“Cura gay”

Ontem a Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM, presidida pelo pastor Marco Feliciano) aprovou o PDC 234/2011, que susta a aplicação de dois trechos da Resolução CFP 001/99, do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que já foi comentado aqui.

Imediatamente, alguns “amigos facebookianos” que sempre defendem a causa gayzista (achando que assim estão defendendo os homossexuais) começaram uma onda de críticas à aprovação do que era chamado de “projeto da cura gay”. O nome, percebe-se, é uma tentativa de utilizar a rotina de “rótulo odioso”, um dos 38 “principais esquemas argumentativos enganosos que os maus filósofos utilizam, com razoável sucesso, para persuadir o público de que 2 + 2 = 5” explicados por Schopenhauer no livro “Como vencer um debate sem precisar ter razão – em 38 estratagemas (Dialética Erística)”. A intenção é clara, e já está no título do livro: vencer um debate sem nem ao menos precisar argumentar, provocando aversão já ao nome do projeto, fazendo com que o público tenha uma ideia errada do seu conteúdo. Não é difícil notar que se trata de uma rotina profundamente desonesta.

Como eu já mostrei anteriormente, a resolução CFP 001/99 restringe o direito dos homossexuais, negando-lhes o direito de procurar um psicólogo para mudar um comportamento indesejado. Portanto, o que o PDC 234/2011 faz é justamente restituir aos homossexuais esse direito que lhes foi subtraído pelo CFP. É, portanto, uma clara vitória dos homossexuais. É uma violência contra eles(as) que foi derrubada pela CDHM.

É nessas horas que parece que o movimento gayzista não está realmente interessado no direito dos homossexuais. Quando o direito foi tirado, em 1999, não se ouviu uma manifestação contrária por parte deles. E ontem, quando o direito foi restituído, o que se viu foi uma lamentação generalizada. Quando uma vitória dos representados significa uma derrota para os representantes, é impossível não desconfiar que exista algo muito mal contado nessa história.

Durante as conversas no Facebook, quando tentei demonstrar que se tratava de um avanço no direito dos homossexuais, foram levantadas algumas objeções:

A homossexualidade não é comportamento adquirido

Essa hipótese já foi bastante estudada, mas nunca provada como verdadeira. É verdade que já há indícios que ela não seja totalmente falsa, pois já foram observados índices maiores de coincidências em pessoas da mesma família. Esse estudo fala em 40%. Outros mostrarão números maiores, outros menores, mas nunca 0% ou 100%. Portanto, declarar a hipótese como sendo uma verdade é um grande salto de fé. Note que não se trata de dizer que “o gene da homossexualidade não existe”. Se trata de provar que “não há homossexualidade que não seja genética”. Inclusive, é um argumento muito fácil de ser derrubado: basta um único exemplo em contrário. O ônus da prova é imenso, e nunca foi apresentado. Impor uma proibição com base em um argumento duvidoso não me parece ser algo muito ético…

Mas para efeitos didáticos, vamos supor que essa hipótese seja verdadeira. Ainda assim persiste a pergunta: por que proibir? Voltando ao exemplo do texto anterior, de roer as unhas: se um dia provarem que esse comportamento é 100% genético devemos impedir que o tratamento seja prestado para quem deseja?

Orientação sexual não é comportamento. Ou você escolheu a sua?

A afirmação está correta, sem dúvida: orientação sexual é uma coisa, comportamento homossexual é outra bem diferente. Afinal, nada impede que alguém mantenha um comportamento homossexual por puro prazer, sem sentir atração sexual pelo parceiro. O problema é que, apesar de estar correta, a afirmação simplesmente não atinge a argumentação, pois o parágrafo único do artigo 3º da resolução CFP 001/99 (um dos trechos sustados pelo PDC 234/2011) não faz essa distinção. Mesmo que a homossexualidade de um determinado indivíduo seja apenas um comportamento, ele será impedido de conseguir tratamento.

E novamente vamos supor que a objeção seja verdadeira, ou seja, que seja impossível existir comportamento homossexual separado de orientação sexual. Ainda assim, não me parece sensato proibir essa reorientação caso isso seja desejado pelo paciente.

Tem muitos gays por aí querendo deixar de ser?

Não sei a resposta, mas no fim das contas ela não importa, pois esse é um ponto totalmente irrelevante. Afinal: se forem muitos? Então esse é um problema grave que deve ser resolvido o quanto antes, e portanto um grande avanço. E se forem poucos? Eles devem perder direitos pelo simples fato de serem uma minoria?

O cerne da questão

Para não permitir devaneios, é bom frisar que o que está em discussão é o seguinte: você gostaria de ter um tratamento que você deseja ser negado pelo CFP ? Ou prefere ter o direito de escolher você mesmo que tratamento você deseja?

Isso levantou outras duas objeções:

Posso pedir tratamento mesmo sem estar doente? Ou para a doença errada?

Bom… Pedir você pode. O que não pode é exigir, e isso não está em questão. Se o médico, com toda sua experiência e conhecimento do assunto, achar melhor negar o tratamento, deve ter a liberdade de negá-lo. Ninguém está dizendo o contrário. Da mesma forma, nenhum psicólogo seria forçado a “tratar” um caso de homossexualidade.

Posso pedir qualquer tratamento, mesmo que seja anti-ético?

Minha opinião é clara: não. Mas, novamente, a objeção não atinge o argumento. Para que atinja, o argumentador terá que explicar por que a mudança de comportamento sexual deve ser considerada uma atitude anti-ética. Até agora não obtive resposta.

Um update para colocar uma outra objeção que vi por aí:

E o caso dos adolescentes homossexuais que são forçados pelos pais a ir ao psicólogo?

Uma outra pessoa citou o filme “Orações para Bobby”, onde um adolescente homossexual é levado ao suicídio por não ser aceitado pela mãe. Ele argumentava que talvez esse seja o fim dos adolescentes homossexuais levados de maneira forçada pelos pais ao psicólogo.

Bom… Aqui temos um argumento que parece sólido, mas que também não resiste a uma análise mais profunda.

Pra começar, uma analogia: o que aconteceria se um determinado pai ou mãe levasse um adolescente heterossexual a um médico pedindo uma cirurgia de mudança de sexo contra sua vontade? Seria uma atitude parecida com a relatada, uma violência digna de levar alguém ao suicídio.

Agora a pergunta: quantos médicos aceitariam uma proposta dessas? Que médico não seria capaz de perceber o prejuízo que estaria causando ao adolescente? Por outro lado: há médicos que aceitariam? Provavelmente, dependendo da grana oferecida. Isso tornaria o ato ético? Obviamente não. Caso a história fosse descoberta, um médico desses deveria ser punido exemplarmente pelo Conselho Federal de Medicina (CFM)? Obviamente sim.

Voltemos agora ao tratamento psicológico, então: o que dizer de um psicólogo que não se importa com o prejuízo que está causando ao adolescente cujos pais pedem um tratamento contra a sua vontade? Ele estaria sendo ético? E o que dizer de um psicólogo incapaz de perceber que seu paciente está sendo levado ao suicídio? Obviamente seria um profissional incompetente. Portanto, percebemos que é esse tipo de profissional que deve ser alvo de perseguição por parte do CFP, e não os homossexuais que buscam o tratamento por vontade própria.

Conclusão

Ainda não encontrei um único motivo para que os que defendem os direitos dos homossexuais acharem essa lei um retrocesso. Pelo contrário: tudo indica que essa foi uma grande vitória dos homossexuais.

Se o movimento gayzista lamenta a aprovação dessa lei, provavelmente é porque não se importa realmente com os direitos dos homossexuais…

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9 comentários sobre ““Cura gay”

  1. Pingback: Como falar com um adepto do movimento LGBT que use os estratagemas de fingir indignação com a “cura gay”… caso você precise | Luciano Ayan
  2. Boa tarde! Achei bastante interessante seu texto, e já havia pego a resolução e a proposta do Feliciano pra ler. Esse ponto do nome é bastante evidente, quiseram destruir estruturalmente a proposta. Mas gostaria de colocar os meus pontos.

    O primeiro é uma dúvida: em que lugar da resolução é impedido para os psicólogos darem “tratamento” a um homossexual que venha pedir? É o paragrafo unico do art 3? O que me deu a entender é que ele só restringia aos psicólogos de fazer uma propaganda do serviço, mas talvez eu tenha mal interpretado.

    O outro pnto que eu gostaria de levantar é sobre o art4 da resolução da CFP que a proposta do Feliciano também veta. Nele, é proibido para os psicólogos fazerem pronunciamentos públicos que reforcem preconceitos com relação aos homossexuais. Ao que me parece, esse é um artigo razoável, já que estaria induzindo homossexuais a se sentirem mal, e vetar esse artigo sim, me soa como um retrocesso.

    Novamente, sou a favor de os homossexuais terem essa possibilidade, mas não teho muita certeza se esse projeto do pastor Feliciano vai de encontro a isso, ou se piora a situação.

    Obrigado.

    • Pois é, Caio…

      O primeiro ponto é um problema recorrente de todo texto jurídico (leis, resoluções, etc.): a interpretação. Você interpretou como sendo uma propaganda do serviço (o que eu já acho absurdo, pois todo profissional tem o direito de fazer propaganda da sua especialização). Outros podem interpretar como proibição. O texto cita “colaboração com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”, e isso pode ser usado de forma ampla para proibir o tratamento.

      O segundo ponto é um problema recorrente da militância radical. Se você acompanha as notícias por aí, sabe que muitas vezes qualquer menção à homossexualidade acaba suscitando acusações de “homofobia”, mesmo que não haja ódio (ou medo, conforme o sufixo da palavra) de homossexuais. Às vezes nem mesmo é necessário citar a homossexualidade, como foi o caso da propaganda da Lupo. Ou seja: vemos que o conceito de homofobia pode ser “esticado” para abranger um sem-número de possibilidades, sendo que muitos deles não demonstram um mínimo de preconceito, como é o caso da propaganda. Dessa forma, a expressão utilizada na resolução “reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais” também pode vir a ser distorcida para abranger um grande número de casos. Se um psicólogo dá uma entrevista sobre o tratamento que oferece a homossexuais, alguém pode achar que ele está “reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais” e tentar cassar seu registro no CFP.

      O fato é que eu apoio totalmente o combate ao preconceito aos homossexuais, mas não podemos permitir abusos nesse campo, de forma a transformá-los em pessoas “incriticáveis” (se é que essa palavra existe). Eu não tenho o direito de não ser criticado, e nem acho que deva ter. Por que dar esse direito a apenas um grupo? Outro caso que é interessante citar é o da psicóloga Marisa Lobo. Aqui tem uma entrevista que ela deu ao Júlio Severo, outro perseguido pela militância gayzista, mas se você procurar por aí vai achar muitos outros textos a respeito.

      Obrigado pelas críticas.

    • Caio,

      Acabo de assistir a um vídeo do próprio Pastor Marco Feliciano sobre o assunto.

      Pelo que ele diz, o foco, além de ser o direito do homossexual, é o direito de expressão do psicólogo. Vale muito a pena assistir.

  3. Uma pergunta curiosa: e quanto aos métodos?
    O debate tá girando mais entre os “métodos” do que em liberdade dos gays. Pelo menos, é o parece. Tem esse psiquiatra aqui: http://vimeo.com/69116888#

    O que deu pra mapear até agora foi que o CFP está supondo que todos os homosec que viraram heterosec (ou reviraram, isso pouco importa) se consultaram com psicólogos que agiram coercivamente. Até agora eu não vi o CFP mostrar os “métodos inválidos pela ciência” pra tal ato. Muito menos mostrar que eles são errôneos, ou na palavra deles: “anti-científico”.

    Depoimentos de pessoas que eram machos e saiu do armário estão aos montes espalhados por ai. E depoimentos de pessoas que eram monas e viraram machos também estão espalhados por ai.

    Ps: desculpe meu pseudônimo. Antes de conhecer o seu Blog eu já o aderia.

    Abçs

    • Acho que você falou tudo: o CFP não cita método nenhum, nem coerção. Se a intenção fosse essa, o texto seria bem diferente.
      Portanto, me parece que para eles nenhum método é aceitável, o que é uma posição claramente anti-científica.

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