Epístola aos Colossenses

Capítulo Versículos Trecho
1 1-2 Endereço Preâmbulo
3-14 Ação de graças e oração
15-20 Primado de Cristo I. Parte dogmática
21-23 Participação dos colossenses na salvação
24-29 Lutas de Paulo a serviço dos gentios
2 1-5 Cuidado de Paulo pela fé dos colossenses
6-8 Viver a verdadeira fé em Cristo não segundo vãs doutrinas II. Advertência contra os erros
9-15 Só Cristo é o verdadeiro Chefe dos homens e dos anjos
16-23 Contra a falsa ascese, segundo “os elementos do mundo”
3 1-4 A união com o Cristo celestie é o princípio da vida nova
5-17 Preceitos gerais de vida cristã III. Exortação
18-25 Preceitos particulares de moral doméstica
4 1
2-6 Espírito apostólico
7-9 Notícias pessoais
10-18 Saudações e voto final

Fonte: Bíblia de Jerusalém.

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Eu gosto de gente…

Tá rolando pela internet:

Eu gosto de gente que se diverte sem culpa.

Gente que vai a luta.

Que senta numa budega ou local chique.

Que bebe cana ou whisky.

Que não se importa com o que você tem, mas com o que você é.

Que te escuta sobre rock, forró, axé.

Eu gosto de gente que reza.

Gente que preza.

Gente que pensa além do dinheiro.

Gente que é da paz o ano inteiro.

Gente que elogia a mulher de havaianas ou de salto.

Gente que te coloca lá no alto.

Gente que não te faz sofrer.

Eu gosto de gente que sabe viver.

Apresento-lhes a versão cristã do mesmo poema:

Eu gosto de gente.

E pra não ficar sem rima (ruim, mas rima):

Porque cristão que se preze tem que amar a todos sem distinção. (Jo 15,12)

Tem que enxergar Deus em cada um, goste dele ou não.  (Mt 5,46)

Evangelho segundo São Mateus

Capítulo Versículos Trecho
1 1-17 Ascendência de Jesus I. O nascimento e a infância de Jesus
18-25 José assume a paternidade legal de Jesus
2 1-12 A visita dos magos
13-18 Fuga para o Egito e massacre dos inocentes
19-23 Retorno do Egito e estabelecimento em Nazaré
3 1-12 Pregação de João Batista II. A promulgação do Reino dos Céus 1. Parte narrativa
13-17 Batismo de Jesus
4 1-11 Tentação no deserto
12-17 Retorno à Galileia
18-22 Chamado dos quatro primeiros discípulos
23-25 Jesus ensina e cura
5 1-12 As bem-aventuranças 2. Discurso: o sermão sobre a montanha
13-16 Sal da terra e luz do mundo
17-19 O cumprimento da Lei
20-48 A nova justiça é superior à antiga
6 1-4 A esmola em segredo
5-6 Orar em segredo
7-15 A verdadeira oração. O Pai-nosso
16-18 Jejuar em segredo
19-21 O verdadeiro tesouro
22-23 O olho é a lâmpada do corpo
24 Deus e o Dinheiro
25-34 Abandonar-se à Providência
7 1-5 Não julgar
6 Não profanar as coisas santas
7-11 Eficácia da oração
12 A regra de ouro
13-14 Os dois caminhos
15-20 Os falsos profetas
21-27 Os verdadeiros discípulos
28-29 Espanto da multidão
8 1-4 Cura de um leproso III. A pregação do Reino dos Céus 1. Parte narrativa: dez milagres
5-13 Cura do servo de um centurião
14-15 Cura da sogra de Pedro
16-17 Diversas curas
18-22 Exigências da vocação apostólica
23-27 A tempestade acalmada
28-34 Os endemoninhados gadarenos
9 1-8 Cura de um paralítico
9 Chamado de Mateus
10-13 Refeição com os pecadores
14-17 Discussão sobre o jejum
18-26 Cura de uma hemorroíssa e ressurreição da filha de um chefe
27-31 Cura de dois cegos
32-34 Cura de um endemoninhado mudo
35-38 Miséria da multidão
10 1-16 Missão dos Doze 2. Discurso apostólico
17-25 Os missionários serão perseguidos
26-33 Falar abertamente e sem medo
34-36 Jesus, causa de divisões
37-39 Renunciar a si mesmo para seguir a Jesus
40-42 Conclusão do discurso apostólico
11 1 IV. O mistério do Reino dos Céus 1. Parte narrativa
2-15 Pergunta de João Batista e testemunho que lhe presta Jesus
16-19 Julgamento de Jesus sobre sua geração
20-24 Desgraça para as cidades às margens do lago
25-27 O Evangelho revelado aos simples. O Pai e o Filho
28-30 Jesus é o mestre com fardo leve
12 1-8 As espigas arrancadas
9-14 Cura de um homem com a mão atrofiada
15-21 Jesus é o “Servo de Iahweh”
22-32 Jesus e Beelzebu
33-37 As palavras manifestam o coração
38-42 O sinal de Jonas
43-45 Retorno ofensivo do espírito impuro
46-50 Os verdadeiros parentes de Jesus
13 1-3a Introdução 2. Discurso em parábolas
3b-9 Parábola do semeador
10-17 Por que Jesus fala em parábolas
18-23 Explicação da parábola do semeador
24-30 Parábola do joio
31-32 Parábola do grão de mostarda
33 Parábola do fermento
34-35 As multidões só entendem parábolas
36-43 Explicação da parábola do joio
44-46 Parábolas do tesouro e da pérola
47-50 Parábola da rede
51-52 Conclusão
53-58 Visita a Nazaré V. A Igreja, primícias do Reino dos Céus 1. Parte narrativa
14 1-2 Herodes e Jesus
3-12 Execução de João Batista
13-21 Primeira multiplicação dos pães
22-33 Jesus caminha sobre as águas e Pedro com ele
34-36 Curas na terra de Genesaré
15 1-9 Discussão sobre as tradições dos fariseus
10-20 Ensinamento sobre o puro e o impuro
21-28 Cura da filha de uma mulher cananeia
29-31 Numerosas curas junto ao lago
32-39 Segunda multiplicação dos pães
16 1-4 Pede-se a Jesus um sinal no céu
5-12 O fermento dos fariseus e dos saduceus
13-20 Profissão de fé e primado de Pedro
21-23 Primeiro anúncio da paixão
24-28 Condições para seguir a Jesus
17 1-8 A transfiguração
9-13 Uma pergunta a respeito de Elias
14-21 O endemoninhado epilético
22-23 Segundo anúncio da Paixão
24-27 O tributo para o Templo pago por Jesus e por Pedro
18 1-4 Quem é o maior? 2. Discurso eclesiástico
5-11 O escândalo
12-14 A ovelha desgarrada
15-18 Correção fraterna
19-20 Oração em comum
21-22 Perdão das ofensas
23-35 Parábola do devedor implacável
19 1-9 Perguntas pobre o divórcio VI. O advento próximo do Reino dos Céus 1. Parte narrativa
10-12 A continência voluntária
13-15 Jesus e as crianças
16-22 O moço rico
23-26 O perigo das riquezas
27-30 Recompensa prometida ao desprendimento
20 1-16 Parábola dos trabalhadores enviados à vinha
17-19 Terceiro anúncio da paixão
20-23 Pedido da mãe dos filhos de Zebedeu
24-28 Os chefes devem servir
29-34 Os dois cegos de Jericó
21 1-11 Entrada messiânica em Jerusalém
12-17 Os vendedores expulsos do Templo
18-22 A figueira estéril e seca. Fé e oração
23-27 Pergunta dos judeus sobre a autoridade de Jesus
28-32 Parábola dos dois filhos
33-46 Parábola dos vinhateiros homicidas
22 1-14 Parábola do banquete nupcial
15-22 O tributo a César
23-33 A ressurreição dos mortos
34-40 O maior mandamento
41-46 O Cristo, filho e Senhor de Davi
23 1-12 Hipocrisia e vaidade dos escribas e dos fariseus
13-32 Sete ameaças contra os escribas e os fariseus
33-36 Crimes e castigos iminentes
37-39 Palavra sobre Jerusalém
24 1-3 Introdução 2. Discurso escatológico
4-14 O princípio das dores
15-25 A grande tribulação de Jerusalém
26-28 A vinda do Filho do Homem será manifesta
29-31 A amplitude cósmica desse acontecimento
32-36 Parábola da figueira
37-44 Vigiar para não ser surpreendido
45-51 Parábola do mordomo
25 1-13 Parábola das dez virgens
14-30 Parábola dos talentos
31-46 O último julgamento
26 1-5 Conspiração contra Jesus VII. A paixão e a ressurreição
6-13 A unção em Betânia
14-16 A traição de Judas
17-19 Preparativos para a ceia pascal
20-25 Anúncio da traição de Judas
26-29 Instituição da eucaristia
30-35 A negação de Pedro é predita
36-46 No Getsêmani
47-56 Prisão de Jesus
57-68 Jesus perante o Sinédrio
69-75 Negações de Pedro
27 1-2 Jesus é conduzido à presença de Pilatos
3-10 Morte de Judas
11-26 Jesus diante de Pilatos
27-31 A coroação de espinhos
32-38 A crucifixão
39-44 Jesus na cruz é escarnecido e injuriado
45-56 A morte de Jesus
57-61 O sepultamento
62-66 A guarda do túmulo
28 1-8 O túmulo vazio. A mensagem do Anjo
9-10 A aparição às santas mulheres
11-15 A astúcia dos chefes judaicos
16-20 A aparição de Jesus na Galileia e a missão universal

Fonte: Bíblia de Jerusalém.

“Brechas nos costumes”

Esse texto está no capítulo III do livro “A Igreja dos apóstolos e dos mártires“, o primeiro dos 10 volumes da coleção “História da Igreja“, de Daniel-Rops.

Os grifos são meus, com a intenção de mostrar a semelhança entre a situação que vivemos hoje e a de Roma às vésperas de sua decadência. É óbvio que os motivos são diferentes, mas os sintomas são muito semelhantes.

E a dica de São Jerônimo continua valendo: “São os nossos vícios que tornam os bárbaros tão fortes”. E basta olhar o mundo para ver os “bárbaros”. Se continuarmos nesse passo, eles virão, não tenham dúvida…


temp

Ao verificarmos, porém, que o conflito entre Roma e a Cruz era inevitável, e ao considerarmos o resultado bastante desconcertante que adveio de tal conflito — isto é, o triunfo do cristianismo —, somos levados a perguntar-nos se não haveria já, na própria estrutura da majestosa sociedade imperial, certas brechas que iriam permitir a infiltração da nova doutrina na sua massa, e provocar ou, em todo o caso, apoiar um processo de dissociação.

Essas brechas existiam, com efeito, e apesar de serem pouco visíveis aos olhos da maioria dos contemporâneos, são perfeitamente discerníveis para a história. E evidente que não se tratava de decadência, e seria falsear inteiramente as perspectivas aplicar esse termo à época do Alto Império; mas não há dúvida de que as causas profundas que mais tarde — a partir do século III — hão de arrastar Roma cada vez mais rapidamente para o abismo, se observam desde os tempos da idade de ouro. Até o ano 192, não se pode falar ainda em declínio, mas “a crise já está no homem”.

Esta crise, cujos sintomas se irão perfilando e cujos efeitos irão aumentando até a trágica derrocada do século IV, está ligada às próprias condições em que se ergueu essa obra obra-prima que foi o Império nos seus primeiros tempos. Roma conquistou o mundo; mas o que era Roma? Nos seus começos, um pequeno burgo itálico, o mercado onde se reuniam honestas famílias camponesas, o modesto centro administrativo onde vinham discutir os seus interesses uns homens rudes e simples, presos à rabiça do arado ou ao punho da espada, mas pouco preparados para enfrentar grandes tarefas civilizadoras.

Muito em breve havia de tornar-se enorme a desproporção entre este pequeno núcleo de governantes e a gigantesca massa dos governados, e daí resultou um perigoso desequilíbrio. Um desequilíbrio tanto mais grave quanto, entre os povos vencidos, muitos tinham uma concepção mais rica do mundo e uma civilização mais evoluída do que o dominador. O Oriente exerceu, pois, sobre os romanos uma verdadeira fascinação, e eles se submeteram à sua escola. Tal é o sentido profundo das célebres palavras de Horácio: “A Grécia conquistada conquistou o seu terrível vencedor”. Arte grega, pensamento grego, religiões orientais, costumes da Ásia — é uma torrente ininterrupta que, partindo do Oriente, vem desaguar na Itália, carregando consigo o melhor e o pior.

A conquista arrastou, pois, a sociedade romana para uma espécie de atoleiro espiritual. Aquilo que constitui o fundo de uma civilização, as suas profundas razões de viver, o conceito que ela tem de si mesma, o seu centro nervoso — eis o que Roma encontra cada vez menos nas suas próprias fidelidades. A medida que se refinam e se civilizara, os romanos afastam-se cada vez mais da antiga imagem da sua raça, que consideram grosseira e atrasada. A inteligência vem da Grécia. A bela ideia humanista do universalismo romano é uma herança recebida dos filósofos helênicos e dos geniais desígnios de Alexandre. A língua das pessoas cultas é a de Homero e de Aristóteles. Podemos fazer uma ideia do que era esse atoleiro espiritual se imaginarmos o que seria uma França que adotasse o árabe como língua das elites e definisse o seu papel segundo os preceitos do Corão.

No começo do Império, a vitalidade nacional é ainda suficiente para que qualquer contributo vindo de fora não esterilize as possibilidades latinas e para que, pelo contrário, a planta romana, enxertada no tronco grego, produza frutos maravilhosos. Quanto mais se avança no sentido universalista, porém, quanto mais se intensifica o intercâmbio entre todas as províncias do Império, mais a consciência romana é afogada pelo Oriente. Politicamente, o Império tornar-se-á campo de disputa das dinastias asiáticas, antes de o ser dos bárbaros; espiritualmente, estará pronto para aceitar uma outra concepção do mundo, já que a sua desmoronou.

Este fenômeno fez sentir as suas consequências em todos os planos e particularmente no plano moral. Ao conquistar o mundo, Roma viu que lhe começavam a faltar aquelas forças vivas que lhe tinham permitido a conquista. Mas podia ela ter procedido de outra maneira? não. Eis um exemplo marcante desses insolúveis dilemas em que o destino coloca o homem, sem dúvida para lhe dar a conhecer os seus limites. Para que a consciência latina se conservasse intacta e indomável, teria sido necessário que o romano continuasse a ser aquele homem rude, honesto e fiel que era na origem; mas então teria sido incapaz de governar o seu imenso domínio e, a partir do momento em que quisesse abandonar o plano da força, as suas energias vitais teriam decaído. De século para século, de 100 a.C. a 400 d.C., a sociedade romana dá-nos uma crescente impressão de esgotamento. Os seus costumes ir-se-ão corrompendo, assim como se irão dissolvendo a sua arte e o seu pensamento1. E não é este o único exemplo que a história nos oferece da íntima relação que existe entre o refinamento dos ideais de civilização e a desagregação das virtudes originais. Para que, nesta sociedade, se reconciliassem a força e a moral, o heroico e o humano, era necessário que houvesse uma reviravolta total, precisamente aquela que o Evangelho traria consigo.

Tal é o verdadeiro sentido desta “crise moral” que durante muito tempo esteve na moda pintar com as cores mais negras e que importa caracterizar mais razoavelmente. Não foi no mundo gangrenado do Baixo Império que se semeou a semente evangélica, mas numa sociedade ainda muito firme nas suas bases e que, apesar de fendida num ou noutro lugar, não se sentia abalada. Seria também absurdo julgar os costumes romanos pelas críticas acerbas de Juvenal, de Luciano e de Suetônio, ou pelas descrições de Petrônio ou de Apuleio, como o seria apreciar toda a França do século XX pelas comédias satíricas de Bourdet ou de Pagnol, ou pelos romances mundanos de Marcel Proust. A desmoralização à maneira do Asno de Ouro ou do Satiricon não atinge senão certos elementos das classes ricas, sobretudo nas grandes cidades. Uma casta luxuosa e corrompida pode oferecer modelos pitorescos a escritores talentosos, sem que por isso seja representativa da sua época.

Quando se põem de parte os textos literários em que só se retratam os poderosos, e nos debruçamos sobre documentos mais modestos, tais como epitáfios, graffiti e papiros, a vida privada romana do Alto Império oferece muitos exemplos de virtudes sólidas. O amor conjugal, a ternura para com os desamparados, a piedade filial, a afeição fraterna, são sentimentos que vemos louvar em frases comoventes. “Ela fiou a lá e guardou a casa”. “Foi boa e formosa, bela, piedosa, recatada, sóbria e casta. Foi compassiva para com todos”—. Assim rezam algumas inscrições tumulares redigidas por maridos agradecidos. Dois esposos quiseram dormir o último sono lado a lado, debaixo deste epitáfio comovedor: “Tínhamos um só coração”. Mesmo na alta aristocracia, e até em volta do trono imperial, vêem imagens admiráveis, que continuarão a resplandecer em plena decadência: esposas heroicas e ternas, filhos respeitosos, almas fiéis, para quem os preceitos da moral não são uma palavra vã.

Mas numa sociedade podem muito bem coexistir elementos perfeitamente sãos e fermentos ativos de desagregação: temos diante dos olhos um exemplo desta natureza. Em Roma, nos primeiros séculos, apesar das virtudes praticadas por muitas pessoas sãs, os sintomas denotam a existência de perigos graves que nada poderá evitar, porque resultam dos vícios estruturais do Império, daquilo que o torna rico e poderoso.

As conquistas fizeram afluir a Roma ouro e escravos. Os despojos de guerra recolhidos no Oriente pelos generais alcançam cifras vertiginosas; o saque ordenado por Pompeu teria rendido setecentos e oitenta e seis milhões de sestércios2, e a ele seguiram-se muitos outros, acabando Roma por ficar inundada de ouro. Os tributos arrecadados nas províncias do Oriente atingiam anualmente cerca de trezentos milhões de sestércios. De todo este maná, o povo recebia uma parte mínima, sob a forma de presentes aos soldados e de distribuições feitas à plebe; as classes dirigentes ficavam com a parte do leão. E numa época em que, por falta de grandes indústrias, eram muito reduzidas as oportunidades de investimento, o ouro servia apenas para que a plebe se entregasse à doce vida e para que os ricos o esbanjassem em vivendas, alimentos e prazeres. É assim que o metal amarelo, tão perigoso quando não é fruto do trabalho, irá desagregar a sociedade romana.

No Império Romano, há ainda uma outra fartura que vem juntar as suas desastrosas consequências is do ouro: a dos escravos. Durante os dois últimos séculos da República, as guerras puseram nas mãos dos vencedores centenas de milhares de escravos. Não era raro que uma só campanha militar arrebanhasse cento e cinquenta mil de uma só vez, e assim continuará, enquanto durarem as guerras imperiais. É necessário ainda ter em conta a pirataria, o frutuoso negócio do tráfico humano e a reprodução normal dos escravos já transplantados, para podermos fazer uma ideia da imensidão da massa servil e das incríveis proporções que ela atingia na sociedade. Em Roma, no tempo de Augusto, mais de um terço da população era constituída por escravos, e em Alexandria chegava provavelmente a dois terços. Como a quantidade diminui o preso da mercadoria um escravo corrente valia cerca de cento e cinquenta francos-ouro, e um especializado quinhentos a dois mil —, qualquer pessoa, proprietário, empreiteiro ou artífice que tivesse necessidade de mão-de-obra, preferia lançar mão dos escravos a recorrer a um homem livre. Era mais uma causa de desagregação da sociedade.

Estabelece-se nas grandes cidades, e sobretudo em Roma, uma massa popular mais ou menos ociosa, formada por camponeses desenraizados, trabalhadores autônomos agora privados de trabalho, escravos libertos e estrangeiros cosmopolitas: um terreno excelente para todas as doenças políticas e para todas as forças de desmoralização. O antigo romano, tão sólido no seu trabalho, torna-se o “cliente”, o parasita, a quem a “espórtula” remunera uma fidelidade suspeita. Os imperadores têm de contar com esta plebe lamentável e por isso a rodeiam de atenções. Mas um povo não se habitua à mendicidade e à preguiça sem que a sua alma seja atingida. Em breve a covardia e a crueldade andarão de mãos dadas com o vício, e o vício, como diz a sabedoria popular, é a mãe de todos os males. Já não há quem queira combater nas fronteiras, como não há quem queira trabalhar a terra. E assim aquela imensa multidão, para se distrair, irá procurar nos jogos do circo os prazeres que acabam por degradar a sensibilidade humana.

Mas há algo pior ainda do que esse deslizar da sociedade para a inércia mortal; ou, melhor, há ainda outro fenômeno que anda a par deste, proveniente das mesmas causas e sobretudo do enriquecimento excessivo. A sociedade romana foi atingida na fonte viva que alimenta toda a sociedade: a família está abalada e a natalidade decresce. A mãe dos Gracos tivera doze filhos, mas nos começos do século II serão louvados como uma exceção os pais que tenham três. Evita-se o casamento; porventura a orbitas, o celibato, não traz ao rico todas as vantagens, assegurando-lhe uma fiel clientela de herdeiros expectantes? E de que poderá o celibato privar o homem, se a escravidão lhe proporciona companheiras mais dóceis que as esposas e que se podem renovar à vontade? O aborto e o abandono de crianças assumem proporções espantosas. Uma inscrição do tempo de Trajano dá-nos a conhecer que, de cento e oitenta e um recém-nascidos, cento e setenta e nove são legítimos, e destes, apenas trinta e cinco são meninas, o que prova suficientemente a facilidade com que as pessoas se desembaraçavam das meninas e dos filhos naturais. Quanto ao divórcio, tornou-se tão corrente que já não lhe procuravam sequer qualquer aparência de justificação: bastava o simples desejo de mudança.

Que se poderia opor a estas forças de desagregação? Os Estados têm mostrado sempre incapazes de recolocar a moral nas suas verdadeiras bases, depois de a terem deixado definhar. Os dirigentes romanos não estão inteiramente inconscientes do perigo, mas a sua boa vontade mostra-se irrisória perante o conjunto de circunstâncias que arrastam a sua sociedade para a ruína. O exemplo de Augusto é revelador. Multiplicou as leis de intenção altamente moralizadora com o fim de combater o adultério e o divórcio. Quem as tomou a sério? Nem mesmo os da sua família. Aliás, não tinha sido ele que oficializara a preguiça, fundando a prefeitura da Bolsa Família Anona3, encarregada de alimentar gratuitamente o povo? Periodicamente, veremos os imperadores subsequentes reeditarem essas primeiras medidas, o que prova que foram totalmente ineficazes. Os costumes dissolutos de tantos dos seus senhores, a resignação mais ou menos altaneira com que um Cláudio ou um Marco Aurélio suportam as suas desgraças conjugais, esclarecem a plebe sobre o verdadeiro alcance das medidas legislativas. Nos começos do século III, ao tomar posse do Consulado, Dion Cássio há de encontrar, só em Roma, três mil casos de adultério inscritos no respectivo registro. Pode-se dizer que ainda existe crime, quando ele é universal ou quase universal?

Em todos os tempos e em todos os países, a substituição das tendências naturais do homem pela vontade do Estado é sempre um indício de decadência. Um povo está muito doente quando, para viver honestamente e ter filhos, necessita de prêmios ou de regulamentos. “Chegamos a um ponto — dizia já Tito Lívio — em que já não podemos suportar nem os nossos vícios nem os remédios que os poderiam curar”. Quatro séculos mais tarde, São Jerônimo escreverá: “São os nossos vícios que tornam os bárbaros tão fortes”. Já não estava nas mãos do imperador ou dos seus juristas restituirá sociedade romana as suas sadias raízes. Tornava-se necessária nada menos que uma mudança radical nos próprios fundamentos da moral e nos seus meios de ação sobre a consciência.


(1) A diminuição da força criativa é, com efeito, um sintoma muito marcante da esterilização progressiva da sociedade romana. Nem a arte nem a literatura conseguem manter-se sãs numa civilização cuja saúde está abalada. Desde a época de Augusto, pressente-se o declínio. As obras-primas romanas, nascidas da semeadura grega feita em terreno latino, duram pouco tempo. Segue-se a época das cópias, do crescente academicismo. Grandiosa em muitos casos, mas pouco original, a arte imperial vive no inicio à sombra dos últimos tempos da República, e depois cai no pomposo, no grandiloquente e, em breve, no mau gosto. A literatura mais espalhada no primeiro século não é a de Virgílio ou de Tácito, mas a dos fabricantes de súmulas e de florilégios: um Higino, um Valério Máximo, o Sêneca das Questões naturais ou o Plínio, o Velho, da História Natural. No século II, o sucesso irá para os neo-sofistas, para os gramáticos, para os lexígrafos, para as compilações científicas de Ptolomeu e de Nicômaco, para obras que, em si, estão longe de carecer de mérito, mas a que falta o espírito criador. Também neste domínio será imenso o papel do cristianismo: tanto as artes como as letras serão renovadas pelo Evangelho.

(2) O sestércio foi durante muitos séculos a moeda básica do Império Romano. Equivalia a um quarto de um denário, que por sua vez correspondia à paga diária de um operário não especializado.

(3) O hábito de o Estado distribuir alimentos irá estendendo-se cada vez mais. No século III, para uma população de 1.200.000 pessoas, calcula-se que não haveria menos de 100.000 chefes de família que não se valessem da Anona.

Novamente “o mínimo”

Como alguns amigos já sabem, estou lendo “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” aos poucos. Não porque não tenha tempo, mas para poder refletir sobre cada texto antes de passar para o próximo. Para quem não conhece o livro: trata-se de uma compilação de textos de Olavo de Carvalho, brilhantemente classificados e organizados por assunto por Felipe Moura Brasil.

O texto que li hoje foi “A ilusão corporalista”, originalmente publicado no Jornal do Brasil , 4 de dezembro de 2008. Como o livro é uma compilação, todos os textos estão disponíveis online, e este não é exceção. Ele está aqui.

No livro, o texto foi classificado no tema “Revolução”, subtema “Mentalidade”. Está certo, não discordo disso, pelo contrário: ele parece estar no lugar correto. Só acho que ele também se encaixaria muito bem no tema “Religião”, pelo menos até o penúltimo parágrafo.

É que a origem da óbvia descristianização do mundo está bem descrita no texto:

A partir do momento em que o universo cultural passou a girar em torno da tecnologia e das ciências naturais, com a exclusão concomitante de outras perspectivas possíveis, era inevitável que o imaginário das multidões fosse se limitando, cada vez mais, aos elementos que pudessem ser expressos em termos da ação tecnológica e dos conhecimentos científicos disponíveis. Gradativamente, tudo o que escape desses dois parâmetros vai perdendo força simbolizante e acaba sendo reduzido à condição de “produto cultural” ou “crença”, sem mais nenhum poder de preensão sobre a realidade.

O fato é que esse trecho deixou bem claro para mim o motivo de eu ver tantas pessoas exigindo “provas científicas” da existência de Deus, quando na verdade, nem ao menos percebem que estão clamando por um absurdo. O homem moderno clama por “provas” da existência de Deus, mas nem ao menos consegue descrever um experimento científico que comprovasse ou descartasse a existência de Deus. E não consegue por um motivo óbvio: porque é impossível.

Hoje a ciência é idolatrada por todos, e com muitos méritos, diga-se. Por outro lado, a filosofia parece ser descartada automaticamente, como se fosse algo desconectado da realidade. Nada mais falso. O problema é que não se percebe que o método científico, em si, é apenas um modelo filosófico — muito bem montado — que ajuda imensamente na investigação do mundo natural, ou seja: sem a filosofia, a ciência não é nada!

Agora chego aonde queria: é triste ver pessoas dizendo coisas do tipo “a razão não te leva para Deus, pelo contrário, ela te mostra que não existe Deus algum“. Isso foi postado como comentário aqui nesse blog (e jogado no lixo, pois não tinha relação nenhuma com o texto onde foi colocado). Uma pessoa que diz algo desse naipe demonstra que não conhece nada nem de religião nem de ciência nem de razão. E o pior: ele nem percebe que não sabe!

O cara simplesmente ouviu alguém dizer essa frase, “sentiu” que parecia algo inteligente, não analisou a fundo o que significava, e começou a repetir por aí, como se essa repetição o fizesse sentir mais inteligente, ou seja: provavelmente essa frase não passa de mera auto-ajuda.

Nesse ponto, o “mínimo” é um tesouro. Depois de ler alguns artigos do livro, posso afirmar sem medo de errar: fui idiota em muitos momentos de minha vida, e continuo sendo idiota em vários outros. Se por um lado é doloroso constatar isso, por outro é gratificante ao menos saber que eu estou fazendo papel de idiota em vários momentos da minha vida. Perceber a condição de idiota não é, em si, nenhuma vantagem. Tentar sair dessa condição, sim. Mas esse é um outro passo, muito mais difícil…

Blood Money

Blood Money – Aborto legalizado chega aos cinemas do Brasil

Documentário apresentado por sobrinha de Martin Luther King Jr revela os bastidores da indústria do aborto nos Estados Unidos

Você provavelmente não verá esse filme num comercial de TV. Muito menos num anúncio de jornal. É que ele fala sobre um assunto não muito “politicamente correto” para os dias de hoje. Ele fala sobre o aborto. Blood Money, uma produção norte-americana, dirigida por David Kyle e apresentada pela ativista do movimento de negros dos EUA, Alveda King – sobrinha de Martin Luther King Jr. -, denuncia a máquina de lucros em que se transformou a indústria abortista nos Estados Unidos, desde que a infame lei Roe vs. Wade foi aprovada. O documentário chega às salas de cinema de todo o Brasil no próximo dia 15 de novembro.

Blood Money – Aborto legalizado” é mais uma vitória contra a cultura da morte. O mercado negro do aborto vem perdendo fôlego mundo afora, e agora muito mais, graças ao empenho do movimento pró-vida. Como registrado aqui, os Estados Unidos assistiram, no início deste ano, à maior Marcha pela vida da história daquele país. 650 mil pessoas, na sua maioria jovens, reuniram-se na frente da Corte Suprema americana, a apenas poucos dias da posse de Obama – paladino dos abortistas -, para dizer um rotundo “não” à ideologia do aborto. Na ocasião, o então papa reinante, Bento XVI, expressou seus sentimentos pelo Twitter, dizendo: “Uno-me à distância a todos os que se manifestam pela vida, e rezo para que os políticos protejam ao não-nascido e promovam a cultura da vida”.

E por que perde a causa abortista? Porque mente! A cultura da morte é mentirosa desde o princípio. Mente quando nega ao nascituro o direito inalienável à vida, rebaixando-o ao nível de um sub-humano ou célula cancerígena. Mente quando manipula os números de casos de aborto, criando a impressão de que se trata de um “caso de saúde pública”. E mente quando ensina à mulher que ela será livre mantando seu bebê. É óbvio que uma farsa dessa proporção, mais cedo ou mais tarde, tem de cair. O mote da campanha pró-aborto não é só um atentado contra a vida inocente, é um atentado contra toda a humanidade. Uma sociedade que começa matando seus filhos termina matando a si mesma.

Por mais que se façam malabarismos para distorcer o sentido desta palavra, o fato é que o aborto se trata, sim!, de um assassinato. Isso é inegável. Com efeito, o silêncio da mídia, ou então, a sua propaganda descarada a favor dessa ideologia traduzem claramente a cegueira e a desonestidade que imperam nas redações jornalísticas. Historicamente, as grandes ditaduras do último século contaram com o expresso apoio dos jornais, ora sacralizando seus líderes, ora fechando os olhos para seus crimes. O caso agora em debate, ou seja, o aborto, ajuda a ilustrar que o perigo das ideologias ainda não é um assunto superado.

O povo deve ir aos cinemas. Contra a mentira da indústria abortista, contra o silêncio da mídia, contra o avanço da cultura da morte: fazer de Blood Money um sucesso não é só um dever, é um ato heroico. Sim, pois, num momento em que se instala no ordenamento jurídico brasileiro um vírus de “Cavalo de Tróia” – a lei 12.845, que abre uma verdadeira auto-estrada para o aborto no Brasil -, é tarefa de todos lembrar àquelas pessoas de Brasília que elas não são deuses e que, portanto, estão lá para servir, não para ditar regras contrárias à dignidade do ser humano.

É uma questão de consciência, muito mais que de religião. Assistam a Blood Money!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere | Informações: Deus lo vult e Blog da Vida


Esse texto não é meu; é uma republicação de um artigo do site padrepauloricardo.org.

Esses são os locais de exibição:

O poder da internet

A tradução que eu fiz no último post fez o meu blog “bombar”. Até ontem era um blog desinteressante, despretensioso, feito para mim mesmo, com umas postagens meio soltas, sem organização alguma, e cujo número de acessos em um dia nunca tinha passado de 30. De repente aparecem 4.714 visitantes em um dia, e mais de 20 mil visitantes no outro (até agora). Foi o efeito inesperado de uma ação despretensiosa.

Isso tudo aconteceu porque decidi traduzir um texto que achei interessante. Só isso. Como tenho amigos que não conseguem ler em inglês, e como achei a história muito interessante, resolvi fazê-la acessível a eles. Um texto que era para ser compartilhado apenas com os amigos mais próximos acabou sendo compartilhado com milhares de desconhecidos, do mundo todo (esse texto foi lido em mais de 50 países, de todos os continentes).

E com os acessos vêm os comentários. Alguns elogiando, outros discordando, inclusive uns dos outros, muito engraçado. Imaginem se o assunto fosse polêmico! E como o intuito nunca foi defender uma tese ou algo que o valha, mas apenas compartilhar um texto, decidi aprovar todos os comentários e não me meter nas discussões. Essa polêmica não me interessa.

Mas o que mais me impressionou nisso tudo foi sentir tão de perto o poder da internet. Tá, eu sei que isso é uma realidade, que qualquer “Rei do Camarote” consegue milhões de acessos em poucas horas, que os protagonistas do “Para noooooossa alegria!” acabaram parando na TV, etc., mas uma tradução despretensiosa? Feita por alguém que nem é tradutor, e que, inclusive, teve que corrigir um erro de tradução graças à dica de um amigo (that’s what friends are for, Bruno! Valeu!)? Eu fiquei, e ainda estou impressionado de ver isso acontecendo. Se eu consegui um alcance tão amplo sem ter a menor intenção de fazê-lo, imagine o poder que está nas mãos de quem faz isso propositalmente…

Nessas horas a gente percebe e o motivo de os poderosos estarem tão incomodados com a Internet, a ponto de quererem “regulamentá-la” (controlá-la, na verdade) a todo custo…