evangelho de Lucas pelo de João, que é interposto. A relação original desses dois livros do NT é indicada por seus Prólogos e por seu parentesco literário. O Prólogo dos Atos, que se dirige como o do terceiro evangelho (Lc 1,1-4) a certo Teófilo (At 1,1) remete a esse evangelho como a um “primeiro livro”, de que ele resume o objeto e retoma os últimos acontecimentos (aparições do Ressuscitado e Ascensão) para encadeá-los à sequência do relato. A língua é outro laço que liga estreitamente os dois livros um ao outro. Não somente suas características (de vocabulário, de gramática e de estilo) se reencontram ao longo dos Atos, estabelecendo a unidade literária dessa obra, mas ainda elas se reconhecem no terceiro evangelho, o que não permite mais duvidar que um mesmo autor escreve, aqui e lá.

Esse autor, segundo a tradição da Igreja, é reconhecido como são Lucas. Nem na antiguidade nem em nossos dias pensou-se seriamente em outro nome. Já pelo ano 175 o conjunto das Igrejas julga assim, como o mostra o acordo do documento romano que se chama Cânon de Muratori, do Prólogo “antimarcionita”, de santo Ireneu, dos Alexandrinos e de Tertuliano. De fato, esse julgamento é confirmado pelas semelhanças internas. Segundo seus escritos, o autor deve ser cristão da geração apostólica, judeu bem helenizado, ou melhor, grego de boa educação, conhecendo a fundo as realidades judaicas e a Bíblia grega. Ora, o que sabemos de Lucas a partir das epístolas paulinas, concorda bem com esses dados. Ele é apresentado pelo Apóstolo como companheiro querido que está a seu lado durante seu cativeiro (Cl 4,14; Fm 24; 2Tm 4,11). Segundo Cl 4,10-14, Lucas é de origem pagã (de Antioquia na Síria, segundo uma antiga tradição), e médico, o que implicaria certa cultura, mesmo se está longe de ser evidente que Lucas emprega em seus escritos vocabulário especificamente médico.

Para fixar a data em que escreve, não encontramos nada de firme na tradição antiga. O livro termina tom o cativeiro romano de Paulo, provavelmente 61-63, e em todo caso sua composição deve ser posterior à do terceiro evangelho (antes de 70? ou por 80? mas nada impõe uma data posterior a 70). Antioquia e Roma são propostas como lugar de composição.

Quais são as fontes utilizadas por Lucas para compor seu relato? O autor dos Atos declara que se informou cuidadosamente de tudo desde as origens ao lado daqueles que tinham já empreendido compor um relato dos acontecimentos que se realizaram entre nós (Lc 1,1-4, que forma o prólogo geral de sua obra). Tais expressões fazem supor, de uma parte, que procurou informações precisas, de outra, que retomou relatos já existentes. O exame do livro confirma essa expectativa. A despeito de uma atividade literária sempre vigilante, que imprimiu em todo texto sua marca e assegura a unidade do livro, percebem-se facilmente algumas correntes principais nas tradições recolhidas por Lucas. Os doze primeiros capítulos do livro dos Atos contam a vida da primeira comunidade reunida ao redor de Pedro depois da Ascensão (1-5), e os inícios de sua expansão graças às iniciativas missionárias de Filipe (8,4-40), e dos “helenistas” (6,1-8,3; 11,19-30; 13,1-3), e enfim do próprio Pedro (9,32-11,1-8; 12). As tradições petrinas subjacentes seriam aparentadas ao “evangelho de Pedro”, que é conhecido na literatura da Igreja antiga. Para a segunda parte dos Atos, o autor teria usado os relatos da conversão de Paulo, de suas viagens missionárias, e de sua viagem por mar para Roma como prisioneiro. Em todo caso, Lucas parece ter tido acesso às epístolas paulinas e podia se informar junto a Paulo, que ele conhecia ao menos no período de seu cativeiro. Outras pessoas (Silas ou Timóteo?) teriam podido fornecer-lhe informações circunstanciadas sobre tal ou tal episódio. Em três lugares do seu relato (16,10-17; 20,5-21,18; 27,1-28,16; também já 11,28 no texto ocidental), Lucas emprega a primeira pessoa do plural. Seguindo santo lreneu, alguns exegetas viram nas passagens dos Atos que são redigidas em estilo “nós” a prova de que Lucas acompanhou Paulo em suas segunda e terceira viagens missionárias e em sua viagem por mar a Roma. Entretanto, é notável que Lucas nunca é mencionado por Paulo como companheiro de sua obra de evangelização, Este “nós” parece mais o traço de um diário de viagem feito por um companheiro de Paulo (Silas?) e utilizado pelo autor de Atos. A viagem descrita pelo Diário pode estar associada à coleta feita pelas Igrejas da Macedônia e da Acaia para a Igreja de Jerusalém (ver At 24,17; 1Cor 16,1-4; 2Cor 8-9; Rm 15,25-29). Lucas habilmente organizou num todo essa rica matéria que reunira, seriando quando muito os diversos elementos e ligando-os entre si com o auxílio de refrães redacionais, p. e. 6,7; 9,31; 12,24 etc.

O valor histórico dos Atos dos Apóstolos não é igual. De uma parte, as fontes de que Lucas dispunha não eram homogêneas; de outra, para manejar suas fontes, Lucas gozava de liberdade muito grande segundo o espírito da historiografia antiga, subordinando seus dados históricos a seu desígnio literário e sobretudo a seus interesses teológicos. Os relatos das viagens de são Paulo refletem com mais ou menos exatidão e amplitude o mundo do Mediterrâneo oriental no Primeiro século: administração romana, cidades gregas, cultos, rotas, geografia política e topografia local. Em contraste, na primeira parte do livro os relatos são em geral muito menos circunstanciados. Lucas faz certo paralelismo entre os milagres de Pedro e os de Paulo: comparar 3,1-10 e 15,8-10; 5,15 e 19,12; 5,19 ou 12,6-11.17 e 16,23-26.40; 8,15-17 e 19,2-7; 8,18-24 e 13,6-11; 9,36-42 e 20,7-12. Além disso, alguns desses relatos miraculosos têm seus paralelos nos evangelhos: comparar At 3,6-7 e Lc 4,39; Mc 1,31; comparar At 9,33-34 e Lc 5,24b-25; At 20,10.12 e Lc 8,52-55; é também evidente que as últimas palavras de Estêvão (At 7,59-60), lembram as de Jesus, (Lc 23,34.46). O discurso de Paulo em Antioquia da Pisídia (13,16-41), não é sem analogias com os de Pedro em Jerusalém (2,14-36; 3,12-26; 4,8-12; 5,29-32), de Estêvão (7,1-53), e ainda de Pedro em Cesareia (10,34-43). Portanto, é razoável supor que Lucas não recebeu esses discursos tais como são, mas que os compôs utilizando alguns temas essenciais da pregação primitiva apoiados com argumentos que se tornaram tradicionais e foram vertidos em fórmulas memorizadas: florilégios de textos escriturísticos para os judeus, reflexões de filosofia comum para os gregos, e para todos o anúncio essencial (kerygma) de Cristo morto e ressuscitado, com convite à conversão e ao batismo. Lucas terá conhecido, de início por tradição e depois por experiência, esses esquemas da primeira propaganda cristã, e é isso que lhe permitiu, com seu fino senso psicológico, colocar nesses discursos um ensinamento de valor autêntico e de importância capital. Frequentemente foram assinaladas discordâncias entre o livro dos Atos e as epístolas paulinas, que Lucas parece ter utilizado, mas sem minúcia. É notório que Lucas não se preocupou em harmonizar as cinco visitas de são Paulo a Jerusalém nos Atos com os dados de Gl 1,15-2,10. Em outro plano, constata-se certo contraste entre o retrato de Paulo apresentado em Atos e o autorretrato que Paulo faz em sua correspondência. Paulo em Atenas se mostra claramente menos severo para com as religiões pagãs do que em sua epístola aos Romanos: comparar At 17,22-31 com Rm 1,18-32 (mas ver Sb 13,1-10, onde o autor desculpa aqueles que se enganam procurando Deus, ao mesmo tempo que condena a idolatria). Em geral Lucas atribui ao Apóstolo atitude mais conciliadora que a das epístolas: comparar At 21,20-26 com GI 2,12s; At 16,3 com GI 2,3; 5,1-12; mas os dois autores se inspiram em interesses ‘muito diferentes. Paulo é pleiteante que sabe ser intransigente (mas ver também 1Cor 9,19-23), enquanto Lucas quer demonstrar a unidade profunda que ligava os primeiros discípulos entre si.

De fato, a objetividade do livro dos Atos foi atacada por outro lado, que põe a questão de sua finalidade. A escola de F. Ch. Baur quis ver nele um escrito de compromisso redigido no século II para conciliar as tendências adversas do petrinismo e do paulinismo. Este sistema tem o mérito de relevar a existência certa de oposições na Igreja primitiva; mas supõe uma data por demais tardia, e sob sua forma radical não tem hoje mais seguidores. Por outro lado, acontece ainda frequentemente que se denuncia nessa obra um advogado, com tudo o que isso pode comportar de deformação dos fatos. Lucas aí faria a apologia de Paulo destinada a convencer as autoridades romanas de que ele não era culpado de nenhum delito político. É incontestável que Lucas destaca o caráter puramente religioso do conflito que opõe os judeus a Paulo e a indiferença das autoridades romanas diante desse conflito. Mas isso parece corresponder à verdade histórica, e em todo caso é somente um aspecto do livro dos Atos. Este é uma coisa bem diferente de uma aprovação a ser apresentada ao tribunal de Roma. Visa tão-somente a contar, por si mesma, a história das origens cristãs.

Para se convencer disso, basta examinar seu plano. Aí sê vê realizada a palavra inicial de Cristo: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e a Samaria, e até os confins da terra” (At 1,8). A fé se implanta de início solidamente em Jerusalém, onde a primeira comunidade cresce em graça e em número (1-5). Logo começa a expansão, preparada pela tendência universalista dos convertidos do judaísmo helenístico e por sua expulsão depois do martírio de Estêvão (6,1-8,3): a Samaria é alcançada (8,4-25), assim como, a planície costeira até Cesareia, onde pela primeira vez pagãos entram na Igreja (8,26-40; 9,32-11,18), apesar de a conversão de Paulo nos mostrar que já há cristãos em Damasco e pressagia a evangelização da Cilicia (9,1-30). Refrães como 9,31 (que acrescenta a Galileia) salientam bem a difusão da fé. Em seguida é Antioquia que recebe a mensagem de Jesus (11,19-26), e que se tornará um centro de irradiação, não sem guardar com Jerusalém relações em que se concorda sobre os principais problemas missionários (11,27-30; 15,1-35). De fato, trata-se agora, para o Evangelho, de passar aos pagãos. Depois da conversão de Cornélio e o encarceramento em Jerusalém, Pedro parte para destinação desconhecida (12,17); e é Paulo que doravante, no relato de Lucas, ficará em evidência. Depois da primeira viagem com Barnabé em Chipre e na Ásia Menor antes do concílio de Jerusalém (13-14), duas outras, viagens o levarão até a Macedônia e a Grécia (15,36-18,22), e a Éfeso (18,23-21,77). Sempre volta a Jerusalém, e sua prisão nessa cidade, depois seu cativeiro em Cesareia (21,18-26,32), lhe permitirão fazer-se conduzir, prisioneiro mas sempre missionário, até Roma onde, mesmo preso, anuncia Cristo (27-28), Vista de Jerusalém esta capital do império representa bem “os confins da terra”, e Lucas pode encerrar aí o seu livro.

Lamentaremos talvez que nada tenha sido dito sobre as atividades dos outros apóstolos, nem da fundação de certas Igrejas como a de Alexandria, ou até a de Roma, em que a fé cristã foi certamente implantada antes da chegada do Apóstolo (ver a epístola aos Romanos, sobretudo 15,22s). Também do apostolado de Pedro fora da Palestina ele nada diz, e é certo que a pessoa de Paulo ocupa em sua obra lugar preponderante, até encher sozinha toda a sua segunda metade. Mais que uma história materialmente completa, é exposição da força de expansão espiritual do cristianismo que ele quis dar; e o ensinamento teológico que soube tirar dos fatos de que dispunha possui valor universal e insubstituível, o que faz todo o valor de sua obra.

Tal contribuição doutrinal é múltipla e só é possível evocar os motivos principais. A fé em Cristo, base do kerygma apostólico, aí é exposta. Conhecemos, pelos discursos, os principais textos escriturísticos que serviram, sob a guia do Espírito, à formulação da cristologia e à argumentação junto aos judeus: notam-se particularmente os temas do Servidor (3,13.26; 4,27.30; 8,32-33), e de Jesus novo Moisés (3,22s; 7,20s), e novo Elias (1,9-11; 3,20-21). A ressurreição é provada pelo Sl 16,8-11 (At 2,24-32; 13,34-37). A história do povo eleito deve fazer com que os judeus estejam de sobreaviso contra a resistência à graça (7,2-53; 13,16-41). Para os pagãos, invocam-se os argumentos de uma teodiceia mais geral (14,15-17; 17,22-31). Mas os apóstolos são sobretudo “testemunhas” (1,8+), e Lucas nos resume seu “kerygma” (2,22+), assim como nos conta seus “sinais” taumatúrgicos. O problema crucial da Igreja nascente devia ser o acesso dos pagãos à salvação, e o livro dos Atos nos fornece luzes a respeito deste ponto, ainda que não nos revele toda a extensão das dificuldades e das controvérsias ocasionadas por essa questão na Igreja e mesmo entre seus dirigentes (ver Gl 2,11+): os irmãos de Jerusalém, agrupados ao redor de Tiago, permanecem fiéis à Lei judaica (15,1.5; 21,20s); mas os “helenistas”, dos quais Estêvão é o porta-voz, sentem a necessidade de romper com o culto do Templo; e Pedro, depois sobretudo Paulo, fazem triunfar no concílio de Jerusalém o princípio da salvação pela fé em Cristo, que dispensa os pagãos da circuncisão e das observâncias mosaicas, Não é menos verdadeiro que Lucas nos mostre Paulo começando sempre por se dirigir aos judeus, para se voltar a seguir aos pagãos quando é rejeitado por seus irmãos de raça (13,5+). Sobre a vida das comunidades cristãs ele nos esboça um quadro que é sem dúvida idealizado, até mesmo utópico, mas que é inspirado nas lembranças dos primeiros anos, assim como nas realidades eclesiais de uma época mais tardia: vida de oração e partilha dos bens na jovem Igreja de Jerusalém; administração do batismo da água e do batismo do Espírito (1,5+); celebração da Eucaristia (2,42+); esboços de organização eclesiástica nos “profetas” e “doutores” (13,1+), ou ainda nos “presbíteros” que presidem a Igreja de Jerusalém (11,30+), e que Paulo estabelece nas Igrejas que ele funda (14,23). Tudo banhado, dirigido, arrebatado por um sopro invencível do Espírito Santo. Esse Espírito, sobre o qual Lucas já insistira em seu evangelho (Lc 4,1+), ele o mostra sem cessar em ação, na expansão da Igreja (At 1,8+), a ponto de se poder chamar os Atos de “o evangelho do Espírito Santo”. E o que dá a essa obra esse perfume de alegria espiritual, de maravilhoso sobrenatural de que não se espantarão a não ser aqueles que não compreendem esse fenômeno único no mundo que foi o nascimento do cristianismo. Se acrescentamos a todas essas riquezas teológicas a preciosa contribuição de tantos pormenores concretos que de outra forma nos ficariam desconhecidos, se soubermos apreciar os retratos de uma fina psicologia em que Lucas sobressai — trechos picantes e hábeis como o discurso diante de Agripa (26), páginas emocionantes como o adeus aos anciãos de Éfeso (20,17-38), relatos vivos e realistas como o motim dos ourives (19,23-41) — conviremos que este livro é único em seu gênero no NT. Ele representa um tesouro cuja ausência teria empobrecido singularmente nosso conhecimento das origens cristãs.

O texto dos Atos, como o restante do NT, nos chegou com muitas variantes de minúcias. Porém, mais que em outros lugares, as que provêm do texto dito “ocidental” (Codex Bezae, versões latina, siríaca e copta, antigos escritores eclesiásticos) merecem reter a atenção. Elas fornecem um texto que frequentemente é mais conciso que o texto alexandrino, mas que contém também minúcias concretas e pitorescas que o outro ignora. De fato, estas duas tradições textuais parecem representar redações sucessivas do livro dos Atos. A tradução que segue é feita o mais frequentemente sobre o texto alexandrino, mas numerosas variantes do texto ocidental foram assinaladas em nota ou mesmo adotadas no texto traduzido.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s