Introdução ao evangelho segundo são Mateus

As grandes linhas da vida de Jesus que encontramos em são Marcos se encontram no evangelho de são Mateus, mas o acento é posto de modo diferente. O plano em primeiro lugar é outro. Relatos e discursos se alternam: 1-4, relato: infância e início do ministério; 5-7, discurso: sermão sobre a montanha (bem-aventuranças, entrada no Reino); 8-9, relato: dez milagres mostrando a autoridade de Jesus, convite aos discípulos; 10, discurso missionário; 11-12, relato: Jesus rejeitado por “esta geração”; 13, discurso: sete parábolas sobre o Reino; 14-17, relato: Jesus reconhecido pelos discípulos; 18, discurso: a vida comunitária na Igreja; 19-22, relato: autoridade de Jesus, último convite; 23-25, discurso apocalíptico: desgraças, vinda do Reino; 26-28, relato: morte e ressurreição. Devemos notar a correspondência dos relatos (natividade e vida nova, autoridade e convite, rejeição e reconheumento), e a relação entre o primeiro e o quinto discurso, e entre o segundo e o quarto; o terceiro discurso forma o centro da composição. Como, por outro lado, Mateus reproduz muito mais completamente que Marcos o ensinamento de Jesus (que ele tem em grande parte em comum com Lucas) e insiste sobre o tema do “Reino dos Céus” (3,2; 4,17+) pode-se caracterizar seu evangelho como uma instrução narrativa sobre a vinda do Reino dos Céus. Este Reino de Deus (= dos Céus), que deve restabelecer entre os homens a autoridade soberana de Deus como Rei por fim reconhecido, servido e amado, havia sido preparado e anunciado pela Antiga Aliança. Também Mateus, escrevendo para uma comunidade de cristãos vindos do judaísmo e talvez discutindo com os rabinos, aplica-se particularmente a mostrar o cumprimento das Escrituras na pessoa e na obra de Jesus. A cada passo de sua obra ele se refere ao AT para provar como a Lei e os Profetas são “cumpridos”, isto é, não somente realizados em sua expectativa, mas ainda levados a uma perfeição que os coroa e os ultrapassa. Ele o faz para a pessoa de Jesus, confirmando com textos escriturísticos sua raça davídica (1,1-17), seu nascimento de uma virgem (1,23), em Belém (2,6), sua estada no Egito, seu estabelecimento em Cafarnaum (4,14-16), sua entrada messiânica em Jerusalém (21,5.16); ele o faz quanto à sua obra, suas curas milagrosas (11 ,4-5), seu ensinamento que “realiza” a Lei (5,17), dando-lhe uma Interpretação nova e mais interior (5,21-48; 19,3-9.16-21). E Mateus não salienta menos fortemente como a humildade dessa pessoa e o aparente fracasso dessa obra também são cumprimento das Escrituras: o massacre dos Inocentes (2,17s), a infância escondida em Nazaré (2,23), a mansidão compassiva do “Servo” (12,17-21; cf. 8,17; 11,29; 12,7); o abandono dos discípulos (26,31), o preço vergonhoso da traição (27,9-10), a prisão (26,54), o sepultamento durante três dias (12,40), tudo isso era o desígnio de Deus anunciado pela Escritura. E também a incredulidade das multidões (13,13-15), e sobretudo dos discípulos dos fariseus ligados a suas tradições humanas (15,7-9) e aos quais não pode ser dado mais que um ensinamento misterioso em parábolas (13,14-15.35), também isto anunciado pelas Escrituras. Sem dúvida os outros sinóticos utilizam também este argumento escriturístico, porém Mateus o reforça notavelmente, a ponto de fazer dele um traço marcante de seu evangelho. Isso, unido à construção sistemática de sua exposição, faz de sua obra a carta da nova economia que realiza os desígnios de Deus em Cristo. Para Mateus Jesus é o Filho de Deus e Emanuel, Deus Conosco desde o início. No fim do evangelho, Jesus enquanto Filho do homem é dotado de toda autoridade divina sobre o Reino de Deus, tanto nos céus como na terra. O título de Filho de Deus reaparece nos momentos decisivos do relato: o batismo (3,17); a confissão de Pedro (16,16); a transfiguração (17,5); o processo de Jesus e sua crucifixão (26,63; 27,40.43.54). Ligado a este título, encontra-se o de Filho de Davi (dez vezes, como em 9,27), em virtude do qual Jesus é o novo Salomão, curador e sábio. Com efeito, Jesus fala como a Sabedoria encarnada (11,25-30 e 23,37-39). O título de Filho do homem, que percorre o evangelho, culminando na última cena majestosa (28,18-20), vem de Dn 4,17 e 7,13-14, onde se encontra em estreita relação com o tema do Reino. O anúncio da vinda do Reino acarreta uma conduta humana que em Mateus se exprime sobretudo pela busca da justiça e pela obediência à Lei. A justiça, tema preferido de Mateus (3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32), é aqui a resposta humana de obediência à vontade do Pai, mais que o dom divino do perdão que ela significa para são Paulo. A validade da Lei (Torah) mosaica é afirmada (5,17-20), mas seu desenvolvimento pelos fariseus é rejeitado em favor de sua interpretação por Jesus, que insiste sobretudo nos preceitos éticos, no Decálogo e nos grandes mandamentos do amor de Deus e do próximo, e que fala de outros assuntos (o divórcio [ 5,31-32; 19,1-10 ]) à medida que eles revestem aspecto moral. Entre os evangelistas, Mateus se distingue também por seu interesse explícito pela Igreja (16,18; 18,17 [duas vezes]). Ele procura dar à comunidade dos fiéis princípios de conduta e chefes autorizados. Estes princípios são evocados nos grandes discursos, sobretudo no cap.18, que contém princípios em vista de tomar decisões e de resolver conflitos: a solicitude pela ovelha extraviada e pelos pequeninos, o perdão e a humildade. Mateus não tem o tríplice ministério dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos, mas menciona os sábios ou os chefes instruídos, e particularmente os apóstolos, com Pedro à sua frente (10,2), que participam da autoridade do próprio Jesus (10,40; 9,8); menciona também os profetas, os escribas, os sábios (10,41; 13,52; 23,34). Como juiz de última instância existe Pedro (16,19). Uma vez que o poder, embora necessário, é perigoso, os chefes têm necessidade da humildade (18,1-9). Mateus não tem ilusões a respeito da Igreja. Qualquer um pode fracassar (até Pedro: 26,69-75); os profetas podem dizer coisas falsas (7,15); na Igreja santos e pecadores estão misturados até o último momento (13,36-43; 22,11-14; 25). Apesar de tudo, a Igreja é enviada em missão ao mundo inteiro (28,18-20). O estilo de vida, apostólico ou missionário, é descrito em 9,36-11,1. Todo o evangelho é emoldurado pelo formulário segundo o qual Deus está unido com seu povo por meio de Jesus Cristo (1,23 e 28,18-20). Os rejeitados pelo antigo Israel (21,31-32), unidos aos pagãos convertidos, tornam-se de novo o povo de Deus (21,43). Compreendemos então que este evangelho tão completo e tão bem organizado, redigido em uma língua menos saborosa, porém mais correta que a de Marcos, tenha sido recebido e utilizado pela Igreja nascente com notável predileção.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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