Introdução ao evangelho segundo são Marcos

O evangelho de Marcos se divide em duas partes complementares. Na primeira (1,2-9,10), ficamos sabendo. quem é Jesus de Nazaré: o Cristo, o Rei do novo povo de Deus, de onde a profissão de fé de Pedro em 8,29. Mas como Jesus pode ser este Rei, uma vez que foi morto por instigação dos chefes do povo judeu? E que ele era “filho de Deus”, o que implicava uma proteção de Deus sobre ele para arrancá-lo da morte. A segunda parte (9,14-16,8) nos orienta pouco a pouco para a morte de Jesus, mas culmina na profissão de fé do centurião: “Verdadeiramente este homem era filho de Deus” (15,39), confirmada pela descoberta do túmulo vazio, prova da ressurreição de Jesus. Este plano é indicado desde a primeira frase escrita por Marcos:

“Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, filho de Deus”.

Afora algumas peças mais ou menos aberrantes, a primeira parte do evangelho é muito bem construída. Como em uma espécie de prólogo (1,2-20), o leitor assiste em primeiro lugar à investidura régia de Jesus, depois que o Batista anunciou sua vinda (1,2-11). A voz celeste se dirige a ele misturando SI 2,7 e ls 42,1; Jesus é constituído Rei (SI 2,6) e recebe a missão do Servo de Deus, ou seja, ensinar o direito às nações (Is 42,1-4). Toda a primeira parte do evangelho será condicionada por estes dois temas (cf. abaixo). Para completar a cena, Jesus recebe o Espírito, e como Rei (1Sm 16,13) e como Servo de Deus (Is 42,1+), ele é “ungido” do Espírito (Is 61,1; At 10,38), ele é o “Cristo” por excelência (Sl 2,2). Mas Satanás exercia já seu poder maléfico sobre o mundo (cf. 1Jo 5,19). Consequentemente, Jesus deverá entrar em luta com ele para estabelecer sua própria realeza; ele o faz desde o dia seguinte ao batismo, conduzido ao combate pelo Espírito (Mc 1,12-13). Enquanto Servo de Deus, Jesus irá ensinar as multidões; para estabelecer sua realeza, irá exorcizar os espíritos impuros, agentes de Satanás. Este duplo tema vai percorrer todo o evangelho (1,27; 1,39; 2,2 e 3,11; 3,14-15; 6,2; 6,12-13; 6,34). Para encerrar este prólogo, Marcos descreve, de um modo bem geral, o ministério de Jesus: ele proclama o Evangelho, a Boa Nova (cf. Is 61,1), anuncia que o Reino de Deus está próximo (1,14-15); pregação e realeza, esta é a perspectiva das cenas precedentes. Finalmente, Jesus chama ao seu seguimento seus quatro primeiros discípulos (1,16-20). Que ele seja o Cristo, Jesus é o único a sabê-lo (com os espíritos impuros), como o deixa entender a cena do batismo. Ele deverá, portanto, persuadir os outros a respeito disso. Será difícil e em parte voltado ao fracasso I como a sequência do evangelho o irá mostrar. – Mc 1,21-39 descreve urna “jornada típica” de Jesus em Cafarnaum: Como Servo de Deus, ele ensina na sinagoga. Como Rei, ele expulsa seus adversários, espíritos impuros. Este segundo aspecto de sua missão é desenvolvido no relato da cura da sogra de Pedro (toda enfermidade era devida à influência dos espíritos maus, cf.Lc 4,39) e no sumário de 1,32-34. Ensinamento e exorcismos provocam a admiração das multidões e propõem o problema da verdadeira identidade de Jesus (1,27; Jo 15,22.24). As multidões são conquistadas (1,28.37). Mas Jesus ensinará e exorcizará os demônios em toda a Galileia (1,38-39). — Em contraste com o entusiasmo das multidões (cf. 1,45), Marcos nos apresenta um primeiro grupo de pessoas que recusam crer em Jesus: os escribas e os fariseus. É o bloco das cinco controvérsias contadas em 2,1-3,6, que termina com a decisão de acabar com Jesus. Este conjunto começa por um apelo do ensinamento de Cristo (2,2.13) e se prolonga por um sumário que mostra Jesus expulsando os espíritos impuros (3,7-12). Escribas e fariseus odeiam Cristo por causa de seu ensinamento e de seus exorcismos: são ciumentos (cf. 1,22). — Na seção seguinte (3,13-35), Marcos de novo oporá dois grupos de personagens: Os Doze, aos quais transmite seu poder de ensinar e de expulsar os demônios (3,13-19), e seus familiares que o consideram como um iluminado (3,20-21; cf. Jo 7,5) e aos quais Cristo opõe sua verdadeira parentela: os que fazem a vontade de Deus (3,31-35). Em 3,22-29, Marcos faz intervir os escribas que acusam Jesus de praticar os exorcismos graças a Beelzebu, afim de lembrar que é o Espírito Santo que faz Jesus agir (3,29). Encontramos ainda aqui as duas componentes da atividade de Cristo: os exorcismos e o ensinamento (cf. 3,31-35; mais claro em Lc 8,21). – O centro desta primeira parte é formado pela longa seção que vai de 4,1 a 5,43. Até aqui, Marcos mostrou Cristo ensinando e expulsando os demônios, mas sem dar muitas minúcias. Fá-lo-á aqui. Explica em primeiro lugar como Cristo ensinava (4,1-2): sob forma de parábolas que se referem ao Reino de Deus, do qual dá cinco exemplos (4,3-34). Estende-se a seguir sobre quatro milagres realizados por Jesus: a tempestade acalmada (4,35-41) assimilada a um exorcismo (comparar 4,39.41 e 1,25.27), o exorcismo do possesso de Gerasa (5,1-20), a ressurreição da filha de Jairo, episódio no qual se insere o relato da cura da hemorroíssa (5,21-43). Estes milagres provocam o espanto e obrigam a se propor o problema da verdadeira identidade de Jesus (4,41; cf. 5,20.42). Notar-se-á uma primeira “farpa” contra os discípulos: eles têm falta de fé (4,40), contrariamente à hemorroíssa (5,34) e a Jairo (5,36). – A seção seguinte (6,1-30) retoma, em ordem inversa, os temas de 3,13-35: Marcos aí salienta a oposição entre a falta de fé dos conterrâneos de Jesus, malgrado seu ensinamento e seus exorcismos (6,1-5; cf. 3,20-21.31-35) e o grupo dos verdadeiros discípulos que ele envia para pregar e expulsar os espíritos impuros (6,7-13; cf. 3,13-19). A volta dos discípulos será mencionada em 6,30: eles contam tudo o que fizeram (exorcismos e curas) e o que ensinaram. Para preencher o intervalo de tempo entre sua partida e sua volta, Marcos apresenta aqui a opinião de Herodes a respeito de Jesus (6,17-20), o que lhe proporciona a ocasião de salientar que, mesmo que as multidões estivessem admiradas com a atividade de Jesus, elas não tinham mais que uma opinião aproximativa de sua verdadeira personalidade. O relato da execução do Batista por Herodes é inserido aqui (6,21-29) como um excurso. – O duplo episódio da multiplicação dos pães (6,35-44) e da tempestade acalmada (6,45-52) é emoldurado pelas duas notícias que relembram a dupla atividade de Cristo: ensina as multidões que a ele acorrem (6,31-34) e cura seus doentes (6,53-56). Pela segunda vez, Marcos nota a incompreensão dos discípulos apesar do milagre da multiplicação dos pães (6,52). — A seção seguinte (7,1-8;9) abre um horizonte novo: a difusão do evangelho junto aos pagãos. Eles eram considerados como impuros pelos judeus. Contra os fariseus, Jesus afirma que aos olhos de Deus conta somente a pureza do coração (7,1-23). Vai em seguida para a região de Tiro onde cura a filha de uma siro-fenicia (7,24-30), depois para a Decápole, onde cura um surdo-gago (7,32-37). No relato da segunda multiplicação dos pães (8,1-9), alguns pormenores evocam o mundo pagão convidado ao banquete messiânico. Como quase todas as seções precedentes, esta salienta uma oposição fundamental. Começa e termina por um ataque dos fariseus contra Jesus (7,5 e 8,11-13; cf. 2,1-3,6), o qual responde a eles fustigando sua hipocrisia (7,6-13). A esta cegueira Marcos opõe a confiança de uma pagã e depois a cura de um surdo-gago, provavelmente pagão também. Isto insinua que, diante da atitude das autoridades judaicas, são os pagãos que serão chamados à salvação. — A última seção (8,14-9,10) é dramática. Pela terceira vez (cf. 6,52; 7,18), Jesus constata a incompreensão de seus discípulos (8,14-21): eles não compreenderam o sentido dos prodígios que ele realizou, nem o sentido de seu ensinamento (8,18). Eles, portanto, não o reconhecem nem como o Rei anunciado pelo Sl 2,7 nem como o Servo de que fala Is 42,1-4. Deveria então desesperar de todos? Não, pois, contra toda expectativa, Pedro se separa da opinião da multidão (8,27-28; cf. 6,14-16) para reconhecer: Tu és o Cristo” (8,29). Ele não o pôde fazer a não ser em virtude de uma revelação do Pai, como o compreenderá Mateus (Mt 16,17). É para preparar esta “conversão” de Pedro que Marcos conta, imediatamente antes, a cura de um cego (8,22-26) à qual ele parece dar um porte simbólico: Pedro não seria cego também (cf. 8,18)? Esta profissão de fé vai ser confirmada pela cena da transfiguração (9,2-10), assim como, no fim da segunda parte, a profissão de fé do centurião romano (15,39) será confirmada pela descoberta do túmulo vazio (16,1-8). Esta cena da transfiguração responde à do batismo de Cristo: Jesus ouvira a voz celeste que lhe dizia: “Tu és o meu filho amado, em ti me comprazo” (1,11); aqui são Pedro, Tiago e João que ouvem: “Este é o meu filho amado; ouvi-o” (9,7). Sobre o pequeno bloco constituído por 8,31-9,1, cf. abaixo.

A estrutura desta primeira parte forma um quiasmo um pouco distorcido:

A) Testemunho do Batista: 1,2-8
Batismo de Cristo: 1,9-11
[Ensinamento e exorcismos: 1;21-39]
B) Controvérsia com os fariseus: 2,1-3,6
C) Chamado dos Doze: 3,13-19
D) Incredulidade da família de Jesus: 3;20-35
E) Ensinamento e exorcismos: 4,1-5,43
D’) Incredulidade dos conterrâneos de Jesus: 6,1-6
C’) Missão dos Doze: 6,7-13,30
[Multiplicação dos pães; 6,34-44]
B’) Hostilidade dos fariseus: 7,5-13; 8,11-13
Os pagãos chamados à salvação: 7,14-8,9
A’) Profissão de fé de Pedro: 8,27-30
Transfiguração: 9,2-10

A segunda parte do evangelho não é tão bem estruturada. Ela procede mais por toques sucessivos para desenvolver dois temas interligados: o paradoxo de Jesus que deve passar pela morte antes de reinar; as condições requeridas para entrar no Reino. Ela se liga à primeira parte por meio de duas “seções-gancho”. Uma é inserida no final da primeira parte, em 8,31-9,1, e contém em germe os temas essenciais da segunda: Jesus deverá morrer antes de reinar (primeiro anúncio da paixão: 8,31), mas seu reino é iminente (9,1); para dele participar, é necessário “seguir” a Jesus, renunciando a si próprio (8,34-38). Para anunciar sua paixão e sua ressurreição, tanto aqui como em 9,31-32 e 10,33-34, Cristo se identifica com o “Filho do homem” de Dn 7,13-14. Segundo este texto, com efeito, este Filho do homem receberá a investidura régia de Deus, mas em um contexto de perseguição. A segunda “seção-gancho” se lê depois do relato da transfiguração. A voz celeste prescrevia “ouvir” o ensinamento de Cristo (9,7; cf. Dt 18,18); Jesus realiza agora um exorcismo para expulsar o espírito mau que atormenta um menino (9,14-29). Ensinamento e exorcismo eram as duas atividades essenciais de Cristo na primeira parte do evangelho. — Na seção seguinte (9,30-49) Cristo se dedica ao ensinamento de seus discípulos (9,30-31a). Anuncia-lhes de novo que deve morrer e ressuscitar (9,31b-32), depois lhes dá certo número de ordens éticas: tornar-se o servo de todos, evitar escandalizar aqueles que nele creem, se um membro é ocasião de queda, cortá-lo a fim de poder “entrar na vida” ou “no Reino”. — Ensina de novo as multidões a partir de 10,1. É para dar algumas ordens éticas: a respeito do divórcio (10,2-12), a necessidade de receber o Reino como uma criança (10,13-16) e sobretudo a necessidade de renunciar a suas riquezas para entrar no Reino (10,17-31). – A seção que vai de 10,32 a 11,10 descreve a viagem de Jesus para Jerusalém. Ela é cada vez mais centrada sobre a realeza de Cristo. O terceiro anúncio da paixão (10,32b-34) recorda o paradoxo fundamental: Jesus deve morrer antes de reinar. Tiago e João gostariam de ser ministros de Cristo, mas Jesus lembra-lhes a necessidade de segui-lo bebendo o mesmo cálice que ele (10,35-45). O cego de Jericó é curado porque ele o reconhece como o “filho de Davi”, título régio por excelência (10,46-52). Finalmente, Jesus faz sua entrada em Jerusalém conforme o rito das entradas régias (11,1-10). — Jesus será sagrado “rei” em Jerusalém? Não, pois ele morrerá. O drama e, portanto, o paradoxo, se formará durante os dias seguintes. Os chefes dos sacerdotes e os escribas decidem a morte de Jesus, feridos pela expulsão dos vendilhões do Templo (11,15-18). Jesus recusa responder-lhes quando lhe perguntam em virtude de qual poder ele age assim (11,27-33). A parábola dos enviados à vinha suscita de novo a ira deles (12,1-12). Os fariseus procuram de novo sua morte, tantoaos olhos do poder romano, quanto junto à multidão, perguntando-lhe se é permitido pagar o tributo a César (12,13-17). Nova controvérsia com os saduceus a respeito da ressurreição (12,18-27). Uma calmaria na tempestade que ruge: um dos escribas (os
inimigos ferrenhos de Jesus) dialoga com Cristo sobre o maior mandamento e ouve-o dizer-lhe que ele não está longe do Reino de Deus (12,28-34). Mas é uma exceção, e Jesus discute com eles ridicularizando seu ensinamento (12,35-37) e fustigando seus vícios (12,38-40). — Anunciando a ruína do Templo (13,1-2), isto é, a ruptura da Aliança entre Deus e seu povo, Jesus apenas precipita os acontecimentos trágicos (cf. 14,58). Mas dá também a solução do paradoxo: o Filho do homem voltará para reunir os eleitos em vista de formar o novo reino (13,24-27). Para contar os acontecimentos que levarão Cristo à cruz, Marcos segue a tradição comum (14-15) mas salienta como Jesus será abandonado por todos. As autoridades judaicas temem a multidão que lhe era favorável (11,18; 12,12.37), mas conseguem fazê-la mudar graças ao episódio de Barrabás (15,6-15). Os discípulos, que nada compreenderam diante do paradoxo da morte de Jesus (8,32-33; 9,9-10; 9,32), espantam-se com a aproximação de Jerusalém (10,32) e finalmente, por ocasião da prisão de Cristo, põem-se todos em fuga (14,50; cf. 14,27) depois de um simulacro de resistência (14,47). — É como um rei de fantasia que Jesus é entregue à morte por Pilatos (cf. 15,2.9.12.17-20), e, vergonha suprema, morre sobre a cruz enquanto uma inscrição o proclama “Rei dos judeus” (15,26). Deus não ridiculariza aquele que havia sagrado rei por ocasião do batismo no Jordão? Não, o centurião romano o proclama justo depois que expirou: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (15,39). Como Lucas bem compreendeu (23,47), é alusão a Sb 2,18: “Se o justo é filho de Deus, ele o assistirá e o libertará da mão de seus adversários”. No dia da Páscoa, o anjo confirmará esta profissão de fé do centurião: Jesus ressuscitou (Mc 16,6). Uma vez que é o Filho do homem, recebeu a invesüdura régia junto de Deus (Dn 7,13-14) e voltará para reunir os eleitos (Mc 13,26) no Reino de Deus.

E nesse contexto geral que se deve interpretar o “segredo messiânico” caro a Marcos, que Jesus impõe, tanto aos espíritos impuros (1,25.34; 3,11-12), como aos discípulos depois da transfiguração (9,9), como também às pessoas que ele cura (1,44; 5,43; 7,36; 8,26). Os judeus esperavam um Cristo que os libertasse da ocupação romana; Jesus quer então evitar ser a ocasião de uma revolta popular contra os romanos, que seria contrária à missão que ele recebeu de Deus (cf. Jo 6,14-15).

Esta análise do evangelho de Mc põe de novo em questão a notícia de Pápias: Marcos teria escrito a catequese de Pedro, tal como ele a dava conforme as circunstâncias, e, portanto, sem ordem. Não seria portanto ele que teria composto um evangelho tão bem estruturado, sobretudo em sua primeira parte. Mas o problema é sem dúvida mais complexo. Constata-se com efeito em Mc duplicatas notadas há tempo. Ensinamento de Jesus em Cafarnaum (1,21-22.27) e “em sua pátria” (6,1-2) contados em termos análogos. Dois relatos de multiplicação dos pães (6,35-44; 8,1-9) seguidos pela observação de que os discípulos não compreenderam seu sentido (6,52; 8,14-20). Dois anúncios da paixão seguidos pela ordem de se tornar o servo de todos (9,31.35; 10,33-34.43). Dois relatos da tempestade acalmada (4,35-41; 6,45-52). Duas observações sobre a atitude de Jesus para com as crianças (9,36; 10,16). O Mc atual teria, portanto, ou misturado dois documentos diferentes, ou completado um documento primitivo por meio de tradições paralelas. O Mc de que fala Pápias poderia ser então um dos dois documentos de base, consideravelmente remanejado no Mc atual.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s