Introdução ao evangelho e às epístolas joaninas

Evangelho

O evangelho de João se apresenta como os evangelhos sinóticos: começa mostrando o testemunho do Batista sobre Jesus, em seguida apresenta certo número de episódios referentes à vida de Cristo, vários dos quais retomam os da tradição sinótica; termina pelos relatos da paixão e da ressurreição. Distingue-se contudo dos outros evangelhos por numerosos traços: milagres que eles ignoram, como o milagre da água transformada em vinho em Caná ou a ressurreição de Lázaro, longos discursos, como o que vem depois da multiplicação dos pães, cristologia muito mais evoluída, que insiste particularmente sobre a divindade de Cristo. O que pensar deste evangelho ao qual, durante muito tempo, a crítica independente teria desprovido de todo valor histórico mas que, por outro lado ,fascinou tantas gerações cristãs?

Segundo Dt 18,15.18-19, Deus havia prometido a seu povo enviar-lhe um profeta semelhante a Moisés. Essa promessa se realizou em Jesus de Nazaré. Tal convicção subentende todo o evangelho de João e comanda todos os seus temas maiores. Jesus é, não um profeta ordinário, mas o profeta por excelência (Jo 6,14; 7,40.52), que alimenta o povo de Deus como o fizera Moisés durante o êxodo (6,5-13; cf. Ex 16). Não é João Batista que é o profeta por excelência (1,21b), mas Jesus, a respeito do qual Moisés tinha escrito na Lei (1,45; 5,46; cf. Dt 18,15.18). Para salientar isso o evangelista põe nos lábios de Jesus palavras que se referiam a Moisés no AT (12,48-50; 8,28-29; 7,16b-17; cf. Dt 18,18-19; Nm 16,28; Ex 3,12; 4,12). Na economia da Nova Aliança, Jesus substitui Moisés (1,17) e os judeus devem agora escolher entre o antigo e o novo Moisés (9,24-34). — O profeta é, por definição, o porta-voz de Deus. Assim era Moisés: ele somente repetia o que Deus lhe mandava dizer (Dt 18,18; Ex 4,12.15). Tal é também a característica de Jesus (12,49; 8,28). Ele não fala por si mesmo (7,16-18; 14,10.24), mas apenas transmite aos homens as palavras que Deus lhe deu para eles (17,8; 3,34). – Ora, qual é a mensagem que o novo Moisés veio nos transmitir da parte de Deus? Que nos amemos uns aos outros conforme o próprio Jesus nos amou (13,34-35; 15,12.17). É o mandamento que Cristo nos deixa como seu testamento e que resume toda a Lei antiga, as dez “palavras” que outrora Moisés nos havia transmitido da parte de Deus (Ex 20,1-17; Dt 5,5-22). Pois “Deus é Amor” (1Jo 4,7-16) e esse amor desce do Pai sobre Cristo e sobre nós, depois volta de nós para Cristo e para o Pai (17,23-26; 3,16.35; 10,17; 11,5; 13,1; 14,15.21-24.31; 15,9). O cristianismo é essencialmente uma religião de amor. Moisés já havia recebido e transmitido aos homens a revelação do Nome divino por excelência: “Eu sou” (Ex 3,13-15); da mesma forma Jesus revelou aos homens este outro nome divino (Jo 17,6.26) que implica amor indefectível: “Pai” (Jo 17,1.11.24-25). Tendo recebido essa revelação de amor, os homens não obedecem como escravos, mas como amigos (Jo 15,15; 8,34-36).

Quando prometia aos hebreus o envio de um profeta semelhante a Moisés, Deus lhes ordenava também: “Ouvi-o” (Dt 18,15). Quem não ouvisse as suas palavras seria condenado por Deus (Dt 18,19). É questão de vida e de morte: se o povo hebreu quiser viver, e não morrer, deverá obedecer aos mandamentos de Deus, ouvir sua voz (Dt 30,15-20). Da mesma forma os discípulos de Cristo. Aquele que ouve a palavra de Cristo tem a vida eterna, passou da morte à vida (5,24); aquele que observa essa palavra jamais verá a morte (8,51). Aquele que rejeita Cristo e não recebe suas palavras já está condenado (12,48; cf. Dt 18,19), pois o mandamento de Deus é vida eterna (12,50). Somente Cristo tem palavras que são vida eterna (6,63.68; cf. Dt 8,3). A Palavra de Deus é ao mesmo tempo luz e vida (1,4-5.9), luz que permite caminhar para a vida (8,12; 9,5; cf. SI 119,105), sem tropeçar nos obstáculos que se encontram no caminho (11,9-10; 12,35-36). Cristo partiu à nossa frente a fim de nos preparar um lugar na casa do Pai (cf. Dt 1,33), mas virá buscar-nos para que possamos nos reunir a ele onde ele está (Jo 14,2-3; 17,24; 12,26). Aquele que se coloca no seguimento de Jesus, como seu discípulo, chega finalmente lá onde está Jesus (1,37-39; opor 7,33-34; 8;21-22), na casa do Pai (14,2-3).

Moisés, como todos os profetas, fora “enviado” por Deus para salvar e guiar seu povo (Ex 3,10-12). Também Cristo foi “enviado” por Deus para dar a vida aos homens (3,17; 3,34; 6,29.57; 7,29; 10,36; 17,18). É assim que Jesus, em vinte e seis passagens, refere-se a Deus como “aquele que me enviou” (4,34; 5,23-24.30 etc.). Todavia, como podemos crer que ele de fato é o enviado e não um impostor (17,8.21-25)? Moisés já fizera essa objeção a Deus (Ex 3,13; 4,1), e para responder a isso Deus concedera a Moisés realizar “sinais” que seriam a prova de sua missão divina (Ex 4,2-9). O mesmo acontece com Jesus. Durante sua vida terrestre, ele realiza seis milagres, dos quais os dois primeiros e o último são dados como “sinais” que provam sua missão (2,11; 4,54; 12,18; cf. 11,42). É por causa destes “sinais” que as multidões seguem Jesus e nele creem (2,23; 6,2.14; 7,31; 11,47; 12,37; 20,30). Com efeito, apenas Deus pode subverter as leis da natureza; se, portanto, um homem realiza “sinais”, é porque veio da parte de Deus e porque “Deus está com ele” (3,2; 9,32-33; cf. Ex 3,12). E o “sinal” por excelência, o sétimo, será a ressurreição (2,18-22), pois é o próprio Jesus que tem o poder de retomar sua vida (10,17-18). – Para crer em Jesus, todavia, não é preciso dar demasiada importância aos “sinais” (4,48; 20,25.29); é definitivamente a sua palavra, a mensagem que ele nos transmite da parte de Deus, que nos deve ligara ele (4,40-42). Se, mesmo depois do “sinal” da multiplicação dos pães, apenas os Doze permanecem fiéis a Jesus, é porque compreenderam que ele tem as palavras da vida eterna (6,66-69). Suas palavras devem empenhar nossa fé no mesmo grau dos “sinais” que ele realiza (15,22.24; cf. Ex 4,15-17). Se de fato os “sinais” testemunham em favor da missão de Jesus (5,36; 10,25), podemos ser motivados também pelo testemunho do Batista (1,7-8.15; 5,31-35), pelo testemunho do Pai por ocasião do batismo de Cristo (5,37; cf. 1,32-34), pelo testemunho das Escrituras que anunciaram sua vinda (5,39.45-47; cf. Dt 18,15.18), enfim, pelo Espírito (15,26). Quanto ao discípulo que Jesus amava, ele pode testemunhar que Jesus está realmente morto (19,35), condição indispensável para que o “sinal” por excelência, a ressurreição, não possa ser contestado.

Ao tema de Jesus novo Moisés está estreitamente ligado o de Jesus rei messiânico. E porque o reconhecem como o profeta por excelência que os judeus querem se apossar dele para fazê-lo rei (6,14-15). A ligação entre os dois temas provém talvez das tradições samaritanas. Para os samaritanos, com efeito, duas personagens dominavam a história bíblica: Moisés, o profeta por excelência, e o patriarca José, a quem eles davam o título de “rei” (cf. Gn 41,41-43). Ora, no evangelho de João, depois de ter sido reconhecido como “Aquele de quem Moisés escreveu na Lei” (1,45; cf. Dt 18,15.18), Jesus é proclamado “rei de Israel” por Natanael (1,49) e logo depois ele fornece vinho para aqueles que não o tinham, como o patriarca José havia fornecido trigo durante a fome do Egito (2,5 citando Gn 41,55). De qualquer modo, com esse título de “rei” dado a Jesus, chega-se às tradições judaicas segundo as quais Cristo, o rei messiânico, devia ser descendente de Davi (7,40-42). Aclamado pela multidão como “rei de Israel”, Jesus fará sua entrada solene em Jerusalém (12,13). É como “rei dos judeus” que será condenado à, morte e pregado à cruz (19,3.12-15.19-21). — Como explicar esta dramática inversão de situação? É que Satanás, o Diabo, já reina sobre o mundo. Ele é o “príncipe deste mundo” (12,31; 14,30; 16,11) e o mundo inteiro jaz em seu poder (1Jo 5,19). Por trás dos opositores de Jesus esconde-se e age o príncipe deste mundo decidido a acabar com ele (14,30; 13,2.27). Ele domina o mundo, e este mundo mau, ao qual pertencem os chefes do povo judeu (8,23) só pode odiar Jesus e todos aqueles que se tornaram seus discípulos (15,18-19; 17,14). O evangelho de João se apresenta então como um drama. A cada vez que Jesus sobe a Jerusalém, ele se choca com uma oposição cada vez mais violenta da parte dos chefes do povo judeu (5,16-18; 7,30-32.44; 8,59; 10,31.39) que, finalmente, reúnem o Sinédrio e decidem levá-lo à morte (11,47-53). Contudo, situação paradoxal que Satanás não previa, no próprio momento em que Jesus é “elevado” sobre a cruz acontece o fim da dominação do príncipe deste mundo (12,31-32). A elevação de Jesus sobre a cruz é como o primeiro passo que marca seu retorno à glória divina na Hora marcada por Deus (12,23; 13,31-32; 17,15), a Hora de sua entronização régia. Jesus é rei, mas sua realeza não é deste mundo, (18,36). O príncipe deste mundo, portanto, não tem nenhum poder sobre ele (14,30).

Jesus é o profeta, o novo Moisés anunciado por Dt 18,15.18, mas ele é mais que Moisés. Profeta é porta-voz de Deus. Para que ele o fosse, Deus punha suas palavras na boca de Moisés (Dt 18,18), ele estava com sua boca (Ex 4,12). De modo muito mais radical, é a própria Palavra de Deus, personificada, que veio se encarnar em Jesus (Jo 1,1-2.14). Como a Palavra de que fala ls 55,10-11, ela veio habitar entre os homens para dar àqueles que a recebem o poder de se tornar “filhos de Deus” (1,12-13), e depois ela voltou para o seio do Pai (1,18; 13,3; 16,27-28; 14,2-3). Em Jesus, é a Palavra de Deus que nos faz conhecer os mistérios divinos (1,18; 3,11-13). Ela não está mais escondida nos céus, mas veio viver entre nós (Dt 30,11-14; Br 3,29-31.38). — Enquanto Palavra de Deus encarnada, Cristo pode dizer: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (8,58). Ele existia antes do mundo, que foi criado pela Palavra (1,3). Moisés, portanto, pôde ver sua glória (12,41) e quando Cristo retoma ao Pai, este lhe dá a glória que possuía antes que o mundo existisse (17,5). — Enquanto Palavra de Deus encarnada, Cristo não é somente “Filho de Deus”, título que não implicava sentido transcendente, contrariamente àquilo de que os judeus o acusavam (10,33-36; 19,7); ele é o Unigênito (1,14.18; 3,16.18). Gerado de Deus (Pr 8,25), ele próprio é Deus (1,1; 20,29; 1Jo 5,20). Quando diz aos judeus: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (8,58; cf. 8,24.28; 13,19; Is 43,10; 45,18; Dt 32,39), este último verbo evoca a revelação que Deus fez a Moisés por ocasião da teofania do Sinai: “Eu sou aquele que é. Assim dirás aos israelitas: ‘Eu Sou’ me enviou até vós” (Ex 3,14). Quando uma tropa armada vem prender Jesus, ele lhes diz “Eu (o) sou” e a evocação do Nome divino basta para lançá-Ias por terra (18,5-6). Uma vez que a Palavra é Deus (Jo 1,1), é Deus quem, em Jesus, veio habitar entre nós (Jo 1,14).

Cristo novo Moisés, o Profeta por excelência, deixará este mundo para voltar ao Pai. Mas os discípulos serão beneficiados por ocasião da vinda do Espírito de verdade, do Paráclito (14,26 nota), que continuará junto deles a obra de Cristo. Como Cristo, ele procede do Pai (15,26; cf. 8,42; 16,27-30; 17,8. Como ele, será “enviado” a eles (pelo Pai a pedido de Cristo: 14,16; 15,26; pelo próprio Cristo: 15,26; 16,7) e permanecerá junto deles para sempre (14,16-17; cf. Mt 28,20). Sua missão será a de lhes ensinar tudo o que Cristo não tiver podido lhes dizer e, não mais que Cristo, não falará “por si mesmo”, contentando-se de transmitir o que ele tiver ouvido junto do Pai (16,12-15). Desta forma, os discípulos compreenderão o sentido misterioso, ainda escondido, de certos acontecimentos que se referem a Cristo (2,22; 12,16; 13,7; 20,9). O Espírito poderá dar testemunho de Cristo (15,26), fazendo os discípulos compreenderem que, apesar da sua morte vergonhosa, era de fato o Enviado de Deus, aquele em quem era preciso crer para ser salvo, aquele que, apesar das aparências, vencerá definitivamente o príncipe deste mundo (16,8-11).

Para exprimir suas ideias cristológicas, o evangelista utiliza frequentemente o simbolismo dos números, processo muito corrente na época. Seu interesse pelos números se trai em certas minúcias, Em 4,16-18, Jesus reprova a samaritana por ter cinco maridos, e a palavra “marido” aparece cinco vezes. O mesmo acontece com as palavras “pães” e “peixes” em 6,9-13, “discípulos” em 1,35-37 e 21,1-14. Mais interessante é o emprego de números que têm valor simbólico bem conhecido na Antiguidade: “sete” simboliza a totalidade, a perfeição, e “seis” evoca a ideia de imperfeição. Jesus sanou o paralítico “inteiro” (7,23), e o adjetivo “curado” aparece sete vezes no relato primitivo (5,4.6.9.11.14.15; 7,23), assim como a expressão “abrir os olhos” no relato paralelo da cura do cego de nascença (9,10.14.17.21.26.30.32). O filho do funcionário real de Cafarnaum é curado na hora sétima (4,52-53). Em contrapartida, a fraqueza de Cristo-homem se manifesta na sexta hora (4,6; 19,14). Em 5,31-47, o evangelista enumera as testemunhas em favor da missão de Cristo, às quais ele opõe a recusa de crer dos judeus; ora, o verbo “testemunhar” aparece sete vezes nessa passagem (5,31.32.32.33.36.37.39) enquanto o verbo “crer” ,frequentemente em forma negativa, aí se lê seis vezes (5,38.44.46.46.47.47). Desta forma, judaísmo e cristianismo se opõem. As talhas que servem para as purificações dos judeus são seis (2,6); esse sistema de purificação, imperfeito, está ultrapassado (opor 15,3; 13,8-10). As festas “dos judeus” são mencionadas seis vezes: a Páscoa (2,13; 6,4; 11,55), uma festa não denominada (5,1), as Tendas (7,2) e a Dedicação (10,22); mas a última Páscoa se tornará a Páscoa de Cristo, sua passagem deste mundo para o Pai (13,1), e é por isso que é nomeada sete vezes (11,55.55; 12,1; 13,1; 18,28.39; 19,14). Cristo é agora o verdadeiro Cordeiro pascal (19,36; cf. Ex 12,10.46; 1Cor 5,7). Todavia, se ele é morto, tem o poder de ressuscitar a si mesmo, o que constituirá o sétimo “sinal” que atesta a realidade de sua missão, o “sinal” por excelência (2,18-19; cf. 2,1s; 4,46s; 5,1s; 6,1s; 9,1s; 11,1s).

Todos esses textos foram redigidos na mesma época e pela mesma mão? Hoje há muitas dúvidas a esse respeito. Tal como o possuímos agora, o evangelho de João oferece com efeito numerosas dificuldades. E impossível conciliar textos como 13,36 e 16,5. A sequência normal de 14,31 se lê em 18,1. O pedido dos irmãos de Jesus em 7,3-4 supõe que ainda não realizou nenhum “sinal” em Jerusalém (opor sobretudo 2,23 e também 5,1-9). Fragmentos como 3,31-36 e sobretudo 12,44-50 estão fora de contexto. O fragmento que se lê em 7,19-24 deveria seguir imediatamente depois do relato da cura do paralítico em dia de sábado (5,1-16). Todo o capítulo 21 é curiosamente colocado depois de uma conclusão do evangelho (20,30-31) que será retomada em parte em 21,25. Além disso, as duplicatas são numerosas. Notemos em particular as dos capítulos 7-8: os textos de 7,33-36 e de 8,21-22 são apenas dois desenvolvimentos paralelos de um tema comum; e há muitas tentativas de prender Jesus no decurso de uma mesma festa (7,30.32.44; 8,20.59).

E provável que tais anomalias provenham do modo como o evangelho foi composto e editado: ele seria de fato o resultado de lenta elaboração, compreendendo elementos de épocas diferentes, de retoques, de adições, de redações diversas, de um mesmo ensinamento, visto que o todo teria sido publicado, não pelo próprio João mas, depois de sua morte, por seus discípulos (21,14); assim, na trama primitiva do evangelho, estes teriam inserido fragmentos joaninos que não queriam deixar perder e cujo lugar não era rigorosamente determinado. — Para explicar as anomalias do evangelho em sua forma atual, outros autores admitiriam de preferência que o evangelista teria utilizado uma ou mais fontes. Bultmann distingue assim: uma “fonte dos sinais” que teria contido os milagres relatados no quarto evangelho, uma coletânea de “palavras” atribuídas a Jesus, um relato contando a paixão e a ressurreição de Cristo. O último redator teria dado certo número de retoques na obra do evangelista. Dessa reconstrução bultmanniana, apenas a hipótese de uma “fonte dos sinais” teve certo sucesso. Sucesso bem relativo, por outro lado, uma vez que para alguns (Fortna) não se poderia mais falar de uma “fonte dos sinais” mas de um evangelho completo que incluía a pregação do Batista e os relatos da paixão e da ressurreição. — Seja qual for o modo de abordar o problema, os comentadores se esforçam para reconstituir um “escrito fundamental” reutilizado pelo evangelista. É possível que esse “escrito fundamental” o tenha conhecido também Lucas, o que explicaria o parentesco, notado há tempo, entre “tradições joaninas” e “lucanas” (Evangelho e Atos), especialmente no que se refere aos relatos da paixão e da ressurreição.

Qual é o autor do quarto evangelho? Ou, antes, quais são os autores, uma vez que esse evangelho provavelmente se formou em etapas sucessivas? É difícil responder.O nome daquele que fez a última redação nos é desconhecido. E possível, todavia, determinar sua personalidade: era judeu-cristão que se esforçou para rejudaizar o evangelho por meio de retoques de amplitude menor. Estes se referem sobretudo à escatologia, conforme Bultmann bem destacou. No seu conjunto, o quarto evangelho desenvolve o princípio de uma escatologia já realizada, influenciada pelos modos de pensar gregos. O judaísmo distinguia o mundo presente e o mundo (escatológico) futuro; conforme Jo 8,23, os dois mundos coexistem: um é o “embaixo” (este mundo) e o outro é o “em cima”, em Deus (13,1). A ressurreição não deve mais ser esperada para o instante em que for instaurado o “mundo futuro” (cf. Dn 12,1-2), mas já está realizada em e por Cristo (11,23-26). Aquele que crê em Cristo já passou da morte para a vida (5,24; 1Jo 3,14),não mais verá a morte, isto é, a morte no sentido semítico do termo, esta quase-aniquilação no Xeol (8,50; 11,25). A morte é apenas aparência (cf. Sb 3,2). Nesse sentido, os que creem em Cristo não serão julgados, mas os que recusam crer já estão julgados (3,18-21.36). Tudo isso supõe antropologia de tipo grego, com distinção entre alma e corpo. Mas o último redator do quarto evangelho quis reintroduzir a escatologia judaica herdada de Daniel: é apenas “no último dia” que ressuscitará quem crer em Cristo (6,39.40.44.54; opor 11,23-26); é apenas “no último dia” que ele será julgado (11,48), quando, à voz de Cristo, todos os que estão nos túmulos daí sairão, uns para a ressurreição de vida, os outros para a ressurreição de julgamento (5,28-29; cf. Dn12,2; opor 5,24). — Mais acima vimos queo autor do quarto evangelho afirma diversas vezes a divindade de Cristo, Palavra encarnada, dando-lhe até o título de “Deus” (1,1;20,28). O último redator, inserindo o v. 3 na grande oração de Cristo (17), reage, distinguindo “o único Deus verdadeiro” e aquele que Deus enviou, o Cristo (opor 1Jo 1,20). Afirmar que Cristo era Deus, não seria admitir que existiam dois deuses, o que deveria aparecer como blasfematório para um judeu-cristão antes que fosse elaborada uma teologia trinitária?

Mesmo abstraindo dos retoques feitos pelo último redator, pode-se manter um laço estreito entre o quarto evangelho e o apóstolo João? O autor mais antigo que afirma explicitamente isso é santo lreneu de Lião: “Em seguida, João, o discípulo do Senhor, o mesmo que repousou sobre seu peito, publicou também o evangelho durante sua estada em Éfeso”. Numerosos autores eclesiásticos antigos admitiram isso sem dificuldade. De fato, o evangelho se apresenta sob a garantia de um discípulo “que Jesus amava”, testemunha ocular dos fatos que relata (21,20-24; cf. 13,23). Como João apóstolo, ele devia ser pescador na Galileia (21,2.7; cf Mc 1,19-20). São Lucas confirmaria indiretamente essa identificação; com efeito, esse “discípulo que Jesus amava” aparece ligado por amizade com Pedro (13,23s; 18,15; 20,3-10; 21,20-23); ora, Lucas nos diz que era o caso de João apóstolo (Lc 22,8; At 3,1-4; 4,13; 8,14). — Tal identificação, porém, apresenta dificuldades. Até entre os católicos, autores como Raymond Brown e R. Schnackenburg, depois de a terem admitido, terminaram por abandoná-la. Certamente não o fizeram sem razões sérias. Seria verossímil que, ao escrever seu evangelho, João apóstolo omitisse o relato de certas cenas às quais havia assistido, cenas tão importantes como a ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37), a transfiguração (Mc 9,2), a instituição da Eucaristia (Mc 14,17s), a agonia de Jesus no Getsêmani (Mc 14,33)? Também foi objetado o fato de que, segundo certos testemunhos aos quais aludem muitos textos litúrgicos, João apóstolo teria morrido mártir relativamente cedo, e que, portanto, não teria podido escrever o evangelho que leva seu nome. Por fim, a identificação do “discípulo que Jesus amava” com o apóstolo João também apresenta dificuldades. Contrariamente aos dados de Jo 21, ele parecia morar de preferência nas vizinhanças de Jerusalém. Com efeito, só aparece no momento da última ceia em Jerusalém (13,23) e, identificado explicitamente a certo “outro discípulo” (20,2), era amigo do sumo sacerdote e bem conhecido da serva que guardava a porta de seu palácio (18,16). Compreendemos então que certos comentadores tenham proposto, entre numerosas hipóteses (mais de vinte!), a de Lázaro. Este discípulo habitava nas vizinhanças de Jerusalém, e nada impede que fosse conhecido do Sumo Sacerdote. Por outro lado, quando ele cai gravemente enfermo, suas irmãs mandam um mensageiro dizer a Jesus: “Aquele que amas está doente” (11,3; cf. 11,36). Na intenção das irmãs de Lázaro, nenhuma confusão era possível: Jesus tinha apenas um único amigo. Não seria ele então “o discípulo que Jesus amava” (mais que o homem rico do qual fala Mc 10,21)? Como vemos, a própria pessoa desse “discípulo que Jesus amava” permanece rodeada de mistério.

Em que data foi composto o quarto evangelho? Seu testemunho mais antigo é um fragmento de papiro (Rylands 457), escrito por volta de 125, que apresenta Jo 18,31-34.37-38 sob a forma que hoje conhecemos. O papiro Egerton 2, que lhe é muito pouco posterior, cita diversas passagens. Estes dois documentos foram encontrados no Egito. Devemos concluir a partir disso que o quarto evangelho teria sido publicado em Éfeso ou em Antioquia, no mais tardar pelos últimos anos do primeiro século. Por outro lado, se é fato que textos tais como Jo 9,22; 12,42; 16,2 aludem a uma decisão tomada pelas autoridades judaicas por ocasião do “concílio” de Jâmnia, a composição do quarto evangelho, sob sua forma quase definitiva, não poderia ser anterior aos anos 80. — Mas essa redação, que supõe evolução bastante complexa das tradições “joaninas”, obriga afazer remontar a composição do documento mais antigo a uma data muito anterior. Um texto como Jo 14,2-3, próximo de 1Ts 4,13s, supõe que ainda se esperava a volta de Cristo em futuro muito próximo. E possível então que o documento “joanino” mais antigo, de origem palestinense, possa ser datado ao redor do ano 50.

É claro então que a redação “joanina” mais antiga, conservada no evangelho sob sua forma atual, ecoa tradições independentes da tradição sinática e que, como hoje se reconhece, são de interesse primordial para reconstituir a vida e o ensinamento de Cristo. A propósito da construção do Templo, o quarto evangelho contém um dos dados cronológicos mais precisos dos evangelhos (2,20; cf. Lc 3,1). A topografia “joanina” é igualmente muito mais rica que a dos sinóticos. Todo o evangelho é cheio de minúcias concretas que provam que o seu autor estava a par dos costumes religiosos judaicos, assim como da mentalidade rabínica ou da casuística em uso pelos doutores da Lei. No quese refere ao desenrolar da vida de Jesus, em muitos pontos o quarto evangelho precisa os dados sinóticos; o mesmo quanto à duração real do ministério de Jesus e da cronologia da paixão, mais exata, parece, que a dos sinóticos, Damos um exemplo. Conforme os sinóticos, antes de ser entregue a Pilatos, Jesus teria comparecido diante do Sinédrio que o teria condenado à morte por causa de blasfêmia (Mc 14,43-54 e paralelos). Muitos historiadores mostram a inverossimilhança desse procedimento, o que negaria completamente a verdade histórica dos sinóticos. Ora, Jo 18,31 supõe que, efetivamente, não houve processo diante do Sinédrio que tivesse terminado por uma condenação à morte. Segundo as tradições “joaninas”, teria havido uma reunião do Sinédrio que teria decidido a morte de Jesus por razão de Estado, mas na ausência dele e bem antes da sua prisão. Por outro lado, a decisão de levar Jesus à morte seria a conclusão de longo conflito entre Jesus e os chefes do povo judeu, que ter-se-ia exacerbado por ocasião das diversas subidas de Jesus a Jerusalém (5,16-18; 7,30.44; 8,59; 10,31.39). Esta apresentação dos fatos é mais plausível que a da tradição sinótica que, fazendo Jesus subir a Jerusalém apenas uma vez, teria esquematizado o drama compondo o relato do comparecimento de Jesus diante do.Sinédrio na mesma noite em que foi preso. Dessa forma, os sinóticos não teriam contradito a verdade histórica mas apenas esquematizado os elementos do drama. Vemos a inversão de situação: é o evangelho de João que permitiria salvaguardar a verdade histórica da tradição sinótica, verdade ‘histórica’ tal como era compreendida na época.

Não nos enganemos, porém. A concepção da história que o quarto evangelho supõe difere profundamente da ideia que dela faz o historiador atual. O que importa antes de tudo ao evangelista é mostrar o sentido de uma história que é tanto divina quanto humana, história e também teologia, que se desenvolve no tempo porém mergulha na eternidade; ele quer contar fielmente e propor à fé dos homens o acontecimento espiritual que se realizou no mundo pela vinda de Jesus Cristo: a encarnação do Verbo para a salvação dos homens. Para isso, o evangelista fez uma escolha, e reteve especialmente os fatos que podiam apresentar a seus olhos um valor simbólico, dando-lhes profundidade e ressonâncias novas. Os milagres contados são “sinais” que revelam a glória de Cristo e simbolizam os dons que ele traz ao mundo (purificação nova, pão vivo, luz, vida). Além dos milagres, o autor tem o dom de tocar a significação espiritual dos fatos e de neles descobrir mistérios divinos (cf. 2,19-21; 9,7; 11,51s, 13,30; 19,31-37 e as notas); vê os fatos materiais, históricos, em sua dimensão espiritual: Jesus é a luz que vem ao mundo, seu combate é o da luz contra as trevas; sua morte é o julgamento do mundo; toda a sua vida é definitivamente o cumprimento das grandes figuras messiânicas do Antigo Testamento: ele é o Cordeiro de Deus (1,29), o novo templo (2;21), a serpente salvífica elevada no deserto (3,14), o pão de vida que substitui o maná (6,35), o bom Pastor (10,11), a verdadeira vide (15,1) etc. Este retrato, ao mesmo tempo hierático e cheio de verdade humana, dá à figura histórica de Cristo toda a sua dimensão de Salvador do mundo. A propósito de João, não é preciso, portanto, opor simbolismo e história: o simbolismo é o dos próprios fatos, brota da história, nela se enraíza, exprime seu sentido e para a testemunha privilegiada do Verbo feito carne, só tem valor com essa condição.

As epístolas

Além do evangelho, três epístolas nos foram conservadas pela tradição sob o nome de João. Elas oferecem com o evangelho sob a sua forma atual tal parentesco literário e doutrinal que é difícil não atribuí-las ao mesmo autor, provavelmente este “João o Ancião” do qual falava Pápias (cf. 2Jo 1; 3Jo 1). A terceira epístola é provavelmente a primeira na data; procura resolver um conflito de autoridade que surgira em uma das Igrejas sob a autoridade de João. A segunda epístola põe de sobreaviso uma outra Igreja particular contra a propaganda de falsos doutores que negam a realidade da encarnação. Quanto à primeira epístola, sem dúvida a mais importante, apresenta-se mais como uma carta encíclica destinada às comunidades da Ásia, ameaçadas pelos dilaceramentos das primeiras heresias. João nela condensou o essencial de sua experiência religiosa; partindo de temas paralelos sucessivos (luz: 1,5s; justiça: 2,29s; amor: 4,7-8s; verdade: 5,6s), quer mostrar a ligação íntima que existe entre nosso estado de filhos de Deus e a retidão da nossa vida moral, considerada como fidelidade ao duplo mandamento da fé em Jesus e do amor fraterno (3,23-24). É um dos escritos do NT mais marcados pelo pensamento que se exprime nos escritos da seita de Qumrã: o duplo dualismo “luz-trevas” e “verdade-mentira” (1,5-7; 2,9-11; 2,21-22); o discernimento dos “espíritos” (4,1-6), que termina pela oposição entre “espírito de verdade e espírito de erro”, como em Qumrã. No evangelho, tal influência qumraniana limita-se a raras passagens, especialmente Jo 3,19-21.

1Jo 2,18-21 alude a um cisma que se teria produzido nos meios “joaninos”. Não seria a propósito da atribuição a Cristo do título de “Deus” (1Jo 5,20; cf. 2,22b-23) que devia ser difícil para o judeu-cristão? Vimos mais acima que o texto de Jo 17,3 reagia contra tal atribuição.

Terminemos dizendo que 1Jo 4,8.16 traz uma das afirmações mais assombrosas de toda a Bíblia: “Deus é Amor”.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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Um comentário sobre “Introdução ao evangelho e às epístolas joaninas

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