Introdução aos Evangelhos Sinóticos

Dos quatro livros canônicos que relatam a “Boa Nova” (sentido do termo “evangelho”) trazida por Jesus Cristo, os três primeiros apresentam entre si tais semelhanças que podem ser colocados em colunas paralelas e abarcados “com um só olhar”, de onde seu nome de “Sinóticos”, Mas eles oferecem também entre si numerosas divergências. Como explicar ao mesmo tempo tais semelhanças e divergências? Isso equivale a perguntar: como se constituíram?

Para compreender isso, é preciso admitir em primeiro lugar que antes de ter sido colocados por escrito, os evangelhos, ou ao menos grande número dos materiais que eles contêm foram transmitidos oralmente. No princípio houve a pregação oral dos apóstolos, centrada em torno do “querigma” que anuncia a morte redentora e a ressurreição do Senhor. Ela se dirige aos judeus, aos quais era necessário provar, graças ao testemunho dos apóstolos a respeito da ressurreição, que Jesus era de fato o Messias anunciado pelos profetas de outrora; ela terminava com o apelo à conversão. Desta pregação, os discursos de Pedro nos Atos dos Apóstolos fornecem resumos típicos (At 4,8-12, mais desenvolvidos em 3,12-26; 2,14-36 e sobretudo 13,16-41) como também Paulo em 1Cor 15,3-7. Conforme Lc 24,44-48, este “querigma” fundamental se enraizaria já nas ordens de Cristo ressuscitado. Mas, àqueles que se convertiam, era preciso dar, antes que recebessem o batismo, ensinamento mais completo a respeito da vida e do ensinamento de Jesus. Um resumo desta catequese pré-batismal nos é dado em At 10,37-43, cujo esquema anuncia já a estrutura do evangelho de Mc: batismo dado por João durante o qual Jesus recebeu o Espírito, atividade taumatúrgica de Cristo na terra dos judeus, sua crucifixão seguida de sua ressurreição e de suas aparições a alguns discípulos privilegiados, sendo o todo garantido pelo testemunho dos apóstolos. Tudo isso, segundo os Atos, provém ainda da pregação oral. Muito cedo ainda, para ajudar os pregadores e os catequistas cristãos, foram reunidas por temas comuns as principais “palavras” de Jesus. Delas temos ainda resquícios em nossos evangelhos atuais: tais “palavras” estão frequentemente ligadas entre si por palavras-gancho afim de favorecer a sua memorização. Na Igreja primitiva, havia também narradores especializados, como os “evangelistas” (At 21,8; Ef 4,11; 2Tm 4,5) que relatavam as lembranças evangélicas sob uma forma que tendia a se fixar pela repetição. Sabemos também, graças a dois testemunhos independentes (cf. abaixo), que o segundo evangelho foi pregado por Pedro antes de ter sido escrito por Mc. E Pedro não foi a única testemunha ocular a anunciar Cristo; os outros não tinham certamente necessidade de documentos escritos para ajudar sua memória. Mas é claro que o mesmo acontecimento devia ser relatado por eles segundo formas literárias diferentes. Um caso típico nos é fornecido pelo relato da instituição da Eucaristia. Antes de o escrever aos fiéis de Corinto, Paulo certamente o relatou oralmente conforme uma tradição particular (1Cor 11,23-26) conhecida também por Lucas (22,19-20). Mas o mesmo relato nos foi transmitido, com variantes importantes, em uma outra tradição conhecida por Mt (26,26-29) e por Mc (14,22-25). É, portanto, na tradição oral que é preciso procurar a causa primeira das semelhanças e das divergências entre os Sinóticos. Mas essa tradição oral não deveria ser a única a explicar semelhanças tão numerosas e espantosas, tanto nas minúcias dos textos como na ordem das perícopes, que ultrapassam as possibilidades da memória, até a memória antiga e oriental. É necessário recorrer a uma documentação escrita que estaria na origem de nossos evangelhos.

O mais antigo testemunho que temos sobre a composição dos evangelhos canônicos é o de Pápias, bispo de Hierápolis, na Frígia, que compôs por volta de 130 uma “Interpretação (exegese) dos Oráculos do Senhor”, em cinco livros. Esta obra se perdeu há muito tempo, mas o historiador Eusébio de Cesareia dela reportou as duas passagens seguintes: “E o Ancião dizia: Marcos, que foi o intérprete de Pedro. Cuidadosamente escreveu tudo aquilo de que se lembrava, sem todavia respeitar a ordem do que foi dito ou realizado pelo Senhor. Com efeito, não fora o Senhor que ele tinha ouvido ou acompanhado, mas Pedro, mais tarde, conforme eu disse. Este agia conforme o que exigia seu ensinamento ,e não como se quisesse dar a ordem dos oráculos do Senhor. Assim, não se pode reprovar a Marcos por tê-los escrito do modo pelo qual ele os lembrava. Sua única preocupação foi a de nada omitir daquilo que ouvira, sem aí introduzir mentira”. Eusébio acrescentou, logo depois, o testemunho de Pápias sobre Mateus: “Mateus então colocou em ordem os oráculos, em língua hebraica; cada um os interpretou como podia” (Hist. Ecl., IIl; 39,15-16). – O segundo testemunho a respeito da composição dos evangelhos no-lo dá Clemente de Alexandria (citado por Eusébio de Cesareia): “Nos mesmos livros ainda, Clemente cita uma tradição dos Anciãos a respeito da ordem dos evangelhos; é a seguinte: ele dizia que os evangelhos que compreendem as genealogias foram escritos em primeiro lugar e que o evangelho segundo são Marcos o foi nas seguintes circunstâncias: tendo Pedro pregado a doutrina publicamente em Roma e tendo exposto o evangelho pelo Espírito, seus ouvintes, que eram numerosos, exortaram Marcos, uma vez que ele o havia acompanhado há tempo e se lembrava de suas palavras, a transcrever o que Pedro havia dito; ele o fez e transcreveu o evangelho para os que lhe haviam pedido. Quando Pedro soube disso, nada fez por meio de seus conselhos para o impedir disso ou para forçá-lo a isso” (Hist. Ecl., IV, 14,5-7). Como o de Pápias, esse testemunho remonta aos Anciãos, isto é, a homens da segunda geração cristã. Toda a tradição posterior, grega, latina ou até siríaca (Efrém), não fará mais que retomar, acrescentando algumas minúcias, esse testemunhos fundamentais. Que conclusão podemos tirar disso?

Pápias e Clemente estão de acordo em atribuir a composição de um dos evangelhos a Marcos, discípulo de Pedro (cf. 1Pd 5,13), cuja pregação ele havia escrito. Vindo de duas fontes arcaicas diferentes, esta informação pode ser considerada como certa. Conforme Clemente, Marcos teria escrito enquanto Pedro ainda vivia, uma vez que este estava por outro lado mais ou menos desinteressado desse empreendimento. Pápias não nos dá nenhuma informação explícita sobre este ponto. Seu texto permite ao contrário pensar que Marcos havia escrito depois da morte de Pedro, e é neste sentido que o interpretarão Ireneu de Lião e o mais ántigo Prólogo evangélico que nos chegou (fim do séc. ll). Pápias não nos diz onde Marcos escreveu seu evangelho. Clemente precisa que foi em Roma, onde Pedro exercia seu ministério. Este pormenor, retomado na tradição posterior, parece exato, pois o evangelho de Marcos contém certo número de termos gregos que são apenas transcrição do latim. – Clemente não nos dá nenhuma informação sobre Mateus, a não ser que seu evangelho continha uma genealogia de Cristo (Mt 1,1-17). Conforme Pápias, ele teria escrito em hebraico, termo que podia se aplicar também ao aramaico, e depois sua obra teria sido traduzida em grego. Tal pormenor será retomado unanimemente pela tradição posterior. Um fato poderia confirmá-lo, Nas duas notícias fundamentais citadas acima, as informações referentes a Marcos são muito mais extensas que as que se referem a Mateus, do qual não nos é dito sequer que se tratasse do publicano de Mt 9,9. Não seria isso um indício de que o evangelho de Marcos, escrito em grego, ter-se-ia espalhado rapidamente no mundo cristão até que o de Mateus, que o substituirá como evangelho de base, tivesse sido traduzido do hebraico (ou do aramaico) para o grego? Mas Pápias e Clemente não estão mais de acordo quando se trata de estabelecer a ordem na qual teriam sido escritos os evangelhos. Pápias parece dizer que Mateus teria colocado em ordem os “oráculos” de Cristo que Marcos nos havia transmitido em desordem. É provável que esta informação não deva ser tomada literalmente. Permanece que, para Pápias, Mateus teria escrito depois de Marcos; segundo Clemente, Marcos teria escrito depois de Mateus e de Lucas, cujos evangelhos contêm uma genealogia de Cristo (Mt 1,1-17; Lc 3,23-38). A tradição posterior, desde Ireneu, conservará a ordem Mt, Mc e Lc; mas isso não se deveria ao fato de Mt ter-se tornado o evangelho fundamental? Os dados tradicionais são, portanto, contraditórios no que se refere à ordem de produção dos três sinóticos. Eusébio de Cesareia não nos conservou o testemunho de Pápias sobre Lucas, se é que de fato houve algum. Desde Ireneu e os antigos Prólogos evangélicos, a tradição atribuirá sua redação a Lucas, o médico discípulo de Paulo (CI 4,14; Fm 24; 2Tm 4,11).

Estes dados, que nem sempre estão de acordo, estão longe de resolver o problema sinótico. Por exemplo, Pápias fala de um evangelho de Mateus escrito “em língua hebraica”, perdido há muito tempo, mas nada nos diz sobre a forma grega, sem dúvida mais desenvolvida, do evangelho segundo Mateus que utilizamos atualmente. Esta forma grega pôde, por outro lado, receber variantes, como o atestam, entre outras, as citações deste evangelho feitas pelos Padres antigos, especialmente o apologista Justino. Quanto a Marcos, ainda que seja tributário de Pedro, pode-se perguntar por que permanece tão sóbrio a respeito do ensinamento de Jesus. Seu evangelho teria sido o primeiro a ser escrito, como parece admitir Pápias, ou, ao contrário, o último dos três, como o diz explicitamente Clemente? E de onde Lucas conseguiu as tradições que lhe são próprias? Em quais medidas compreendeu a mensagem de Paulo, do qual foi discípulo? Finalmente, os evangelhos escritos por Marcos, Mateus e Lucas não teriam recebido complementos, até modificações mais ou menos profundas, entre o momento em que foram compostos e o momento em que foram definitivamente recebidos nas Igrejas?

Todavia, em que data aproximativa foram recebidos? Para responder a esta questão, é preciso tomar o problema remontando no tempo. Conhecemos atualmente mais de 2000 manuscritos gregos escritos em pergaminho que nos dão o texto dos evangelhos sinóticos, escalonando-se entre o quarto e o décimo quarto séculos. Todos esses manuscritos oferecem entre si variantes inevitáveis, mas que permanecem variantes de minúcias, Os textos que usamos atualmente, seja para estudar os Sinóticos, seja para traduzi-los nas línguas modernas, são os dois mais antigos desses manuscritos: o Sinaítico, proveniente do mosteiro de Santa Catarina do Sinai, hoje conservado no Museu Britânico, e sobretudo o Vaticano, conservado na Biblioteca Vaticana. Ambos são datados de meados do séc. IV. Mas a autenticidade do texto que eles nos oferecem pode ser testada de diferentes modos. Desde o início do século, numerosos textos em papiro foram descobertos no Egito. Citemos dois dos mais importantes. Um códice que contém ainda cerca de quatro quintos de Lucas (e importantes fragmentos de João) foi datado do início do séc. III. Ele é propriedade da biblioteca Bodmer, em Cologny, em Genebra. Seu texto é muito próximo daquele que nos dá o Vaticano. Por outro lado, numerosos fragmentos muito importantes dos quatro evangelhos, pertencendo a um códice datado do meio do séc. III, são conservados na coleção Chester Beatty, de Dublin. Menos próximo do Vaticano que o
precedente, seu texto dele não difere a não ser em variantes de minúcia. Quatro outros fragmentos, muito mais modestos, pois não contêm mais que alguns versículos mateanos, são ainda datados, seja do séc. III, seja até, para o mais antigo, dos limites dos séc. II e III. A este testemunho dos manuscritos gregos, é preciso acrescentar o das versões antigas. Desde o fim do séc. lI, os evangelhos foram traduzidos para o latim na África do Norte (provavelmente Cartago) assim como em siríaco. A versão copta remonta ao séc. III. Isso para não falar senão dos mais importantes e mais antigos. É preciso levar em conta, finalmente, numerosas citações evangélicas feitas pelos Padres antigos: Ireneu de Lião, Clemente de Alexandria e Orígenes para os gregos, Tertuliano e Cipriano para os africanos, Afraates e Efrém para os sírios. Tudo isso forma um conjunto de testemunhos concordantes, repartidos no conjunto do mundo cristão, e que nos permite constatar que, apesar de variantes inevitáveis que não concernem à substância dos evangelhos, estes já estavam constituídos desde a metade do séc. lI, e até provavelmente em data mais antiga, sob a forma em que agora os conhecemos. Menção especial deve ser feita ao apologista Justino, que escrevia por volta de 150 seu Diálogo com Trifão e suas duas Apologias do cristianismo. Se frequentemente cita os evangelhos, nunca o faz sob o nome de Mateus, de Lucas ou de Marcos, mas sob o nome muito geral de “Memória dos apóstolos”. Alguns acreditaram poder disso concluir que Justino ignorava a divisão em quatro evangelhos, afirmada fortemente por Ireneu mais ou menos trinta anos mais tarde. Um estudo de suas citações permite pensar que Justino de fato utilizava uma harmonia evangélica composta a partir dos três Sinóticos, e provavelmente também de João.

O problema sinótico coloca-se, portanto, para o período que se estende entre a composição dos primeiros evangelhos por Mateus, Marcos e Lucas, e a forma em que agora os conhecemos, a qual, para o essencial, poderia remontar ao primeiro início do séc. lI. Como explicar ao mesmo tempo as semelhanças e as divergências que existem entre os três evangelhos sinóticos tais como hoje os conhecemos? Este problema suscitou muitas controvérsias há dois séculos, e aqui .não é o caso de entrar em minúcias demasiadamente técnicas . Indiquemos simplesmente as tendências gerais da exegese moderna. A teoria mais satisfatória é a das Duas Fontes. Elaborada pela metade do século XIX, ela é aceita hoje com mais ou menos convicção pela grande maioria dos exegetas, tanto católicos como protestantes. Uma das duas fontes em questão seria Mc (tradição tríplice). Porém Mt e Lc oferecem também numerosas seções, especialmente “palavras” de Cristo (como o sermão inaugural de Jesus), desconhecidas de Mc (dupla tradição). Como, segundo a teoria das Duas Fontes, estes dois evangelhos são independentes um do outro, seria necessário admitir que eles tenham bebido em outra fonte que se costuma chamar Q (inicial do termo alemão “Quelle”, fonte). Quanto às seções próprias, seja de Mt, seja de Lc, elas proviriam de fontes secundárias conhecidas por esses dois evangelhos.

Apresentada sob esta forma, a teoria das Duas Fontes expõe-se a uma séria objeção. Mesmo nas seções que provêm da tradição tríplice, Mt e Lc oferecem entre si numerosas concordâncias contra Mc, positivas ou negativas, mais ou menos importantes. Se é fato que certo número dessas concordâncias podem se explicar como reações naturais de Mt ou de Lc esforçando-se por melhorar o texto um pouco infeliz de Mc, resta certo número delas que é difícil explicar. Alguns exegetas aperfeiçoaram então a teoria, supondo que Mt e Lc dependeriam, não do Mc tal qual chegou até nós, mas de uma forma anterior (proto-Mc), ligeiramente diferente do Mc atual. Apesar deste último ponto, é certo que a teoria das Duas Fontes, relativamente simples, permite justificar grande número de fatos “sinóticos”, Por outro, ela está em parte de acordo com o dado tradicional herdado de Pápias: a prioridade é dada a Marcos. Os relatos deste evangelho, vivos e ricos em minúcias concretas, poderiam muito bem ser eco da pregação de Pedro. Alguns chegaram até a propor a identificação da fonte Q (coletânea sobretudo de “palavras” de Jesus) como Mt – cujos “oráculos” do Senhor, Pápias diz que Mateus colocou em ordem. Todavia, Pápias emprega a mesma expressão para designar o evangelho de Mc (ver também o título de sua obra) e nada permite pensar que o Mt do qual ele fala só teria contido logia. Permanece verdadeiro que a existência de uma coletânea de “palavras” de Jesus, servindo às necessidades da catequese, é muito verossímil; o evangelho (não canônico) de Tomé seria um bom exemplo disso.

Há alguns decênios, alguns exegetas, sobretudo na Inglaterra e nos Estados Unidos, quiseram retomar uma teoria proposta há pouco mais de dois séculos por Griesbach e que teria a vantagem, na opinião deles, de evitar o recurso a uma fonte hipotética como a Q. Ela se apoia sobre a tradição dos Anciãos noticiada por Clemente de Alexandria: o evangelho primeiro seria o de Mt, Lc dependeria de Mt, e Mc, vindo por último, dependeria tanto de Mt como de Lc, os quais ele teria simplificado. É fato que Mc parece frequentemente ter fundido os textos paralelos de Mt e de Lc (fato que a teoria das Duas Fontes tem dificuldade para justificar). Mas o que se fez do dado tradicional (Pápias e Clemente) de Marcos escrevendo a pregação de Pedro? E como supor que Marcos teria deliberadamente omitido os evangelhos da infância como também a maioria das “palavras” do Senhor, particularmente a quase totalidade do discurso inaugural de Jesus?

Outros exegetas por fim permanecem persuadidos de que a teoria das Duas Fontes; apesar de suas vantagens, é demasiadamente simples para poder explicar a totalidade dos fatos sinóticos. Sem dúvida Mc aparece frequentemente mais primitivo que Mt e Lc, mas o inverso é igualmente verdadeiro: acontece que ele apresenta traços tardios, tais como paulinismos ou ainda adaptações para os leitores do mundo greco-romano, enquanto Mt ou Lc, mesmo nos textos da tradição tríplice, conservam pormenores arcaicos, de expressão semítica ou de ambiência palestina. Apresenta-se então a hipótese de que seria preciso considerar as relações entre os Sinóticos, não mais em nível dos evangelhos tais como os possuímos agora, mas em nível de redações mais antigas que se poderiam chamar de pré-Mt, pré-Lc, e até de pré-Mc, visto que todos esses documentos intermediários poderiam por outro lado depender de uma fonte comum que não seria outra que o Mt escrito em aramaico, depois traduzido em grego de diferentes modos, de que falava Pápias. De onde a possibilidade de considerar inter-reações entre as diversas tradições evangélicas mais complexas, mas também mais flexíveis, que poderiam melhor explicar todos os fatos sinóticos .Esta hipótese levaria em conta também um fato notado desde o fim do século XIX: certos autores antigos, o apologista Justino em particular e outros depois dele, citam os evangelhos de Mt e de Lc sob uma forma um pouco diferente daquela que conhecemos, e por vezes mais arcaica. Não teriam eles conhecido esses pré-Mt e pré-Lc mencionados acima? Estudos precisos mostraram igualmente que Lc e Jo oferecem entre si contatos muito estreitos, sobretudo (mas não exclusivamente) no que se refere aos relatos da paixão e da ressurreição, que poderiam ser explicados pela utilização de uma fonte comum ignorada por Mc e Mt.

E muito difícil precisar a data da redação dos Sinóticos, e esta datação dependerá forçosamente da ideia que se tem do problema sinótico, Na hipótese da teoria das Duas fontes, colocar-se-á a composição de Mc um pouco antes (Clemente de Alexandria|São Clemente de Alexandria) ou um pouco depois (Ireneu) da morte de Pedro, portanto, entre 64 e 70, não depois desta data, pois ele não parece supor que a ruína de Jerusalém já tenha sido consumada. As obras de Mt grego e de Lc seriam posteriores a ele, por hipótese; isto seria confirmado pelo fato de que, com toda probabilidade, Mt grego e Lc supõem que a ruína de Jerusalém é fato realizado (Mt 22,7; Lc 19,42-44; 21,20-24). Deveríamos então datá-los entre 75 e 90. Mas é preciso reconhecer que este último argumento não é o único. Ao contrário, por que não dizer que Ezequiel teria profetizado a ruína de Jerusalém pelos caldeus depois da tomada desta cidade (comparar Ez 4,1-2 e Lc 19,42-44), o que é manifestamente falso? Para uma datação tardia do Mt grego, seria mais oportuno invocar certas minúcias que denotam uma polêmica contra o judaísmo rabínico originado da assembleia de Jâmnia, que se realizou pelos anos 80. E se admitirmos que os Sinóticos foram compostos por etapas sucessivas, a datação de sua última redação deixa a possibilidade de datas mais antigas para as redações intermediárias, a fortiori para o Mt aramaico que estaria na origem da tradição sinótica.

De qualquer modo, a origem apostólica, direta ou indireta, e a gênese literária dos três sinóticos justificam seu valor histórico, permitindo apreciar como é preciso entendê-lo. Derivados da pregação oral que remonta aos inícios da comunidade primitiva, eles têm na sua base a garantia de testemunhas oculares (Lc 1,1-2). Seguramente, nem os apóstolos nem os outros pregadores e narradores evangélicos procuraram fazer “história” no sentido técnico e atual deste termo. Seu propósito era mais teológico e missionário: falaram para converter e edificar, inculcar e esclarecer a fé, defendê-la contra os adversários (2Tm 3,16). Mas fizeram isso com o auxílio de testemunhos verídicos, garantidos pelo Espírito (Lc 24,48-49; At 18; Jo 15,26-27), exigidos tanto pela probidade de sua consciência quanto pela preocupação de não se tornar presa de refutações hostis. Os redatores evangélicos que consignaram e reuniram seus testemunhos fizeram-no com o mesmo cuidado de honesta objetividade que respeita as fontes, como o provam a simplicidade e o arcaísmo de suas composições em que se misturam um pouco as elaborações teológicas posteriores. Em comparação com alguns evangelhos apócrifos que formigam de criações legendárias e inverossímeis, são bem mais sóbrios. Se os três sinóticos não são biografias modernas, oferecem-nos entretanto muitas informações históricas a respeito de Jesus e a respeito dos que o seguiram. Pode-se compará-los às Vidas helenísticas populares, por exemplo, as de Plutarco, simpatizando com seu assunto, mas sem apresentar um desenvolvimento psicológico que poderia satisfazer o gosto contemporâneo. Mas há modelos mais próximos no AT, como as histórias de Moisés, de Jeremias, de Elias. Os evangelhos se distinguem dos modelos pagãos por sua ética séria e sua finalidade religiosa, dos modelos veterotestamentários por sua convicção da superioridade messiânica de Jesus (para não dizer mais). Isso não significa entretanto que cada um dos fatos ou dos ditos que eles noticiam possa ser tomado como reprodução rigorosamente exata do que aconteceu na realidade. As leis inevitáveis de todo testemunho humano e de sua transmissão dissuadem de esperar tal exatidão material, e os fatos contribuem para esta precaução, pois vemos o mesmo acontecimento ou a mesma palavra de Cristo transmitida de modo diferente pelos diferentes evangelhos. Isso, que vale para o conteúdo dos diversos episódios, vale com mais forte razão para a ordem segundo a qual eles se encontram organizados entre si. Tal ordem varia segundo os evangelhos, e é o que deveríamos esperar de sua gênese complexa: elementos, transmitidos de início isoladamente, pouco a pouco se amalgamaram e agruparam, se aproximaram ou se dissociaram, por motivos mais lógicos e sistemáticos do que cronológicos. É necessário reconhecer que muitos fatos ou “palavras” evangélicas perderam sua ligação primeira com o tempo e o lugar, e frequentemente erraríamos caso tomássemos literalmente conexões redacionais tais como “então”, “em seguida”, “naquele dia”, “naquele tempo” etc.

Essas constatações, porém, não acarretam nenhum preconceito no que se refere à autoridade dos livros inspirados. Se o Espírito Santo não concedeu a seus intérpretes alcançar perfeita uniformidade no pormenor, é porque não dava à precisão material importância para a fé. Mais ainda, é porque queria esta diversidade no testemunho. “Mais vale acordo tácito que manifesto”, disse Heráclito. Do ponto de vista puramente histórico, um fato que nos é atestado por tradições diversas e até discordantes reveste, em sua substância, riqueza e solidez que não poderia lhe dar uma atestação perfeitamente coerente, mas do mesmo teor. Assim, certos “ditos” de Jesus se encontram duplamente atestados: conforme a tradição tríplice em Mc 8,34-35 = Mt 16,24-25 = Lc 9,23-24, e segundo a dupla tradição em Mt 10,37-39 = Lc 14,25-27. Há aqui uma variação entre formulação negativa e positiva, mas o sentido permanece o mesmo. Pode-se salientar uns trinta casos análogos, o que lhe dá um sólido fundamento histórico. O mesmo princípio vale para as ações de Jesus; por exemplo, o relato da multiplicação dos pães nos foi transmitido segundo duas tradições diferentes (Mc 6,35-44 e p.; 8,1-9 e p.). Não se poderia, portanto, pôr em dúvida que Jesus tenha curado doentes sob pretexto de que as minúcias de cada relato de cura variam segundo o narrador. Os relatos do processo e da morte de Jesus, como os das aparições do Ressuscitado, são casos mais delicados mas os mesmos princípios se aplicam para apreciar seu valor histórico.

Quando a diversidade dos testemunhos não vem somente das condições de sua transmissão mas resulta de modificações intencionais, isso é ainda um ganho. Não há dúvida de que, em muitos casos, os redatores evangélicos quiseram apresentar as coisas de modos diferentes. Analisar as tendências próprias de cada evangelista é o que se chama de “crítica da redação”, crítica que pressupõe que os evangelistas eram verdadeiros autores e teólogos totalmente devotados. E, antes deles, a tradição oral de que eles são os herdeiros não transmitiu as lembranças evangélicas sem interpretá-las e adaptá-las às necessidades da fé viva de que eles eram portadores. É útil para nós conhecer, não somente a vida de Jesus, mas ainda as preocupações das primeiras comunidades cristãs, e a dos próprios evangelistas. São estas três etapas da tradição que os evangelhos nos dão, com a condição de que sejam lidos segundo estas três camadas sucessivas. Os três níveis são inspirados, e todos os três provêm da Igreja antiga, cujos responsáveis representavam o primeiro magistério.

O Espírito Santo, que devia inspirar os autores evangélicos, presidia já todo esse trabalho de elaboração prévia e o guiava no desdobramento da fé, garantindo seus resultados com esta verdadeira inerrância que não se refere tanto à materialidade dos fatos quanto à mensagem de salvação de que eles são portadores.


Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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