Novamente “o mínimo”

Como alguns amigos já sabem, estou lendo “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” aos poucos. Não porque não tenha tempo, mas para poder refletir sobre cada texto antes de passar para o próximo. Para quem não conhece o livro: trata-se de uma compilação de textos de Olavo de Carvalho, brilhantemente classificados e organizados por assunto por Felipe Moura Brasil.

O texto que li hoje foi “A ilusão corporalista”, originalmente publicado no Jornal do Brasil , 4 de dezembro de 2008. Como o livro é uma compilação, todos os textos estão disponíveis online, e este não é exceção. Ele está aqui.

No livro, o texto foi classificado no tema “Revolução”, subtema “Mentalidade”. Está certo, não discordo disso, pelo contrário: ele parece estar no lugar correto. Só acho que ele também se encaixaria muito bem no tema “Religião”, pelo menos até o penúltimo parágrafo.

É que a origem da óbvia descristianização do mundo está bem descrita no texto:

A partir do momento em que o universo cultural passou a girar em torno da tecnologia e das ciências naturais, com a exclusão concomitante de outras perspectivas possíveis, era inevitável que o imaginário das multidões fosse se limitando, cada vez mais, aos elementos que pudessem ser expressos em termos da ação tecnológica e dos conhecimentos científicos disponíveis. Gradativamente, tudo o que escape desses dois parâmetros vai perdendo força simbolizante e acaba sendo reduzido à condição de “produto cultural” ou “crença”, sem mais nenhum poder de preensão sobre a realidade.

O fato é que esse trecho deixou bem claro para mim o motivo de eu ver tantas pessoas exigindo “provas científicas” da existência de Deus, quando na verdade, nem ao menos percebem que estão clamando por um absurdo. O homem moderno clama por “provas” da existência de Deus, mas nem ao menos consegue descrever um experimento científico que comprovasse ou descartasse a existência de Deus. E não consegue por um motivo óbvio: porque é impossível.

Hoje a ciência é idolatrada por todos, e com muitos méritos, diga-se. Por outro lado, a filosofia parece ser descartada automaticamente, como se fosse algo desconectado da realidade. Nada mais falso. O problema é que não se percebe que o método científico, em si, é apenas um modelo filosófico — muito bem montado — que ajuda imensamente na investigação do mundo natural, ou seja: sem a filosofia, a ciência não é nada!

Agora chego aonde queria: é triste ver pessoas dizendo coisas do tipo “a razão não te leva para Deus, pelo contrário, ela te mostra que não existe Deus algum“. Isso foi postado como comentário aqui nesse blog (e jogado no lixo, pois não tinha relação nenhuma com o texto onde foi colocado). Uma pessoa que diz algo desse naipe demonstra que não conhece nada nem de religião nem de ciência nem de razão. E o pior: ele nem percebe que não sabe!

O cara simplesmente ouviu alguém dizer essa frase, “sentiu” que parecia algo inteligente, não analisou a fundo o que significava, e começou a repetir por aí, como se essa repetição o fizesse sentir mais inteligente, ou seja: provavelmente essa frase não passa de mera auto-ajuda.

Nesse ponto, o “mínimo” é um tesouro. Depois de ler alguns artigos do livro, posso afirmar sem medo de errar: fui idiota em muitos momentos de minha vida, e continuo sendo idiota em vários outros. Se por um lado é doloroso constatar isso, por outro é gratificante ao menos saber que eu estou fazendo papel de idiota em vários momentos da minha vida. Perceber a condição de idiota não é, em si, nenhuma vantagem. Tentar sair dessa condição, sim. Mas esse é um outro passo, muito mais difícil…

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