Introdução ao Apocalipse

O termo “apocalipse” é a transcrição duma palavra grega que significa revelação; todo apocalipse supõe, pois, uma revelação que Deus fez aos homens, revelação de coisas ocultas e só por ele conhecidas, especialmente de coisas referentes ao futuro. É difícil definir exatamente a fronteira que separa o gênero apocalíptico do profético, do qual, de certa forma, ele não é mais que prolongamento; mas enquanto os antigos profetas ouviam as revelações divinas e as transmitiam oralmente, o autor de um apocalipse recebia suas revelações em forma de visões, que consignava em livro. Por outro lado, tais visões não têm valor por si mesmas, mas pelo simbolismo que encerram, pois em apocalipse tudo ou quase tudo tem valor simbólico: os números, as coisas, as partes do corpo e até as personagens que entram em cena. Ao descrever a visão, o vidente traduz em símbolos as ideias que Deus lhe sugere, procedendo então por acumulação de coisas, cores, números simbólicos, sem se preocupar com a incoerência dos efeitos obtidos. Para entendê-lo, devemos, por isso, apreender a sua técnica e retraduzir em ideias os símbolos que ele propõe, sob pena de falsificar o sentido de sua mensagem.

Os apocalipses tiveram grande êxito em certos ambientes judaicos (inclusive entre os essênios de Qumrã) nos dois séculos que precederam a vinda de Cristo. Preparado já pelas visões de profetas como Ezequiel ou Zacarias, o gênero apocalíptico desenvolveu-se no livro de Daniel e em numerosas obras apócrifas escritas em torno da era cristã. O Novo Testamento guardou em seu cânon apenas um apocalipse, cujo autor menciona seu próprio nome: João (1,9), que o escreveu exilado na ilha de Patmos, por causa de sua fé em Cristo. Uma tradição, representada já por são Justino e amplamente difundida no fim do séc. II (santo Ireneu, Clemente de Alexandria, Tertuliano, o Cânon de Muratori], identifica-o com o apóstolo João, autor do quarto evangelho. Mas até o séc. V as Igrejas da Síria, Capadócia e mesmo da Palestina não parecem ter incluído o Apocalipse no cânon das Escrituras, prova de que não o consideravam obra de um apóstolo; certo Caio, sacerdote romano do começo do séc. III, chegou a atribuí-lo ao herege Cerinto, mas talvez por razões polêmicas. Por outro lado, se o Apocalipse de João apresenta parentesco inegável com os outros escritos joaninos, também se distingue claramente deles por sua linguagem, seu estilo e por certos pontos de vista teológicos (referentes sobretudo à Parusia de Cristo), a tal ponto que se torna difícil afirmar que procede imediatamente do mesmo autor. Não obstante tudo isso, sua inspiração é joanina, e foi escrito por alguém do círculo de discípulos imediatos do apóstolo e está impregnado de seu ensinamento. Não se pode duvidar de sua canonicidade. Quanto à data de composição, admite-se bastante comumente que tenha sido composto durante o reinado de Domiciano, pelo ano 95; outros, e não sem alguma probabilidade, creem que pelo menos algumas partes já estariam redigidas desde o tempo de Nero, pouco antes de 70.

Seja que optemos pelo tempo de Domiciano, seja pelo de Nero, é indispensável, para bem compreender o Apocalipse, reinseri-lo no ambiente histórico que lhe deu origem: um período de perturbações e de violentas perseguições contra a Igreja nascente. Pois, do mesmo modo que os apocalipses que o precederam (especialmente o de Daniel) e nos quais manifestamente se inspira, é escrito de circunstância, destinado a reerguer e a robustecer o ânimo dos cristãos, escandalizados, sem dúvida, pelo fato de que perseguição tão violenta se tenha desencadeado contra a Igreja daquele que afirmara: “Não temais, eu venci o mundo” (Jo 16,33). Para levar a efeito seu plano, João retoma os grandes temas proféticos tradicionais, especialmente o do “Grande Dia” de Iahweh (cf. Am 5,18+): ao povo santo, escravizado sob o jugo dos assírios, dos caldeus e dos gregos, dispersado e quase destruído pela perseguição, os profetas anunciavam o dia da salvação, que estava próximo e no qual Deus viria libertar o seu povo das mãos dos opressores, devolvendo-lhes não apenas a liberdade, mas também poderio e domínio sobre seus inimigos, que seriam por sua vez castigados e quase destruídos. No momento em que João escreve, a Igreja, o novo povo eleito, acaba de ser dizimada por sangrenta perseguição (6,10-11; 13; 16,6; 17,6), desencadeada por Roma e pelo império romano (a Besta), mas por instigação de Satanás (12; 13,2-4), o Adversário por excelência de Cristo e do seu povo. A visão inaugural descreve a majestade de Deus que reina no céu, senhor absoluto dos destinos humanos (4) e que entrega ao Cordeiro o livro que contém o decreto de extermínio dos perseguidores (5); a visão prossegue com o anúncio da invasão de povos bárbaros (os partos), com seu tradicional cortejo de males: guerra.fome e peste (6). Os fiéis de Deus, porém, serão preservados (7,1-8; cf. 14,1-5), à espera de gozarem no céu, de seu triunfo (7,9-17; cf. 15,1-5). Entretanto, Deus, que quer a salvação dos pecadores, não os destruirá imediatamente, mas lhes enviará uma série de pragas para adverti-los, como fizera contra o Faraó e os egípcios (8-9; cf. 16). Esforço inútil: por causa de seu endurecimento, Deus destruirá os ímpios perseguidores (17), que procuravam corromper a terra, induzindo-a a adorar Satanás (alusão ao culto dos imperadores da Roma gentílica); seguem-se uma lamentação sobre Babilônia (Roma) destruída (18) e cantos de triunfo no céu (19,1-10). Nova visão retoma o tema da destruição da Besta (a Roma perseguidora), realizada desta vez por Cristo glorioso (19,11-21). Então inicia-se um período de prosperidade para a Igreja (20,1-6), que terminará com novo assalto de Satanás contra ela (20,7s), o aniquilamento do Inimigo, a ressurreição dos mortos e seu julgamento (20,11-15) e finalmente o estabelecimento definitivo do Reino celeste, na alegria perfeita, depois de aniquilar a morte (21,1-8). Uma visão retrospectiva descreve o estado de perfeição da nova Jerusalém durante seu reinado sobre a terra (21,9s).

Esta é a interpretação histórica do Apocalipse, seu sentido primeiro e fundamental. Mas o alcance do livro não se detém aí, pois trata de valores eternos sobre os quais se pode apoiar a fé dos fiéis de todos os tempos. Já no Antigo Testamento a confiança do povo santo baseava-se na promessa de Deus de permanecer “com o seu povo” (cf. Ex 25,8+), presença que significava proteção contra os inimigos para realizar a salvação. Também agora, e de modo muito mais perfeito, Deus está com seu novo povo, que uniu consigo na pessoa do seu Filho, o Emanuel (Deus conosco); e a Igreja vive desta promessa de Cristo ressuscitado: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Sendo assim, os fiéis nada têm a temer; ainda que tenham de sofrer momentaneamente pelo nome de Cristo, obterão a vitória definitiva contra Satanás e todas as suas maquinações.

Em seu estado atual, o texto do Apocalipse apresenta certo número de duplicatas, de cortes na sequência das visões e de passagens aparentemente fora do contexto. Os comentadores tentaram explicar essas anomalias de múltiplas maneiras: compilação de fontes diferentes, deslocamento acidental de certas passagens ou capítulos etc. Entre as explicações possíveis, propomos a seguinte hipótese.

A parte propriamente apocalíptica (Ap 4-22) parece ser composta de dois apocalipses distintos, escritos pelo mesmo autor em datas diferentes, e depois unidos num só texto por outra mão. Os dois textos primitivos abarcariam as seções seguintes:

Texto I Texto II
Prólogo: O livrinho devorado 10,1-2a.3-4.8-11
Satanás contra a Igreja 12,7-12
A Besta contra a Igreja 12,1-6.13-17 13
Anúncio e preâmbulos do Grande Dia da ira 4-9; 10,1.2b.5-7; 11,14-18 14-16
O Grande Dia da Ira
    Apresentação de Babilônia 17,1-9.15-18 17,10.12-14
    Queda de Babilônia 18,1-3 (cf. 14,8)
    Os eleitos preservados 18,4-8
    Lamentação sobre Babilônia 18,9-13.15-19.21.24 18,14.22-23
    Cantos de triunfo 19,1-10 18,20 (cf. 16,5-7)
O reino messiânico 20,1-6
O combate escatológico 20,7-10 19,11-21
O Julgamento 20,13-15 20,11-12
A Jerusalém futura 21,9-22,2 e 22,6-15 21,1-4; 22,3-5 21,5-8
Apêndice: As duas testemunhas 11,1-13.19

Quanto às cartas às sete Igrejas (1-3), embora destinadas a serem lidas junto com os outros dois textos, devem ter existido primeiro na condição de texto separado.

Tal suposição não consegue levar-nos à evidência. Ela inspirou as grandes divisões inseridas abaixo, no texto do livro, mas não o pormenor da anotação, de modo que o leitor pode dedicar-se à leitura seguida do Apocalipse, sem se preocupar com os dois textos primitivos, deixando-se cativar pela profusão, complicada mas possante de imagens com que o autor apresenta sua mensagem de certeza e de esperança. O sacrifício do Cordeiro conquistou a vitória decisiva, e, sejam quais forem os males que sofre a Igreja de Cristo, ela não pode duvidar da fidelidade de Deus até a hora em que o Senhor virá, “em breve” (1,1; 22,20). O Apocalipse é a grande epopeia da esperança cristã, o canto de triunfo da Igreja perseguida.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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Introdução às Epístolas Católicas

Sete epístolas do NT que não são de são Paulo foram reunidas bem cedo numa mesma coleção, não obstante suas origens diversas; são: uma de são Tiago, uma de são Judas, duas de são Pedro, três de são João. Seu título, muito antigo, de “católicas”, deriva, sem dúvida, do fato de a maioria delas não ser dirigida a comunidades ou pessoas particulares, mas visar aos cristãos em geral.

A epístola de Tiago não foi aceita senão progressivamente na Igreja. Se sua canonicidade não parece ter criado problemas no Egito, onde Orígenes a cita como Escritura inspirada, Eusébio de Cesareia, no começo do séc. IV, reconhece que ela ainda é contestada por alguns. Nas Igrejas de língua siríaca, foi apenas no decurso do séc. IV que foi introduzida no cânon do NT. Na África, Tertuliano e Cipriano a desconhecem e o catálogo de Mommsen (cerca do ano 360) ainda não a contém. Em Roma, ela não figura no cânon de Muratori, atribuído a santo Hipólito (pelo ano 200) e é muito duvidoso que tenha sido citada por são Clemente de Roma, e pelo autor do Pastor de Hermas (cf. mais adiante). Portanto, só se impõe ao conjunto das Igrejas do Oriente e do Ocidente pelo fim do séc. IV.

Quando as Igrejas aceitaram a canonicidade desta epístola, identificaram comumente como seu autor Tiago “irmão do Senhor” (Mc 6,3; Mt 13,55p; cf. 12,46+), cuja função tão marcante na primeira comunidade de Jerusalém (At 12,17+; 15,13-21; 21,18-26; 1Cor 15,7; Gl 1,19; 2,9.12) foi coroada pelo martírio por mãos dos judeus, no ano 62 aproximadamente (Josefo, Hegesipo). Evidentemente ele não se identifica com o apóstolo Tiago, filho de Zebedeu (Mt 10,2p), que Herodes mandou matar em 44 (At 12,2), mas poder-se-ia pensar em identificá-lo com o outro apóstolo do mesmo nome, o filho de Alfeu (Mt 10,3p). Já os antigos hesitavam neste ponto e os modernos ainda o discutem, inclinando-se pela negativa. As palavras de Paulo em Gl 1,19 foram interpretadas em ambos os sentidos.

Ademais, o verdadeiro problema situa-se noutra parte e mais profundamente. Consiste na própria atribuição da epístola a Tiago, “irmão do Senhor”. Esta atribuição, efetivamente, não está isenta de dificuldades. Se de fato a carta tivesse sido escrita por ele, personagem de primeira grandeza, não se compreenderia bem a dificuldade que ela teve para se impor na Igreja como Escritura canônica. Além disso,foi escrita diretamente em grego, com elegância, riqueza de vocabulário, e senso da retórica (diatribe) que surpreendem bastante em um galileu; sem dúvida, Tiago poderia ter sido ajudado por um discípulo de boa cultura helênica, mas esta é conjetura que não se consegue provar. Enfim, e sobretudo, a epístola apresenta afinidade muito notável com escritos que foram compostos no fim do séc. I ou começo do séc. II, especialmente com a primeira carta de Clemente de Roma e o Pastor de Hermas.

Muitas vezes se afirmou que estas duas obras utilizaram amplamente a epístola de Tiago; hoje se reconhece cada vez mais que tais afinidades se explicam pela utilização de fontes comuns e pelo fato de os autores destas diferentes obras terem encontrado dificuldades análogas. Por isso, numerosos autores, atualmente, situam a composição da epístola de Tiago no fim do séc. I, ou mesmo no começo do séc. II. O caráter arcaico de sua cristologia se explicaria não pela antiguidade de sua redação, mas pelo fato de ela provir de ambientes judaico-cristãos, herdeiros do pensamento de Tiago, irmão do Senhor, e alheios à evolução da teologia cristã-primitiva.

Entretanto, caso se julgue necessário manter a autenticidade da epístola, sua composição deverá ser datada antes de 62, ano da morte de Tiago. Então, duas hipóteses são possíveis, conforme a posição que se adota no tocante às relações entre Tg e Gl/Rm a respeito do problema da justificação pela fé (cf. mais adiante). Para certos autores, é Tiago que entra em polêmica contra Paulo, ou melhor, contra os cristãos que deformavam o ensinamento de Paulo; nesse caso, ele teria escrito a sua epístola pouco tempo antes de morrer. Para outros, que são cada vez menos numerosos, foi Paulo que quis combater as ideias de Tiago, cuja epístola teria sido composta então entre 45 e 50, data esta que explicaria o caráter arcaico de sua cristologia. O que acima dissemos dá a entender que é pouco verossímil uma data tão antiga.

Seja qual for a sua origem, este escrito é dirigido às “doze tribos da Diáspora” (1,1), que são certamente os cristãos de origem judaica, dispersas no mundo greco-romano, sobretudo nas regiões próximas à Palestina, como a Síria ou o Egito. Que esses destinatários sejam convertidos do judaísmo é o que confirma o corpo da carta. O uso constante que o autor nela faz da Bíblia, supõe que esta lhe é familiar, tanto mais que ele procede, nas suas argumentações, menos pelo modo de argumentação a partir de citações explícitas (como, por exemplo, Paulo, ou o autor da epístola aos Hebreus) do que por reminiscências espontâneas e alusões subjacentes por toda parte. Ele se inspira particularmente na literatura sapiencial, para extrair dela lições de moral prática. Mas depende também profundamente dos ensinamentos do Evangelho, e seu escrito não é puramente judaico, como algumas vezes se tem afirmado. Ao contrário, aí se encontram continuamente o pensamento e as expressões prediletas de Jesus, e também desta vez, menos na forma de citações expressas tiradas da tradição escrita, do que mediante a utilização de tradição oral viva. Em suma, trata-se de um sábio judeu-cristão que repensa, de maneira original, as máximas da sabedoria judaica em função do cumprimento que elas encontraram na boca do Mestre. Vemos seu ponto de vista cristão sobretudo no enquadramento apocalíptico em que situa seus ensinamentos morais. Esses ensinamentos mostram também sua afinidade com os do Evangelho de Mateus, mais judaico-cristão.

Seu escrito não se enquadra facilmente nos moldes convencionais do estilo epistolar. Constitui antes homilia, amostra daquela catequese que devia estar em uso nas assembleias judaico-cristãs de seu tempo. Nele se encontra uma série de exortações morais que se seguem com pouco nexo, ora agrupando sentenças que tratam do mesmo tema, ora unindo as frases por meio de assonâncias verbais. São avisos a respeito da paciência nas provações (1,1-12; 5,7-11), a origem da tentação (1,13-18), o domínio da língua (1,26; 3,1-12), a importância do bom relacionamento e da misericórdia (2,8.13; 3,13-4,2; 4,11s), a eficácia da oração (1,5-8; 4,2s; 5,13-18 etc.). O sacramento da unção dos enfermos tem seu lugar teológico em 5,14s (concílio de Trento).

Dois temas principais orientam toda essa parênese. O primeiro exalta os pobres e adverte severamente os ricos (1,9-11; 1,27-2,9; 4,13-5,6): esta atenção para com os humildes, os favoritos de Deus, prende-se a antiga tradição bíblica e de modo todo especial às bem-aventuranças do Evangelho (Mt 5,3+). O segundo insiste na execução das boas obras e acautela contra a fé estéril (1,22-27; 2,10-26). Sobre este último ponto encontra-se até uma discussão polêmica (2,14-26), que muitos intérpretes julgam dirigida contra Paulo. Com efeito, é forçoso reconhecer que existem contatos bastante notáveis entre Tg e Gl/Rm, sobretudo na interpretação diversa de textos
bíblicos idênticos referentes a Abraão. A presença de tal conflito entre os livros do NT é índice da riqueza do ensinamento divino, e não tanto causa de escândalo. Podemos destacar duas coisas: de início, que para além de uma oposição exigida por preocupações pastorais diferentes, Paulo e Tiago estão de acordo a respeito da questão de fundo das coisas (cf. 2,6; 2,14+), uma vez que Paulo jamais está contra a moral (ver, por exemplo, Rm 12; 13), mas contra a imposição de preceitos cerimoniais aos convertidos do paganismo, como a circuncisão; Tiago, por sua vez jamais se refere a esses preceitos, e sim à moral. Por outro lado, este tema da fé e das obras, tão naturalmente exigido pelos dados da religião judaica, pode bem ter sido uma questão tradicional de discussão que eles trataram de modo independente. A Igreja antiga aceitou finalmente a epístola de Tiago para conservar o equilíbrio dialético entre a fé e as obras, entre Paulo e Tiago.

Judas, que se chama “irmão de Tiago” (v. 1), parece apresentar-se, também, como um dos “irmãos do Senhor” (Mt 13,55p). Nada nos obriga a identificá-lo com o apóstolo que tem o mesmo nome (Lc 6,16; At 1,13; cf. Jo 14,22); ele mesmo também se distingue do grupo apostólico (v. 17). A medíocre importância da personagem torna difícil a hipótese do pseudônimo, mas a data tardia da epístola toma este fato possível e até provável. O autor mostra notável conhecimento das fontes judaicas, sinal de que representa uma igreja culta, provida de livros.

Na realidade, esta epístola foi aceita desde o ano 200 pela maioria das Igrejas como Escritura canônica. O uso que faz de fontes apócrifas (Henoc nos vv. 7.14s; Assunção de Moisés no v. 9) suscitou de fato algumas dúvidas desde a antiguidade, mas não deveria admirar, pois este recurso legítimo a escritos judaicos, então em voga, de modo algum equivale a reconhecer-lhes caráter inspirado.

A intenção de Judas é unicamente estigmatizar os falsos doutores que põem em perigo a fé cristã. Ameaça-os com um castigo divino ilustrado com precedentes da tradição judaica (vv. 5-7) e a descrição que dá de seus erros parece também influenciada por essas lembranças do passado (v. 11). Ela é, aliás, bastante vaga e certamente não autoriza a identificá-los com o gnosticismo do séc. II. A impiedade e a licensiosidade moral que lhes censura, particularmente suas blasfêmias contra o Cristo Senhor e os anjos (vv. 4.8-10), podem ter existido no seio do cristianismo desde o séc. I, sob o influxo das tendências sincretistas combatidas pela epístola aos Colossenses, as Pastorais e o Apocalipse.

Certos dados convidam, porém, a não remontar demais pelo séc. I adentro. As pregações dos apóstolos já pertencem ao passado (vv. 17s). A fé é concebida como dado objetivo “transmitido de uma vez por todas” (v. 3). Parece que são utilizadas as epístolas de Paulo. É verdade que a segunda epístola de Pedro, por sua vez, utiliza a de Judas, mas como diremos adiante, ela pode ser posterior à morte de são Pedro. Enfim, deve-se supor como data os últimos tempos da era apostólica.

Duas epístolas católicas se apresentam como escritas por são Pedro. A primeira, que traz no endereço o nome do príncipe dos apóstolos (1,1), foi recebida sem contestação desde os primórdios da Igreja; citada provavelmente por Clemente de Roma e certamente por Policarpo, é atribuída explicitamente a são Pedro a partir de lreneu. O apóstolo escreve de Roma (Babilônia 5,13), onde se encontra em companhia de Marcos, que chama de “seu filho”. Embora sejam muito poucas as informações que temos a respeito do fim de sua vida, uma tradição muito segura afirma, com efeito, que se transferiu para a capital do império, onde morreu mártir no tempo de Nero (em 64 ou 67?). Escreve aos cristãos “da Diáspora”, especificando os nomes de cinco províncias (1,1), que representam praticamente o Conjunto da Ásia Menor. O que diz do passado deles (1,14.18; 2,9s; 4,3) sugere que são convertidos do paganismo, embora não se exclua a presença de judeu-cristãos entre eles. É por isso que lhes escreve em grego; e, se este grego, simples, mas correto e harmonioso, parece de qualidade boa demais para o pescador galileu, conhecemos o nome do discípulo secretário que pode tê-lo assistido na redação: Silvano (5,12), comumente identificado com o antigo companheiro de são Paulo (At 15,22+).

A finalidade desta epístola é sustentar a fé dos seus destinatários em meio às provações que os assaltam. Houve quem procurasse identificá-las com perseguições oficiais, tais como as de Domiciano ou mesmo de Trajano, o que suporia época bem posterior a são Pedro. Mas as alusões da epístola não exigem nada disso. Trata-se, antes, de prepotências, injúrias e calúnias que os convertidos sofrem, por causa de sua pureza de vida, da parte daqueles cujos desregramentos eles abandonaram (2,12; 3,16; 4,4.12-16).

Outra dificuldade levantada contra a autenticidade da epístola é o uso considerável que parece fazer de outros escritos do NT, sobretudo de Tg, Rm e Ef; fato tanto mais surpreendente, porque o Evangelho parece pouco utilizado. Mas as reminiscências evangélicas são numerosas, apesar de permanecerem discretas; se fossem mais destacadas, não faltaria quem dissesse que algum pseudônimo tentou desta forma fazer-se passar por Pedro. Quanto aos contatos com Tiago e Paulo, não se deve exagerar. Não aparece na epístola nenhum dos temas especificamente paulinos (valor transitório da Lei judaica, Corpo de Cristo etc.). E muitos dos que são considerados também como “paulinos”, porque nos são conhecidos sobretudo através das epístolas de Paulo, de fato são apenas patrimônio comum da primeira teologia cristã (valor redentor da morte de Cristo, fé e batismo etc.). Os trabalhos da crítica reconhecem sempre mais a existência de formulários de catequeses primitivas, de florilégios de textos do AT, que podem ter sido utilizados paralelamente pelos diversos escritos em questão, sem que tenha havido entre eles dependência direta. Se apesar disso resta certo número de casos nos quais 1Pd parece de fato ter-se inspirado em Rm ou Ef, podemos admiti-lo sem rejeitar a autenticidade; são Pedro não possuía a envergadura teológica de são Paulo e pode muito bem ter recorrido aos escritos deste último, sobretudo ao dirigir-se, como neste caso, a círculos de influência paulina. Além disso, não se deve esquecer que seu secretário Silvano era discípulo de ambos os apóstolos. Enfim, é justo assinalar, ao lado destas afinidades com os escritos paulinos, as semelhanças que certos intérpretes julgam ter descoberto entre 1Pd e outros escritos de cunho petrino, tais como o segundo evangelho ou os discursos de Pedro nos Atos.

A carta deve ser anterior à morte de Pedro (64 ou 67), mas talvez só alguns anos mais tarde é que Silvano a deu por terminada, segundo as diretrizes de Pedro e sob a sua autoridade. Isto seria até mesmo provável, se se constatasse que a epístola é compósita, combinando fragmentos diversos, entre os quais uma homilia de origem batismal (1,13-4,11). Mas essas distinções não conseguem ultrapassar o nível da conjetura.

De caráter essencialmente prático, este escrito não deixa de possuir também uma apreciável riqueza de doutrina. Nele se encontra um maravilhoso resumo da teologia em voga na época apostólica, teologia de comovente ardor na sua simplicidade. Uma das ideias mestras é a corajosa perseverança nas tribulações, tendo Cristo como modelo (2,21-25; 3,18; 4,1): como ele, os cristãos devem sofrer com paciência, felizes se as suas tribulações provêm de sua fé e de sua santa conduta (2,19s; 3,14; 4,12-19; 5,9), respondendo ao mal apenas com o bem, a caridade, a obediência aos poderes públicos (2,13-17) e a mansidão para com todos (3,8-17; 4,7-11.19). Há uma passagem difícil e compreendida pelos exegetas de modo diverso (3,19s; cf. 4,6), conforme interpretam a “pregação” de Cristo como anúncio de salvação ou de castigo, e conforme reconheceram nos “espíritos encarcerados” ou os ímpios mortos no tempo do dilúvio, ou os anjos decaídos de que fala a tradição bíblica e apocalíptica. Seja como for, este ato do Senhor está bem situado no momento de sua morte, e temos aí um dos principais lugares teológicos do dogma da descida à mansão dos mortos.

Não há dúvida de que também a segunda epístola se apresenta como sendo de são Pedro. Não apenas no endereço (1,1) o apóstolo põe seu nome, mas ainda alude ao anúncio de Jesus a respeito de sua morte (1,14) e afirma ter sido testemunha da transfiguração (1,16-18). Enfim,faz alusão a uma primeira carta (3,1), que deve ser 1Pd.

Se escreve segunda vez aos mesmos leitores, é com dupla finalidade: pô-los de sobreaviso contra os falsos doutores (2) e responder à inquietação causada pela demora da Parusia (3). Rigorosamente falando, podemos imaginar estes falsos doutores e esta inquietação desde o fim da vida de são Pedro. Mas há outras considerações que põem em dúvida a autenticidade e sugerem data mais tardia. A linguagem apresenta notáveis diferenças em relação a 1Pd. Todo o cap. 2 é uma retomada, livre mas patente, da epístola de Judas. A coleção das epístolas de Paulo parece já formada (3,15s). O grupo apostólico é posto em paralelo com o grupo profético e o autor fala como se não fizesse parte deles (3,2). Estas dificuldades autorizam certas dúvidas que surgiram desde a antiguidade. Não apenas o uso da epístola não é atestado com certeza antes do séc. IlI, mas também alguns a rejeitavam, como o testemunham Orígenes, Eusébio e Jerônimo, Além disso, muitos críticos modernos recusam-se, por sua vez, a atribuí-la a são Pedro, e é difícil não lhes dar razão. Mas se um discípulo posterior se valeu da autoridade de Pedro, pode ser que tivesse algum direito de o fazer, talvez porque pertencesse aos círculos que dependiam do apóstolo, ou então porque utilizasse escrito proveniente dele e o adaptasse e completasse com o auxílio de Jd. Isso não equivale necessariamente a cometer falsificação, pois os antigos tinham ideias diferentes das nossas sobre a propriedade literária e a legitimidade da pseudonímia.

Aliás, para nossa fé basta que a epístola tenha sido seguramente aceita pela Igreja como canônica e represente, por conseguinte, herança autêntica da época apostólica. Com isto, está garantida sua doutrina e merecem destaque particularmente a vocação cristã de “participação na natureza divina” (1,4), a definição do caráter inspirado das Escrituras (1,20s), a certeza da Parusia vindoura, não obstante a demora e a incerteza do seu dia, e o anúncio, após a destruição do mundo pelo fogo, de um mundo novo em que habitará a justiça (3,3-13).

O problema central a que a epístola se refere é a teodiceia, isto é, o julgamento justo de Deus, contra aqueles que dizem não existir providência nem julgamento em Deus, nem vida no além, nem recompensa ou punição depois da morte — visões espalhadas por epicuristas gentios e judeus, refutadas também por apologistas filósofos (por exemplo, Plutarco) e rabinos. O problema do atraso da Parusia é compreendido em tal contexto pelo autor inspirado. A epístola é dirigida a leitores de cultura mista, ao mesmo tempo bíblica e greco-romana e, portanto, proveniente, sem dúvida, de uma Igreja urbana. O conhecimento de sua própria cadeia de autoridades, o sagrado de suas próprias tradições — evangélicas, paulinas e apostólicas (Judas) —, a preocupação de estabelecer uma harmonia coerente e uma interpretação normativa dessas tradições recebidas (1,12-15) são também indícios de que a epístola data da metade do século II d.C. A carta, portanto, permanece um exemplo interessante da fidelidade radical, em situação transformada, à mensagem central de Jesus, a vinda próxima do Reino de Deus (Mc 1,15+).

As três epístolas de são João foram já apresentadas juntamente com o quarto evangelho.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Introdução à Epístola aos Hebreus

Ao contrário de todas as precedentes, a epístola aos Hebreus teve sua autenticidade posta em dúvida desde a antiguidade. Raramente se contestou sua canonicidade, mas a Igreja do Ocidente, até o fim do séc. IV, recusou-se a atribuí-la a são Paulo; e se a do Oriente aceitou esta atribuição, não foi sem fazer às vezes certas reservas no tocante à sua forma literária (Clemente de Alexandria, Orígenes). É que, com efeito, a linguagem e o estilo deste escrita são de uma pureza elegante, que não pertence a são Paulo. A maneira de citar e de utilizar o AT não é a sua. Faltam aí o endereço e o preâmbulo, com os quais ele costuma iniciar suas cartas.

Pode-se todavia reconhecer ressonâncias do pensamento paulino onde se desenvolve o tema da fé: a Lei antiga foi dada por intermédio dos anjos (2,2; cf. Gl 3,19+), a falha da geração que saiu do Egito e que desapareceu durante a travessia do deserto constitui uma advertência para os crentes (3,7-4,2; cf. 1Cor 10,1-13), os destinatários são como crianças que têm necessidade do leite maternal (5,12; cf. 1Cor 3,1-3; 1Pd 2,2), Abraão é o exemplo da fé (6,12-15; 11,19; cf. Rm 4,17-21), a Aliança do Sinai se opõe à Jerusalém nova (12,18-24; cf. Gl 4,24-26) etc. Um “bilhete” final cita Timóteo, e a linguagem desse escrito relembra frequentemente as epístolas pastorais e as do cativeiro.

Essas considerações levaram muitos críticos católicos e protestantes a admitir Um redator que se inscreve na ambiência paulina, mas não há acordo quando se trata de identificar o autor anônimo. Todo tipo de nomes foram propostos, tais como Barnabé, Aristião, Silas, Apolo, Priscila e outros. Parece mais simples tentar traçar seu retrato: trata-se de judeu de cultura helenística, familiar na arte oratória, atento a uma interpretação pontual das passagens veterotestamentárias que utiliza, frequentemente segundo a versão dos LXX, para apoiar seus argumentos.

O lugar e a data de composição, assim como os destinatários, também não são seguros. Parece que o escrito foi enviado da Itália (13,24+, mas a expressão não é clara) e redigido antes da destruição de Jerusalém. Contudo, se ele fala efetivamente da liturgia veterotestamentária como de realidade ainda atual (8,4s; 13,10), ele nunca alude ao Templo destruí do por Tito em 70 d.C. e se refere sempre à Tenda do deserto e aos textos que a descrevem, ainda em vigor além das vicissitudes históricas concernentes ao santuário, Até a ressonância de certas passagens de Hb 1,1-13 na Prima Clementis — quer se aceite, quer não, a hipótese de um fundo comum de referências bíblicas — não é muito útil, levando-se em conta as dificuldades de datação do escrito clementino. Hb faz em seguida alusão a uma perseguição já terminada (10,32-34) ou em vias de cessar (13,3), mas esses dados são demasiado exíguos para nos ajudar a decidir sobre uma data. O que é seguro, por outro lado, é certa distância no tempo em relação à pregação apostólica (2,3-4) e ao primeiro anúncio recebido pelos próprios destinatários e feito pelos “chefes” que não são mais bem identificados (13,7+; cf. 10,32). Hb reserva unicamente a Cristo o título de “apóstolo” (3,1+).

Dado que a preocupação principal do escritor parece a de estar atento contra o perigo da apostasia (6,4-8; 10,19-39) e de confortar aqueles, que parecem lamentar o esplendor do culto mosaico e o lado tranquilizador — inclusive do ponto de vista psicológico — de uma religião oficial que as jovens comunidades cristãs não estavam à altura de garantir (9,9b-10), pode-se pensar que os destinatários eram judeus convertidos em meio helenístico ou então gentios fascinados pela cultura hebraica, à imagem dos leitores aos quais se dirige Fílon de Alexandria. O que é seguro é que deviam estar familiarizados — através da catequese ou da exegese judaica contemporânea — com certo jargão técnico saído da leitura dos LXX (cf. 5,10+; 7,11) como também com certas interpretações tradicionais (7,1-3+; 11,17-19+). Não se pode dizer o mesmo em relação ao Templo: as descrições de lugares e de ritos são abundantes mas nem sempre precisas (cf. 9,1-4+; 10,11+; 13,21).

Há também discussão a propósito do gênero literário ao qual pertenceria Hb: carta, discurso, tratado sob forma epistolar? A língua tem, com efeito, a espontaneidade da linguagem falada (p. ex.: 2,5; 7,4; 9,5; 11,32), ao mesmo tempo o conjunto apresenta desligamentos súbitos (3,1; 8,1; 10,1; 13,1), repetições (2,1-4 e 12,25; 2,17-18 e 4,14-16; 6,4-8 e 10,26-31) e sobretudo retomadas do tema principal depois de longos intervalos que se encaixam mal no contexto (4,4-16; 6,20; 8,1-2; 9,11; 10,19-23). Isso tudo não relembra o gênero da homilia, que deve manter a atenção do auditório do começo ao fim. Além disso, a disposição quase concêntrica dos temas coaduna-se menos ainda com o gênero do discurso: aparentemente fala-se do sacerdócio e do sacrifício de Cristo numa passagem central (7,1-10,8); da perseverança na fé, em duas passagens simétricas (3,1-4,14 e 10,19-12,13) enquadradas por dois discursos, um sobre os anjos (1,5-2,18) e o outro como parênese de feições apocalípticas (12,14-13,19). Não haveria ouvinte que não se perdesse por aí!

Ainda é possível reconhecer dois cursos de argumentos. O primeiro toma seu impulso na exegese cristo lógica do Sl 8 em 2,5-18, prolonga-se em 5,1-10 e atinge seu pleno desenvolvimento em 7,1-28; 10,1-18 é enriquecido com uma parênese (10,26-36 e 12,14-17) e chega à sua conclusão em 13,20-21. Este primeiro curso é especificamente consagrado ao sacerdócio de Cristo. O segundo curso desenvolve o tema da fé, seguindo o exemplo do povo do êxodo, e é reconhecível sobretudo em 1,1-3; 2,1-4; 3,1-4,13; 10,36-12,3; 12,18-25. É bem no interior desse tema que estão concentrados os traços mais marcados de inspiração paulina. A inserção (cf. 13,1+) dos capítulos 8 e 9, que rompe a continuidade entre 7,28 e 10,1+ (que apresenta duplicatas com 10,1-18 e que constitui o tema ao qual se apela mais frequentemente nas retomadas do assunto, acima citados), pode ser considerada como desenvolvimento complementar do primeiro curso de argumentos.

É provável que duas homilias, escritas para serem pronunciadas, foram fundidas na fase redacional de modo a reagrupar as parêneses no fim do texto. É a esta fase que se poderia atribuir a inserção de 8-9, as retomadas e a recapitulação de 13,9b-15. Certamente, qualquer subdivisão tem seu lado arbitrário; seguirei esta na apresentação da tradução do texto.

O primeiro autor concebe a revelação bíblica como um “continuum” (1,1-2) em quatro tempos: o tempo dos patriarcas e das promessas (6,13-18); o tempo da Lei, “sombra” (8,5; 10,1) e realização “carnal” (7,16); a reedição das promessas através de Davi e dos profetas (4,7; 7,28; 8,7-13; a “imagem” de 10,1); e, enfim, a era escatológica, o “hoje” (4,7) que nos engloba (11,39-40), inaugurado por Cristo. O autor esboça traços desse tempo a partir da concepção do universo constituído em dois planos, os “éons”: o universo imanente que não vemos ainda submetido a Cristo (2,8) e o universo divino, fundamento da realidade segundo a mentalidade helenística e segundo certas correntes da apocalíptica judaica, no qual Jesus entrou como rei (1,6) e como sacerdote depois de ser libertado do poder da morte (5,7; 13,20). Uma reedição posterior (cc. 8-9), apresenta a ação sacerdotal eterna que ele exerce, em continuidade com a oferta de si mesmo realizada durante sua vida. Isso permite ao fiel aproximar-se de Deus com plena confiança, sem mediação humana.

Com efeito, a vida do fiel deve ser considerada como um êxodo contínuo para uma pátria prometida (4,1-6) que não pode ser identificada com um lugar terrestre, seja ele qual for (4,8; 11,13; 13,14).

Esta afirmação, que está longe de ser banal para hebreus — mesmo helenizados — vivendo entre duas revoltas judaicas (64-135 d.C.), deve ser integrada à ideia de que a existência terrestre, vivida na obediência a Cristo (5,9) precursor e guia da salvação (6,20; 2,10), é ela própria uma liturgia (13,15-16).


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Introdução às Epístolas de São Paulo

São Paulo nos é conhecido, melhor que qualquer outra personalidade do NT, por suas Epístolas e pelos Atos dos Apóstolos, duas fontes independentes que se confirmam e se completam , não obstante algumas divergências em pormenores. Além disso, alguns sincronismos com acontecimentos conhecidos através da história — sobretudo o proconsulado de Galião em Corinto (At 18,12) — permitem precisar certas datas e estabelecer assim uma cronologia relativamente correta da vida do Apóstolo.

Nascido em Tarso da Cilícia (At 9,11; 21,39; 22,3), pelo início de nossa era (Fm 9), de uma família judaica da tribo de Benjamim (Rm 11,1; Fl 3,5), mas ao mesmo tempo cidadão romano (At 16,37s; 22,25-28, 23,27), recebeu desde a infância, em Jerusalém, de Gamaliel, séria formação religiosa segundo a doutrina dos fariseus (At 22,3; 26,4s; Gl 1,14; Fl 3,5). No princípio, foi perseguidor implacável da jovem Igreja cristã (At 22,4s; 26,9-12; Gl 1,13; Fl 3,6); teve conversão súbita no caminho de Damasco, devida à aparição de Jesus ressuscitado, que, ao lhe manifestar a verdade da fé cristã: indicou-lhe sua missão especial de Apóstolo dos gentios (At 9,3-19p; Gl 1,12.15s; Ef 3,2s). A partir deste momento (cerca do ano 33), consagrará toda a sua vida ao serviço de Cristo que o “conquistou” (Fl 3,12). Depois de uma temporada na Arábia e do regresso a Damasco (Gl 1,17), onde já prega (At 9,20), sobe a Jerusalém pelo ano 37 (Gl 1,18; At 9,26-29); depois retira-se para a Síria-Cilícia (Gl 1,21; At 9,30), de onde é reconduzido a Antioquia por Barnabé, com o qual ensina (At 11,25s; cf. 9,27). A primeira missão apostólica, no início dos anos 40, fá-lo anunciar o evangelho em Chipre, Panfília, Pisídia e Licaônia (At 13-14); foi então, segundo Lucas, que ele começou a usar seu nome romano Paulo, de preferência ao nome judaico Saulo (At 13,9), e é também então que suplanta seu companheiro Barnabé, em razão da sua preponderância na pregação (At 14,12). Sua segunda viagem missionária (At 15,36-18,22), de 47 a 51, levou-o à Europa. Encontrou Galião em Corinto durante o verão de 51, depois do que ele sobe a Jerusalém para participar do concílio apostólico, onde se admite, em parte por sua influência, que a Lei judaica não obriga os cristãos convertidos do paganismo. (At 15, Gl 2,3-6). Ao mesmo tempo sua missão de Apóstolo dos pagãos é oficialmente reconhecida (Gl 2,7-9), e parte de novo para novas viagens apostólicas. A segunda (At 15,36-18,22) e a terceira (At 18,23-21,17), ocupam respectivamente os anos 50-52 e 53-58), falaremos disso mais adiante, para situar as diversas epístolas que as assinalam. Em 58, é preso em Jerusalém (At 21,27-23,22) e retido na prisão em Cesareia da Palestina até o ano 60 ([At 23,23|At 23]]-26,32). No final de 60 o procurador Festo o envia escoltado a Roma (At 27,1-28,16), onde Paulo permanece dois anos (At 28,30), de 61 a 63. Aqui se limita nosso conhecimento certo da vida de Paulo. Tradições antigas, baseadas em parte sobre as epístolas pastorais (sobre cujo valor histórico veja abaixo), afirmam que depois de dois anos o processo foi anulado por falta de provas, e Paulo viajou de novo no Leste, ou talvez realizou seu projeto de visitar a Espanha (Rm 15,24.28). A tradição também sustenta que um subsequente aprisionamento em Roma terminou no martírio, entre 64 e 68 d.C.

As Epístolas e os Atos nos traçam também um retrato impressionante da personalidade do Apóstolo.

Paulo é apaixonado, alma de fogo que se consagra sem limites a um ideal. E este ideal é essencialmente religioso. Para ele, Deus é tudo e ele o serve com lealdade absoluta, primeiro perseguindo os que ele tem na conta de hereges (Gl 1,13; cf. At 24,5.14), depois pregando Cristo, após haver entendido por revelação que só nele esta a salvação. Este zelo incondicional traduz-se pela vida de abnegação total ao serviço daquele que ele ama. Trabalhos, fadigas, sofrimentos, privações, perigos de morte (1Cor 4,9-13; 2Cor 4,8s; 6,4-10; 11,23-27), nada lhe importa, contanto que cumpra a missão pela qual se sente responsável (1Cor 9,16s). Nenhuma dessas coisas o poderá separar do amor de Deus e de Cristo (Rm 8,35-39); ou melhor, tudo isso é de inestimável valor, por conformá-lo à paixão e à cruz de seu Mestre (2Cor 4,10s|2Cor 4]]; Fl 3,10s). O sentimento de sua eleição singular lhe inspira ambições imensas. Quando confessa sua solicitude por todas as igrejas (2Cor 11,28; cf. CI 1,24), quando declara haver trabalhado mais que os outros (1Cor 15,10; cf. 2Cor 11,5),quando exorta seus fiéis a imitá-lo (1Cor 11,1+), não se trata de orgulho, é a altivez legítima e muito humilde de um santo: sabe-se o último de todos, ele, o perseguidor (1Cor 15,9; Ef 3,8), e atribui unicamente à graça de Deus as grandes coisas que se fazem por seu intermédio (1Cor 15,10; 2Cor 4,7; Fl 4,13; Cl 1,29; Ef 3,7).

O ardor do seu coração sensível se traduz bem nos sentimentos que demonstra por seus fiéis. Cheio de abandono confiante para com os de Filipos (Fl 1,7s; 4,10-20), inflama-se de indignação quando os da Galácia se dispõem a trair sua fé (Gl 1,6; 3,1-3), e sente doloroso embaraço diante da inconstância vaidosa dos de Corinto (2Cor 12,11-13,10). Para censurar os inconstantes, sabe manejar a ironia (1Cor 4,8; 2Cor 11,7; 12,13) ou até as duras reprimendas (Gl 3,1-3; 4,11; 1Cor 3,1-3; 5,1-2; 6,5; 11,17-22; 2Cor 11,3s). Mas é para o bem deles (2Cor 7,8-13). E logo modera suas repreensões com acentos de tocante ternura (2Cor 11,1-2; 12,14s): não é ele o único pai que eles têm (1Cor 4,14s; 2Cor 6,13; cf. 1Ts 2,11; Fm 10), a mãe deles (1Ts 2,7; Gl 4,19)? Que se restabeleçam, pois, as boas relações de antigamente (Gl 4,12-20; 2Cor 7,11-13)!

De fato, suas censuras visam menos a eles do que aos adversários que tentam seduzi-los: os cristãos judaizantes que queriam reconduzir seus convertidos para debaixo do jugo da Lei (Gl 1,7; 2,4; 6,12s). Para com eles não tem consideração (1Ts 2,15s; Gl 5,12; FI 3,2). A suas pretensões orgulhosas e carnais opõe o autêntico poder espiritual que se manifesta em sua fraca pessoa (2Cor 10,1-12,12) e a sinceridade, comprovada pelo seu desinteresse (At 18,3+). Houve quem pensasse que seus rivais fossem os grandes apóstolos de Jerusalém. Nada o prova; trata-se, antes, de judeu-cristãos integristas que alegavam fidelidade a Pedro (1Cor 1,12) e Tiago (Gl 2,12) para minar a confiança em Paulo. Com efeito, ele respeita sempre a autoridade dos verdadeiros apóstolos (Gl 1,18; 2,2), embora reivindicando o título igual a ser testemunha de Cristo (Gl 1,11s; 1Cor 9,1; 15,8-11); e se lhe acontece resistir ao próprio Pedro numa determinada questão (Gl 2,11-14), sabe também mostrar-se compreensivo (At 21,18-26) e empenha-se com o maior carinho naquela coleta em favor dos pobres de Jerusalém (Gl 2,10), na qual vê o melhor penhor da união entre os cristãos da gentilidade e os da Igreja-mãe (2Cor 8,14; 9,12-13; Rm 15,26s).

Sua pregação é antes de tudo o “querigma” apostólico (At 2,22+), proclamação do Cristo crucificado e ressuscitado conforme as Escrituras (1Cor 2,2; 15,3-4; Gl 3,1). “Seu” evangelho (Rm 2,16; 16,25) não lhe é próprio; é o da fé comum (Gl 1,6-9; 2,2; Cl 1,5-7), apenas com uma aplicação especial à conversão dos gentios (Gl 1,16; 2,7-9), na linha universalista inaugurada em Antioquia. Paulo é solidário das tradições apostólicas, que cita ao se apresentar a ocasião (1Cor 11,23-25; 15,3-7), supõe por toda parte e às quais certamente deve muito. Parece que não conheceu Cristo durante sua vida (cf. 2Cor 5,16+), mas conhece seus ensinamentos (1Cor 7,10s; 9,14). Aliás, é também testemunha direta, e sua convicção irresistível se apoia sobre a experiência pessoal; pois “viu” Cristo (1Cor 9,1; 15,8). Foi favorecido com revelações e êxtases (2Cor 12,1-4). O que recebeu da tradição, pode também atribuir, com toda a verdade, às comunicações diretas do Senhor (Gl 1,12; 1Cor 11,23).

Houve quem apontasse como causa destes fenômenos místicos um temperamento exaltado e doentio. Nada é menos fundado. A doença que o deteve na Galácia (Gl 4,13-15), provavelmente, não foi mais que uma crise de paludismo; e “o espinho na carne” (2Cor 12,7) poderia bem ser a oposição dentro de suas comunidades. Ele nada tem do imaginativo, se julgarmos pelas imagens pouco numerosas e corriqueiras que emprega: o estádio (1Cor 9,24-27; FI 3,12-14; 2Tm 4,7s), o mar (Ef 4,14), a agricultura (1Cor 3,6-8) e a construção (1Cor 3,10-17; Rm 15,20; Ef 2,20-22), dois temas que gosta de associar e misturar (1Cor 3,9; Cl 2,7; Ef 3,17; cf. Cl 2,19; Ef 4,16). Paulo é, antes, cerebral. Nele se une a um coração ardente a inteligência lúcida, lógica, exigente, preocupada em expor a fé segundo as necessidades dos ouvintes. É graças a isso que temos as admiráveis explanações teológicas com que envolve o querigma segundo as circunstâncias. Sem dúvida esta lógica não é a nossa. Paulo argumenta muitas vezes como rabino, segundo os métodos exegéticos que recebeu do seu meio e da sua educação (por exemplo, Gl 3,16; 4,21-31). Mas seu gênio sabe ultrapassar os limites desta herança tradicional, e é doutrina profunda que faz passar por canais que, para nós, são um tanto ultrapassados.

Além disso, esse semita tem também boa cultura grega, recebida talvez desde a infância em Tarso, enriquecida por repetidos contatos com o mundo greco-romano, e esta influência se reflete na sua maneira de pensar, bem como em sua linguagem e no estilo. Cita, dada a ocasião, autores clássicos (1Cor 15,33); e conhece certamente a filosofia popular baseada no estoicismo. Deve à “diatribe” cínico-estoica seu estilo de argumentação rigorosa, por meio de curtas perguntas e respostas (Rm 3,1-9.27-31), ou suas explanações por acumulação retórica (2Cor 6,4-10); e quando, ao contrário, usa frases longas e carregadas, nas quais as proposições se acumulam em vagas sucessivas (Ef 1,3-14; Cl 1,9-20), pode ainda encontrar seus modelos na literatura religiosa helenística. Fala correntemente o grego, com poucos semitismos. E o grego de seu tempo, naturalmente, o da “koiné” distinta, mas sem pretensões aticistas, pois despreza os artifícios da eloquência humana e não quer fazer depender sua força de persuasão senão do poder da Palavra da fé, confirmada pelos sinais do Espírito (1Ts 1,5; 1Cor 2,4s; 2Cor 11,6; Rm 15,18). Há casos até em que sua expressão é incorreta e inacabada (1Cor 9,15), de tão incapaz que é o molde da linguagem para conter o impulso de um pensamento por demais rico ou de emoções demasiado vivas. Com raras exceções (Fm 19), dita (Rm 16,22), como costumavam fazer os antigos, contentando-se com escrever a saudação final (2Ts 3,17; Gl 6,11; 1Cor 16,21; Cl 4,18); e, se mais de um trecho parece fruto de redação longamente meditada, muitos outros dão a impressão de primeiro impulso espontâneo e sem retoques. Apesar destas falhas, ou talvez por causa delas, este estilo fogoso é de densidade extraordinária. Pensamento tão elevado, expresso de maneira tão ardorosa, prepara ao leitor mais de uma dificuldade (2Pd 3,16); mas oferece-lhe ao mesmo tempo textos cujo vigor religioso e até literário permanecem talvez sem rival na história das cartas humanas.

As epístolas que Paulo nos deixou são escritos ocasionais, jamais devemos esquecê-lo . Não são tratados de teologia, mas respostas a situações concretas. Verdadeiras cartas que se inspiram no formulário então em uso (Rm 1,1+), não são nem “cartas” meramente particulares, nem “epístolas” puramente literárias, mas explanações que Paulo destina a leitores concretos e, para além deles, a todos os fiéis de Cristo. Não se deve, pois, buscar aí uma exposição sistemática e completa do pensamento do Apóstolo; sempre deve-se supor, por detrás delas, a palavra viva, de que são o comentário em pontos particulares. Com isso, não deixam de ser infinitamente preciosas, enquanto sua riqueza e variedade nos permitem encontrar de fato o essencial da mensagem paulina. Embora dirigidas em ocasiões e a auditórios diferentes, descobre-se nelas uma mesma doutrina fundamental, centrada em torno de Cristo morto e ressuscitado, mas que se adapta, se desenvolve e se enriquece no decurso desta vida consagrada totalmente a todos (1Cor 9,19-22). Alguns intérpretes atribuíram a Paulo um ecletismo que o teria feito adotar, segundo as circunstâncias, pontos de vista diferentes e até contraditórios, aos quais não daria nenhum valor absoluto, pois quereria somente que ganhassem os corações para Cristo. Outros opuseram a este modo de ver um “fixismo”, segundo o qual o pensamento de Paulo, firmado desde o começo pela experiência de sua conversão, não teria conhecido em seguida nenhuma evolução. A verdade está entre esses extremos: a teologia de Paulo se desenvolveu conforme uma linha contínua, mas se desenvolveu realmente sob o impulso do Espírito que dirigia seu apostolado. Nós identificaremos as etapas desta evolução percorrendo suas diferentes epístolas em sua ordem cronológica, que não é a ordem do Cânon do NT, observada pela maioria das traduções, na qual foram colocadas conforme o tamanho, em ordem decrescente.

As primeiras em data são dirigidas aos Tessalonicenses, que Paulo evangelizou na decurso da segunda viagem (At 17,1 -10) do final de 49 aos inícios de 50. Forçado, por, causa dos ataques dos judeus, a partir para Bereia, de onde se dirigiu para Atenas e Corinto.foi sem dúvida desta última cidade na metade de 50, que escreveu 1Ts. Silas e Timóteo estão a seu lado, e as boas noticias trazidos por este último de uma segunda visita a Tessalônica são para Paulo a ocasião para desafogar seu coração (1-3); seguem exortações práticas (4,1-12; 5,12-28), entre as quais se insere uma resposta sobre o destino dos falecidos e a parusia de Cristo (4,13-5,11). Escrita, sem dúvida: de Corinto alguns meses mais tarde (2Ts 2,15) 2Ts apresenta, juntamente com outras exortações práticas (1; 2,13-3,15), novas instruções sobre a data da parusia e os sinais que a devem preceder (2,1-12).

2Ts contém notáveis semelhanças literárias com 1Ts, a tal ponto que certos críticos a tomaram como obra de falsário que se teria inspirado em Paulo, imitando seu estilo. Mas nao há meto de descobrir qual teria sido o motivo de tal falsificação, e é mais simples pensar que o próprio Apóstolo, a fim de corrigir, malentendidos do seu ensinamento escatológico (1Ts 5,2.9), tenha escrito esta segunda carta, retomando expressões da primeira. Os dois escritos não se contradizem, mas se completam; e sua autenticidade é igualmente bem atestada pela antiga tradição da Igreja.

Além do seu interesse em apresentar já esboçados diversos temas que serão retomados pelas epístolas posteriores, estas são importantes sobretudo por sua doutrina sobre a escatologia. Nesta etapa primitiva de seu apostolado, o pensamento do Apóstolo apresenta-se todo concentrado na ressurreição de Cristo e na sua vinda na glória, que trará a salvação aos que tiverem acreditado nele, ainda que já tenham morrido (1Ts 4,13-18). Esta vinda gloriosa e descrita segundo as tradições da apocalíptica judaica e do cristianismo primitivo (discurso escatológico dos sinóticos, sobretudo de Mt). Em consonância com os ensinamentos de Jesus, ora insiste na iminência imprevisível desta vinda que nos obriga à vigilância (1Ts 5,1-11), a ponto de dar a Impressão de que tanto ele como seus leitores assistiriam a ela em vida (1Ts 4,17), ora acalma seus fiéis impressionados por esta perspectiva, lembrando-lhes que o Dia ainda não chegou e deve ser precedido de certos sinais (2Ts 2,1-12). Estes não são mais tão claros para nós como o deveriam ser para os leitores. Parece que Paulo imagina o Anticristo como um indivíduo que deve ,surgir no fim dos tempos. Quanto ao
obstáculo “que por ora o retém” (2Ts 2,6), certos intérpretes viram nele o império romano, outros a pregação evangélica e a questão permanece obscura.

Enquanto escrevia essas cartas Paulo evangelizava Corinto durante mais de 18 meses (At 18,1-18), de março-junho de 50 a setembro de 51. Conforme seu costume de agir nos grandes centros, queria implantar a fé em Cristo naquele porto famoso e densamente habitado, de onde ela se irradiaria por toda a Acaia (2Cor 1,1; 9,2). De fato, conseguiu estabelecer lá, sobretudo nas camadas modestas da população (1Cor 1,26-28), uma comunidade florescente. Mas aquela grande cidade era centro de cultura grega, em que se defrontavam correntes de pensamento e de religião muito diversas. O contato da jovem fé cristã com esta capital do paganismo devia suscitar, para os neófitos, muitos problemas delicados. É na solução deles que o Apóstolo se empenha nas duas cartas que lhes escreveu.

A origem destas duas epístolas é bastante clara, não obstante alguns pontos duvidosos. A primeira carta “pré-canônica” (1Cor 5,9-13), de data incerta, não foi conservada. Mais tarde; durante a temporada de mais de 2 anos (52-54) que ele passou em Éfeso no decurso da terceira viagem (At 19,1-20,1), algumas questões trazidas por uma delegação de coríntios (1Cor 16,17), às quais se somavam informações recebidas por meio de Apolo (At 18,27s; 1Cor 16,12) e de “pessoas da casa de Cloé” (1Cor 1,11), levaram Paulo a escrever nova carta, que é nossa 1Cor, por volta da Páscoa de 54 (1Cor 5,7s; 16,5-9). Pouco depois, deve ter surgido em Corinto uma crise, provavelmente envolvendo Timóteo (1Cor 4,17; 16,10-11), que o obrigou a fazer lá uma rápida e amarga visita (2Cor 1,23-2,1), no decurso da qual prometeu regressar em breve (2Cor 1,15-16). De fato não voltou, e substituiu esta visita por uma carta severa, escrita “em meio a muitas lágrimas” (2Cor 2,3s.9), que produziu efeito salutar (2Cor 7,8-13). Foi na Macedônia, depois de haver partido de Éfeso em consequência de crises muito graves, pouco conhecidas por nós (1Cor 15,32; 2Cor 1,8-10; At 19,23-40), que Paulo soube, por meio de Tito, deste feliz resultado (2Cor 1,12s; 7,5-16); e foi então, entre abril e setembro de 55, que escreveu as duas partes de 2Cor. Depois, haveria de passar por Corinto (At 20,1s; cf. 2Cor 9,5; 12,14; 13,1.10), para de lá regressar a Jerusalém, onde seria preso.

Alguns consideram 2Cor como a compilação de cerca de cinco cartas enviadas por Paulo a Corinto em diferentes ocasiões. Outros se impressionam menos com as transições difíceis que tal hipótese procura explicar, mas concordam que os cc. 10-13 não podem ser a continuação dos cc. 1-9 — seria psicologicamente impossível que Paulo pudesse repentinamente mudar da celebração da reconciliação (cc. 1-9), à severa reprovação e à sarcástica autodefesa (cc. 10-13). Sugeriu-se que os cc. 10-13 poderiam ser identificados com a epístola escrita entre lágrimas por causa do seu tom áspero, mas isso não é recomendado pelo conteúdo. A carta escrita entre lágrimas foi ocasionada pelo comportamento de um indivíduo determinado (2Cor 2,5-8), do qual não se faz sequer alusão nos cc. 10-13, que se referem ao dano feito às comunidades por falsos apóstolos. É mais provável, portanto, que os cc. 10-13 foram ocasionados pela deterioração da situação em Corinto subsequente ao envio dos cc. 1-9.

Se estas epístolas nos trazem, a respeito da alma de Paulo e de suas relações com seus convertidos, luzes de notável interesse, não é menor sua importância doutrinal. Nelas encontramos, sobretudo em 1Cor, informações e decisões concernentes a diversos problemas cruciais do cristianismo primitivo, tanto em sua vida interior — pureza dos costumes (1Cor 5,1-13; 6,12-20), matrimônio e virgindade (7,1-40), ordem das assembleias religiosas e celebração da Eucaristia (11-12), uso dos carismas (12,1-14,40) — como em seu relacionamento com o mundo pagão: apelo aos tribunais (6,1-11), carnes oferecidas.aos ídolos (8-10). Aquilo que poderia ser simples casos de consciência ou normas de liturgia, se torna, graças ao gênio de Paulo, ocasião de mensagens profundas sobre a verdadeira liberdade da vida cristã, a santificação do corpo, O primado da caridade, a união a Cristo. A defesa de seu apostolado (2Cor 10-13) inspira-lhe páginas esplêndidas sobre a grandeza do ministério apostólico (2Cor 2,12-6,10); e o tema concreto da coleta (2Cor 8-9) é iluminado pelo ideal da união entre as igrejas. O horizonte escatológico está sempre presente e fundamenta toda a exposição sobre a ressurreição da carne (1Cor 15). Mas as descrições apocalípticas de 1Ts e 2Ts cedem lugar a uma discussão mais racional, que justifica esta esperança difícil para espíritos gregos. Esta adaptação do Evangelho ao mundo novo em que ele penetra, manifesta-se sobretudo na oposição da loucura da cruz à sabedoria helênica. Aos coríntios que se dividem, opondo entre si seus diversos mestres e seus talentos humanos, Paulo recorda que não há senão um só mestre, Cristo, uma só mensagem, a salvação pela cruz, e que aí está a única e verdadeira Sabedoria (1Cor 1,10-4,13). Assim, por força das circunstâncias e sem contrariar as perspectivas escatológicas, ele é levado a insistir mais na vida cristã presente, como união a Cristo no verdadeiro conhecimento, que é o da fé. E ele vai aprofundar mais ainda esta vida dada pela fé, desta vez com relação ao judaísmo, em consequência da crise gálata.

As epístolas aos Gálatas e aos Romanos devem ser tratadas juntamente, pois tratam do mesmo problema, aquela como primeira reação provocada pela situação concreta, esta como exposição mais calma e mais completa, que põe em ordem as ideias suscitadas pela polêmica. Esse estreito parentesco das duas epístolas é uma das principais razões que desaconselham situar a composição de Gl nos primeiros anos de Paulo, antes mesmo do concílio de Jerusalém, como alguns propuseram, os quais opinam que a segunda visita de Paulo a Jerusalém, narrada em Gl 2,1-10, deve ser a segunda visita, mencionada pelos Atos (11,30; 12,25), não a terceira (At 15,2-30), que difere em diversos pontos da narração de Paulo. Uma vez que este, por outro lado, parece ignorar o Decreto de At 15,20.29 (cf. Gl 2,6), sua carta deve ser anterior ao concílio de Jerusalém, e bastaria para tanto admitir que os “gálatas” fossem os habitantes da Licaônia e da Pisídia evangelizados durante a primeira viagem missionária; a ida e volta de Paulo explicariam a dupla visita que Gl 4,13 parece supor. Mas tudo isso tem pouco fundamento. Se é verdade que a Licaônia e a Pisídia estavam politicamente ligadas à Galácia desde 36-25 a.C., não é menos certo que a linguagem corrente do séc. I da nossa era continuou a reservar esta última denominação à Galácia propriamente dita, que fica mais ao norte, e parece particularmente dificil que seus habitantes possam ter sido chamados de “gálatas” (Gl 3,1). Aliás, esta suposição difícil não é de modo algum necessária. A segunda visita de Gl 2,1-10 identifica-se muito bem com a terceira de At 15 — com a qual apresenta semelhanças multo marcantes — muito melhor do que com a segunda (At 11,30; 12,25), de importância tão pequena que Paulo pôde omiti-la na sua argumentação de Gl, a não ser que também ela não se tenha verificado e resulte simplesmente de uma duplicata literária de são Lucas (cf. Atos, Introdução e At 11,30+). Assim, a epístola aos Gálatas é bem posterior ao concílio de Jerusalém. Se nela Paulo não fala do Decreto, é talvez porque este é de época mais tardia (cf. At 15,1+), circunstância que explicaria também a atitude de Pedro, censurada em Gl 2,11-14. Os destinatários são realmente os habitantes da região “gálata”, percorrida por Paulo na sua segunda e terceira viagens (At 16,6; 18,23). E a carta pode ter sido escrita de Éfeso ou também da Macedônia, entre 54 e 55.

A epístola aos Romanos deve tê-la seguido de perto. Paulo está em Corinto (final de 55, início de 56), prestes a partir para Jerusalém, de onde espera dirigir-se a Roma e de lá à Espanha (Rm 15,22-32; cf. 1Cor 16,3-6; At 19,21; 20,3) Mas não foi ele quem fundou a igreja de Roma e não recebera mais que parcas informações sobre a situação local, talvez por meio de pessoas como Áquila (At 18,2); as raras alusões de sua epístola deixam apenas vislumbrar uma comunidade em que os convertidos do judaísmo e do paganismo correm o perigo de se desentenderem. Assim, para preparar sua chegada, acha útil enviar por sua patrona Febe (Rm 16,1) uma carta em que expõe sua solução do problema judaísmo-cristianismo, tal como acaba de amadurecer devido à crise gálata. Para isso, retoma as ideias de Gl, mas de modo mais ordenado e matizado. Se Gl representa um grito que parte do coração, no qual a apologia pessoal (1,11-2,21) se justapõe à argumentação doutrinal (3,1-4,31) e às advertências veementes (5,1-6,18), Rm oferece explanação continuada, em que algumas grandes seções se concatenam harmoniosamente com o auxílio de temas que primeiro se anunciam e depois são retomados.

A autenticidade da epistola aos Romanos, bem como a das epistolas aos Coríntios e aos Gálatas, não é seriamente posta em dúvida por ninguém. Apenas se tem perguntado se os caps. 15 e 16 não lhe teriam sido acrescentados posteriormente. Este último, sobretudo, com suas tão numerosas saudações, poderia ter sido primitivamente um bilhete destinado à igreja de Éfeso. Mas o cap. 15, não obstante certos manuscritos, não pode ser separado do resto da epístola; e os que nela mantêm também o cap. 16 observam que Paulo não dirige jamais saudações a indivíduos pertencentes às comunidades nas quais trabalhou. Isso teria provocado ciúmes se houvesse tratado diferentemente alguns, num grupo cujos membros lhe eram conhecidos. A lista de nomes do c. 16 indica que ele era dirigido a uma igreja que Paulo não havia fundado — o que exclui Éfeso como destinatária. Quanto à doxologia (16,25-27), as notas peculiares de seu estilo não constituem motivo suficiente para rejeitar sua autenticidade, mas podem sugerir uma data mais tardia.

Enquanto as epístolas aos Coríntios opunham o Cristo Sabedoria de Deus à vã sabedoria do mundo, as epístolas aos Gálatas e aos Romanos opõem o Cristo Justiça de Deus a justiça que os homens pretenderiam merecer por seus próprios esforços. Lá o perigo provinha do espírito grego com sua confiança orgulhosa na razão; aqui ele vem do espírito judaico, com sua orgulhosa confiança na Lei. Certos judaizantes vieram dizer aos fiéis da Galácia que não podiam se salvar, a não ser que praticassem a circuncisão, pondo-se assim sob o jugo da Lei (Gl 5,2s). Paulo se opõe com toda a força a esta volta atrás, que tornaria vã a obra de Cristo (Gl 5,4). Sem negar o valor da economia antiga, assinala seus justos limites de etapa provisória no conjunto do plano de salvação (Gl 3,23-25). A Lei de Moisés, em si boa e santa (Rm 7,12), fez o homem conhecer a vontade de Deus, mas sem lhe dar a força interior de cumpri-la; assim, o que ela conseguiu foi apenas fazê-lo tomar consciência de seu pecado e da necessidade que tem do socorro de Deus (Gl 3,19-22; Rm 3,20; 7,7-13). Ora, este socorro inteiramente gratuito, prometido outrora a Abraão antes do dom da Lei (Gl 3,16-18; Rm 4), acaba de ser concedido em Jesus Cristo: sua morte e ressurreição operaram a destruição da humanidade antiga, viciada pelo pecado de Adão, e a recriação de uma humanidade nova, da qual ele é o protótipo (Rm 5,12-21). Ligado a Cristo pela fé e animado de seu Espírito o homem recebe doravante gratuitamente a verdadeira justiça e pode viver segundo a vontade divina (Rm 8,1-4). Certamente sua fé deve desabrochar em boas obras; mas estas obras, realizadas pela força do Espírito (Gl 5,22-25; Rm 8,5-13) não são mais aquelas obras da Lei nas quais o judeu orgulhosamente depositava sua confiança. Elas são acessíveis a todo os que creem, também aos que vieram do paganismo (Gl 3,6-9.14; Rm 4,11). A economia mosaica, que teve seu valor de etapa preparatória é, pois, doravante obsoleta. Os judeus que pretendem permanecer nela colocam-se fora da verdadeira salvação. Deus permitiu a cegueira deles para assegurar o acesso dos gentios. Contudo, eles não poderiam perder para sempre a sua primeira eleição pois Deus é fiel: alguns dentre eles, o “pequeno resto” anunciado pelos profetas, abraçaram a fé; os outros se converterão um dia (Rm 9-11). Desde agora os fiéis de Cristo, quer de origem judaica quer pagã, devem formar um só todo na caridade e no apoio mútuo (Rm 12,1-15,13). São essas as grandes perspectivas que, esboçadas em Gl são ampliadas em Rm e nos fornecem admiráveis explanações sobre o passado pecador de toda a humanidade (Rm, 1,18-3,20 e a luta interior em cada homem (Rm 7,14-25), a gratuidade da salvação (Rm 3,24 e passim), a eficácia da morte e da ressurreição de Cristo (Rm 4,24s; 5,6-11), participadas mediante a fé e o batismo (Gl 3,26s; Rm 6,3-11), o chamado de todos os homens para se tornarem filhos de Deus (Gl 4,1-7; Rm 8,14-17) e o amor imensamente sábio do Deus justo e fiel, que dirige todo o desígnio de salvação em suas diferentes etapas (Rm 3,21-26; 8,31-39). As perspectivas escatológicas permanecem: estamos salvos em esperança (Rm 5,1-11; 8,24); mas, como nas epístolas aos Coríntios, frisa-se a realidade da salvação já começado: já possuímos a título de primícias o Espírito prometido (Rm 8,23); desde agora o cristão vive em Cristo (Rm 6,11) e Cristo vive nele (Gl 2,20).

Assim a epístola aos Romanos representa urna das mais belas sínteses da doutrina paulina. Todavia, não é síntese completa, nem é a doutrina toda. O interesse primordial que lhe valeu a controvérsia luterana seria prejudicial, se nos levasse a deixar de completá-la com as outras epistolas, integrando-a numa síntese mais vasta.

Filipos, importante cidade da Macedônia e colônia romana, tinha sido evangelizada por Paulo durante sua segunda viagem, entre setembro de 48 e junho de 49 (At 16,12-40). Ele tornou a passar por lá duas vezes, quando da sua terceira viagem, pelo fim de 54/início de 55 (At 20,1-2) e na Páscoa de 56 (At 20,3-6). Os fiéis que ele conquistou lá para Cristo testemunharam uma tocante afeição por seu Apóstolo, enviando-lhe socorros a Tessalônica (FI 4,16) e depois a Corinto (2Cor 11,9). E quando Paulo lhes escreve, é precisamente para agradecer-lhes novos recursos que ele acaba de receber por intermédio do delegado deles, Epafrodito (FI 4,10-20); aceitando sua oferta, ele, que ordinariamente receava parecer interesseiro (At 18,3+), dá provas de que confiava neles de modo todo especial.

Paulo está preso no momento em que lhes escreve (FI 1,7.12-17), e por multo tempo se pensou que se tratasse de seu rimeiro cativeiro romano, Contudo, os contatos frequentes e aparentemente multo fáceis que os filipenses têm com ele e com Epafrodito, que na época se achava em sua companhia (2,25-30), surpreendem se ele se encontra na longínqua Roma. Sobretudo não se compreende bem, se Paulo está em Roma (ou, rigorosamente falando, em Cesareia da Palestina, outro lugar de um cativeiro que nos é conhecido), que a remessa de dinheiro feita por eles por meio de Epafrodito seja a primeira ocasião que eles encontraram de ajudar o Apóstolo desde as contribuições que ofertaram na segunda viagem (4,10.16), pois ele passou duas vezes pela terra deles durante a terceira viagem. Tudo se explica melhor se Paulo escreve antes destas duas novas visitas, isto é, em Éfeso, entre 52 e 54. As alusões ao “Pretório” (Fl 1,13) e à “casa de César” (4,22) não levantam dificuldade, pois havia destacamentos de pretorianos nas grandes cidades, em particular em Éfeso, tanto corno em Roma. O fato de ignorarmos um cativeiro de Paulo em Éfeso não e tampouco um obstáculo intransponível, pois Lucas nos disse bem poucas coisas sobre aquela estada de quase três anos, e Paulo dá a entender que encontrou Ia dificuldades bem graves (1Cor 15,32; 2Cor 1,8-10).

Se se admite essa hipótese, é preciso dissociar Fl de Cl, Ef, Fm e aproximá-la das “grandes epístolas”, em particular de 1Cor. Longe de se lhe opor, o estilo e a doutrina da epístola favorecem até esta aproximação, Este escrito é, porém, pouco doutrinal. É antes efusão do coração, uma troca de notícias, urna advertência contra os “maus operários” que destroem alhures os trabalhos do Apóstolo e bem poderiam atacar também os seus caros filipenses, enfim e sobretudo apelo à unidade na humildade, que nos oferece a admirável passagem sobre os sofrimentos de Cristo (2,6-11): quer seja da autoria do próprio Paulo, quer seja apenas citação feita por ele, de qualquer forma este hino ritmado apresenta um testemunho de primeira grandeza sobre a fé primitiva.

A autenticidade de Fl não é posta em dúvida, mas sua integridade foi seriamente questionada. Diversos pesquisadores argumentariam que é de fato urna coleção de três cartas. Talvez a divisão mais satisfatória seja: Carta A = 4,10-20; Carta B = 1,1-3,1 + 4,2-9.21-23; Carta C = 3,2-4,1. A carta A precede às outras duas, e foi enviada por ocasião da recepção do dom trazido por Epafrodito. A carta C é provavelmente a mais tardia. É uma fogosa polêmica contra missionários judeu-cristãos, e nenhum traço seu aparece na carta B, que é sereno apelo à unidade e à perseverança, e também ao testemunho resoluto da verdade.

As epístolas aos Efésios e aos Colossenses formam um grupo bem homogêneo: mesma missão de Tíquico em Cl 4,7s e Ef 6,21s; notáveis semelhanças de estilo e de doutrina entre Cl e Ef. Paulo está ainda na prisão (Fm 1.9s.13.23; Cl 4,3.10.18; Ef 3,1; 4,1; 6,20), e desta vez tudo sugere Roma corno lugar de seu cativeiro (de 61 a 63), de preferência a Cesareia, onde seria difícil explicar. a presença de Marcos ou de Onésimo, e a Éfeso, onde Lucas parece não ter estado ao lado de Paulo. Além disso, a mudança de estilo e o progresso da doutrina requerem certa distância entre Cl, Ef e as
“grandes epístolas”, Cor, Gl, Rm. Neste intervalo sobreveio uma crise, de Colossas, que não fora evangelizada por Paulo (1,4; 2,1); seu representante apostólico Epafras (1,7) veio trazer-lhe informações alarmantes. Logo que foi alertado, Paulo responde por meio da epístola aos Colossenses, que confia a Tíquico. Mas a reação suscitada em seu espírito pelo novo perigo levou-o a aprofundar seu pensamento e, como Rm lhe havia servido para pôr em ordem as ideias lançadas em Gl, escreve outra epístola, praticamente contemporânea de Cl, em que organiza sua doutrina em função do novo ponto de vista que a polêmica acaba de lhe impor. Esta admirável síntese é a nossa epístola “aos Efésios”. Tal denominação, que nem sequer é garantida textualmente (cf. Ef 1,1), pode criar confusão. Na realidade, Paulo não se dirige aos fiéis de Éfeso, com os quais permaneceu três anos (Ef 1,15; 3,2-4), mas antes aos crentes em geral e mais particularmente às comunidades do vale do Lico, entre os quais faz circular sua carta (Cl 4,16).

A interpretação delineada respeita a tradição que atribui Cl e Ef a Paulo; ela goza de considerável probabilidade. Mas desde a metade do século XIX críticos contestaram a autenticidade destas duas cartas. O estilo pesado e repetitivo, dizem, não é o de Paulo; as ideias teológicas, principalmente as que se referem ao Corpo de Cristo, Cristo cabeça do Corpo, a Igreja universal, são diferentes das cartas anteriores, os erros combatidos são posteriores a Paulo e pertencem mais às ideias gnósticas do século Il. Tais objeções merecem séria consideração. Elas são formuladas por numerosos estudiosos, até católicos. Todavia, elas não são incontestáveis. De fato, no tocante a Cl, a inclinação é agora em favor da autenticidade, e com boa justificação. Pois aí não se encontram as ideias fundamentais de Paulo, mas as novas ideias são satisfatoriamente explicadas pelas circunstâncias mencionadas acima. O mesmo pode ser verdade de Ef, embora a dúvida aí permaneça. Entre os argumentos a favor de Paulo, temos: 1) Ef não é o trabalho de um pensador derivado, mas de alguém com gênio para trabalho criador. 2) O estilo lento, rico e até pesado de Cl e Ef, que contrasta tanto com o estilo rápido e com os solavancos das discussões das cartas anteriores, pode provavelmente ser explicado por estes novos e mais largos horizontes que Paulo estava abrindo. 3) O estilo das cartas anteriores não é inteiramente consistente, e dois exemplos desse estilo tardio contemplativo e semilitúrgico podem-se encontrar já em Rm 3,23-26; 2Cor 9,8-14. A única dificuldade real provém das muitas passagens em que Ef parece tomar frases de Cl de maneira servil e até mesmo desajeitada; mas isso pode ser porque Paulo não tinha o hábito de compor cada palavra de suas cartas e nessa ocasião pode ter permitido a um discípulo tomar uma parte maior do que a usual. Mas deve-se admitir que os fenômenos notados neste segundo e terceiro pontos poderiam ser explicados mais facilmente com a hipótese de autor diferente de Paulo, se tal se pudesse encontrar, que fosse ao mesmo tempo pensador criativo de gênio semelhante ao de Paulo, e ainda assim se contentasse de tornar servilmente frases inteiras de outras cartas paulinas. A dificuldade de postular tal autor híbrido de Efésios é um dos principais fatores que levaram diversos estudiosos a supor que Colossenses também, da qual a grande maioria das frases são tomadas, emprestadas, não é paulina.

Portanto, tendo conhecimento de que a genuína autoria paulina destas duas cartas é a mais forte mas não a única hipótese possível, podemos tentar reconstruir a gênese do pensamento de Paulo em Cl e Ef.

Os erros em Colossas que Paulo combate ainda não são os dos gnósticos do século II, mas antes ideias comuns entre os essênios judeus. O perigo em Colossas era o resultado de especulações judaicas (Cl 2,16) basicamente sobre os poderes celestes ou cósmicos. Pensava-se que estes controlavam o movimento do cosmo, e os colossenses tendiam a exagerar sua importância de tal modo a comprometer a supremacia de Cristo. O autor desta carta aceita os postulados da luta e não põe em dúvida a atividade desses poderes; até chega a assimilá-los aos anjos da tradição judaica (cf. 2,15). Mas é precisamente para recolocá-los no seu devido lugar no grande desígnio da salvação. Eles cumpriram sua missão de intermediários e administradores da Lei. Atualmente está terminada essa função. Instaurando a nova ordem, o Cristo Kyrios assumiu o governo do mundo. Sua exaltação celeste colocou-o acima dos poderes cósmicos, que ele despojou de suas antigas atribuições (2,15). Ele, que já os dominava em razão da primeira criação, na sua qualidade de Filho Imagem do Pai, agora domina-os definitivamente como seu chefe na nova criação, na qual assumiu em si todo o pleroma, isto é, toda a plenitude do Ser, de Deus e do mundo em Deus (1,13-20). Libertados desses “elementos do mundo” (2,8.20) por sua união ao Cristo-Cabeça e pela participação na sua plenitude (2,10), os cristãos não devem recolocar-se sob a tirania deles por meio de observâncias obsoletas e ineficazes (2,16-23). Unidos pelo batismo ao Cristo morto e ressuscitado (2,11-13), eles são os membros de seu Corpo e não recebem a vida nova senão dele como de sua Cabeça vivificante (2,19). Certamente é ainda esta salvação cristã o interesse primordial do autor, mas as necessidades da polêmica levaram-no a precisar a extensão cósmica da obra de Cristo, integrando nela, ao lado da humanidade salva, este vasto universo que é o seu cenário e que também se encontra situado, de maneira indireta, sob o domínio do único Senhor. Daí esta ampliação do tema do “Corpo de Cristo”, já esboçado antes (1Cor 12,12+), com insistência nova no Cristo como Cabeça; daí esta dilatação cósmica da obra da salvação; daí este horizonte mais aberto em que Cristo é considerado mais no seu triunfo celestial, enquanto a Igreja em sua unidade coletiva constrói-se em direção a ele; daí, enfim, esta insistência mais forte na escatologia já realizada (cf. Ef 2,6+).

Essas perspectivas são retomadas na epístola aos Efésios. Mas o esforço polêmico para recolocar os poderes em seu lugar já produziu frutos (Ef 1,20-22) e o olhar se dirige mais para a Igreja, Corpo de Cristo ampliado segundo as dimensões do novo universo, “plenitude daquele que plenifica tudo em todos ” (1,23). Nesta contemplação suprema, que é como que o ápice de sua obra, o autor retoma diversos temas antigos para ordená-los f!a síntese mais vasta à qual chegou. Repensa sobretudo os problemas da epístola aos Romanos, outro ápice que coroava a etapa anterior de seu pensamento. Da epístola aos Romanos evoca com algumas palavras não apenas as explanações sobre o passado pecador da humanidade e sobre a gratuidade da salvação por Cristo (2,1-10), mas ainda reconsidera o problema dos judeus e dos gentios, que outrora angustiava Paulo (Rm 9-11). E desta vez, é sob a luz tranquila da escatologia realizada no Cristo celeste: doravante os dois povos lhe aparecem unidos, reconciliados numa humanidade nova e caminhando juntos para o Pai (Ef 2,11-22). Este acesso dos gentios à salvação de Israel em Cristo é o grande “mistério” (1,9; 3,3-6.9; 6,19; Cl 1,27; 2,2; 4,3), cuja contemplação lhe inspira expressões inigualáveis: sobre a infinita sabedoria que aí vê manifestada (3,9s; Cl 2,3), sobre a caridade insondável de Cristo que aí se revela (Ef 3,18s), sobre a eleição inteiramente gratuita que escolheu Paulo para ser seu ministro (3,2-8), Este desígnio de salvação realizou-se por etapas, segundo os propósitos eternos de Deus (1,3-14), e seu termo sao as núpcias de Cristo com a humanidade salva, que é a Igreja (5,22-32).

A autenticidade de Filêmon não é questionada. Ela é habitualmente agrupada com Cl e Ef, ambos porque Paulo é prisioneiro (1.9s.13.23; Cl 4,3.10; Ef 3,1; 4,1; 6,20) e porque os nomes de seus companheiros (Fm 12.23-24) aparecem em Cl 4,10-14. Consequentemente é datada dos anos 61-63. Apesquisa recente, contudo, recusa dar a estas indicações valor decisivo, e considera a prisão de Paulo em Éfeso (durante os anos 52 -54) uma situação mais apropriada, particularmente por causa da proximidade entre Éfeso, e Colossas, que é presumível como residência de Filêmon (Fm 22; cf. Cl 4,9).

Esta breve carta anuncia, a um cristão de Colossas, convertido por Paulo (v. 19), a volta do seu escravo fugitivo, Onésimo, também conquistado para Cristo pelo Apóstolo (v. 10). Esse bilhete autógrafo (v. 19)fornece dados preciosos sobre o coração delicado de Paulo; e interessante também por nos confirmar a sua solução do problema da escravidão (Rm 6,15+): também se eles conservam suas relações sociais de antigamente, o senhor e o escravo cristãos devem viver doravante como dois irmãos ao serviço do mesmo Senhor (v. 16, cf. Cl 3,22-4,1).

As cartas a Timóteo e a Tito são dirigidas a dois dos mais fiéis discípulos de Paulo (At 16,14; 2Cor 2,13). Elas dão diretivas ‘para a organização e conduta das comunidades confiadas a eles. É por isso que se tornou costumeiro, desde o século XVIII, chamá-las “pastorais”. Essas cartas divergem de maneira significativa de outras cartas paulinas. Há considerável diferença de vocabulário, Muitas das palavras comuns em outras epístolas desapareceram, e há também uma proporção muito maior de palavras não usadas em outro lugar por Paulo. O estilo não é mais apaixonado e entusiasta, mas mitigado e burocrático. O modo de resolver problemas mudou. Paulo simplesmente condena os falsos ensinamentos em lugar de argumentar persuasivamente contra eles. Finalmente, é difícil situar cartas na vida de Paulo, assim como é conhecida dos Atos dos Apóstolos. É compreensível, portanto, que a autenticidade das pastorais seja disputada.

Muitos explicam as diferenças postulando um Paulo mais velho, que deve ter dado muito mais espaço a um secretário (possivelmente Lucas, 2Tm 4,11) e levando em conta que nada conhecemos da vida de Paulo subsequente à sua libertação da prisão em Roma. Igual número de estudiosos rejeitam tais argumentos como subjetivos demais, e sustentam que as pastorais foram compostas por um discípulo de Paulo no fim do século I para tratar de uma igreja muito diferente. Embora não impossível em si mesma, esta hipótese não é sustentada por qualquer evidência de que cartas pseudoepigráficas fossem comuns e aceitáveis, 2Ts 2,2 e Ap 22,18 mostram que os primeiros cristãos viam a necessidade de distinguir entre escritos autênticos e forjados. Posição intermediária entre esses dois extremos é defendida por uma minoria de críticos que acreditam que um leal seguidor de Paulo herdou três cartas que Timóteo e Tito conservaram até sua morte. Ele então expandiu essas cartas, acrescentando o que pensava que seria dito por Paulo diante das circunstâncias mudadas da igreja. As pastorais então não seriam do Apóstolo, mas conteriam fragmentos paulinos autênticos (p.e., 2Tm 1,15-18; 4,9-15; Tt 3,12-14). A falta de concordância sobre a extensão e número de fragmentos é uma séria fraqueza dessa hipótese, que também falha em prover qualquer evidência contemporânea de tal prática editorial.

A natureza insatisfatória de todas as hipóteses correntes sugere que poderia ter sido um engano tratar as pastorais como um bloco unificado. Nessa aproximação, observações e afirmações são confusas. O que é visto como verdadeiro para uma carta e afirmado como válido para as outras duas. O exame minucioso, porém, revela que 1Tm e Tt são mais próximas uma da outra do que ambas em relação a 2Tm. Se a última é considerada separadamente, não há objeções convincentes contra a autoria paulina. Dirigidas a um indivíduo, sua divergência em relação a epístolas dirigidas a igrejas tem seu paralelo nas diferenças entre as cartas de Inácio à igreja de Esmirna e ao seu bispo, Policarpo. Uma vez que se reconheça que 2Tm 4,6 não é referência à morte próxima, 2Tm se coloca naturalmente dentro do último periodo da prisão de Paulo em Roma (At 28,16s), quando aguardava sua liberdade.

Se 2Tm é aceita como autêntica, o isolamento de 1Tm e Tt no corpus paulino torna-se cada vez mais marcante. Em particular elas desenvolvem uma visão do ministério que contrasta vivamente com o ethos missionário dinâmico de Paulo (1Ts 1,6-8; Fl 2,14-16. Predomina um conceito burguês de respeitabilidade e aceitação, 1Tm 2,1-2; 6,2; Tt 3,1-2), e as qualidades dos ministros são as requeridas de todos os burocratas (1Tm 3,1-13; Tt 1,5-9). Deste modo houve uma evolução definida nas igrejas paulinas. Uma igreja entusiástica radiante com o Espírito tornou-se um cômodo lar. Todavia, embora a liderança carismática tenha dado caminho à direção institucional, não há evidência do tipo do episcopado monárquico atestado por Inácio de Antioquia. A autoridade na Igreja é colegial, e os “bispos” (1Tm 3,2-5), têm as mesmas funções que os anciãos (1Tm 5,17). Cada “ancião” precisa ter as qualidades de “bispo” (Tt 1,6-9). Assim, 1Tm e Tt não deveriam ser datadas muito tardiamente no primeiro século.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Instruções para uma boa confissão

Confissão

Em algum desses anos passados, durante um mutirão de confissões na quaresma, recebi esse folhetinho para ajudar na preparação para a confissão.

Aproveito o momento (apesar de já estar um pouco em cima da hora), para compartilhá-lo. Os grifos não são meus, mas do original. Espero que seja útil…

PRÁTICA DA PENITÊNCIA

INSTRUÇÕES PARA UMA BOA CONFISSÃO

De acordo com o Código de Direito Canônico e o Ritual da Penitência

A. O Sacramento da Penitência

  1. No sacramento da penitência, os fiéis confessam seus pecados ao ministro legítimo, arrependidos e com o propósito de se corrigirem, alcançam de Deus, mediante a absolvição dada pelo ministro, o perdão dos pecados cometidos após o batismo, e ao mesmo tempo se reconciliam com a Igreja, à qual feriram pelo pecado.
  2. O ministro do sacramento da penitência é somente o sacerdote.
  3.  Todo fiel, depois de ter chegado à idade do entendimento, deve confessar fielmente seus pecados graves, pelo menos uma vez por ano.
  4. O sacramento da penitência divide-se em quatro partes:
    1. A contrição, que consiste na dor da alma e na detestação do pecado cometido, com o propósito de não mais pecar.
    2. A confissão das culpas, que procede do verdadeiro conhecimento de si mesmo diante de Deus, e da contrição dos pecados. A confissão deve ser precedida por um bom exame de consciência.
    3. A satisfação é a mudança de vida e reparação do dano causado. A satisfação é um remédio para o pecado e renovação de vida.
    4. A absolvição é o perdão de Deus concedido ao pecador por meio do ministro da penitência. Assim, pelo sacramento da penitência, o Pai acolhe o seu filho de volta; Cristo coloca sobre os ombros a ovelha perdida; e o Espírito Santo santifica de novo seu templo.
  5. A reconciliação dos penitentes pode ser celebrada em qualquer tempo e dia. Convém, entretanto, que os fiéis saibam em que horário o sacerdote está presente para exercer este ministério.
  6. O tempo da Quaresma é o mais apropriado para a celebração da penitência, porque desde a quarta-feira de cinzas escutamos o solene convite ao povo de Deus: “Convertei-vos e crede no Evangelho”.

B. Esquema para Exame de Consciência

Convém que se faça um exame de consciência antes de se aproximar do sacramento da reconciliação. Cada um medite, antes de tudo no seguinte:

  1. Eu me aproximo do sacramento da penitência com desejo sincero de purificação, conversão, renovação de vida e amizade mais profunda com Deus? Ou, pelo contrário, o considero como um fardo que se deva receber raramente?
  2. Tenho esquecido ou omitido propositadamente algum pecado grave em minhas confissões anteriores?
  3. Tenho cumprido as penitências que me foram impostas? Tenho reparado as injustiças cometidas? Tenho me esforçado por colocar em prática os propósitos de ajustar minha vida ao Evangelho?

Cada um examine sua vida à luz da Palavra de Deus.

I. O Senhor disse: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração” .

  1. Está meu coração voltado para Deus, a ponto de amá-lo sobre todas as coisas, como um filho a seu pai, cumprindo fielmente seus mandamentos? Ou, pelo contrário, me tenho preocupado mais com coisas terrenas? Tenho pureza de intenção em minhas obras?
  2. Tenho verdadeira fé em Deus, que nos falou por intermédio de seu Filho? Tenho aderido com firmeza à doutrina da Igreja? Tenho me preocupado em adquirir a instrução cristã, ouvindo a Palavra de Deus, participando da catequese, evitando o que atenta contra a fé? Tenho professado sempre com coragem e destemor a fé em Deus e na Igreja? Tenho me portado como cristão na vida pública e particular?
  3. Tenho feito as orações da manhã e da noite? A minha oração é um verdadeiro diálogo com Deus ou apenas um ritual externo? Tenho oferecido a Deus os trabalhos, alegrias e sofrimentos? Tenho recorrido a ele nas tentações?
  4. Tenho demonstrado reverência e amor pelo nome de Deus, ou tenho ofendido a Deus com blasfêmias, juramentos falsos ou falta de respeito? Tenho desrespeitado a Virgem Maria ou os Santos?
  5. Tenho honrado o dia do Senhor e os dias santificados, participando das reuniões litúrgicas sobretudo da missa, de maneira ativa, piedosa e atenta? Tenho observado o preceito da confissão anual e da comunhão pascal?
  6. Tenho talvez outros deuses, como riquezas, as superstições, o espiritismo, ou a macumba, confiando neles mais do que em Deus?

II. O Senhor disse: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”.

  1. Tenho verdadeiro amor ao meu próximo, ou tenho abusado de meus irmãos, utilizando-os para meu proveito pessoal e fazendo a eles o que não desejo para mim mesmo? Tenho sido para eles causa de grave escândalo com minhas palavras ou ações?
  2. Tenho contribuído para o bem e a alegria dos demais membros da minha família, pela paciência e o amor sincero? Tenho sido obediente aos meus pais, respeitando-os e ajudando-os em suas necessidades materiais e espirituais? Tenho me preocupado pela educação cristã de meus filhos, ajudando-os com o bom exemplo e autoridade paterna? Tenho sido fiel a meu esposo ou esposa em meus desejos e relações com os outros?
  3. Tenho dividido os meus bens com os mais pobres do que eu? Tenho feito o possível para defender os oprimidos, socorrer os necessitados e ajudar os pobres? Ou, pelo contrário, tenho desprezado o próximo, sobretudo os pobres, os doentes, os anciãos, os estrangeiros e os homens de outra raça?
  4. Tenho me lembrado da missão recebida na confirmação? Tenho participado das obras de apostolado e caridade da Igreja e da paróquia? Tenho prestado minha ajuda à Igreja e ao mundo e rezado pelas suas necessidades, como, por exemplo, a união dos cristãos, a evangelização dos povos e o reinado da paz e da justiça etc.?
  5. Tenho me preocupado com o bem e o progresso da comunidade em que vivo, ou somente com minhas vantagens pessoais? Tenho participado, de acordo com minhas possibilidades, na promoção da justiça, da honestidade dos costumes, da concórdia, da caridade e tenho cumprido meus deveres cívicos? Tenho pago os impostos?
  6. Tenho sido justo, responsável e honesto em meu trabalho ou profissão, servindo com amor a sociedade? Tenho remunerado os operários e aqueles que servem, com justo salário? Tenho cumprido meus compromissos e contratos?
  7. Tenho obedecido às autoridades constituídas e as respeitado?
  8. Uso meus cargos ou autoridade para meu interesse pessoal ou para o bem dos outros?
  9. Tenho sido leal e verdadeiro? Ou tenho prejudicado os outros com palavras falsas, calúnias, detrações, juízos temerários, violação de segredo?
  10. Tenho prejudicado a vida, integridade física, fama, honra ou bens do próximo? Tenho aconselhado ou praticado aborto? Tenho odiado o próximo? Tenho me afastado do próximo por desentendimento, inimizade, ou injúrias? Tenho me recusado, por culpa ou egoísmo, a dar testemunho da inocência do próximo?
  11. Tenho roubado, prejudicado ou desejado injustamente os bens do próximo? Tenho procurado restituir o alheio e reparar o dano?
  12. Tenho estado pronto para perdoar ou fazer as pazes, por amor de Cristo? Ou tenho guardado ódio ou desejos de vingança?

III. O Senhor Jesus Cristo diz: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”.

  1. Qual é a orientação fundamental de minha vida? Estou animado pela esperança da vida eterna? Tenho me esforçado por progredir na vida espiritual, por meio da oração,da leitura da Palavra de Deus, da participação nos Sacramentos e na mortificação? Estou disposto a reprimir os vícios, as más inclinações e paixões, como a inveja e a gula? Tenho sido soberbo e vaidoso, menosprezando os demais e julgando-me superior a eles? Tenho sido presunçoso diante de Deus? Tenho imposto aos demais minha vontade, sem respeitar a liberdade e os direitos alheios?
  2. Que uso tenho feito do tempo, das forças e dos dons recebidos de Deus como os “talentos do Evangelho”? Tenho feito uso destas coisas para buscar a perfeição, ou tenho sido ocioso e preguiçoso?
  3. Tenho suportado com paciência as dores e contrariedades da vida? Como tenho mortificado meu corpo para completar “o que falta à paixão de Cristo”? Tenho observado a lei da abstinência e do jejum?
  4. Tenho cuidado de meus sentidos, guardando meu corpo casto como templo do Espírito Santo, destinado à ressurreição e à glória, e como sinal do amor que Deus tem pelo homem e a mulher, simbolizado plenamente no sacramento do matrimônio? Tenho manchado meu corpo com más ações, palavras e pensamentos impuros? Tenho consentido em maus desejos? Tenho-me entregue a leituras, conversações, espetáculos e diversões desonestas? Tenho sido causa, com meu exemplo, do pecado dos outros? Tenho observado a lei moral no uso do matrimônio?
  5. Tenho agido contra minha consciência por temor ou hipocrisia?
  6. Tenho procurado agir sempre na verdadeira liberdade dos filhos de Deus, segundo a lei do Evangelho, ou tenho sido escravo de minhas paixões?

C. Rito da Penitência

O penitente se aproxima para confessar os pecados e, juntamente com o sacerdote, faz o sinal da cruz, dizendo:

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

O sacerdote exorta o penitente à confiança em Deus com estas palavras ou outras semelhantes:

O Senhor esteja em teu coração, para que arrependido(a), confesses os teus pecados.

O penitente responde: Amém.

O penitente confessa os seus pecados.

Em seguida, a convite do sacerdote, o penitente faz o ato de contrição, com estas palavras ou outras semelhantes:

Senhor, eu me arrependo sinceramente de todo o mal que pratiquei e do bem que deixei de fazer. Pecando, eu vos ofendi, meu Deus, sumo bem, digno de ser amado sobre todas as coisas. Prometo firmemente, ajudado(a) por vossa graça, fazer penitência, não mais pecar e fugir às ocasiões de pecado. Senhor, tende piedade de mim, pelos méritos da paixão de nosso Salvador, Jesus Cristo.

O Sacerdote, com as mãos estendidas sobre a cabeça do penitente (pelo menos a mão direita), diz a fórmula da absolvição, conforme se encontra no Ritual da Penitência.

Depois da absolvição, o sacerdote diz:

Dai graças ao Senhor, porque ele é bom.

O penitente responde:

Porque a sua misericórdia é eterna.

O sacerdote despede o penitente reconciliado, dizendo:

O Senhor perdoou os teus pecados. Vai em paz.

Introdução aos Atos dos Apóstolos

O terceiro evangelho e o livro dos Atos eram primitivamente as duas partes de uma só obra, à qual daríamos hoje o nome de “História das origens cristãs”. Logo o segundo livro ficou conhecido com o título de “Atos dos apóstolos” ou “Atos de apóstolos”, conforme o modo da literatura helenística que conhecia os “Atos” de Aníbal, os “Atos” de Alexandre etc.; no cânon do NT é separado do evangelho de Lucas pelo de João, que é interposto. A relação original desses dois livros do NT é indicada por seus Prólogos e por seu parentesco literário. O Prólogo dos Atos, que se dirige como o do terceiro evangelho (Lc 1,1-4) a certo Teófilo (At 1,1) remete a esse evangelho como a um “primeiro livro”, de que ele resume o objeto e retoma os últimos acontecimentos (aparições do Ressuscitado e Ascensão) para encadeá-los à sequência do relato. A língua é outro laço que liga estreitamente os dois livros um ao outro. Não somente suas características (de vocabulário, de gramática e de estilo) se reencontram ao longo dos Atos, estabelecendo a unidade literária dessa obra, mas ainda elas se reconhecem no terceiro evangelho, o que não permite mais duvidar que um mesmo autor escreve, aqui e lá.

Esse autor, segundo a tradição da Igreja, é reconhecido como são Lucas. Nem na antiguidade nem em nossos dias pensou-se seriamente em outro nome. Já pelo ano 175 o conjunto das Igrejas julga assim, como o mostra o acordo do documento romano que se chama Cânon de Muratori, do Prólogo “antimarcionita”, de santo Ireneu, dos Alexandrinos e de Tertuliano. De fato, esse julgamento é confirmado pelas semelhanças internas. Segundo seus escritos, o autor deve ser cristão da geração apostólica, judeu bem helenizado, ou melhor, grego de boa educação, conhecendo a fundo as realidades judaicas e a Bíblia grega. Ora, o que sabemos de Lucas a partir das epístolas paulinas, concorda bem com esses dados. Ele é apresentado pelo Apóstolo como companheiro querido que está a seu lado durante seu cativeiro (Cl 4,14; Fm 24; 2Tm 4,11). Segundo Cl 4,10-14, Lucas é de origem pagã (de Antioquia na Síria, segundo uma antiga tradição), e médico, o que implicaria certa cultura, mesmo se está longe de ser evidente que Lucas emprega em seus escritos vocabulário especificamente médico.

Para fixar a data em que escreve, não encontramos nada de firme na tradição antiga. O livro termina tom o cativeiro romano de Paulo, provavelmente 61-63, e em todo caso sua composição deve ser posterior à do terceiro evangelho (antes de 70? ou por 80? mas nada impõe uma data posterior a 70). Antioquia e Roma são propostas como lugar de composição.

Quais são as fontes utilizadas por Lucas para compor seu relato? O autor dos Atos declara que se informou cuidadosamente de tudo desde as origens ao lado daqueles que tinham já empreendido compor um relato dos acontecimentos que se realizaram entre nós (Lc 1,1-4, que forma o prólogo geral de sua obra). Tais expressões fazem supor, de uma parte, que procurou informações precisas, de outra, que retomou relatos já existentes. O exame do livro confirma essa expectativa. A despeito de uma atividade literária sempre vigilante, que imprimiu em todo texto sua marca e assegura a unidade do livro, percebem-se facilmente algumas correntes principais nas tradições recolhidas por Lucas. Os doze primeiros capítulos do livro dos Atos contam a vida da primeira comunidade reunida ao redor de Pedro depois da Ascensão (1-5), e os inícios de sua expansão graças às iniciativas missionárias de Filipe (8,4-40), e dos “helenistas” (6,1-8,3; 11,19-30; 13,1-3), e enfim do próprio Pedro (9,32-11,1-8; 12). As tradições petrinas subjacentes seriam aparentadas ao “evangelho de Pedro”, que é conhecido na literatura da Igreja antiga. Para a segunda parte dos Atos, o autor teria usado os relatos da conversão de Paulo, de suas viagens missionárias, e de sua viagem por mar para Roma como prisioneiro. Em todo caso, Lucas parece ter tido acesso às epístolas paulinas e podia se informar junto a Paulo, que ele conhecia ao menos no período de seu cativeiro. Outras pessoas (Silas ou Timóteo?) teriam podido fornecer-lhe informações circunstanciadas sobre tal ou tal episódio. Em três lugares do seu relato (16,10-17; 20,5-21,18; 27,1-28,16; também já 11,28 no texto ocidental), Lucas emprega a primeira pessoa do plural. Seguindo santo lreneu, alguns exegetas viram nas passagens dos Atos que são redigidas em estilo “nós” a prova de que Lucas acompanhou Paulo em suas segunda e terceira viagens missionárias e em sua viagem por mar a Roma. Entretanto, é notável que Lucas nunca é mencionado por Paulo como companheiro de sua obra de evangelização, Este “nós” parece mais o traço de um diário de viagem feito por um companheiro de Paulo (Silas?) e utilizado pelo autor de Atos. A viagem descrita pelo Diário pode estar associada à coleta feita pelas Igrejas da Macedônia e da Acaia para a Igreja de Jerusalém (ver At 24,17; 1Cor 16,1-4; 2Cor 8-9; Rm 15,25-29). Lucas habilmente organizou num todo essa rica matéria que reunira, seriando quando muito os diversos elementos e ligando-os entre si com o auxílio de refrães redacionais, p. e. 6,7; 9,31; 12,24 etc.

O valor histórico dos Atos dos Apóstolos não é igual. De uma parte, as fontes de que Lucas dispunha não eram homogêneas; de outra, para manejar suas fontes, Lucas gozava de liberdade muito grande segundo o espírito da historiografia antiga, subordinando seus dados históricos a seu desígnio literário e sobretudo a seus interesses teológicos. Os relatos das viagens de são Paulo refletem com mais ou menos exatidão e amplitude o mundo do Mediterrâneo oriental no Primeiro século: administração romana, cidades gregas, cultos, rotas, geografia política e topografia local. Em contraste, na primeira parte do livro os relatos são em geral muito menos circunstanciados. Lucas faz certo paralelismo entre os milagres de Pedro e os de Paulo: comparar 3,1-10 e 15,8-10; 5,15 e 19,12; 5,19 ou 12,6-11.17 e 16,23-26.40; 8,15-17 e 19,2-7; 8,18-24 e 13,6-11; 9,36-42 e 20,7-12. Além disso, alguns desses relatos miraculosos têm seus paralelos nos evangelhos: comparar At 3,6-7 e Lc 4,39; Mc 1,31; comparar At 9,33-34 e Lc 5,24b-25; At 20,10.12 e Lc 8,52-55; é também evidente que as últimas palavras de Estêvão (At 7,59-60), lembram as de Jesus, (Lc 23,34.46). O discurso de Paulo em Antioquia da Pisídia (13,16-41), não é sem analogias com os de Pedro em Jerusalém (2,14-36; 3,12-26; 4,8-12; 5,29-32), de Estêvão (7,1-53), e ainda de Pedro em Cesareia (10,34-43). Portanto, é razoável supor que Lucas não recebeu esses discursos tais como são, mas que os compôs utilizando alguns temas essenciais da pregação primitiva apoiados com argumentos que se tornaram tradicionais e foram vertidos em fórmulas memorizadas: florilégios de textos escriturísticos para os judeus, reflexões de filosofia comum para os gregos, e para todos o anúncio essencial (kerygma) de Cristo morto e ressuscitado, com convite à conversão e ao batismo. Lucas terá conhecido, de início por tradição e depois por experiência, esses esquemas da primeira propaganda cristã, e é isso que lhe permitiu, com seu fino senso psicológico, colocar nesses discursos um ensinamento de valor autêntico e de importância capital. Frequentemente foram assinaladas discordâncias entre o livro dos Atos e as epístolas paulinas, que Lucas parece ter utilizado, mas sem minúcia. É notório que Lucas não se preocupou em harmonizar as cinco visitas de são Paulo a Jerusalém nos Atos com os dados de Gl 1,15-2,10. Em outro plano, constata-se certo contraste entre o retrato de Paulo apresentado em Atos e o autorretrato que Paulo faz em sua correspondência. Paulo em Atenas se mostra claramente menos severo para com as religiões pagãs do que em sua epístola aos Romanos: comparar At 17,22-31 com Rm 1,18-32 (mas ver Sb 13,1-10, onde o autor desculpa aqueles que se enganam procurando Deus, ao mesmo tempo que condena a idolatria). Em geral Lucas atribui ao Apóstolo atitude mais conciliadora que a das epístolas: comparar At 21,20-26 com GI 2,12s; At 16,3 com GI 2,3; 5,1-12; mas os dois autores se inspiram em interesses ‘muito diferentes. Paulo é pleiteante que sabe ser intransigente (mas ver também 1Cor 9,19-23), enquanto Lucas quer demonstrar a unidade profunda que ligava os primeiros discípulos entre si.

De fato, a objetividade do livro dos Atos foi atacada por outro lado, que põe a questão de sua finalidade. A escola de F. Ch. Baur quis ver nele um escrito de compromisso redigido no século II para conciliar as tendências adversas do petrinismo e do paulinismo. Este sistema tem o mérito de relevar a existência certa de oposições na Igreja primitiva; mas supõe uma data por demais tardia, e sob sua forma radical não tem hoje mais seguidores. Por outro lado, acontece ainda frequentemente que se denuncia nessa obra um advogado, com tudo o que isso pode comportar de deformação dos fatos. Lucas aí faria a apologia de Paulo destinada a convencer as autoridades romanas de que ele não era culpado de nenhum delito político. É incontestável que Lucas destaca o caráter puramente religioso do conflito que opõe os judeus a Paulo e a indiferença das autoridades romanas diante desse conflito. Mas isso parece corresponder à verdade histórica, e em todo caso é somente um aspecto do livro dos Atos. Este é uma coisa bem diferente de uma aprovação a ser apresentada ao tribunal de Roma. Visa tão-somente a contar, por si mesma, a história das origens cristãs.

Para se convencer disso, basta examinar seu plano. Aí sê vê realizada a palavra inicial de Cristo: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e a Samaria, e até os confins da terra” (At 1,8). A fé se implanta de início solidamente em Jerusalém, onde a primeira comunidade cresce em graça e em número (1-5). Logo começa a expansão, preparada pela tendência universalista dos convertidos do judaísmo helenístico e por sua expulsão depois do martírio de Estêvão (6,1-8,3): a Samaria é alcançada (8,4-25), assim como, a planície costeira até Cesareia, onde pela primeira vez pagãos entram na Igreja (8,26-40; 9,32-11,18), apesar de a conversão de Paulo nos mostrar que já há cristãos em Damasco e pressagia a evangelização da Cilicia (9,1-30). Refrães como 9,31 (que acrescenta a Galileia) salientam bem a difusão da fé. Em seguida é Antioquia que recebe a mensagem de Jesus (11,19-26), e que se tornará um centro de irradiação, não sem guardar com Jerusalém relações em que se concorda sobre os principais problemas missionários (11,27-30; 15,1-35). De fato, trata-se agora, para o Evangelho, de passar aos pagãos. Depois da conversão de Cornélio e o encarceramento em Jerusalém, Pedro parte para destinação desconhecida (12,17); e é Paulo que doravante, no relato de Lucas, ficará em evidência. Depois da primeira viagem com Barnabé em Chipre e na Ásia Menor antes do concílio de Jerusalém (13-14), duas outras, viagens o levarão até a Macedônia e a Grécia (15,36-18,22), e a Éfeso (18,23-21,77). Sempre volta a Jerusalém, e sua prisão nessa cidade, depois seu cativeiro em Cesareia (21,18-26,32), lhe permitirão fazer-se conduzir, prisioneiro mas sempre missionário, até Roma onde, mesmo preso, anuncia Cristo (27-28), Vista de Jerusalém esta capital do império representa bem “os confins da terra”, e Lucas pode encerrar aí o seu livro.

Lamentaremos talvez que nada tenha sido dito sobre as atividades dos outros apóstolos, nem da fundação de certas Igrejas como a de Alexandria, ou até a de Roma, em que a fé cristã foi certamente implantada antes da chegada do Apóstolo (ver a epístola aos Romanos, sobretudo 15,22s). Também do apostolado de Pedro fora da Palestina ele nada diz, e é certo que a pessoa de Paulo ocupa em sua obra lugar preponderante, até encher sozinha toda a sua segunda metade. Mais que uma história materialmente completa, é exposição da força de expansão espiritual do cristianismo que ele quis dar; e o ensinamento teológico que soube tirar dos fatos de que dispunha possui valor universal e insubstituível, o que faz todo o valor de sua obra.

Tal contribuição doutrinal é múltipla e só é possível evocar os motivos principais. A fé em Cristo, base do kerygma apostólico, aí é exposta. Conhecemos, pelos discursos, os principais textos escriturísticos que serviram, sob a guia do Espírito, à formulação da cristologia e à argumentação junto aos judeus: notam-se particularmente os temas do Servidor (3,13.26; 4,27.30; 8,32-33), e de Jesus novo Moisés (3,22s; 7,20s), e novo Elias (1,9-11; 3,20-21). A ressurreição é provada pelo Sl 16,8-11 (At 2,24-32; 13,34-37). A história do povo eleito deve fazer com que os judeus estejam de sobreaviso contra a resistência à graça (7,2-53; 13,16-41). Para os pagãos, invocam-se os argumentos de uma teodiceia mais geral (14,15-17; 17,22-31). Mas os apóstolos são sobretudo “testemunhas” (1,8+), e Lucas nos resume seu “kerygma” (2,22+), assim como nos conta seus “sinais” taumatúrgicos. O problema crucial da Igreja nascente devia ser o acesso dos pagãos à salvação, e o livro dos Atos nos fornece luzes a respeito deste ponto, ainda que não nos revele toda a extensão das dificuldades e das controvérsias ocasionadas por essa questão na Igreja e mesmo entre seus dirigentes (ver Gl 2,11+): os irmãos de Jerusalém, agrupados ao redor de Tiago, permanecem fiéis à Lei judaica (15,1.5; 21,20s); mas os “helenistas”, dos quais Estêvão é o porta-voz, sentem a necessidade de romper com o culto do Templo; e Pedro, depois sobretudo Paulo, fazem triunfar no concílio de Jerusalém o princípio da salvação pela fé em Cristo, que dispensa os pagãos da circuncisão e das observâncias mosaicas, Não é menos verdadeiro que Lucas nos mostre Paulo começando sempre por se dirigir aos judeus, para se voltar a seguir aos pagãos quando é rejeitado por seus irmãos de raça (13,5+). Sobre a vida das comunidades cristãs ele nos esboça um quadro que é sem dúvida idealizado, até mesmo utópico, mas que é inspirado nas lembranças dos primeiros anos, assim como nas realidades eclesiais de uma época mais tardia: vida de oração e partilha dos bens na jovem Igreja de Jerusalém; administração do batismo da água e do batismo do Espírito (1,5+); celebração da Eucaristia (2,42+); esboços de organização eclesiástica nos “profetas” e “doutores” (13,1+), ou ainda nos “presbíteros” que presidem a Igreja de Jerusalém (11,30+), e que Paulo estabelece nas Igrejas que ele funda (14,23). Tudo banhado, dirigido, arrebatado por um sopro invencível do Espírito Santo. Esse Espírito, sobre o qual Lucas já insistira em seu evangelho (Lc 4,1+), ele o mostra sem cessar em ação, na expansão da Igreja (At 1,8+), a ponto de se poder chamar os Atos de “o evangelho do Espírito Santo”. E o que dá a essa obra esse perfume de alegria espiritual, de maravilhoso sobrenatural de que não se espantarão a não ser aqueles que não compreendem esse fenômeno único no mundo que foi o nascimento do cristianismo. Se acrescentamos a todas essas riquezas teológicas a preciosa contribuição de tantos pormenores concretos que de outra forma nos ficariam desconhecidos, se soubermos apreciar os retratos de uma fina psicologia em que Lucas sobressai — trechos picantes e hábeis como o discurso diante de Agripa (26), páginas emocionantes como o adeus aos anciãos de Éfeso (20,17-38), relatos vivos e realistas como o motim dos ourives (19,23-41) — conviremos que este livro é único em seu gênero no NT. Ele representa um tesouro cuja ausência teria empobrecido singularmente nosso conhecimento das origens cristãs.

O texto dos Atos, como o restante do NT, nos chegou com muitas variantes de minúcias. Porém, mais que em outros lugares, as que provêm do texto dito “ocidental” (Codex Bezae, versões latina, siríaca e copta, antigos escritores eclesiásticos) merecem reter a atenção. Elas fornecem um texto que frequentemente é mais conciso que o texto alexandrino, mas que contém também minúcias concretas e pitorescas que o outro ignora. De fato, estas duas tradições textuais parecem representar redações sucessivas do livro dos Atos. A tradução que segue é feita o mais frequentemente sobre o texto alexandrino, mas numerosas variantes do texto ocidental foram assinaladas em nota ou mesmo adotadas no texto traduzido.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

Nestlé explica a diferença entre preços de ovos de páscoa e barras de chocolate

Páscoa

Essa imagem já está rolando há algum tempo no Facebook, mas como não vi ninguém explicar por que isso acontece, então eu, um mero amador em Economia, vou tentar…

Resposta curta

Porque as pessoas pagam.

Resposta não tão curta

Vou tentar demonstrar a resposta curta, acima, utilizando um exemplo:

Suponha que você tenha comprado um novo aparelho de som para sua casa, que lê MP3, acessa arquivos remotos via wi-fi, etc. Você quer manter em casa aquele aparelho de som velho (isso é que é som!), enorme, que te proporcionou vários momentos memoráveis, mas que infelizmente só lê CDs (que ele demora séculos pra reconhecer, quando reconhece). Mas não dá pra ficar com ele, pois sua casa ficaria apertada demais. Então, com o coração partido, você decide que é hora de vendê-lo. “É um som de altíssima qualidade, e certamente vão me pagar uma boa grana por ele”, pensa.

Você anuncia em vários sites na internet, colocando o preço que você acha que ele vale e destacando todas as inúmeras qualidades desse som maravilhoso, e aguarda os comentários dos compradores. Passam-se algumas horas e nada. “Não devem ter visto direito”. Mais umas tantas horas, e finalmente aparece um e-mail, informando que alguém fez uma pergunta no seu anúncio. Você vai correndo até o site e lê: “aceita troca por um Game Cube?” Você fica indignado! Como assim? Não tem nem como comparar! Meu som vale muito mais que esse pedaço de plástico velho! Se acalma e resolve responder com um educado “infelizmente não estou aceitando trocas.” Mais algumas horas e mais uma pegunta aparece, dessa vez oferecendo um terço do preço do anúncio. “Tá brincando com a minha cara, né?”

Passam-se alguns dias, e nada além dessas perguntas “de quem não entende nada de som de qualidade”. Frustrado, você se pergunta: “por que não estou conseguindo vender?”

Chegamos, então, à resposta curta. Mais especificamente à sua negativa: “porque as pessoas não pagam”. E se não pagam, que opções você tem? Basicamente, três:

1) diminuir o preço;

2) doar para um amigo que “realmente entende de som”;

3) desistir de vender.

(note que na verdade são apenas duas opções, pois a opção 2 é apenas o limite da opção 1: diminuir o preço para zero)

Voltando ao exemplo do ovo de páscoa, perceba que a opção 2 simplesmente não serve ao fabricante (ele fabrica para ganhar dinheiro, não para agradar os amigos), e a opção 3 só serve em caso de desespero absoluto. Portanto, se as pessoas não pagam por um produto, a única solução do fabricante é a 1: diminuir o preço.

Note que não é necessário saber o motivo de as pessoas não pagarem: talvez um concorrente esteja vendendo ovos de qualidade parecida com um preço bem melhor, ou talvez as pessoas tenham mudado de mentalidade e agora preferem fazer seus ovos em casa a partir de barras derretidas, mas não importa! Se eu não consigo vender um produto industrializado, a única maneira é diminuir o preço (tá, você também tem a opção de tentar convencer as pessoas que elas devem pagar o preço que eu estabeleci, mas não vou tratar desse assunto pro texto não ficar comprido demais).

São os compradores que dão valor às mercadorias, não os vendedores. Se elas dão mais valor a outras mercadorias (sejam quais forem), não vão comprar a sua!

Para deixar o exemplo dos ovos de páscoa ainda mais claro, tente imaginar alguém vendendo ovos de páscoa num país muçulmano. Não venderia nada, pois lá não se comemora a Páscoa, e dificilmente as pessoas pagariam mais de 6 vezes o valor de um produto só pelo fato de ele estar em um formato oval. Em outras palavras, lá as pessoas não dão a ovos de chocolate o mesmo valor que as pessoas dão aqui.

Portanto, se aqui o vendedor consegue vender ovos a R$ 50, a explicação é essa: porque as pessoas dão valor ao fato de o chocolate vir em forma de ovo, e por isso pagam por ele. Por isso, falar em “preço justo” nesse caso não faz sentido, pois ninguém é forçado a comprar um ovo de páscoa. A compra é um ato livre, e quem não quer comprar não compra! Se você quer o produto tão desesperadamente, então pague o preço que pedem por ele. Se não quer, não pague e pronto. É simples assim, acredite. Eu duvidei e li bastante sobre o assunto, pra no final apenas comprovar que essa resposta ridiculamente simples é verdadeira. Se você — como eu — ficou curioso pelo assunto, divirta-se com respostas mais longas, abaixo.

(há também a questão da época: dificilmente alguém conseguiria vender ovos de páscoa na época do Natal pelo mesmo preço praticado na Páscoa, mas isso fica como dever de casa) 😉

Resposta longa

A partir daqui eu vou apelar para links externos, pois seria muita coisa pra colocar num único artigo. E também porque, como não estudei Economia a fundo, não sou a melhor pessoa para explicar. Deixemos para os profissionais, então…

Você encontrará resposta de forma bem didática aqui: Dez lições de economia austríaca para iniciantes

É uma resposta resumida, mas a explicação me foi útil não somente para estes casos, mas para quase tudo o que vejo por aí sobre valor e preço. Essa série de artigos realmente me fez enxergar direito como funciona o mercado, e depois dela ficou muito mais fácil entender por que as coisas são como são.

A questão dos preços aparece especificamente na aula 4, mas não recomendo pular as outras aulas porque elas têm conceitos importantes (escassez, valor, etc.) que farão falta pra que você entenda adequadamente a explicação. Mas se o tempo for um fator realmente desesperador, então leia só essa parte mesmo. É melhor que não ler nada. 😉

Resposta completa

Lembro que o “curso” acima é um mero resumo. Se você quiser entender bem de Economia — e isso vale para qualquer assunto, claro –, o remédio é ler muito. Nesse ponto, a biblioteca do Instituto Mises Brasil é um prato cheio. E tudo o que está lá é de graça; você só não vai aprender se não quiser.

Aproveite para ler também alguns artigos. A vantagem é que você pode fazer perguntas, e o pessoal sempre responde, até bem rápido.